Mostrar mensagens com a etiqueta estupidez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta estupidez. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Estupidez


Sim! [estamos a habitar um tempo de memória curta]. E de que maneira! A Europa, os EUA, o Brasil, a Hungria, a Polónia estão a passar por isso. Tenho muita dificuldade em entender o que está a acontecer - a facilidade com que os extremistas têm palco, exercem poder e expressam sentimentos xenófobos, antirracistas e antissemitas com total impunidade. E fazem-no com a mais completa impunidade, perante a nossa indiferença. Pensava que o ser humano aprendia com os erros, que evoluía e se tornava mais sábio, mas é o oposto: estamos a ficar cada vez mais estúpidos. Somos facilmente enganados por um discurso populista, aqui ou ali. Não percebo o mundo em que vivemos. Mesmo os mais educados e esclarecidos, esqueceram-se das dificuldades pelas quais passaram os seus antepassados. Estão acomodados à sua vida confortável, mais egoístas e habituados e ver apenas o seu jardinzinho. De facto, todos vivemos debaixo do mesmo céu, mas eles não se lembram de que aquilo que acontece hoje noutros sítios terá, mais cedo ou mais tarde, repercussões nas nossas vidas. Não há lugar para individualismos e proteccionismos. (...) Estamos a viver uma sociedade profundamente capitalista, consumista, que só se preocupa com o instantâneo. E esquecemos que temos de manter uma certa harmonia. Virarmos as costas uns aos outros, e agirmos cada um por si não é solução. As pessoas não aprenderam nada com as guerras anteriores? (...) Mas tenho sempre esperança de que isto dê uma reviravolta, de que as pessoas tenham consciência (...) Ouço falar muito em lobbies, em grupos de interesses, em fortunas nas mãos de um por cento da população, e eu pensava que isso era rejeitado pela sociedade, mas a verdade é que é tolerado. Se os outros são descartados, não é o enriquecimento material que faz as pessoas melhores. 


Nicholas Oulman, realizador de cinema, autor de Debaixo do Céu, entrevistado por Miguel Carvalho, Visão nº1352, de 31-01 a 06-02-2019, pp.8-10.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Para uma crítica sem concessões - a sociedade hodierna


De onde vem, assim sendo, este rio imparável de estupidez que se manifesta [nomeadamente, nas redes sociais, no mundo noticioso digital] nos que a exercem, nos que a negam e até nos que a analisam? Que condições permitiram a sua instauração? A que fenómenos, ou a que outros tipos de estupidez reage a consciência furiosamente idiota do 4chan [uma imageboard, criada em 2003, com imensa popularidade, em que os participantes são todos anon, uma espécie de aplicação do "véu da ignorância" à esfera digital]?
Acontece que estamos perante uma gradual proletarização do entendimento, que começa a escapar à razão, provocada pela crescente alienação pela técnica (Simondon, Du mode d'existance des objets techniques). Este fenómeno de gramatização produz, segundo Stiegler, uma deformação pragmática da inteligência em astúcia, que revela a regressão da razão até à estupidez. A compreensão está de tal forma gramatizada que as suas funções podem ser delegadas em instrumentos, aparelhos e máquinas que não têm capacidade de idealizar, teorizar ou, enfim, raciocinar. Este fenómeno de proletarização generalizada dinamitou o conhecimento teórico e contribuiu para o estabelecimento de uma estupidez sistémica através da declaração de guerra à razão, em prol do entendimento automatizado. Mas se a produção da teoria é própria a cada época, esta época é marcada por uma tensão entre uma geração precedente e descendente, incapaz de se manter a par da permanente actualização de dispositivos digitais, e uma geração seguinte e ascendente, despojada de reflexão teórica. Este é um tempo definido pela tensão entre várias estupidezes, um curto-circuito de idiotia que gera a impossibilidade de comunicação, a obsolescência final da coerência discursiva e a incapacidade para compreender a complexidade de um mundo estruturado a partir da competição entre verdades banais
A tendência para a gramatização do pensamento revelou-se insuportável desde que o parasita do marketing, no dealbar da sociedade pós-industrial, invadiu o terreno da teorização abstracta e a arrastou para o terreno da simplificação, permitindo a suave assimilação do conhecimento, ao mesmo tempo que o tornava em mais um bem transaccionável. As consequências podem ser vistas em qualquer escola ou universidade: por um lado, a formação de atenção contribuiu apenas para a empregabilidade, adaptando-se ao campo de batalha da flexibilidade laboral; por outro, o ensino assentou os seus pilares no estímulo à esquematização argumentativa como um pitch empresarial, através de apresentações sintéticas (ex: a apologia do PowerPoint ou do Prezi) nas salas de aula ou nas próprias conferências académicas.
Este fenómeno tem consequências decisivas para a própria edição e reflexão intelectual, que já não comportam a possibilidade do próprio género ensaístico, dando lugar à tese, exposição clara e coerente de um argumentário sistemático, ou, nos meios de comunicação, à marketização do jornalismo (ex: clickbait, ou seja, uma amálgama de disparo de informação simplificada, glorificação do sensacionalismo e da espectacularidade e apelo perverso à curiosidade do leitor). 
A escrita passa a ter um propósito instrumental e funcional, contribuindo para a proletarização e destruição da sua função política. Naturalmente, daí advém o problema do aproximar da teoria à sua aplicação à realidade, abandonando-se definitivamente o domínio da abertura de possibilidades. (...)
Isto é, a falência da ideia de conhecimento deveu-se ao fenómeno de gramatização do pensamento, que a degenerou em informação, projectando-a para um espaço temporal relativamente novo, ou que pelo menos o é na forma como se generalizou: o hiperpresente. Esta dimensão temporal implica a gradual falência dos sistemas de retenção de memória, que se confrontam com torrentes de informação que não podem ser reservadas
Mas se tanto a retenção primária (aquela que constitui o tecido temporal de toda a percepção duradoura) como a secundária (conjunto de ideias formadas a partir da imaginação) parecem sucumbir com o declínio do conhecimento e da mediação, do pensamento teórico e da abstracção, os dispositivos de retenção terciária (retenção artificial através de HD, smartphones, repositórios online) tornaram-se hegemónicos e subjugaram o sujeito, que se encontra agora dominado por dispositivos artificiais desprovidos de capacidade de reflexão teórica.

António Baião e António Pedro Marques, Electra, nº2, Junho 2018, pp.74-86.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Banalidade do mal


Nos raros casos em que recusavam as ordens para assassinar judeus, os polícias [alemães, sob o domínio nazi] não eram punidos.

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, Relógio D'água, 2017, p.41

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Viver acima das possibilidades




Ricardo Paes Mamede "rejeita a ideia de que os portugueses viveram acima das possibilidades: 'Há uma tendência para se confundir a situação macroeconómica do país com aquilo que são os comportamentos dos indivíduos. Rejeito em absoluto explicações moralistas para uma crise que tem uma base institucional.', justifica. Para ilustrar a tese, socorre-se da estatística: há 60% das famílias que não têm acesso a crédito. Dos 2/5 que tiveram acesso a crédito foi sobretudo para aquisição de casa própria - e pouquíssimos entraram em incumprimento. 'É possível que as pessoas não vivam acima das possibilidades e o país se encontre numa situação de acumulação de défices externos muito preocupantes' ".

in Sol, 24/07/2015, p.45, em peça da autoria de João Madeira.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Futebol e patriotismo



Títulos improváveis

Scolari nem se atreve a pedir bandeiras nas janelas.

Sol, 30/05/14


Para mim, patriotismo é outra coisa, muito mais simples e que também não exclui, sendo o caso, os jogadores da Selecção: pagar os impostos devidos, votar nas eleições e dar mais ao seu país do que aquilo que se recebe dele.


Miguel Sousa Tavares, A Bola, 03/07/14.