Para o
Paulo. Que mantém a chama sem tergiversar. Como deve ser.
Não
quero a explicação, banal, das vitórias que multiplicam adeptos.
Quero
um cachecol, azul forte, azul clássico, azul familiar, tecido à mão e
inquebrantável nos que o partilhávamos, cachecol não clean, limpinho e cheio de bordados e inscrições artificiais, tão
lindinhos, tão bonitinhos quanto impessoais, quero o cachecol na era pré-marketing, pré-merchandising, e outras palavras tais de que nem fazia ideia,
então, existirem, nem, tão-pouco, afinal, o futebol as conhecia.
Quero
a imensa alegria de uma bandeira comprada no estádio adversário, após uma
vitória arrancada na última fibra de um estofo que permitiu trinta anos de
alegrias. Não, não é uma despedida, é um já aí vamos.
Talvez
aos quatro ou cinco anos, em Chaves, o miúdo insultado pelo cachecol do Porto,
insultado, em simultâneo, com a familiar presença que o também segurava, o
miúdo que presenciava uma hostilidade visceral àquelas cores, o vidro do
autocarro – ainda modesto – da equipa inapelavelmente partido, ano após ano,
naquele local, as redes que separavam a bancada do relvado invadidas de um ódio
inconcebível, as cuspidelas na direcção do banco do Porto, o acinte permanente,
as portas dos camarotes a estourarem a qualquer falta assinalada ao visitante,
enfim, esse miúdo que, contudo, com incontida felicidade (infantil) desfraldava
a bandeira na estrada de regresso a casa, era já o adepto fermentado no caldo
de cultura que o fazia saber ser portista como uma segunda carapaça, epidérmica
ligação, um não sei quê de conexão telúrica aos que vibravam – e vibram – no
mesmo sentido. Uma respiração. Com vitórias – no futebol, nunca um excesso,
nunca um ornamento, nunca supérfluas e sempre essenciais. Mas com mais do que
vitórias.