Perguntam-me se acho que Antero Henrique sai para voltar. A resposta, creio, está hoje no curto mas muito significativo texto que enviou a OJOGO e publicado na última página do periódico: Antero recusa os elogios a vermelho vindos de encomenda. Assume, pois, na hora de saída, não um ruído de rutura, mas uma melodia ortodoxa, ao encontro do que um adepto ou sócio do FCP considera correcto e adequado. É um posicionamento inteligente, não se expõe nem dá o flanco (sobretudo, a nível interno, que será o que mais lhe interessa), e converge, pois, para uma resposta positiva à questão de um seu eventual regresso ao clube.
É interessante, ainda, observar que Antero Henrique se refere a um artigo escrito por Fernando Guerra em ABola, ontem. Corria a época 2011/2012, André Villas-Boas era técnico do FCP, e aí pela quarta jornada, sentindo-se prejudicado por uma arbitragem em Guimarães, e ficando, de imediato, a 9 pontos do Porto, ainda na aurora da prova, o clube da luz incendeia com comunicados, ameaças, reuniões com todos os órgãos do futebol português, manifestações, pedidos para os adeptos não se deslocarem aos estádios das equipas adversárias (com quem o clube da luz disputaria jogos) o futebol português. Soube-se, então, da equipa de conselheiros chamados de urgência à luz, e que tão eloquentes e extraordinárias medidas sugeriram ao grande líder, entre os quais figuras de proa como José Manuel Delgado, Manuel dos Santos, ou Fernando Guerra. Instado a confirmar, ou desmentir, a sua presença em tão ilustre reunião, F.Guerra escreveu, à época, em ABola que "janto com quem quiser"...
Os sátrapas que durante os últimos anos fizeram de virgens ofendidas cada vez que se falou de arbitragem, devem pensar que todos somos desmemoriados, tolinhos e comidos por lorpas. Quando hoje, em OJOGO, Antero Henrique se refere ao "histórico" de Guerra é 'só' disto que estamos a falar. Mas o que não faltou por estes dias foram artigos, ou opiniões nesta linha, as lágrimas de crocodilo, os beijos de Judas dos sítios do costume: os mesmos que falavam em comissionistas, em falhanços completos na política desportiva, no departamento de futebol, em interesses inconfessáveis, e coisas que tais, de repente estavam prontos à hagiografia de Antero. Como, sem problemas, erguerão uma estátua a Pinto da Costa logo que vejam que não representa mais perigo (desportivo) nenhum. Afinal, até negoceiam com António Araújo, de quem disseram tudo.
Aliás, para dizer, numa palavra, o que é o sistema (o verdadeiro) no futebol em Portugal, recupere-se, do Domingo passado, o que escreveu o diretor do jornal OJOGO, José Manuel Ribeiro, num retrato exemplar da nossa imprensa desportiva e toda a ecologia do futebol português:
"A arbitragem de Tiago Martins no Sporting-FCPorto é um bom exemplo de como a guerra na comunicação está a ser decisiva. Os mesmos erros ao contrário teriam, no mínimo, acabado com a época de um árbitro sem sombra de andamento para aquele jogo" (p.16)
Bem podem outros jornalistas, como Manuel Queiroz, escrever que "se há coisa em que a Uefa não transige é com os árbitros que não actuem em lances de óbvia utilização indevida dos cotovelos. Tiago Martins é um árbitro internacional feito à pressa e como se viu no Domingo - e em muitos outros Domingos e quarta-feiras - cheio de problemas. Se é com estes que a Federação quer fazer uma outra arbitragem podemos esperar sentados. É difícil arbitrar jogos destes? É! Devem ser escolhidos os que dão provas, não os que sistematicamente mostram que não têm dimensão" (p.16)
ou adeptos do FCP irromperem da sua tribuna para protestar, como fez Paulo Baldaia:
"Como vivo em Lisboa, passeia a semana a simular cumprimentos com amigos sportinguistas na base das cotoveladas e pé em riste. Apliquei a noção de fair-play (jogo justo) que estava na cabeça do aldrabão do árbitro Tiago Martins (...) O Martins aplicou a lei do unfair-play (jogo injusto). O jogo em que é permitido que uma equipa faça o que quiser e a outra aguente a pancada (...) Com uma arbitragem média, o Sporting tinha acabado com nove e com uma arbitragem exemplar nem oito chegavam ao fim (...) [Tiago Martins] podia, por exemplo, ter aprendido que as regras do futebol não têm nada a ver com as regras do andebol e do kick boxing. Chateia, chateia mesmo, que não queiram conversar sobre o que aconteceu em Alvalade. É desonestidade intelectual querer considerar que é secundário e não teve interferência direta no resultado" (p.4)
ou Carlos Tê:
"O Sporting leu o jogo, tomou o pulso ao árbitro, exerceu sobre ele bullying eficaz (jamais Herrera seria capaz de pressionar o árbitro como Adrien) e ganhou. Jesus sabe que não pode jogar assim na Liga dos Campeões. Mas pôde contra o Porto, naquele contexto, com aquele árbitro. Noutros tempos, o Porto teria reagido em conformidade à intimidação física do Sporting" (p.56)
ou ex-jogadores do clube, hoje treinadores, como Jorge Costa:
"...a maior das surpresas, o árbitro (...) [Tiago Martins] não foi pelo menos imune a uma pressão que é vista como normal por parte de quem joga em casa. Aí, o FCPorto perdeu claramente para o Sporting, porque foi prejudicado até dizer chega. As imagens não deixam dúvidas - houve erros, particularmente no campo disciplinar, todos a caírem em cima da mesma equipa e a retirarem-lhe serenidade, bem aproveitada pelos leões, que não tem culpa da passividade de um árbitro, que, ao não punir correctamente os infractores, roubou a tranquilidade a quem estava a ser prejudicado. O que podia ter sido um grande espectáculo de futebol acabou por ser prejudicado pelo mau trabalho de um árbitro (...) houve desigualdade de critérios tal..." (p.14)
Nas televisões, Duarte Gomes, um ex-árbitro habilidoso, inaugurou a categoria de comentadores de arbitragem habilidosos: não houve mão voluntária em nenhum dos golos sportinguistas, houve falta sobre Danilo no livre que dá o golo do FCP, logo não há aqui erros (com influência no resultado). O mesmo indivíduo que uma semana antes interrompeu um telejornal da sic para descortinar um fora de jogo no golo do Setúbal na luz (que nenhum responsável encarnado havia detectado). Note-se: a arbitragem do jogo da Luz, envolvendo o Setúbal, deve ter sido tão escandalosa que justificou que o telejornal tivesse um "especialista" em estúdio para a analisar; por outro lado, enquanto a arbitragem na Luz tinha sido má e com influência no resultado, uma semana depois a de Alvalade teve os 3 lances referidos como principais e todos bem decididos! É esta a "verdade" que querem impôr, mas qualquer aproximação desta à realidade é pura coincidência.
Melhor, num programa da TVI24 dedicado, em exclusivo, a transferências de jogadores, o sr. Rui Brás decidiu começar o programa por analisar a dita arbitragem da Luz. Dado o ineditismo do sucedido em tal programa, a arbitragem foi, seguramente, uma calamidade. Ou então foi a enésima sessão de propaganda, do enésimo comissário, que dos programas da Champions, na RTP, ao encher chouriços da TVI24 enxameiam tudo até à náusea. Dizia um ex-pivot de Os donos da Bola, ainda no activo na sic, um dia destes, que os árbitros que assumem uma cor clubista publicamente tendem a prejudicar esse clube. Disse isto sem se rir. Na época 2011/2012, o FCP sagrar-se-ia campeão na Luz, sem holofotes, mas com rega. O árbitro do jogo foi Duarte Gomes, que fez de tudo para evitar que o campeonato ali ficasse selado. Mesmo tendo ganho, no dia seguinte, o FCP apresentou um vídeo com 16 lances desse jogo em que o Porto havia sido prejudicado. Tiago Martins, com 12 falhanços contra o Porto, só em Alvalade, segundo as redes sociais dos dragões, é um menino.