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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Do conhecimento de Portugal


Portugal conhece-se mal hoje?

Conhecia-se melhor talvez há 50, 60 anos, nos tempos obscuros do fascismo, da ditadura, em que havia um conjunto de atravessamentos do país por muitos intelectuais, não apenas das ciências sociais, como do teatro, do cinema e de outras linguagens. E que o interrogaram de uma forma mais densa do que hoje o conhecemos. Sabemos apenas de uma forma esquemática da existência desse desequilíbrio, porque o Instituto Nacional de Estatística nos dá esses dados concelho a concelho. Mas falta um conhecimento mais íntimo e que não são as questões de reconhecimento como património imaterial que resolvem. Essas são apenas um pequeno manto diáfano de fantasia sobre a nudez que lá vai...

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor NunesJL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

domingo, 14 de maio de 2017

A escola em mudanças


Em existindo vaga, no Ensino Secundário, e se o um aluno tiver disponibilidade no horário, vai (este) poder frequentar disciplinas de opção de outros cursos. Isto permite, por exemplo, aos alunos de Línguas e Humanidades, frequentar Química ou Biologia, e, aos de Ciência e Tecnologia, fazer Geografia ou História. Já tínhamos cursos no ensino superior em Universidades emergentes e já prestigiadas, neste país, a promover (até a obrigatoriedade) alguma desta troca em favor de homens (mais) livres; agora, e muito bem, essa perspectiva é dada aos alunos adolescentes.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Da cidade contemporânea e seus desafios



Interessante a conferência e os desafios lançados pelo prof. João Serrão acerca da cidade contemporânea e da convivência da pluralidade no seu seio

O que é que significa estar próximo, ser próximo e quem são os próximos? A resposta a estas questões tem variado ao longo dos tempos. Associamos proximidade a geografia. Mas estou próximo das pessoas que gosto e que têm gostos semelhantes. Com as TIC a proximidade muda. Há proximidades que podemos construir. O excesso de proximidade pode afastar e o afastamento pode aproximar.

Os centros da cidade perderam muita população e as periferias cresceram. Temos cidades Donut. Os centros de Lisboa e Porto, nas últimas 4 décadas, perderam mais gente do que o InteriorSuburbanização das famílias é mais rápida que a suburbanização dos empregos. O centro não está vazio, mas tem características muito diferentes. 1 em cada 5 residentes em Lisboa é imigrante, de acordo com os Censos de 2011. Se pensarmos que há imigrantes ilegais, a percentagem até é maior que a proporção indicada. O centro não está vazio, mas tem muitos invisíveis.

Isto choca com o modo como a Igreja se organizou territorialmente (tal como a organização administrativa das freguesias, p.ex.). Há um grande desfasamento face à realidade sócio-demográfica.
Mobilidade: um agregado familiar típico da grande Lisboa. Pai, mãe, filhos. Pai e mãe trabalham no sítio extremo da cidade. Os avós vão buscar as crianças à escola. Vivência da multipresença. Padrão em que as pessoas andavam por 1 km ou 2, de modo sistemático, no dia a dia, está completamente alterado. Cidade multipolar. E multipresença: pertenço ao bairro onde vivi a minha juventude, ao lugar onde trabalho, ao lugar de lazer, em casa…? Eu não posso deduzir com que espaço, território, comunidade com que me identifico mais. Posso escolher que hospital quero, que Igreja pretendo frequentar, escola favorita…A lógica da proximidade está mais enfraquecida, ainda que co-exista com a lógica anterior de pertença. Saltitar de um lado para o
outro, sem ganhar raízes em nenhum dos lados
.

Segregação: na Idade Média, as casas dos ricos e as dos pobres conviviam lado a lado. Com a lógica do zonamento, as indústrias aqui, os ricos ali, os pobres além, no advento da modernidade, isto alterou-se profundamente. Em vez do conceito de mistura, passou a existir separação e, daqui, passou-se para a lógica de segregação.

Neste contexto, o que significa estar e ser próximo? Não entro em condomínios fechados, a não ser que tenha lá já conhecidos. As pessoas que vêm para as nossas cidades, por outro lado, têm referentes, religiões, culturas diferentes das nossas e a a convivência não é fácil. Quando estava calor, Cabo-verdianos andavam de tronco nu, o que era absolutamente inaceitável para a comunidade cigana, considerando tal comportamento ofensivo das mulheresComunidades com códigos diferentes: sem mediação, podem viver no mesmo bairro, mas não são próximos.

Cidades cheias de buracos (como um queijo…não partilhado, e percepcionado de modo muito
diverso)
. Não há soluções miraculosas, havendo casos de sucesso e insucesso nos diferentes modelos: interculturalidade, multiculturalidade, etc.

O custo da inacção é enorme, mesmo que a inacção motivada por não sabermos o que fazer. Cada cidadão pretenderá, em suma, ser informado, poder participar, poder falar, poder influenciar.

domingo, 16 de novembro de 2014

Guardas a dor no cofre/no olhar o gelo quente



A banda sonora do fim de semana. Gostei mais do que esperava do concerto, comentei, no fim. Escolhi esta canção, que na sexta passou pelo Grande Auditório, do Teatro vilarealense, escrita pelo Carlos Tê e interpretada pela genuinidade, alma imensa, garra, autenticidade, fibra, verdade de Manuela Azevedo. Provavelmente, não por acaso fez lembrar-me, descobri-lhe analogias com "nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento", do Porto sentido, do Rui Veloso ou ainda "ai de quem nunca guardou/um pouco da sua alma/no fundo de uma gaveta" - que poderia, assim, ser o cofre onde a dor se guarda - do repertório do mesmo autor. Bom público tiveram os Clã, e disse-lhes que sim, mas que esperava casa totalmente cheia e que me lembrava ainda da loucura com Abrunhosa no Calvário, quando todos os temas sabidos de cor e cantados a plenos pulmões por 6 mil almas, davam lugar a verdadeiro êxtase que, de resto, o espírito deste tempo nem consente.

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre


Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente


Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação


Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio 

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Carlos Tê, cantado por Manuela Azevedo