Há um desfasamento muito grande entre as enormes expectativas do cidadão sobre a política e aquilo que ela pode (fazer, dar). E esta é um fonte de grande decepção. Para criticar a política, ou os políticos, importa, por isso, circunscrever aquilo a que esta se pode ater. E, paradoxalmente, à medida que ela pode menos, à medida que os Estados estão mais expostos e a soberania sofreu grandes transformações, mais se pede à política. Ela não pode garantir a felicidade. E o regime democrático, por sua natureza, gera desilusão, na medida em que tem em si inscrito o inacabado, o inacabável, é um caminho aberto, por concretizar. Para Daniel Innerarity, em A política em tempos de indignação, a dicotomia tecnocracia vs populismo será um melhor descritor ideológico, hoje, do que o direita vs esquerda. Para os tecnocratas, as limitações, o nada a fazer, o "realismo cínico", os constrangimentos apenas, sem estados de alma, nem necessidade de legitimação das decisões; aos populistas, a ausência de limites, a possibilidade de tudo, o irrefreável, a venda de ilusões como se obstáculos não existissem. Como, no mesmo texto, Innerarity associa a direita a um pragmatismo que mede tudo pela lógica do custo-benefício, sem se importar com grandes expectativas ou transformação da realidade (e, logo, menos propensa a grandes desilusões com o balanço que faz), e a esquerda a viver com dificuldades os entraves que hoje se colocam ao agir dos governos nesta era, tecnocracia e populismo não serão, afinal e radicalmente, dois pseudónimos para o par mais perene, em termos ideológicos, desde 1789? Ganhar-se-à, assim muito, em termos de descrição da realidade (política), em substituir os pólos de dicotomia em questão? Claro, dir-se-à, há populismos de direita, mas o articulado do filósofo político, não vai muito por aí. Por outro lado, entender, como o autor faz, que um dos (três) possíveis pomos de (hipotética) repolitização da sociedade pode passar pela discussão das características pessoais dos candidatos, se perspectivado como um desejo (se, aqui, "pode" significar "deve"), não tem, a meu ver, ganhos claros para o debate político, para uma sociedade com uma discussão (deliberação) qualitativamente mais densa. As ideologias, os grandes nomes, geraram, com efeito, justa desconfiança; a política é feita por pessoas, não só de ideias, e seria errado desprezar a dimensão pessoal; o escrutínio dos curricula, das posições de cada aspirante a representante é necessário, mas retomar um maior interesse (societário) pela política, assente, em um dos (três) pilares, por aqui, não me parece que vá produzir os melhores resultados (porque a captura do acessório, do voyeurismo, da pequena intriga teriam pasto de sobeja, em esse contexto).