Em Agosto, escrevi aqui que um um dos receios que levava na visita a Auschwitz era o eventual modo menos respeitoso com que alguém ali estivesse - e, na mesma medida, dei conta da satisfação pelo forma respeitosa como tudo decorrera. Meses depois, em Março, o Museu de Auschwitz explicava por que tais receios nada tinham, infelizmente, de infundados.
No livro de Mário Rui de Oliveira, O Livro da Consolação (Assírio & Alvim, 2019, p.46), há um poema, tendo como motivo o campo de concentração de Mauthausen em que se denuncia tal realidade.
SOBRE AS COLINAS VERDES DE MAUTHAUSEN
chegaram ruidosos alegres descendo do autocarro
sucedeu uma manhã de inverno nevava
sobre as colinas verdes de Mauthausen
junto ao rio Danúbio e os adolescentes
riam fortes entrando no campo aos empurrões
no muro exterior um aviso «No camping» corriam
sobre as muralhas indiferentes ao horror
ao arame farpado às lápides
- o tédio dos miúdos sacrílegos
contando anedotas alheios a tudo sem perdão
mas eles ignoram (ainda) que neste mundo
também eles são sobreviventes
P.S.: por cá, entre os espectáculos pornográficos das Queimas, pretender chamar a um carro de desfile "Alcoholocausto", para mais em finalistas do curso de História, é mesmo levar a falta de empatia e do mínimo respeito pela memória e pelos outros a níveis impensáveis. Ultrajante.

