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segunda-feira, 13 de maio de 2019

SEM PERDÃO


Em Agosto, escrevi aqui que um um dos receios que levava na visita a Auschwitz era o eventual modo menos respeitoso com que alguém ali estivesse - e, na mesma medida, dei conta da satisfação pelo forma respeitosa como tudo decorrera. Meses depois, em Março, o Museu de Auschwitz explicava por que tais receios nada tinham, infelizmente, de infundados. 
No livro de Mário Rui de Oliveira, O Livro da Consolação (Assírio & Alvim, 2019, p.46), há um poema, tendo como motivo o campo de concentração de Mauthausen em que se denuncia tal realidade.


SOBRE AS COLINAS VERDES DE MAUTHAUSEN

chegaram ruidosos alegres descendo do autocarro
sucedeu uma manhã de inverno nevava
sobre as colinas verdes de Mauthausen
junto ao rio Danúbio e os adolescentes
riam fortes entrando no campo aos empurrões
no muro exterior um aviso «No camping» corriam
sobre as muralhas indiferentes ao horror
ao arame farpado às lápides
- o tédio dos miúdos sacrílegos
contando anedotas alheios a tudo sem perdão

mas eles ignoram (ainda) que neste mundo
também eles são sobreviventes




P.S.: por cá, entre os espectáculos pornográficos das Queimas, pretender chamar a um carro de desfile "Alcoholocausto", para mais em finalistas do curso de História, é mesmo levar a falta de empatia e do mínimo respeito pela memória e pelos outros a níveis impensáveis. Ultrajante. 

domingo, 26 de novembro de 2017

Cegueira e cupidez

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A 20 de Março de 2003 começavam os ataques da ofensiva americana a Bagdade ou Operação de Libertação do Iraque. O nome depende da zona do globo onde se vive. Para Luís Barreiros, então embaixador em Bagdade, a guerra libertou os iraquianos de um ditador mas deixou-os num vazio de poder. "Depois da guerra, Bush disse que o mundo estava mais seguro. Não sei de que mundo está a falar", diz, recordando que o Daesh cresceu a seguir ao conflito
Seis dias antes, Portugal tentava ficar na fotografia do lançamento da ofensiva militar. A cimeira dos Açores, organizada por Durão Barroso, juntou José Maria Aznar, Tony Blair, George W.Bush para fazerem a declaração de guerra. Na capital iraquiana, o embaixador era apanhado de surpresa: "Fiquei preocupado porque tive dificuldade em perceber o que Portugal tinha que ver com aquela guerra". Pedi orientações a Lisboa que "não respondeu nada de especial".
Do outro lado do mundo, Pedro Catarino, embaixador em Washington, foi avisado pelo primeiro-ministro. "Durão Barroso não teria sido presidente da Comissão Europeia se não tivesse o relacionamento que tinha com Bush. Era um bom relacionamento. A relação entre a UE e os EUA é fundamental e convinha aos líderes europeus terem um presidente com um bom relacionamento com o Presidente americano".
O pós-guerra provocou um assalto dos empresários à reconstrução. Itália e Espanha foram dos países mais ávidos na corrida, mas vários empresários nacionais também tentaram a sua sorte. "Houve um gabinete em Bagdade criado pelo ministro Martins da Cruz para isso. Na primeira visita foram 10, mas não sei se os negócios se concretizaram", revela Luís Barreiros. O mais conhecido dos investidores era a Sonae Sierra que tentava fazer negócios através de um centro de distribuição que tinha na Síria. 

Carolina Reis, Os nossos olhos pelo mundo, Revista do Expresso, p.40. Expresso nº2352, 25-11-2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Verdades inconvenientes

Resultado de imagem para grotesco

Entre a roupa doada para Pedrógão Grande, informa a Sábado, estão coisas como máscaras do Homem Aranha, do Zorro, vários fatos de carnaval, uma caixa de lengerie sexy, camisas de dormir em cetim, baby-dolls em rendas, com cuecas a condizer. Saiote de noiva. Vestidos de noite compridos, com lantejoulas e brilhantes, e sapatos de salto agulha. Roupa interior em segunda mão, suja e rota. Calcula-se que 10% do material enviado seja isto. Não, não é só o "bom povo", enganado por espertos, quando participa em campanhas solidárias e vê desvios pelo alheio; é, também, uma parte do "bom povo" que utiliza tais campanhas para se desfazer do lixo, desprezar o próximo, e mostrar a sua cara mais grotesca.

domingo, 14 de junho de 2015

Uma pena




Há tempos, Herman José, em entrevista a Vítor Gonçalves, referiu-se ao prazer que tem sentido com o regresso à estrada, retomando as suas performances em palco. Pareceu-me que, na sequência do que dissera anteriormente no mesmo diálogo, a saber, o tempo que houvera para preparar Herman Enciclopédia e que lhe permitira chegar aos tão brilhantes resultados que conhecemos, queria tomar para si a medida necessária, de molde a ter um espectáculo que os media de hoje já não acolhem. Tomei, pois, como autêntica a expressão e fui ver. Assisti, com pena e desilusão, durante uns trinta minutos, não aguentei mais confesso, a um homem que foi genial, é inteligente e culto transformar-se num enunciador de graçolas do mais básico e rasteiro, sempre com os mesmos temas a apelar ao grotesco, e a personagens da cultura mediática com que qualquer iniciado de stand up comedy poderia entreter-se. Herman sabe que não é um Fernando Rocha. É pena que leia o público português, o mercado, como lhe pedindo isso, apenas isso, e não se sinta o homem irreverente que vá à luta para o contrariar, vencendo - com o humor genial capaz de a todos agregar; o mais difícil e que chegou a conseguir na sua extraordinária carreira. Por muitos saltos que tenha dado, por muito prazer que diga sentir, o Herman que vi foi um homem de braços caídos.