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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Memória (II)


Prosseguindo com Fascismo. Um alerta, de Madeleine Albright:

A guerra civil espanhola durou quatro anos e matou mais de meio milhão de pessoas. Do lado dos republicanos, apareceram voluntários de 54 países diferentes - mas as questiúnculas e divisões no meio esquerdista foram um grande problema para um putativo sucesso inalcançado. Também foi solicitado apoio a Estaline. Do lado franquista, o apoio de forças nazis e fascistas italianos. Os combates não foram menos do que selvagens. Sobre Barcelona, incluindo bairros residenciais, edifícios públicos, 1300 mortos de uma assentada. Sobre Guernica,  onde se deu um o célebre bombardeamento alemão, culpabilizando-se ainda as vítimas. Os republicanos, por sua vez, não deixaram de fazer cerca de 10 mil vítimas entre  bispos, padres, freiras, monges - sendo que a hierarquia católica esteve, sobretudo, ao lado de Franco, ainda que alguns padres fossem contrários e hostis ao poder nacionalista. As forças republicanas renderam-se em 1939 - mas Franco, depois, não aceitou ir para a guerra com Hitler e Mussolini, apesar das pressões e da presença em pessoa do Fuhrer (colocando, nomeadamente, exigências tidas como incomportáveis, como ficar com Marrocos, no que desagradaria ao regime de Vichy que, a concretizar-se, deixaria de ser colaboracionista, segundo os cálculos germânicos).

Hitler teve, à semelhança do caso italiano com Mussolini, os seus rufiões e (no caso) camisas castanhas. Intimidou, espancou e matou com as SA de Rohm. Essenciais para a subida ao poder, mas perigosas para lidar com o establishment. Quando Rohm sugere as SA no lugar do Exército, não só lhe é negada a pretensão, como, daí a nada, está a ser capturado pela Gestapo e morto (por ordem do ex-amigo; daquele que ajudou a fazer ascender ao poder).
Hitler, que conhecia bem as ruas, usou a linguagem e os conteúdos que sabia interessarem à plateia, e que não passavam por argumentos abstractos. Palavras fortes, incendiárias, capazes de captar, a um tempo, a ira e o ódio, e de os gerar. Capaz de dar uma fé que os seguidores não seriam capazes de estruturar, mas da qual careciam. Hitler chega ao poder, tal como Mussolini, não porque tenha ganho uma eleição, mas também não à margem da Constituição. Depois, sim, imediatamente abolirá partidos políticos, acabará com sindicatos, colocará nazis fiéis em todas as estruturas políticas, desde logo municipais. Mentirá sem pejo, e beneficiará da complacência dos que o subestimaram. Juntamente com Mussolini, nele estará presente o ressentimento para com uma sociedade que o não reconheceu, mais o seu génio, durante anos. Será declaradamente bárbaro, imoral, sem qualquer piedade. Anti-comunista bem antes de o partido chegar ao poder, ainda que o vermelho da bandeira nazi aludisse a uma preocupação social (cujo nome terá o termo "socialista" pelo meio e diz representar os "trabalhadores"), acabará com o 1º de Maio, tornando-o feriado pago e a 2 de Maio, ocupando as instalações dos sindicatos em todo o país.

sábado, 16 de julho de 2016

Orwell


Publiquei a crónica seguinte no jornal Lamego Hoje, a 24/05/2007


Orwell e a guerra civil espanhola      

Acaba de merecer honras de reedição, em Portugal, uma das obras maiores de George Orwell, Homenagem à Catalunha, num momento em que no país vizinho a memória histórica do período – a guerra civil espanhola – ali retratado parece mais viva e disputada do que nunca. Boa altura, pois, para revisitar “a mentira organizada e científica, alicerçada na calúnia política” (Júlio Henriques) denunciada pelo escritor britânico (de nome próprio Eric Blair, como se sabe). Mas também oportunidade excelente para (re)descobrir ensaios seus menos célebres e/ou conhecidos compilados sob o título Recordando a guerra civil espanhola (edição da Antígona). É por esta última obra que reúne, nomeadamente, vários artigos em jornais britânicos, na década de 30, que ficaremos hoje.
Antes do olhar sobre a narrativa orwelliana, os factos: rebentando o levantamento militar fascista no Verão de 1936, Orwell parte 5 meses depois para a Catalunha. Alista-se no POUM – Partit Obrer de Unificació Marxista – organização comunista dissidente, anti-estalinista, conseguindo aceder até àquela região por recomendação do ILP – o partido trabalhista independente (britânico; no entanto, nunca nele se chegará a filiar). Integra, então, uma milícia na qual se destacará, na frente de combate de Aragão. Aí, onde descortinará uma clara diferença entre esta e um exército: os soldados mantém para com o inimigo uma atitude política o que não acontece num exército (pág.86). Uma milícia na qual a falta de disciplina e organização é, para si, soldado britânico outrora na Birmânia, gritante.
A parte inicial desta obra é uma reflexão sobre a guerra, qualquer guerra, mais até do que sobre a guerra civil espanhola. Algo registado, desde logo, na afirmação de um “horror essencial” indissociável da vida militar e independente da natureza da guerra (pag.15).  A memória dos terríveis cheiros de origem humana são demasiado presentes (pag.14). Mas fica também o lamento pelo esquecimento do homem, na primazia dada á grande narrativa política (ainda que aqui nos possa surgir como algo contraditório face ao que se afirmou sobre a milícia): “As pessoas esquecem que os soldados junto á frente de combate, seja onde for, se encontram geralmente demasiado famintos, ou assustados, ou cheios de frio, ou, sobretudo, cansados de mais para se preocuparem com a origem política da guerra” (pág.15). O tom profundamente realista perpassa densamente a reflexão de abertura, vista, igualmente, sem favor, como libelo contra fanatismos facciosos: “Não é pelo facto de um exército ser “vermelho”, para uns, ou “branco” para outros, que as leis da natureza ficam suspensas. Um piolho é sempre um piolho e uma bomba é sempre uma bomba, mesmo quando a causa que nos leva a combater possa ser justa”. Contra isto, nada vale. Nem mesmo uma imprensa engajada e aggiornamentada politicamente. É dos manuais: a primeira baixa da guerra é, normalmente, a verdade. Mas na guerra civil espanhola foi, no relato de Orwell, a própria ideia de possibilidade de verdade que perigou: “sei que se tornou moda dizer que a maior parte da História registada é mentira. Estou pronto a acreditar que a História, na sua maior parte, se apresenta inexacta e tendenciosa, mas aquilo que é peculiar ao nosso tempo é o abandono da ideia de que a História poderia ser escrita com verdade” (pág.29). Não serão os actuais debates inflamados, em Espanha, sobre este entorno histórico, a confirmação dos receios de Orwell?
A perspectiva humanista de Orwell na descrição das trincheiras, oferece-nos uma revelação do outro como (um entre) nós. Arrastando-se pelo chão com vista a abater um inimigo, o soldado Eric Blair decide contrariar a disposição inicial: vê “um soldado levando porventura uma mensagem a um oficial, saltou da trincheira (...) ia meio vestido, segurando as calças com ambas as mãos enquanto corria”. Ora, “tinha-me arrastado até ali para disparar contra “fascistas”, e um homem a segurar as calças não era um “fascista”, era visivelmente um meu semelhante, não sentindo por isso coragem de disparar contra ele” (pag.22).
Onde Orwell mostra o seu substracto ideológico é na explicação para a guerra, esta como as outras: um prolongamento ou uma faceta da luta de classes, onde há sempre classes interessadas em manter o poder e privilégios em luta contra os que as pretendem desapossar. George Orwell relata o apoio de alemães e italianos às forças fascistas, indigna-se pela falta de contra resposta, atacando a apatia inglesa: “Em Inglaterra subestimamos o perigo deste género de coisas, porque as nossas tradições e a nossa antiga estabilidade nos foram inculcando a crença sentimental de que tudo acaba bem (...) O pacifismo baseia-se nesta crença. Se não nos opusermos ao mal, duma maneira ou doutra ele há-de acabar por se auto-destruir. Mas porque razão deveria isso acontecer? Onde vemos nós essa autodestruição? Haverá algum exemplo de um moderno Estado industrializado ruindo sem ser conquistado do exterior por uma força militar?” (pag.31).  
Pergunta retórica que subentende uma advertência que não deixa de permanecer actual: “Tornámo-nos civilizados demais para compreender o que é óbvio. Porque a verdade é muito simples. Para sobrevivermos, temos amiúde de lutar, e para lutarmos temos de nos manchar pessoalmente. A guerra é um mal, sendo ás vezes o mal menor. Quem com ferros mata, com ferros morre, e quem não os empunha perece de doenças duvidosas” (pag.18).
Mancha humana, ossos do ofício. De ser gente. Algo de que a guerra não deixará de ser apenas uma metáfora. A mais impressiva das metáforas, mas uma metáfora.