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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (III)


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Crónicas semanais na universidadefm:

Tempos de pessimismo

A modernidade criou promessas (como se não houvesse constrangimentos à sua efectivação) de emancipação (individual, mas também colectiva) que não conseguiu concretizar. A civilização democrata e liberal, de indivíduos (emergentes, supostamente) cultos e endinheirados não teve a eficácia almejada. Em muitas sociedades, a combinação de uma apertadíssima competição, a rápida obsolescência dos indivíduos (ou, pelo menos, das capacidades destes) e o seu consequente carácter supérfluo (quando não ao encontro do que a sociedade comercial dos seus dias reclama), a ansiedade do status (e de poder) por concretizar (despida esta, ainda para mais, das amarras, ou, paradoxalmente também, do conforto de sistemas de castas, fossem estas propriamente ditas/formalizadas, fossem materialmente presentes nas sociedades), o aumento da riqueza mas a sua repartição excessivamente desigual; a perda das filiações (instituições que ancoravam a pessoa) e do sentido de pertença; as ambições, esperanças, expectativas, a ideia de progresso - tudo por cumprir e a desmoronar-se (passando-se para a ideia de retrocesso dos níveis de vida, muito presente nos nossos dias); a globalização e seus perdedores; as religiões ou a família, a comunidade depreciadas/menosprezadas fizeram com que estes abalos sísmicos de um mundo plano na vivência do espaço-tempo encontrasse um protagonismo desmedido para o ressentimento que, em se tendo sentido no Ocidente logo no pós-Revolução Industrial, gerando um conjunto de massas alienadas e prontas à glorificação da violência, encontram, hoje, num mundo completamente interligado, o seu semelhante mesmo no dito outro civilizacional: para os que não conseguem pensar fora das reduções binárias, torna-se difícil, porventura, compreender o porquê das semelhanças entre as práticas apocalípticas dos ditos fundamentalistas de hoje - com certeza, com as suas especificidades e idiossincrasias; a história não é pura repetição -, com contornos paralelos aos de há cem anos (a Ocidente) e mesmo no séc.XIX (explosões em cafés de Paris, com seus kamikazes ocidentais de então). O ponto (político), para o intelectual indiano Pankaj Mishra, autor de Em Tempo de raiva. Uma história do presente, publicado pela Temas e Debates, é o do ressentimento e a manipulação e aproveitamento de líderes de pouca espessura intelectual, mas furibundos trauteadores dos bodes expiatórios que a massa produzida espera convocam o caos e o sem lugar para o qual se dirigem.
Notas a fixar: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir);
quando a riqueza, o conforto material não surge, e em mais nada consistindo a felicidade segundo o novo dogma, e em se transmutando todas as alternativas de sabedoria outras (deitadas para o caixote de lixo da história, com a prudência de um elefante na sala de jantar), restará o ressentimento (a cólera, a raiva, a inveja, o ódio) como reacção. As soluções abstractas (sem atender ao que cada espaço se poderia melhor aplicar), os homens miméticos ("a construção da nação e do Estado na era pós-colonial foi um projecto grandioso: centenas de milhões de pessoas foram convencidas a rejeitar - e muitas vezes a desdenhar - um mundo vindo do passado que existia há milhares de anos e a lançarem-se num jogo de risco que criaria cidadãos modernos, que seriam laicos, esclarecidos, cultos e heróicos", p.155) por todo o globo, soluções estas como que representando um (actualizado) património dos filósofos das luzes aplicado à escala global (contra esta abstracção já se levantara Tocqueville), levou ao desenraizamento de tantos;  uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia; a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho). Os tempos vão pessimistas – ou, se se preferir, realistas face a um pretérito optimismo cândido -, com noções como “progresso” a desaparecerem, a ideia de uma história com uma dada finalidade inscrita em si a passar por relíquia de antiquário, o desmoronamento da cultura, a dúvida sobre o futuro da democracia ou da civilização: em suma, em duas ou três décadas tornámo-nos cépticos.

Boa semana.

Pedro Miranda 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A legislatura do jas-mim



1.Em Setembro de 2011, começava este blog. Nesses dias primeiros, contava a expectativa - e o comentário - acerca do Anel de Nibelungo, de Wagner, na Casa da Música.

2.Termino, aqui, uma etapa, neste blogar, com uma outra ópera, Giordano Bruno, que no passado Sábado me levou ao mesmo local para, entusiasmado, transpor uma época e determinados personagens - que sempre que assimilados a símbolos tendem a perder a complexidade que caracteriza as pessoas reais que foram; e sobre o que, hoje, a História da Filosofia regista acerca do processo de Bruno demos notas em Agosto - e poder tornar cénica uma ambição que não pode ser senão, tenho disso consciência, um work in progress: ser um homem livre.

3.Talvez dos elogios de que mais tenha gostado, por parte do júri, na defesa da tese que realizei este Verão foi a referência à "absoluta honestidade intelectual" com que li e tratei cada autor, "respeitando sempre o seu pensamento". Com autores de proveniências e filiações diversas (nalguns casos, divergentes) essa era uma exigência indeclinável: antes de concordar ou discordar, antes de comentar, era necessário expor e compreender um pensamento, um autor. Se o havia, de algum modo, seleccionado, convocado ao texto, era necessário tratá-lo com a devida consideração e respeito.

4.Assim, também, neste espaço. Procurei que aqueles que me pareceram os principais contributos para o espaço público português (europeu) fossem devidamente recenseados. Só depois comentados. Foram quatro anos intensos. Havia demasiada pré-compreensão, pouca realidade. Houve vasta investigação sobre as causas da crise, houve muitos livros e estudos, quisemos que quem por aqui passasse pudesse não ter acesso ao repetir do que era hegemónico no complexo mediático, mas que estava nas livrarias e que tantas vezes nos mostrava como as coisas estavam longe de poder esgotar-se nos simplismos bacocos ditos por preguiça.

5.É preciso retirar consequências de leituras com as quais concordamos. Byung Chul-Han falou-nos no empresário de si próprio, no escravo de si próprio que continua a sugar-se, reclamando mais de si, e como esse trabalho nas redes sociais pode ser o prolongamento dessa realidade. Tomar como obrigação o escrever diário de um blog, a sós, colocando nele, desejavelmente (mas, certamente, falhando várias vezes nesse objectivo), exigência, pode ser esse caminho louco. Mas fica, de outra sorte, um contributo cívico e um compromisso.

6.O respeito por teses diversas não significou uma imunidade de tipo tecnocrático - a colocação acima do bem e do mal - nos debates públicos: apenas derivou da necessidade de ouvir múltiplos registos, vozes, confrontar o pensamento de outros com o lugar da nossa proveniência. Procurar o rigor. Mudar de opinião, se necessário. Não ficar pelo que apenas corrobora o que pensamos. Tentar uma aproximação com um maior naipe de instrumentos ao real. Mas sem nunca obnubilar uma inscrição numa dada tradição (cristã/católica) e, em termos políticos, nesse cruzamento que deu tão bons resultados nas décadas que nos precederam, "a banalidade do bem" (Tony Judt) social-democrata e a democracia-cristã. Acredito, convictamente, na sabedoria plasmada na Doutrina Social da Igreja. E entre os autores de filosofia política, o "social-democrata tranquilo" (como lhe chamou Luis M. Faria) John Rawls (como o economista e filósofo Amartya Sen) têm sido inspiração. O agradável disto é que os que lêem e conhecem quem aqui escreveu sabem que é, genuinamente, assim, e é de há vários anos, bem antes da crise, portanto (como se documenta, de resto, em registos de colaboração com a imprensa).

7.Deixei aqui, em 2011, um escrito (já com uns dois ou três anos) que continha a minha perspectiva sobre o que devia ser a cidade. Quer em termos globais, quer a concreta cidade de Vila Real. Neste Verão, deixei neste blog, uma actualização - já sem o local - do que penso e de como vejo vários dos desafios do mundo em que vivemos.

8.Como conta várias vezes Steiner, contava-se a piada sobre os judeus de que aguentavam a pior vida imaginável para lerem o jornal do dia seguinte. A curiosidade, o gosto pelo conhecimento é, de facto, um grande combustível. Continuarei apaixonado pelo quotidiano, seus estranhamentos, mistérios, maravilhas.

9.Apenas deixo o ritmo frenético dos posts diários. Poderei vir, aqui, ou a outro lado, fazer uma anotação, um comentário, deixar um dado, uma sedução. O blog deixa de emitir 24 horas por dia, isso é seguro.

10.Obrigado por terem passado por aqui.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O "bichinho da Filosofia"


Lá éramos todos filósofos

Aluno de ciências [João Filipe Madeira] a concluir o 12º ano, ganhou o “bichinho da Filosofia” e não mais o largou, apesar de já ter decidido que é a Medicina que vai concorrer, e quase de certeza entrar, graças a uma média actual de 194 valores em 200 possíveis.
A Filosofia interessa-me porque me permite descobrir uma visão do mundo que não me é dada pela ciência. Há questões a que pura e simplesmente não conseguimos responder através do método científico. A Filosofia ajuda-nos a procurar respostas a essas questões mais profundas, mais intrínsecas à natureza humana, e a construir ideias e crenças que fundamentam as minhas acções” (…)
Vivemos num paradigma muito técnico-científico que, erradamente, não reconhece o valor fundamental das humanidades e da Filosofia em particular. Isso traduz-se em opções políticas e dos próprios alunos, que podem deixar de seguir a sua vocação por temerem o seu futuro profissional. Mas nunca será uma área totalmente esvaziada”, confia [Manuel João Pires, professor].


Na reportagem do Expresso, de Isabel Leiria, neste fim-de-semana (23/05/14) sobre a participação portuguesa nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia, nas quais dois alunos nacionais, João Filipe Madeira e Beatriz Santos, alcançaram medalhas de prata.