Crónicas semanais na universidadefm:
Tempos
de pessimismo
A modernidade criou promessas (como se não houvesse
constrangimentos à sua efectivação) de emancipação (individual, mas também
colectiva) que não conseguiu concretizar. A civilização democrata e liberal, de
indivíduos (emergentes, supostamente) cultos e endinheirados não teve a
eficácia almejada. Em muitas sociedades, a combinação de uma apertadíssima
competição, a rápida obsolescência dos indivíduos (ou, pelo menos, das
capacidades destes) e o seu consequente carácter supérfluo (quando
não ao encontro do que a sociedade comercial dos seus dias reclama), a
ansiedade do status (e de poder) por concretizar (despida
esta, ainda para mais, das amarras,
ou, paradoxalmente também, do conforto
de sistemas de castas, fossem estas propriamente
ditas/formalizadas, fossem materialmente
presentes nas sociedades), o aumento da riqueza mas a sua repartição
excessivamente desigual; a perda das filiações (instituições que ancoravam a pessoa) e do sentido de pertença; as
ambições, esperanças, expectativas, a ideia de progresso -
tudo por cumprir e a desmoronar-se (passando-se para a ideia de retrocesso dos
níveis de vida, muito presente nos nossos dias); a globalização e seus
perdedores; as religiões ou a família, a comunidade depreciadas/menosprezadas
fizeram com que estes abalos sísmicos de um mundo plano na
vivência do espaço-tempo encontrasse um protagonismo desmedido para o ressentimento que,
em se tendo sentido no Ocidente logo no pós-Revolução Industrial, gerando um
conjunto de massas alienadas e prontas à glorificação da
violência, encontram, hoje, num mundo completamente interligado, o seu
semelhante mesmo no dito outro civilizacional: para os que não
conseguem pensar fora das reduções binárias, torna-se difícil,
porventura, compreender o porquê das semelhanças entre as práticas
apocalípticas dos ditos fundamentalistas
de hoje - com certeza, com as suas especificidades e idiossincrasias; a
história não é pura repetição -, com contornos paralelos aos de há cem anos (a
Ocidente) e mesmo no séc.XIX (explosões em cafés de Paris, com seus kamikazes ocidentais de então). O ponto
(político), para o intelectual indiano Pankaj Mishra, autor de Em Tempo
de raiva. Uma história do presente,
publicado pela Temas e Debates, é o do ressentimento e
a manipulação e aproveitamento de líderes de pouca espessura intelectual, mas
furibundos trauteadores dos bodes expiatórios que a massa produzida
espera convocam o caos e o sem lugar para o qual se dirigem.
Notas a fixar: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir); quando a riqueza, o conforto material não surge, e em mais nada consistindo a felicidade segundo o novo dogma, e em se transmutando todas as alternativas de sabedoria outras (deitadas para o caixote de lixo da história, com a prudência de um elefante na sala de jantar), restará o ressentimento (a cólera, a raiva, a inveja, o ódio) como reacção. As soluções abstractas (sem atender ao que cada espaço se poderia melhor aplicar), os homens miméticos ("a construção da nação e do Estado na era pós-colonial foi um projecto grandioso: centenas de milhões de pessoas foram convencidas a rejeitar - e muitas vezes a desdenhar - um mundo vindo do passado que existia há milhares de anos e a lançarem-se num jogo de risco que criaria cidadãos modernos, que seriam laicos, esclarecidos, cultos e heróicos", p.155) por todo o globo, soluções estas como que representando um (actualizado) património dos filósofos das luzes aplicado à escala global (contra esta abstracção já se levantara Tocqueville), levou ao desenraizamento de tantos; uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia; a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho). Os tempos vão pessimistas – ou, se se preferir, realistas face a um pretérito optimismo cândido -, com noções como “progresso” a desaparecerem, a ideia de uma história com uma dada finalidade inscrita em si a passar por relíquia de antiquário, o desmoronamento da cultura, a dúvida sobre o futuro da democracia ou da civilização: em suma, em duas ou três décadas tornámo-nos cépticos.
Notas a fixar: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir); quando a riqueza, o conforto material não surge, e em mais nada consistindo a felicidade segundo o novo dogma, e em se transmutando todas as alternativas de sabedoria outras (deitadas para o caixote de lixo da história, com a prudência de um elefante na sala de jantar), restará o ressentimento (a cólera, a raiva, a inveja, o ódio) como reacção. As soluções abstractas (sem atender ao que cada espaço se poderia melhor aplicar), os homens miméticos ("a construção da nação e do Estado na era pós-colonial foi um projecto grandioso: centenas de milhões de pessoas foram convencidas a rejeitar - e muitas vezes a desdenhar - um mundo vindo do passado que existia há milhares de anos e a lançarem-se num jogo de risco que criaria cidadãos modernos, que seriam laicos, esclarecidos, cultos e heróicos", p.155) por todo o globo, soluções estas como que representando um (actualizado) património dos filósofos das luzes aplicado à escala global (contra esta abstracção já se levantara Tocqueville), levou ao desenraizamento de tantos; uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia; a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho). Os tempos vão pessimistas – ou, se se preferir, realistas face a um pretérito optimismo cândido -, com noções como “progresso” a desaparecerem, a ideia de uma história com uma dada finalidade inscrita em si a passar por relíquia de antiquário, o desmoronamento da cultura, a dúvida sobre o futuro da democracia ou da civilização: em suma, em duas ou três décadas tornámo-nos cépticos.
Boa semana.
Pedro Miranda