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quinta-feira, 1 de junho de 2017

A utilidade do inútil


João PAIVA, A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades, Público, 01. 06. 2017, 46.

A grande pergunta da ciência é também a grande pergunta do Homem: “Quem somos nós?”

Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos deliciaram e apontaram caminhos...  e não tinham laboratórios. Benditos inúteis!

1.Tenho mais de 30 anos dedicados à ciência, principalmente ao seu ensino e divulgação. Não me canso de sublinhar o fascínio pela forma científica de questionar, conjeturar, observar, experimentar, teorizar e até prever o que se passa no mundo natural. São, resumidamente, duas as pérolas desta empresa científica: a) o sabor, o gozo, o prazer e o deleite de tatear a natureza; b) a potencialidade benfazeja que os conhecimentos científicos encerram, uma vez que, quando aplicados por meio do que chamamos “tecnologia”, podem beneficiar a humanidade. O aumento médio da esperança e da qualidade de vida, à escala global, é um bom exemplo que sentimos (infelizmente não todos...).
2. O poder que a ciência adquiriu é impressionante. E adivinha-se que assim continue a ser. As nações mais poderosas confundem-se com os países de maior arsenal científico e tecnológico. Este poder tem de ser questionado, para que não seja mal usado. A ciência atual, tenha ou não aplicações imediatas, está condenada a viver no contexto social, económico e político. A ciência pura, supondo que alguma vez existiu, morreu já há muito. As grandes avaliações e decisões nunca são só científicas. A ética, em particular, impõe-se de forma crucial à ciência. Trata-se do discernimento pessoal e coletivo face à grande questão: “O que devo fazer?”
3. A agenda da ciência contém a necessidade de autorreflexão. Vejamos três vetores apontados pela sociologia da ciência: reconciliação com a Terra, combate à pobreza, promoção da mulher. Muito tem sido feito. Mas, nas políticas científicas, o ambiente e a sustentabilidade ainda não são priorizados, o combate à pobreza não se reflete de forma consequente na distribuição de recursos de investigação à escala mundial e a mulher ainda não ocupa lugares de destaque nas instâncias de decisão empresarial, política, científica e tecnológica.
4. Aos futuros cientistas costumo dizer que não haverá lugar na ciência para gente que só veja números, fórmulas e laboratórios. Aqui emergem as necessidades de competências transferíveis bem desenvolvidas, que façam dos cientistas pessoas capazes de trabalhar em grupo, de apresentar ideias, de esboçar projetos, de refletir sobre a ciência que protagonizam.
5. Como químico, sempre fui impelido para as misturas...Nós, químicos, focados na realidade atómico-molecular, passamos a vida a fazer análises e sínteses...As análises permitem-nos saber o que está e quanto está. As sínteses são muito relevantes: ligam, constroem, geram novos materiais e novas vidas. As ciências exatas estão carentes de sínteses. Temos de ter a consciência da artificialidade das disciplinas científicas, face à natureza que teima em ser uma só. Sim, separamos para analisar, mas, se perdemos a noção da floresta, lá ficamos míopes ao ver só a árvore.
6. Durante muito tempo, e também para conseguirem afirmação de estatuto na sociedade, as áreas do saber conotadas com as humanidades, como a história, a psicologia ou a sociologia, aproximaram- se das metodologias das ciências exatas e naturais. Também se usam, por exemplo, instrumentos e meios tecnológicos naquelas áreas.
7. Os docentes e investigadores universitários vivem um dilema: a sua carreira é dramaticamente competitiva. As exigências de financiamento não nos permitem desperdiçar oportunidades de projetos. Alguma burocracia, sem retaguarda de secretariados de apoio, subtrai-nos imenso tempo. A leitura e a escrita de artigos em grande número deixam muito pouco tempo para outras leituras. Mas o virar as costas às humanidades pode ser fatal para a ciência. E, portanto, quanto mais não seja pela ciência, teremos de ser criativos para reconhecer e valorizar o que somos e ao que vamos, numa perspetiva humanista. Estar conscientes de que a grande pergunta da ciência, nas palavras de Schrödinger, é também a grande pergunta do Homem: “Quem somos nós?” Neste sentido, não cair na conta, por exemplo, das nossas raízes greco-latino-judaico-cristãs poderá ser suicidário.
8. Estas reflexões deverão ter implicações na vida académica das escolas de ciência. As faculdades, incluindo as de ciências, têm obrigação de proporcionar aos seus alunos, aos seus docentes e investigadores espaços de reflexão transdisciplinar e de alargamento de horizontes culturais. A formação de professores de ciência deve contemplar mais profundamente a história e a filosofia da ciência e da civilização, a literatura e a arte, fazendo pontes com outros saberes. Talvez as avaliações curriculares das carreiras científicas possam valorizar mais a comunicação e inculturação da ciência, a par da análise das publicações científicas, que poderão ser sujeitas a um olhar mais focado na qualidade do que na quantidade. A universidade, na universalidade a que está chamada, está ainda muito cristalizada na disciplinação avulsa, oferecendo timidamente cursos de mistura humanista e multidisciplinar, que o nosso tempo reclama como urgentes. Abstenho-me de falar das óbvias consequências que todas estas ideias deveriam ter na atenção às humanidades nos ensinos básico e secundário (de pequenino se torce o pepino!). Sem prejuízo de, em simultâneo, na difícil metáfora de uma manta curta para a complexa cama curricular, se aumentar a intensidade da aprendizagem das ciências e da prática laboratorial, em particular.
9. Perceber-se-á agora melhor o título deste texto. Não coloquei aspas na palavra inutilidade. Queria agarrar o leitor, é certo, mas, mais ainda, sublinhar que é de inutilidades que é tecida a humanidade. A ciência, recuperando a sua humildade epistemológica, deve saber abrir-se às artes e humanidades. Um cientista sabe que a sua grelha é um dos instrumentos para se ler o mundo, mas nunca o único, nem o melhor. Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos deliciaram e apontaram caminhos... e não tinham laboratórios. Benditos inúteis!



Professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sem ilusões


O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto. O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve ist, considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.

(...)

Não. Os conhecimentos não se substituem uns aos outros, complementam-se. E o que falta, faz sempre falta. Várias vezes me interrogo como é possível atirar alunos do secundário para ler Os Maias, ou seja que obra for de Eça, ou Camilo, ou Camões, ou Gil Vicente, ou Nemésio, ou Jorge de Sena, ou seja lá que obra literária que é suposto ler-se no secundário e nos anos de escolaridade obrigatória, sem saber nada de mitologia grega ou da Bíblia, já para não falar do rico vocabulário do português que não cabe numa mensagem do Twitter. Não sei, aliás, por que se pensa nos nossos dias que “não cabe” na cabeça das pessoas muita coisa. É irónico que a modernidade nos forneça discos rígidos com terabites de espaço, e pareça encolher-nos as cabeças. Voltando a Frederico Lourenço, podemos de facto viver confortavelmente, em particular se herdarmos alguma coisa, e ter sucesso, sem saber nada da Odisseia, ou da Antologia Grega, saber quem era Argos ou Tifão, desconhecer tudo de Esparta e Atenas, de Sófocles e Tucídides ou nunca ter lido uma “vida” de Plutarco (por falar nisso, uma leitura obrigatória durante mais de um milénio para todos os que quisessem ter uma vida pública…) ou dos relatos em que um profeta apocalíptico chamado Jesus anunciava o fim do mundo e o caminho da “salvação”. Podemos. Mas somos mais pobres por isso. Antigamente isto chamava-se “experiência indirecta”, não substituía a directa, mas ajudava muito. E, numa curva da vida, em vez de ir a correr a um praticante de qualquer terapia arcana, ou à bruxa – o que, para a nova ignorância, não é tão diferente como isso – sempre se podia saber que outros homens e mulheres, que vivem no mundo dos “antigos”, conhecem alguma coisa sobre a doença ou a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança e o destino inelutável, sobre a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra e a vergonha, sobre a intriga, a moda e o sexo. As suas palavras tinham toda a força, porque eram muitas vezes as primeiras que eram escritas sobre as mais humanas das atitudes, e estão no terreno que pisamos, mesmo que não o saibamos. Mas vale muito mais saber.

José Pacheco Pereira, O nó górdio, Público, 03/04/2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Metamatemática e algorítmica do pensamento ocidental

Resultado de imagem para Frigorífico



Num ensaio de 1999, "O crepúsculo das humanidades?", George Steiner questionava(-se) acerca de uma má definição - ou ausência dela, de delimitação, fronteira - de Humanidades (o que cabia no interior destas) enquanto sintoma desse mesmo crepúsculo enunciado em epígrafe:

Se há um consenso difuso sobre a inclusão no seio das humanidades da edição e da compreensão das literaturas do período clássico até à contemporaneidade (e aqui a questão da contemporaneidade coloca problemas quase políticos), se a filosofia, a história, a teoria e a história da arte estão ligadas às faculdades de letras e artes, qual será então o lugar das artes performativas, no âmbito humanístico? Será que a linguística teórica e formal, cada vez mais metamatemática e algorítmica, pertence aos litterae humaniores? E será que o mesmo sucede com aspectos econométricos da história económica (ou mesmo da própria história)? E o que dizer da lógica formal no que diz respeito ao discurso metafísico? Ou da filosofia da ciência e da musicologia mais teórica? Não será um elemento central daquilo que está a ser interpretado como uma crise a forma como a matematização exponencial do pensamento ocidental, depois de Descartes e Leibniz, reduziu fundamentalmente (e continua a reduzir) o outrora imperial terreno das humanidades?

George Steiner, As artes do sentido, Relógio d'Água, 2017, p.104 [tradução de Ricardo Gil Soeiro].

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"O ataque às Humanidades a favor de um mundo pior", José Pacheco Pereira



"É aos ignorantes que as humanidades incomodam (...) a ignorância de hoje não é conjuntural, mas estrutural (...) ela é um elemento do conservadorismo social, um obstáculo ao empowerment dos que mais precisam, numa sociedade que emancipe e não exclua (...) É a ignorância como projecto social, como desejo e política (...) uma turba que não só é ignorante como dá a essa ignorância o estatuto de igualdade (...) os estudantes que aqui estão vão ter que lidar com um mundo que não está todo na internet, pelo contrário (...) o ataque às humanidades é o ataque ao saber puro pelo qual avançam as fronteiras do humano. A necessidade das humanidades vem do mundo, vem da vida, vem da imperfeição das coisas, vem acima de tudo da violência do mundo que só pode ser contrariada por uma atitude a que podemos chamar cultural. A construção dessa atitude pode ser considerada obra fundamental das humanidades, na tradição de homens como Boécio, Thomas More, Erasmo, Montaigne, ou, mesmo, a frase de Shakespeare sobre a frase do leite da humana ternura (...) ou do olhar de Thomas Mann, ou do soldado Schweik, em que o nosso olhar muda e muda sempre para melhor".

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ninguém quer os filósofos (II)


Leon Wieseltier, este Domingo, no ElPais, entrevistado por Marc Bassets:

La influencia más poderosa, no sólo en la gestión de la política contemporánea, sino en la cultura contemporánea son los datos. Debido a las cantidades inimaginablemente altas de datos que generan las nuevas tecnologías, poseemos más números que nunca. Y esto suscita una cuestión básica: qué relación debe haber entre cuantificación y cultura, qué puede captar un número y qué no. Se les pide a los números que capten fenómenos humanos que no pueden captar. Se inventan medidas para dimensiones de la experiencia humana para las que no existen medidas: sólo palabras y descripciones, descripciones son matizadas, sutiles. (...)  El humanismo es una ética: la creencia en la solidaridad universal que los humanos deberían tener. También es la creencia en que algunos ámbitos de la vida humana no pueden entenderse de la manera que la ciencia entiende las cosas. No es que el humanismo sea el enemigo de la ciencia: es el enemigo de la ciencia imperialista. Vivimos en una edad dorada del imperialismo científico y económico. En la sociedad americana, por ejemplo, las máximas autoridades en materia de felicidad son los economistas, lo cual es grotesco. (...) Es cierto que en el siglo XIX hubo pensadores alemanes que concluyeron que la vida humana interior, la subjetividad, no podía entenderse con los mismos métodos que las ciencias naturales. Y tenían razón. Aunque el 99,9% de una persona pueda explicarse con los métodos de las ciencias naturales, el 0,1% que queda es a lo que me refiero cuando hablo de la persona humana. La diferencia humana escapa a la explicación científica. Es posible que las humanidades y las ciencias estudien lo mismo, la vida humana, pero la estudian de manera distinta. La comprensión de la poesía por medio de la genética tiene tan poco sentido como la comprensión de la genética por medio de la poesía. Sabemos que las humanidades y las ciencias pueden florecer al mismo tiempo, excepto cuando la ciencia y la tecnología se vuelven arrogantes sobre su lugar en la vida humana. La cuestión sobre el lugar que ocupa la ciencia en la vida humana no es una cuestión científica. Es una cuestión filosófica. La ciencia no puede decirnos qué lugar debe ocupar la ciencia. Cuando las ciencias imponen su autoridad más allá de los límites de su propio ámbito, la ciencia se transforma en cientismo, que es algo distinto. La ciencia es la ciencia y nadie en sus cabales no la apoyaría y estaría agradecido por lo que hace, pero el cientismo es una ideología sobre cómo entender la vida humana. Es una versión del materialismo (...) Siempre hubo una tensión entre las humanidades y las ciencias naturales. Siempre hubo también una armonía. Pero hubo un tiempo en que las humanidades tuvieron un prestigio mucho mayor en las sociedades occidentales. El prestigio de las humanidades en la sociedad americana nunca ha sido más bajo. La sociedad americana todavía se ha vuelto más utilitaria de lo que ya era. El pragmatismo es el culto de la practicalidad, de la utilidad, de los resultados. Todos es una transacción. Todas las complejidades, ambigüedades, ambivalencias, oscuridades que las humanidades nos enseñan a reconocer han sido borradas. Todo se trata de un modo utilitario. (...) Si mira cómo se justifican las humanidades en Estados Unidos, se hace sobre bases utilitarias. Los teatros son importantes, ¿por qué? Porque revitalizan barrios. Los licenciados en inglés son útiles, ¿por qué? Porque muchos consiguen trabajo en McKinsey. Ya no es legítimo defender las humanidades intrínsecamente, por su mismo valor. Si quieres defenderlas, debe ser por sus resultados sociales y económicos, mientras que la verdadera línea de defensa de las humanidades tiene que ver con el cultivo de la personalidad y la educación del individuo: la idea es que un individuo expuesto a las humanidades, que ha tenido su mente, corazón y espíritu educado por las artes, será un mejor amigo, un mejor padre, un mejor marido o mujer, una mejor madre un mejor ciudadano, un mejor vecino. Este es el beneficio: no llevará a resultados económicos, y no hay manera de medirlo (...) Ha elevado la tecnología a una centralidad en las vidas individuales como nunca antes. Ha alentado ciertos hábitos mentales y desalentado otros que tiene un impacto en lo preparados estamos ante las humanidades. Internet es el mayor asalto a la atención humana que jamás se haya diseñado. Es una guerra contra la atención, contra el tiempo: todo tiene que ver con la rapidez. (...) Hay que resistir. El acto más revolucionario que uno pueda hacer, fuera de la política, es ralentelizar: la desaceleración. Hay una cosa con la que Internet nunca acabará, y me da igual lo que diga Google, o lo que planee: es la realidad física. El cuerpo, el árbol allí fuera, el edificio de enfrente, el cuerpo de tu novia. La experiencia física, la experiencia de los sentidos. Esto ofrece alguna resistencia a todo esto. Y algunas artes. No puedes acelerar la música. Si no te gusta una sinfonía de Mahler, te marchas del concierto, no puedes hacer que la toquen más rápido

Na íntegra, aqui.

E ler ainda este texto de Óscar Martinez.

Ninguém quer os filósofos


Este Domingo, em ElPais, não apenas o já recorrente lamento pela perda das Humanidades, na Universidade, mas, mais do que isso, uma dimensão propositiva para remar contra a maré. Quem lida com a rapaziada antes mesmo de esta entrar em diálogo crítico com o que a sociedade lhe transmite, e portanto ouve despejar o mais estreito, dogmático e ingénuo positivismo, tem bem a noção de quão grande é tarefa e poucos os braços:



Nadie quiere los filósofos

La crisis por la que atraviesan los estudios de humanidades no solo en España, sino en el mundo entero, era perfectamente previsible desde los albores de la revolución industrial. Lo que se fundó en la Grecia clásica —el amor por el saber— y se mantuvo en Roma —la alabanza del ocio y el menosprecio del negocio—; aquello que las órdenes monásticas conservaron durante la Edad Media; aquello que resurgió con una insólita pujanza durante el Renacimiento europeo, luego durante la Ilustración y en buena medida en las universidades del siglo XIX siguiendo el ejemplo de la reforma universitaria de Humboldt en Berlín, todo eso empezó a librar ya a mediados de ese mismo siglo una batalla muy dura contra un enemigo de potencia no solo no prevista, sino también incalculable. El hombre de estudio, la mujer de artes o letras, vieron, a lo largo del gran siglo de la burguesía y de todo el siglo XX cómo la legitimidad de su quehacer quedaba mermada y amenazada a causa del desarrollo de la ciencia, la industria, el comercio y la técnica.
En 1872, Flaubert lamentaba el desequilibrio que un nuevo plan de estudios para el bachillerato en Francia exhibía entre algo tan elemental como el deporte —que ya no tenía en Europa el destino agónico que había tenido en Grecia o Roma— y la enseñanza de la literatura, de la que apenas se hablaba. Con mayor énfasis, escribió lo siguiente sobre el mismo asunto: "Estoy asustado, aterrorizado, escandalizado por las gilipolleces cardinales que gobiernan a los seres humanos. Eso es algo nuevo; por lo menos en el grado en que se produce. Las ganas de alcanzar el éxito, la necesidad de triunfar a toda costa —debido al provecho económico que se obtiene— le ha minado a la literatura la moral hasta tal punto que la gente se está volviendo idiota".
Él, como tantos otros autores que empezaron entonces a reflexionar sobre el descrédito progresivo de las humanidades, no poseía distancia suficiente respecto a las causas de tal descalabro. Hoy sí la tenemos. Al auge del comercio, las ciencias, la industria y la técnica, hay que sumarle, en los últimos 30 años por lo menos, un nuevo factor, imprevisible hace un siglo y medio: el auge de las nuevas tecnologías. Los filósofos que heredaron la preocupación por este asunto a la sombra de Heidegger o de Jaspers no parecieron alarmarse cuando el fenómeno de esas brillantes tecnologías y los ingenios digitales irrumpieron progresivamente en la vida cotidiana de todo el orbe. La inocencia con la que se recibió ese alarde del progreso técnico-científico se ha transformado, ya en nuestros días, en una preocupación —solo para algunos, este es el problema—, sin que se atisbe la posibilidad de alcanzar alguna solución. Estamos ya, propiamente, en lo que ha venido en denominarse la era poshumana, en el bien entendido que nos hallamos en la era en la que el ente, el ser, no es más que un flatus vocis: una nadería nostálgica, un recuerdo de tiempos pasados en los que filosofía, religión, moral y estética otorgaban a esa palabra un valor casi tan alto como el que se otorgaba a Dios o a la muerte.
Esto nos lleva a analizar otros factores, no menudos, del descrédito de las humanidades en las universidades de España y de casi todo el mundo: la religión ha perdido adeptos en todas partes, y con ella han desaparecido los referentes trascendentales que actuaban, con sordina pero con eficacia, en todas las sociedades y sus cultos; los nuevos estilos musicales, de los que los jóvenes no pueden prescindir en sus momentos de ocio, han venido a suplantar el carácter órfico —y por ello, sagrado— de la mal denominada música clásica; el uso universal de los teléfonos llamados inteligentes rebajan sin pausa la inteligencia de aquellos que podrían dedicar su ocio a cualquier otro tipo de actividad y destierran la conversación, además de haber provocado la desaparición de las áreas de privacidad que tanto convienen al ser que piensa y actúa mediatamente; el subsiguiente descrédito de la lectura anula la posibilidad de que exista algo así como un imaginario subjetivo, en beneficio del llamado imaginario colectivo, que viene a ser lo mismo que la aceptación sumisa de la opinión común —todo lo contrario de la operación de discurrir en primera persona—, asumida esta sin el menor atisbo de crítica; el mercado laboral lo es de profesiones consideradas productivas y necesarias, y apenas de las profesiones en las que el saber humanístico podría multiplicarse y difundirse, como es el caso de la educación —hoy vencida y desarmada en España— a todos sus niveles.
No podemos tener la certeza de que tal estado de cosas vaya a cambiar en favor de un lugar honroso para las humanidades. Seguirá habiendo filólogos, artistas, historiadores y filósofos; seguirá habiendo escritores y lectores; algunos centros urbanos de difusión cultural seguirán abiertos y más o menos activos, pero todo lo que se relacione con el ser y sus problemas fundamentales parecerá superfluo, en estado de letargia y, en el mejor de los casos, será escenario de heroísmo para renitentes.
A esta cuestión queríamos llegar. Los planes de estudio de las facultades universitarias de humanidades irán a peor, en favor de las banalidades que ha generado la era de lo llamado políticamente correcto: una alquimia en la que se funden los feminismos y homosexualismos más insolventes con los estudios coloniales más improductivos y las ridiculeces más espantosas como métodos de análisis y crítica del saber humanístico heredado. Pero toda persona vinculada a la enseñanza de las humanidades puede, si no modificar esas tendencias disolventes de las litterae humaniores, sí otorgar a sus actividades un trasfondo y un alcance que minen hasta los cimientos esos falsos edificios del saber. A nuestro juicio, no hay más solución para las facultades humanísticas que implicarlas en la vida cotidiana de la polis, o sea, convertir las humanidades en la punta de lanza de una restauración de la políticaque es como actuar en beneficio de la ciudadanía en aquello en lo que ni las ciencias ni las técnicas pueden hacer mucho—; transformar todas las escenas del saber humanístico en el gran aliado del progreso espiritual de una nación y de sus ciudadanos. Por ejemplo, enviar a los estudiantes de los últimos cursos a comentar las grandes o menos grandes obras de la literatura universal en las bibliotecas públicas; no obligar a los profesores a hacer gestión académica, algo que los convierte en burócratas, sino agitación cultural más allá de sus muros; convertir a profesores y alumnos avanzados en asesores de centros de creación y difusión de la cultura; mandar a todos ellos a los diarios del país para favorecer un periodismo de mayor alcance cultural; invitar a cualquier empresario del mundo de la técnica, la informática, los negocios, y lo que sea, a contratar antes a un graduado que, siéndolo en la profesión adecuada y pertinente, lo sea también en cualquier rama de las humanidades, como ya sucede en Estados Unidos, para satisfacción incluso del rendimiento de sus empresas. Porque no es factible suponer que unos buenos estudios de humanidades (como todavía pueden cursarse en escasos centros universitarios del mundo entero, pues casi todos han quedado arruinados por el efecto de metodologías "seculares") resulten suficientes para obtener legitimidad en las sociedades actuales si no salen de las cuatro paredes de los centros universitarios.
Su papel tendrá que ser, en el futuro, el de una rigurosa resistencia, el de un profundo conocimiento del pasado, el de la transmisión eficaz de ese saber antiguo en provecho del futuro antes de que todo el mundo caiga en la "amnesia institucionalizada" de que ha hablado George Steiner. Pero, sobre todo, si los profesionales de las humanidades quieren por una vez actuar con sentido común y eficacia, su papel habrá de ser el de garantes de la permeabilidad entre las instituciones sabias a las que pertenecen y el progreso de la sabiduría, la democracia y la dignidad del ser entre los ciudadanos de un país entero.

Jordi Llovet es catedrático de Literatura Comparada de la Universidad de Barcelona, ElPais, 24/04/2016.

sábado, 7 de novembro de 2015

Ainda, e sempre, a defesa das Humanidades


Sou um grande defensor de os cursos das ciências duras terem a obrigatoriedade de frequência de duas cadeiras das ciências humanas. A Universidade de Aveiro já faz isso. Está testado. Harvard e o MIT têm isto (...) Porque o conhecimento das ciências humanas é fundamental. Têm sido tratadas como fait-divers. E não são. São elementos estruturantes. Nos EUA, é comum encontrar um cirurgião que é simultaneamente um grande músico. Em Londres consultei um médico que é um superespecialista em lúpus, tem mais de 70 anos, e lidera uma banda de música, a que chamou «Lupus Band». (...) Eduardo Lourenço disse uma coisa que nunca esquecerei: sabemos pouco sobre o Estado Novo porque ainda há poucos romances passados nesse período. É muito interessante em relação ao modo como se devem estudar as coisas.

Eduardo Marçal Grilo, em entrevista concedida a Isabel Nery, Visão nº1183, 05-11 a 11-11-2015

P.S. Num exemplo extraordinário de curiosidade intelectual, Marçal Grilo, aos 73 anos, regressou à universidade para fazer uma cadeira de História dos Fascismos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Aluno de Fernando Rosas, "um comunicador magnífico". O ex-ministro da educação, considera que os exames do 4º ano de escolaridade, em Portugal, estão "a mais": "o risco do excesso é transformar os professores em treinadores para os exames. É redutor. É pobre. Há mais educação para além dos exames". Estes exames são, ademais, fonte de competitividade: "mas o maior competidor de cada um deve ser ele próprio (...) A cultura da exigência não se esgota nos exames, começa em casa. Mas também é preciso tempo para brincar". Quanto ao momentum político português: "nesta eventual coligação à esquerda existem muitos ingredientes para que não corra bem. Mas, se correr bem será um facto histórico e mudará radicalmente a vida política portuguesa. Radicalmente".

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O médico como humanista



João Lobo Antunes não é, apenas, um dos mais consistentes seguidores da máxima de Abel Salazar, segundo a qual quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe. O facto de ser um proficiente cultor dessa verdade permite-lhe testemunhar em favor dela e arremeter contra uma medicina, mais, um sistema de ensino, que dela se terá afastado. No ensaio O consolo das Humanidades, publicado no livro que acaba de sair do neurocirurgião (Ouvir com outros olhos, Gradiva, 2015), concretiza, com especial acuidade, o que pretende estabelecer quando considera que a ignorância da literatura, da filosofia, da história, da religião, por parte de quem tem a medicina por ofício, faz desse profissional menos excelente. A questão, não se julgue, não se pretende com qualquer adorno, uma erudição que combinaria bem com uma profissão prestigiada. Bem mais do que isso: na mais prosaica interpretação do que o doente conta acerca de si mesmo e sua doença, na frase que lhe sai aparentemente tão cristalina, escondem-se interstícios, zonas obscuras, sentidos outros que o desconhecimento de outras vozes - que se expressam na poesia, na filosofia, no grande romance, nas grandes tradições religiosas - não permite entrever/encontrar/descobrir. O grande médico é, assim, também, o grande leitor, para ser o grande ouvinte: "É que a narrativa da doença - e é importante no meu ofício saber ouvi-la -, só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, na ficção, na filosofia ou na poesia, que ajudam a apreender o seu sentido mais profundo, oculto tantas vezes nos interstícios de um discurso que tanto pretende revelar, como ocultar. De facto, o encontro singular da clínica é feito de palavras mas, não raramente, também da eloquência de um silêncio igualmente revelador" (p.43). 
Daqui ao j'accuse, um pequeno passo: "a verdade é que não encontro nos médicos das novas gerações o mesmo vibrato emocional que me animou toda a vida, talvez porque desconhecem os dialectos do sofrimento, ou porque receiam mergulhar num mundo de emoções que só vagamente vislumbram ou, mesmo, penetrar no íntimo de uma solidão tão unicamente humana. Isto apesar da intervenção de uma pedagogia solicita, chamada a ensinar alíneas da comunicação entre médico e doente, formais, correctas, irrepreensíveis, mas que desdenham a compaixão"(p.43).
Mas ensina-se, a compaixão? João Lobo Antunes abeira-se do próximo, munido dessa linguagem que nos religa, para responder: "Sempre duvidei que a compaixão fosse um sentimento ensinável, embora admitisse tal ser possível em relação a certos valores morais, usando, como método, o exemplo. Podemos apenas apontar o que no outro - e aqui o conceito de próximo adquire uma admirável ressonância cristã - nos parece digno de merecer compaixão" (p.44).
O Professor excelentíssimo, que por tanto se ter destacado no campo das ciências duras ganha especial autoridade quando não aceita o cientismo divinizado, ou a idolatria de uma tecnologia sem a densidade de rosto humano, prossegue na denúncia do esquecimento do complexo de textos que dão textura à experiência - médica também -, permanecendo, ainda, nos novos tempos admiráveis: "falando ainda das novas gerações dos meus companheiros de ofício, creio que, em certa medida, esta falta de curiosidade pela história do outro e a platitude da sua resposta emocional se devem, em parte, à incapacidade de descobrir e ser desafiado pelo mistério das narrativas que quase não chegam a ouvir, confinados ao mundo de um conhecimento científico cujas limitações ignoram, e cegos pelas maravilhas da tecnologia que lhes confere autoridade e poder. Alguns, os mais perigosos, nunca irão perceber que no cérebro desta Medicina Contemporânea se juntam, em inesperadas sinapses, incerteza, risco e erro. Ora, como alguém notou só as Humanidades reconhecem a incerteza como a emoção humana dominante" (p.44).
Que aprendeste tu, afinal, com esses livros todos, com essas tertúlias entre literatos e filósofos, para que te serviram? João Lobo Antunes adivinha a pergunta e ilustra-a, percebe-se com que prazer, profusamente: "A maior conquista foi ter-me apurado o ouvido para captar outras vozes, compreender o significado oculto das palavras, e ter a competência para falar com qualquer pessoa num diálogo que nos eleva àquela altitude comum que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos. Mas muito mais aprendi em obras de ficção. Em Moby Dick, por exemplo, encontrei o eco dos meus receios numa sala de operações, mas também o impulso de perseguir o inimigo até ao limite das minhas forças, e da necessidade de aquele impulso ser moderado pela mais negligenciada das virtudes, o bom senso. Não conheço elogio mais belo ao carácter pastoral do meu ofício, oficio agitado pelo heroísmo e pela cobardia, pelo orgulho e pela humildade, do que La Peste de Camus. Não existe talvez nenhum tratado de bioética que penetre o cerne do sofrimento físico e espiritual da doença mais profundamente que A morte de Ivan Ilitch de Tólstoi, a que repetidamente aludi. E muito mais poderia citar. Foi na filosofia, aprendida nos livros mas, sobretudo, tão socraticamente, no convívio com Fernando Gil, que descobri a importância de olhar para além das aparências e fazer perguntas cuja resposta, sabia de antemão, seriam outras perguntas. E, finalmente, muito me ensinaram os poetas, pois, como ensinou o genial Brodsky, a poesia é a forma mais concisa de transmitir a experiência humana" (p.45)
A doença, sobretudo a doença que ameaça a vida humana "é a incisão mais forte na essência que somos" (p.35). De aí que no cuidado, na sageza com que o médico com ela lida, há-de nutrir-se de grande preparação e, como se vê, o estetoscópio não é o principal instrumento para conhecer o outro. Na doença, conclui de muitos anos de experiência João Lobo Antunes, acedemos, olhando finalmente o sol de frente - e "olhar para estas coisas de frente exige a coragem de um domador de leões", nas palavras de Virgínia Woolf -,  provavelmente ao único momento lúcido de um exame do que foi a nossa vida. Nesse instante, em que se dá o "desdobramento da personagem que somos é um fenómeno fascinante: uma é fria, racional; a outra exuberante e emotiva; esta é movida pela esperança, aquela abatida pelo desalento; a primeira não ilude a verdade, a segunda faz-lhe ouvidos moucos" (p.39), regressam à cena actores esquecidos da nossa biografia, e a coragem é o que fica quando a esperança se foi. Talvez, nesses momentos, a solidão seja, de facto, iniludível e inultrapassável, mas até para a compreender é preciso alguém com antenas afinadas: "médico para ser perfeito devia sofrer todas as doenças, pois só assim podia formar o juízo exacto" (Francisco Sanches citado por J.Lobo Antunes). E ter a subtileza de intuir que isto é mais do que uma imagem.

Uma espécie de carta - desencantada talvez - aos médicos de novas gerações, enquanto advertência, ao sistema de ensino como proposta, às gerações que um dia querem praticar medicina para que sejam cumpridoras integrais da sua regra. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Hegemonia


Em Vila Real, nas quatro escolas que oferecem o Ensino Secundário, a menor percentagem de alunos que, nelas, optaram pela área científico-tecnológica foi, ainda assim, superior a 62%. No colégio da Boavista, então, a totalidade dos alunos do Secundário fez essa mesma opção. Nas restantes três escolas, há quem tenha optado por Artes, Economia ou Humanidades. Mas a hegemonia nas opções realizadas dificilmente poderia ser mais esmagadora.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Livre-arbítrio (VII)


Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:
                                        

Na perspectiva do nosso trabalho, a existência física, biológica, do organismo, precede a existência do cérebro. Corpo e cérebro, com as suas anatomias respectivas em interacção contínua e recursiva suportam a emergência da consciência e dos fenómenos mentais. Mas não somos só o produto da transmissão genética, mas também o produto da transmissão cultural. Há as múltiplas dimensões da vida — a dimensão biológica; a dimensão neurocientífica e a dimensão social. Apesar da "nova ordem política do mundo" ter mais caos do que ordem, a possibilidade de os seres humanos construírem o seu destino e serem verdadeiramente livres nunca foi tão grande. E o conhecimento pormenorizado do cérebro humano, para além daquilo que nos dá em matéria de tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas, é uma das armas principais dessa nova liberdade, no sentido amplo da palavra, tal como a usou Paul Éluard. E para que essa liberdade aumente, é necessário que floresça uma nova ciência integrada, que reunirá a biologia geral, a neurociência, e os produtos mais avançados da cultura humanística. António DAMÁSIO (cientista), O cérebro não é um computador, in Expresso, 13. 02.1993, A 8. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Atenção às sugestões




Em Maio, no S.Luiz, vai estar em cena Hécuba, de Eurípedes. Colm Toíbin, há não muito tempo, revisitou-a, de algum modo, em O novo Testamento de Maria. Regresso aos clássicos, intertextualidade com os grandes motivos da tradição que ainda preenche um tanto do imaginário ocidental, possibilidade de potenciar, também em este campo, os recursos endógenos, valorizar as humanidades e as pessoas que por cá, em diferentes àreas, a elas se dedicam, um modo outro de aproximação aos espectáculos - sugestões para tempos vindouros.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As humanidades contra o nivelamento por baixo


As coisas têm corrido bem. Criámos no CCB linhas complementares das que já existem e têm tido um enorme êxito, sobretudo nas humanidades, na maneira como as pessoas contactam com as realidades, com valores culturais, da mitologia à literatura portuguesa. (…)
As pessoas detestam ser niveladas pelo mais baixo, têm um sentido de dignidade própria e de que há formas de saber que estão ao alcance delas mesmo que a sua preparação não seja muito grande. (…)
As pessoas têm aderido: cada vez há mais pedidos de inscrição de gente de todos os grupos etários e sociais, estudantes, empregados e desempregados, reformados e não reformados. Cria-se ali um tipo de convivialidade que em parte se inspirou, embora com todas as diferenças necessárias, no Collège de France. O Collège de France é uma instituição criada pelo Francisco I, em 1530, em que os cursos são livres, dados por grandes especialistas, não custam dinheiro e não dão diplomas. É um tipo de proporcionar contacto com o saber a que não estamos habituados. Talvez por isso temos este êxito. Este ano vai ser muito emblemático no sentido identitário. Vamos ter coisas sobre a História de Portugal, sobre a história da língua portuguesa, sobre a geografia de Portugal, sobre história do teatro português, sobre história da literatura portuguesa, sobre a maneira de escrever português, uma série de coisas com uma coesão identitária. Penso que isso é importante neste momento.

Vasco Graça Moura em entrevista a Ana Sousa Dias, O impaciente europeu, Ler nº131 (Janeiro 2014), p.35.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Literatura na escola portuguesa


O único programa educativo que a Europa tem é o apagamento da Educação”, escreveu recentemente George Steiner. A desorientação das políticas educativas reféns das ideologias das últimas décadas a juntar a uma cultura que transforma tudo em entretenimento banal. Neste contexto assistimos ao desaparecimento da literatura de qualidade na sociedade em geral e nas escolas em particular.
(…)
[António Carlos Cortez e Helena Buesco]: É preciso pôr o dedo na ferida: muitos dos livros que se lêem hoje não são literatura. São outra coisa. Estão ao serviço de outros ganhos, os ganhos do mercado, não os ganhos dos cidadãos. Há que pôr o dedo na ferida e dizer que as políticas educativas para a leitura não se traduziram em resultados para a literatura. Se é através da literatura que a língua portuguesa atinge a sua máxima realização é fundamental que se tragam para o espaço público questões sobre que tipo de literatura estamos nós, os nossos jovens e as nossas crianças a ler, que mais-valias é que eles dão para uma educação de alto nível e para uma cidadania e interventiva (…) Quais as relações entre o público-alvo e a necessária missão educativa dos livros? Que responsabilidades devem ser atribuídas a editores, escritores e professores/escola? Que tipo de literatura fomenta a leitura crítica, exigente, responsável? Que papel cabe ao jornalismo e à Universidade uma vez que nos parece deficitária a educação literária entre os alunos que frequentam hoje a escola em Portugal, impõem-se uma ampla reflexão em torno das vantagens que o ensino do texto literário possibilita. O entrecruzamento da Literatura com disciplinas como História e a Filosofia, mas também com as ciências e as artes, promove o alargamento da compreensão do mundo e conduz a uma formação mais sólida e consciente da personalidade e da cidadania (…)
Lê-se cada vez mais, porém os livros que se editam e os textos que enchem os manuais escolares “não trazem qualquer desafio, visam apenas o entretenimento, não tem um trabalho de linguagem que dê ferramentas para pensar que só a verdadeira literatura tem. Se nos lembrarmos que no início do milénio se retiraram uma série de autores clássicos como Camilo ou Herculano a pretexto de “serem demasiado difíceis e longínquos” para uma juventude que se quer a saber muita matemática, mas a não ter palavras para explicar o que vê, nem para expressar o que pensa, então percebemos que caímos num logro e que portanto é urgente questionar que formação é que os alunos têm a reboque dos livros que lêem e dos que não lêem. É urgente voltarmos a confrontar os jovens com formas literárias complexas como a poesia, o ensaio, a crítica, e isso implica repensar a forma como está a ser ensinada a literatura uma vez que não se trata apenas de veicular textos para adquirir supostas competências “pedagogicamente correctas”. (…)
Este é um tempo difícil, movediço, há uma grande manipulação ideológica e cultural sobre o que é o mercado editorial nomeadamente pelo facto de que neste momento são os grandes grupos editoriais que decidem o que lemos, logo como pensamos, que mundividência temos, que vocabulário temos, que imaginário fazem imperar na nossa cultura. Portanto o ensino parece-nos o lugar a intervir, é urgente que a literatura regresse aos programas escolares e que alunos e professores sejam confrontados com textos complexos, com o pensamento crítico da literatura e o tempo cultural em que cada livro se insere. (…)
Quando retiramos a complexidade dos textos retiramos aos alunos a possibilidade de alcançarem uma maior amplitude. Hoje vemos que há toda uma geração que não sabe interpretar os conteúdos das mensagens que lhe são transmitidas, que não tem vocabulário para falar, nem para pensar. Há uma imaturidade generalizada nos jovens em consequência dessa imaturidade pressuposta por aqueles que acharam que os alunos eram incapazes de ler António Ferreira no 8º ano, ou Alexandre Herculano, ou Camilo Castelo Branco. Foi a ditadura do banal imposta pelas Ciências da Educação e dos seus bons sentimentos que levou à perda de uma geração inteira que não sabe escrever, que lê pouquíssimo, porque se patrocinou uma literatura infantil, uma literatura de entretenimento. (…)
A propósito do provincianismo português Fernando Pessoa escreveu, na revista Águia, que todo o povo que é provinciano tem uma espécie de fetichismo da técnica. E os portugueses são assim. Substituíram a cultura por um hiperfascínio em relação a tudo o que é da ordem da máquina, do imediato, do concreto. Por isso temos hoje um problema que é: pensamos ao nível das operações concretas mas não sabemos pensar ao nível do abstracto e do simbólico. Há uma obsessão pelo pensamento estatístico e um decrescimento do pensamento crítico humanista, coisa que já aconteceu em outras épocas muito perigosas. O filósofo alemão Martin Heidegger, nos anos 1920, já avisava sobre os malefícios da sobreposição da linguagem da técnica sobre a linguagem da tradição. E um dos perigos é o estreitamento do interesse pelas humanidades, e esse desconhecimento da cultura humanista leva ao surgimento de políticas e a políticos como os que temos hoje em dia na Europa, uma geração com muito pouco saber cultural, sem cultura humanista e portanto vê o sujeito como coisa dispensável. (…)
É preciso ensinar todos os tipos de texto para lhes dar ferramentas: vocabulário, capacidade de pensar, de comentar o que lêem, de ter um olhar crítico sobre as suas experiências de vida e o mundo que os rodeia. É um grande equívoco essa ideia de que os jovens começam por ler coisas ligeiras e depois passam para textos complexos. Não é verdade: a maior parte das pessoas que lê é literatura light continua a ser apenas capaz de ler essa literatura. (…)
É preciso dar às gerações mais novas, a todos, um ensino democrático e a literatura é sempre uma intervenção democrática, que visa a democracia. Faltam-nos portanto políticas de literatura que se sobreponham ao paradigma económico que está a roubar às pessoas o contacto com a melhor literatura que se produziu e produz na nossa língua.


Joana Emídio Marques, A urgência da literatura contra a ditadura do entretenimento, entrevista feita a António Carlos Cortez e Helena Buesco, QI nº 122, Ano 3, Sábado, 11 de Janeiro de 2014, p.10-12.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nota de tradução


Na nota dos tradutores de A simbólica do mal, de Paul Ricoeur, obra editada em português, este ano, pela Edições70, é-nos dada a indicação de que na altura em que o livro foi publicado originalmente (1960) o autor pressupunha que os seus leitores fossem familiares do/com o grego antigo (e daí um conjunto de expressões em tal língua). Hoje, contudo, verifica-se a necessidade de esta publicação vir acrescentada de um glossário, para compreendermos aquelas expressões. Um exemplo ilustrativo de como a nossa educação, pelo menos em um patamar médio (i.é., para lá do Básico) e nas Humanidades, mudou – íamos a dizer, regrediu – nos últimos 50 anos. O diagnóstico, de resto, está em linha com o que, recorrentemente, George Steiner apresenta, quando se refere ao acolhimento que as obras da antiguidade clássica – ou que para ela remetem – vão merecendo: em cada nova edição, aumenta, exponencialmente, o número – e o tamanho – das notas de rodapé, porque cada nova geração sabe menos (do que a anterior) sobre esses mesmos clássicos greco-romanos (e o mundo que os produziu/em que vivem).

P.S: A este propósito, recorde-se Paul Roger-Droit, os clássicos e a justiça social.