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sábado, 18 de agosto de 2018

Lutar por um modo de vida?


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Na edição de Abril (2018), da revista de História, do JN, José Pedro Teixeira Fernandes inventariava um extenso catálogo de literatura "decadentista" acerca do Ocidente publicada nos últimos 15 anos (mesmo que vária dela sem presença entre editoras portuguesas), aliás na senda de uma tradição bem mais remota (mas com a aspiração a específicos motivos, situados na nossa história mais recente, para ter lugar e se desenvolver de modo prolixo também nesta década e meia). Ora, o penúltimo dos títulos sublinhados pelo Professor, A estranha morte da Europa. Imigração, Identidade e Religião, de Douglas Murray, publicado pela Desassossego (tradução de Jorge Colaço), foi uma das leituras que fiz nestas férias.

Se quiséssemos, em termos macro, situar a tese de Murray, ela talvez pudesse ser sintetizada do seguinte modo: a imigração em massa para a Europa desenvolve-se num tempo em que a Europa se encontra despida de crenças e convicções. Para lá do foco na "diversidade, tolerância e respeito", a Europa nada teria para oferecer, de substantivo, a quem aqui nasce. O que é que somos? Como nos definimos, nós europeus? 
Passamos, desde há bastante tempo, por um período de cansaço, exaustão, esgotamento. E isso não pode apenas associar-se a um tipo de trabalho, à tecnologia, a um dado sistema económico. Esta fadiga repousaria, última ratio, em uma perda de sentido vital.
A crença em Deus foi-se, segundo o autor, em grande medida, com a exegese bíblica e o darwinismo (mais viçosa nas seitas evangélicas, mas feita de grande ignorância, mais fraca entre o público católico); a arte, putativo sucedâneo da religião, não conseguiu alcançar esse desiderato; a filosofia sofreu imenso, e passou 50 anos a desconstruir: não acreditamos na verdade, no conhecimento, na linguagem, em afirmar algo (pela positiva); a crença no homem perdeu-se em Auschwitz.
Acontece que as catedrais estão aí, ergueu-se um constructo (maxime, direitos humanos) que é um secularismo de raíz cristã (mas mesmo a defesa destes direitos humanos, sem as crenças que lhe deram origem, poderá estar em causa). Um sistema cultural formou-se. Um modo de vida. Não é previsível que encontremos outro (de iguais dimensões). E, se o encontrássemos, dificilmente seria melhor. Parece cada vez mais claro que Ernst Wolfgang Bockenforde teria razão quando suspeitou que o liberalismo político (o Estado Liberal) nutria-se (nutre-se) de pressupostos normativos que não podia garantir. Dito de outro modo, há um conjunto de liberdades que temos que tudo devem a uma tradição em que assentam. Uma tradição que passa por Atenas, Roma, Jerusalém (judeo-cristianismo) e o Iluminismo. O universalismo desse liberalismo surge, hoje, claramente questionado (embora, seja certo, inclusive no interior da Europa e por europeus "nativos", como vemos quando olhamos a Leste).
O que somos? Somos cristãos, é a resposta ou, mais rigorosamente, a proposta de Murray, mesmo que apenas, no caso de não crentes, cristãos culturais; (Murray cita Bento XVI quando este pedia aos não crentes que "vivam como se Deus existisse" e sublinhava a necessidade de filosofia e teologia dialogarem em permanência) e crentes e não crentes deveriam, em vez de digladiar-se, juntar-se na defesa de uma cultura - dessa cultura que fez um modo de vida - e que, se não defendida, dado a história ter horror ao vazio, pode ser (ou inevitavelmente será) substituída por outra. Sim, aqui se encontra o cerne da questão: o modo de vida que concebe a separação entre a Igreja e o Estado, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão (em termos amplos, normalmente com a inevitabilidade de alguém, aqui ou ali, se sentir ofendido), igualdade de direitos entre homens e mulheres, respeito por estas, bem como por minoria sexuais (mesmo que se possa falar de um constante work in progress). Não se pode ser tolerante com a intolerância, múltiplas regras, de sinal contrário, no mesmo Estado, não funcionam; o caos ou confusão (actual) pode dar lugar a uma definição de vida colectiva que remeta os adquiridos, as liberdades vindas de mencionar, para o baú da história, se não nos comprometermos com eles (e os europeus perderam o "sentido trágico da vida", a noção de que sem compromisso com a fonte a partir da qual foi possível um determinado desenvolvimento histórico, este entra em crise; perderam a noção de que a história não chegou ao fim e não temos, sem lutarmos por estas realidades, nenhuma garantia de que elas permanecem eternamente), porque uma cultura e um modo de vida assim - eis o universalismo deste questionado - não parecem verificados em todas as latitudes (sim, nós acreditamos na universalidade destes valores, mas sabendo que estes valores se desenvolveram à luz de uma tradição e de uma história; que cheguem a todos, em todo o lado, é um desejo, e já foi um empenho, a partir de aqui). 
Quem vem para a Europa não tem as mesmas dúvidas, ou o mesmo medo que os europeus possuem; não se encontra cansado, esgotado, exaurido existencialmente como os europeus parecem encontrar-se (há uma ampla literatura do "cansaço" ou do "esgotamento" na Alemanha); uma confiança que faz com tenham uma energia (vital) - também, registe-se, as certezas literais de que se nutrem, conquistadas por falta da mesma exegese que, inversamente, vemos no Cristianismo, quanto a uma sistema de crenças que perfilham; evidentemente, fala-se, neste livro do Islão - que poderá implicar uma transformação das nossas sociedades (para pior; limitação drástica da liberdade de expressão, ausência de liberdade religiosa, não separação do poder temporal do espiritual, mulheres sem o reconhecimento da mesma dignidade e direitos que os homens, minorias sexuais sem lugar) em décadas vindouras (sendo que embora se fale do Islão como um todo, também, depois, se diferencie, nesta obra, dado que, ainda na Europa, a maioria dos muçulmanos mortos, nos últimos anos, foi-o por outros muçulmanos; nomeadamente, foram assassinados muçulmanos que se filiavam em correntes minoritárias do Islão, pelo que o embate na Europa, no Islão é também intra-religioso ou intra-cultural). 
Neste contexto, se a atitude crítica face à nossa cultura (que recobre a Europa), ao nosso passado faz parte dela (e é um núcleo feliz da mesma), e é saudável, pois sem esse registo crítico ela não teria futuro, já o permanente escarnecimento dela, a ausência de apreço manifestado por ela parece colocá-la em risco ("se a cultura que molda a Europa Ocidental não tem lugar no seu futuro, há outras culturas e tradições que seguramente avançarão para tomar o seu lugar. Voltar a injectar a nossa própria cultura com um senso de finalidade mais profundo não precisa de ser uma missão proselitista, mas simplesmente uma aspiração de que deveríamos estar conscientes. É claro que é sempre possível que a maré da fé, que começou o seu longo rugido de retirada no século XIX, volte a encher. Mas quer ela proceda ou não a uma reparação da cultura, será impossível se o religioso pensar que aqueles que se separaram da mesma árvore são o seu maior problema, enquanto os do ramo secular tentam cortá-lo para se separarem da árvore como um todo. Muitas pessoas conseguem sentir a dor dessa separação e o desejo subsequente de significado que emana das águas pouco fundas. Ocorreu uma divisão na nossa cultura que levará o trabalho de uma geração a consertar", p.299)..
Nos livros de Michel Houellebecq - que Douglas Murray considera o "escritor emblemático do nosso tempo", por ter, nos seus livros, vários personagens profundamente niilistas, e o próprio autor assim se apresentar, não raro - perpassa a noção, pelo menos como captação do "espírito do tempo" com uma "lucidez depressiva", de que afora momentâneos prazeres (sexuais), nada parece valer a pena nesta vida (e, acrescenta Murray, que uma escrita de qualidade como a de Houellebecq, e não lixo, venda tanto, sugere uma certa aproximação do leitor aos sentimentos, perspectivas que perpassam os personagens). O que o editor associado de The Spectator, e ex director do Centre for Social Cohesion reflecte, neste A estranha morte da Europa, em continuidade com a derrisão de Houellebecq é o seguinte: sim, a discoteca, momentaneamente, pode ser um lugar do qual se gosta. A nossa cultura indicou a discoteca como (o) lugar. Como único lugar - metáfora de uma sociedade para a qual afora prazeres, não há nada (que interesse ou importe); o mesmo diagnóstico de Vargas Llosa sobre o entretenimento e o espectáculo como o exclusivo na nossa cultura (não há mais vida para além do entretenimento), e de vários autores e até com maior densidade, como na altura aqui sublinhámos, antes dele. 
Ora, o humano, e o europeu em concreto, percebe que a discoteca não preenche(u) a sua ânsia de sentido. O vazio permanece após o ocasional prazer (ou, se se quiser, a soma destes prazeres não o preenche). Murray assistiu a como europeus, face ao niilismo vigente, aderiram, converteram-se ao radicalismo islâmico (que lhes dê um sentido, um propósito, uma finalidade). Nem a pessoa aceita degradar-se em exclusivo consumidor. E sabe, quer o queira reconhecer quer não, que a promessa da ciência, de que tudo explicaria, de modo nenhum dá vazão ao mistério com que cada um se confronta, rodeia, percebe, absorve, intui. E não ignora que uma sociedade sem anima (alma), sem convicções, sem crenças, sem motivações fundas para existir/fazer/edificar não constrói, não ergue nada de relevante. "Uma sociedade que diz que somos definidos exclusivamente pelo bar e pela discoteca, pela autoindulgência e pela sensação de ter direitos, não se pode dizer que tenha raízes profundas ou muita probabilidade de sobrevivência. Mas uma sociedade que sustente que a nossa cultura consiste na catedral, na casa de espectáculos e no campo de jogos, no centro comercial e em Shakespeare, tem hipóteses" (p.298).
Atacada pelo autor pela política migratória prosseguida, Angela Merkel é, contudo e paradoxalmente, aquela que deixa um balanço das questões que se colocam à Europa, e à que tem sido a sua cultura, do qual, creio, A estranha morte da Europa mais se aproximará. Questionada, no final da sessão, em 2015, em que recebeu um doutoramento honoris causa, em Berna, acerca da relação da Alemanha com o Islão, Angela Merkel respondeu da seguinte forma - e eu sublinho diálogo, porque jamais se poderia desejar qualquer transe de tipo bélico e ainda porque para dialogar é necessário conhecermos bem as razões do nosso falar, do que queremos dizer:

«Temos o debate sobre se o Islão é parte da Alemanha. Quando se tem quatro milhões de muçulmanos no nosso país, acho que não temos de discutir sobre os muçulmanos são ou não, agora, uma parte da Alemanha e o Islão não é, ou se o Islão é também uma parte da Alemanha (...) Claro que temos todos a possibilidade e a liberdade de ter o culto da nossa própria religião (...) E se estou a deixar escapar alguma coisa em tudo isto, não seja que estou de alguma forma a censurar quem quer que seja por ser fiel à fé muçulmana, mas sim que então devemos ser corajosos o suficiente para dizer que somos cristãos, sermos corajosos o suficiente para dizer que estamos a entrar num diálogo. Mas, então, por favor, na base de também ter tradições - ir ocasionalmente a um serviço religioso, ser um pouco versado na Bíblica, e talvez também saber como explicar uma pintura na Igreja. E se pedíssemos ensaios, na Alemanha, sobre o que significa o Pentecostes, diria que o conhecimento do Ocidente cristão não é tão grande. E, depois, acho um pouco estranho, em consequência, queixarmo-nos de que os muçulmanos conhecem o Corão melhor. E talvez este debate possa levar a que ocasionalmente consideremos as nossas próprios raízes e ganhemos um pouco mais de conhecimento acerca disto. A história europeia é tão rica em conflitos dramáticos e horríveis, que deveríamos ter muito cuidado quando nos queixamos de imediato se alguma coisa má acontece noutro sítio qualquer. Temos de ir contra isto, tentar lutar contra isto, mas não temos quaisquer motivos para sermos arrogantes, devo dizer. Digo isto agora como chanceler alemã» (pp.202-203).

Acrescentou Murray, "Merkel foi muito elogiada nos media alemães pela coragem e sabedoria desta resposta".

P.S.: como várias vezes me acontece, quis ler um livro para me confrontar com posições, à partida, diversas das minhas, neste caso relativamente às migrações e à imigração para a Europa - sabia que o autor apresentava posições de um maior fechamento, neste âmbito. E em outros textos situarei e pontuarei essas diferenças que relevo. De qualquer modo, também não posso deixar de sublinhar esta matriz que me parece não negligenciável; bem pelo contrário.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Pinceladas sobre Portugal

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Comecei a perceber claramente quais eram as perguntas dos americanos sobre as crianças portuguesas. Coisas do género: porque é que os pais não se envolvem na escola; porque é que numa redação os alunos escrevem coisas poéticas e abstractas e não respondem directamente; porque é que não são disciplinados a estudar; porque é que têm pouco rigor analítico; porque é que falam todos ao mesmo tempo...(...) Fui tentando ler o que havia sobre este tema e começaram a surgir temas recorrentes na história do pensamento português: a obsessão com os Descobrimentos, depois a queda, os estrangeirados, a obsessão com a decadência, a Renascença (...) Teixeira de Pascoaes, que é um excelente poeta, mas como pensador é muito frágil. Ele tem um livro chamado "A arte de ser português" e o que lá está é muito pobre...Criou uma imagem muito redutora do que é ser português. Diz, por exemplo, que os portugueses não são um povo inteligente, somos fundamentalmente emotivos, e toda a gente acha aquilo magnífico! (...) Não há uma identidade portuguesa imutável, nós temos sido várias coisas. (...) Sim, [o passado, os Descobrimentos] é uma obsessão constante. Os portugueses têm um grande complexo de inferioridade em relação ao centro e ao norte da Europa. E a única salvação é o "também já fomos grandes!" (...) É um mito [que a saudade seja um sentimento português e intraduzível]. Abusa-se da palavra saudade. Para os portugueses tudo é saudade, até há saudades do futuro! E não é verdade que seja intraduzível, os outros também têm saudade. Os ingleses expressam-na com "I'm missing", "I'm longing" ou "homesick", por exemplo (...) Vejo uma diferença abissal em relação ao que conheci nos anos 60; não há comparação possível. As pessoas queixam-se, mas, apesar de todos os problemas que tem, Portugal é hoje um país aberto, com gente imensamente capaz, informada, empreendedora (...) É um país bonito, que tem uma variedade geográfica muito interessante, desde o Gerês à zona das Beiras, à Arrábida, à paisagem do Alentejo, o Douro...A nossa geografia e a nossa arquitectura não são grandiosas, mas são graciosas. Felizmente, graças aos apoios europeus, preservou-se o centro de muitas cidades e vilas históricas (...) Adoro passear por este Portugal encantador, faço-o muitas vezes (...) Sente-se uma harmonia, uma paz e uma serenidade que não se encontra noutros sítios (...) Irrita-me o barulho que se faz à mesa nos jantares, não se consegue conversar. Há pouca curiosidade em conversar sobre assuntos mais sérios, dificilmente se dialoga. Depois, as pessoas aqui sabem tudo sobre o mundo, têm sempre lições e soluções para todas as questões. Fala-se muito e ouve-se pouco (...) Quando discuto ideias, discuto-as a sério. Em Portugal, acabo a contar anedotas e histórias porque não dá para muito mais. Em vez de me irritar, passa-se um serão agradável entre amigos.

Onésimo Teotónio Almeida, Expresso, Revista, Edição nº2320, 15-04-2017, entrevista concedida a Nélson Marques, pp.57-62

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Juventude. E praxe (III)


23. O ponto de vista de Elísio Estanque acerca da praxe e da juventude estudantil - a praxe, no fundo, como pretexto, para falar desta, como reconhece - não é a de um moralista: "o que aqui me move não é tecer um juízo moral sobre praxistas ou anti-praxistas. O que interessa é compreender o que leva esta juventude a praticar acções que muitas vezes agridem os mais elementares direitos humanos, promovendo modalidades degradantes de relacionamento ou recriando-as com contornos ainda mais perversos do que as anteriores" (p.168). É neste contexto, aliás, que o académico (em Coimbra) se manifesta contra a proibição, ou criminalização da praxe: "de pouco adianta clamar pela criminalização desses comportamentos ou expulsá-los do campo da Universidade quando eles tendem a perpetuar-se e a metamorfosear-se, mesmo fora do espaço público, onde podem assumir contornos eventualmente ainda mais obscuros (e sem controlo)" (p.173). E aponta o caso do Meco (como possível metamorfose e como tendo ocorrido extra-muros da Universidade).

24. Por outro lado, sem novidade, pergunta se sendo as praxes descritas como tendo um escopo integrador, outras iniciativas não haveria que cumprissem melhor esse desiderato. Um artigo, originalmente dado à estampa pelo jornal Público, mas aqui recuperado, da autoria de Julieta Rodrigues, investigadora-convidada numa universidade americana, expõe alternativas, com base em experiência comparada: "O que fazem as universidades - as universidades que merecem esse nome, pois são locais de transmissão de conhecimentos adquiridos por toda a humanidade - para integrar, como deve ser, os novos alunos? Algumas designam três dias no início do ano lectivo - três dias - para a integração do corpo discente. Dias em que os caloiros, acompanhados das famílias, dos namorados e namoradas, etc., participam em actividades comuns com vista a uma passagem "suave" - de facto cool - para o novo ambiente estudantil. O que se faz nestes três dias? De facto, faz-se de tudo um pouco. O Programa de Orientação vai desde sessões de esclarecimento a diversas e inúmeras actividades lúdicas. É atempadamente colocado na Internet, onde são designados os temas a abordar, os respectivos locais de encontro e toda uma gama de espectáculos à disposição. Quem quiser pode levar três dias inteiros a passear-se de um lado para o outro no campus, a conviver saudavelmente, a divertir-se, a decidir quem quer ser. Há espaços para almoçar e jantar: uns são pagos pelos utentes, outros são pagos pela Universidade.
Seguem-se alguns exemplos. Os alunos matriculam-se nas cadeiras que desejam frequentar (o leque à escolha é enorme) e vão, concomitantemente, dialogar com os professores que serão os seus supervisores ao longo do ano. Seguem-se as sessões de esclarecimento em que debatem todos os temas que se possa imaginar. Há sessões com um grande número de participantes em que a Universidade apresenta, por exemplo, o seu programa desportivo. As sessões com um número reduzido de participantes (12 alunos, os pais, irmão, e namorados/as) têm um enorme interesse. Aí se debatem questões ligadas às cadeiras e às matérias - sempre em diálogo, pois aqui a chamada "conferência" não existe. A saber, por exemplo: o que se passa se o aluno entrega um trabalho copiado da Internet? Poderá ser expulso? Mas estas sessões vão muito para além do debate académico e focam-se em temas de carácter pessoal: desde sexo a drogas, à possibilidade de adquirir um cartão de crédito. Questões que, à primeira vista, parecerão comezinhas, têm uma importância fundamental. Um caloiro poderá perguntar à mãe (presente na sala) se esta se vai sentir abandonada quando ele lhe disser que em vez de todos os dias apenas pretende, doravante, falar com ela duas vezes por semana. Os pais, por sua vez, têm também imensas perguntas. Que língua deverá o filho/a estudar, se quer um futuro num contexto internacional? Ou: quais são os contactos de emergência que a Universidade coloca ao seu dispor? As questões académicas regem-se pelos estatutos da Universidade e o quadro moral de referência é bem delineado. E todos têm oportunidade de o conhecer" (pp.175-176)

25. A comparação entre a praxe e o domínio militar (bem como de organizações secretas) é, não raro, arguida e o Professor também a traz à colação, seja em registo impressionista - "a atmosfera fez-me lembrar as formaturas da vida militar mas a disposição, a fraca iluminação e os movimentos do grupo dominante (suponho que a comissão de praxe), posicionando-se na mesa em cima do palco, remetiam para ritos conotados com organizações secretas de outra natureza. Sob a penumbra, as vozes de comando debitavam instruções e conselhos aos caloiros atentos e em cujos rostos se pressentia um misto de temor, curiosidade e deslumbramento"(p.165), seja em entrevistas que promoveu para a obra que assim nos apresenta (assim, um veterano, diz ao entrevistador que "o surgimento dos abusos se deveu ao que chama 'a militarização da praxe', ligada aos tempos em que muitos estudantes saíram da vida militar para completar os seus cursos" (p.184)

26. O caso mais brutal de descrição de uma praxe, ínsito em Praxe e tradições académicas é, também, respigado de um testemunho prestado ao Público (publicado a 05/05/2014): "Apanhados numa aula, fomos todos levados para um anfiteatro (dentro da faculdade, note-se) onde nos davam a beber um copo de 'cerveja' ou outra coisa semelhante a que chamavam a 'prova de confiança'. Quem passava essa etapa sentava-se e, aparentemente, estaria integrado no grupo dos caloiros 'obedientes'. Quem se recusava, que foi o meu caso...Vi o meu cabelo todo cortado. Sem hipóteses de me defender, chorei de mágoa. Sei que me agarraram, bateram...Uma brutalidade. Porém, como se isso não bastasse, houve uma 'besta' que decidiu que tinham de me despir. Urinaram para cima de mim e todos aplaudiam com grande euforia. Finalmente, quando se preparavam para me obrigar a beijar o sexo da 'besta', reagi e comecei a defender-me como podia. Bateram-me e arrastaram-me para uma casa de banho...O resto não preciso de dizer o que se passou" (p.169)

27. Igualmente pungente, uma carta de uma veterana arrependida (Raquel Rodrigues, que fez Direito na Universidade de Lisboa): "Usei a minha antiguidade enquanto aluna para vos tornar submissos. Pedi-vos que não me olhassem nos olhos. Determinei e ordenei castigos. Pintei-vos a cara, atirei-vos farinha para cima, chamei-vos 'bestas'. Gritei convosco quando não tinha qualquer autoridade para o fazer e obriguei-vos a cantar músicas, a gritar obscenidades, a tratar-me por 'Exma. senhora veterana'. Não fui excelentíssima em nada. Fui grotesca. E, enquanto escrevo estas linhas, dói-me pensar que fui assim algum dia. Dói-me pensar que o fiz por um dia ter sido como vocês, por saber como era ser 'um passarinho perdido' e ter-me aproveitado disso. E peço-vos perdão - peço-vos mesmo que tenham sentido que fizeram alguma coisa obrigados" (pp.169/170).

28. Ainda neste âmbito,  o texto indignado da escritora Teolinda Gersão sobre actos que presenciou pela tv: "Caros caloiros: certamente sabem que, na praxe coimbrã, mãe de todas as praxes, o caloiro é tradicionalmente 'o animal'. Como julgo que sabem, segundo a lei nº 69/2014, de 29 de Agosto, no nosso país os animais passaram a estar protegidos de maus tratos, o que abrange qualquer tipo de coação física: dor, sofrimento, privação de alimentos, abandono, mutilação ou morte. A pena mais pesada pode ir até dois anos de prisão efectiva (...) Milhares de espectadores viram, como eu, imagens gravadas no Pátio da Universidade, em Coimbra, em que um grande grupo de caloiros, cercado por um grupo igualmente grande de não caloiros, recebeu ordens para se ajoelhar no chão, inclinar-se para a frente e baixar as calças. Dispenso-me de descrever a cena de humilhação e sadismo que aconteceu a seguir, e ficou registada nas imagens da TV. No entanto, intocável, acima dos professores, instituições e até da lei, que assegura aos cidadãos direitos, liberdades e garantias, que impedem qualquer tipo de violência e humilhação. No entanto, estranhamente, para vocês, a praxe parece ter um poder incontestável - embora ela não tenha qualquer validade jurídica, nem sequer obedeça a princípios racionais. (...) Em situações de perigo ou de desastre, se as praxes descambarem também em tragédia (...) consideram que ninguém tem que interferir (...), juram a pés juntos que são irrelevantes brincadeiras (...): em caso de tudo correr mal, dir-se-à que vocês lá estavam por vontade própria, e que, se lá estavam, não estivessem. Mas dói-me pensar que vocês pretendem ser descartados desta forma. Se querem ser 'animais', com ou sem aspas, então sejam. Boa sorte. Qualquer cão ou gato está muito mais protegido que vocês" (pp.171-172)

29. Um outro plano da discussão prende-se com a mudança operada em quem passa de praxado a praxador: "[muitas vezes] quando se encontram na condição de caloiros permanecem expectantes ou até com medo; às vezes acham as brincadeiras patéticas, sem sentido, e toda aquela encenação ridícula. Depois mudam. A partir do momento em que vestem o traje e passam para "o lado de lá" começam a comportar-se de modo diferente. As/os próprias/os se surpreendem com isso [testemunha pronuncia-se nesse sentido, no livro]. Mudar de 'posto' implica passar a actuar de acordo com o que se espera da nova 'patente'. Numa palavra, a lógica de dominação não se altera só porque ocorre uma mudança de protagonistas. O poder social é, com efeito, mais perverso e insinuante do que parece. Estes estudantes podem nunca ler Michel Foucault ou Pierre Bordieu, mas com certeza aprendem rapidamente a desempenhar a função de veículos da capilaridade do poder simbólico e reproduzem-no em larga escala" (pp.167-168) ["os momentos de submissão são vividos segundo a perspectiva de quem se imagina 'do lado de lá' ", p.220]

30. Carlos Amaral Dias, psiquiatra, recorda o 'julgamento' de que foi vítima, nos anos 60 e explora a especial perversidade de que se revestiu: "Era caloiro, num período em que as praxes se conjugavam com as actividades de resistência do movimento estudantil. Mandaram-no sentar num bacio, que aparentemente estava cheio de urina, e fazer um discurso. Sentei-me ali com a alma empenada. Lá fiz o discurso. E, no fim, um [dos estudantes mais velhos] disse: 'Acha que eu mandava sentar num penico de urina? Não vê que isso é chá que pus aí?' E era chá. E aí ele exerceu um poder mais forte do que se fosse mesmo urina. O poder de me mostrar quão magnânimo ele era". E o psicanalista conclui que 'essa é a pior forma de despotismo (...)" (pp.165-166)

31. Em jeito de síntese: "Os estudantes vivem numa grande insegurança e quando chegam à Universidade a sua vulnerabilidade individual fica mais exposta. É patente a dificuldade em construírem espaços de autonomia e iniciativas empreendedoras no plano pessoal. Daí a importância do grupo" (p.220). Se, historicamente, as tradições académicas e a praxe, no contexto português, puderam, num dado lapso temporal, exercer uma função importante do ponto de vista crítico (societário), e sendo que "é importante assumir que a cultura cívica é sempre reflexo da mentalidade dominante e do nível de desenvolvimento de uma sociedade. Mas se as futuras elites [os dirigentes políticos e económicos do futuro, que saem das universidades; uma coisa é a massificação contraditar com elite, em sentido numérico, pelo menos; outra é não anotar que, quase todas as lideranças políticas, saem das Universidades] formadas nas universidades se limitarem a reproduzir os modelos da sociedade mais geral é sinal que a juventude estudantil abdicou do seu papel de consciência crítica face à ordem social vigente"(p.226), hoje assiste-se a "uma forte tendência para o esvaziamento do debate intelectual e político entre os estudantes. Antes, o espírito de grupo conduzia a um maior envolvimento na discussão e a uma maior consciencialização sociopolítica. Hoje, o retrato que é possível obter é o de um colectivismo fortemente 'canibalizado' pelo ritualismo estéril e por vezes recheado de perversões que agridem as regras de convivialidade e de respeito pelo outro. Qualquer generalização é sempre abusiva, mas, à parte os segmentos minoritários (também sinalizados neste livro), as grandes multidões que animam o espaço festivo contrastam de forma chocante com a escassez de estudantes em eventos culturais, em Assembleias de estudantes, em encontros das estruturas estudantis, em seminários e conferências, em iniciativas cívicas e até nos próprios actos eleitorais do associativismo" (pp.224-225). 

32. Em sentido divergente, os as juventudes partidárias, "onde a militância tende a obedecer a um sentido aguçado de construção de carreiras individuais suportadas por lealdades pessoais esvaziadas de valores ideológicos". E, assim, "o contexto da praxe fornece o principal campo de aliciamento e recrutamento para futuros alinhamentos de natureza associativa ou partidária (...) As juventudes partidárias navegam neste meio e procuram dele sair beneficiadas. Relações entre padrinhos e afilhados, vínculos estabelecidos entre membros de uma mesma 'tertúlia' praxista, tornam-se facilmente redes de articulação" (pp.225-226)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Pós-passismo



Primeiro, foi Nuno Morais Sarmento na entrevista a Vítor Gonçalves. O tiro para o pós-passismo, se a oportunidade se proporcionar, chegou, o novo governo acabado de tomar posse, com a bengala da evocação de uma (suposta) deriva esquerdista do PS: agora que o Partido Socialista se radicalizou à esquerda, disse Sarmento, é fundamental que o PSD esteja ao centro. O partido precisa de se recentrar, porque isso é fundamental para a sociedade portuguesa. É certo que o confesso barrosista nunca remeteu para termos como social-democracia, ou outras expressões mais ousadas (quando não equívocas). Habilmente, o ex-ministro afirmou que nunca, como agora, Passos Coelho tem o apoio do partido, dado ter ganho eleições em circunstâncias eleitoralmente menos propícias. Num primeiro momento, assim será. O antigo comentador da RTP concluiu, já lá vão duas semanas, com a afirmação de que PSD e CDS devem seguir separados (ainda que com alguns acordos, nomeadamente em matéria orçamental).

Depois de Nuno Morais Sarmento, Miguel Albuquerque, na RR, afinou pelo mesmo diapasão: a coligação PaF deve desfazer-se. O jornalista da Renascença nota mais: o silêncio quando se fala da liderança do partido é muito significativo, as frases de apoio a Passos Coelho adquirem um tom excessivamente formal, frio. Algo que, em alguém tido como próximo do actual líder do PSD, não deixa de ser, de facto, surpreendente.

No programa Falar Claro, também José Eduardo Martins deu voz aos que expressam descontentamento com a possibilidade da coligação, à direita, se manter. E, se o social-democrata não antevê Passos fora do poder (no PSD), é muito crítico dos que o acompanham e, mais ainda, recusa, definitivamente, fazer parte de qualquer direcção social-democrata presidida por Passos Coelho.

Nuno Morais Sarmento - como por exemplo, Nuno Rogeiro, na Sábado elogiaram, ainda, a competência e capacidade política de António Costa para firmar os acordos que o levaram ao Governo.

Manuela Ferreira Leite repete, a cada quinta-feira, que fica chocada cada vez que alguém diz que o PSD é um partido de direita.

Quer dizer, tudo visto e somado, está, com efeito, criado um caldo de cultura no interior do PSD favorável a mudanças internas - que poderão ter múltiplas e diferentes expressões, mas que, como é evidente, tenderão a afectar a liderança se o novo Governo durar mais tempo do que aquele mínimo que recolocaria, inevitavelmente, Passos Coelho na liderança de um Governo que substituiria um que (eventualmente) se fragmentasse. Claro que experimentado, desde há décadas, no mundo das juventudes partidárias, fazendo um longo percurso partidário, Passos Coelho já se apercebeu do agitar de águas. A política, como o próprio sabe, não se dá com complacências; é implacável. "Se não tiveres eleições no país, vais tê-las no partido", poderia repetir-lhe, hoje, Marco António Costa.

É um pouco neste contexto que situo, até, a mais recente polémica criada com Pacheco Pereira. Se as àguas internas se agitam, necessário é criar uma nuvem de fumo. Mas num PSD que, em o actual Governo se aguentando duradouramente - hipótese muito discutível, diga-se -, ainda que não por genuína convicção, mas por táctica a maioria entendesse que o caminho centrista, menos liberal e mais social-democrata fariam sentido, então ao historiador poderia estar reservado, muito ironicamente (embora sem excessiva surpresa olhando ao modo como os partidos votam, mudando de rumo interno, às vezes radicalmente, com um grande facilidade ou irreflexão ideológico-programática), de não pouco relevo. De aí que me surpreenda, sim, de algum modo, que no caminho para um novo centro em Portugal, Pacheco Pereira não apoie, de imediato, Marcelo Rebelo de Sousa - fazendo desse apoio a leitura que, por exemplo, um Pedro Marques Lopes tem dado a uma vitória marcelista (na reconfiguração da social-democracia à portuguesa).
Possivelmente, a excessiva proximidade temporal com o período que antecedeu as últimas legislativas, as cumplicidades programáticas, pessoais formadas, ou a compreensão de que Marcelo é demasiado inteligente para se deixar acantonar em qualquer pomo de facção (ideológica) o tenham levado ao actual "agnosticismo" presidencial.
Esperemos para ver se não regressam as disputas entre bases e elites e quem representará estas dentro de dois anos (se entretanto o novo Executivo até lá não cair).

segunda-feira, 16 de março de 2015

O "medo de existir"


Leitor das críticas que lhe foram formuladas a quando de Portugal, o medo de existir, José Gil responde assim, a Luis Osório, este fim de semana, na entrevista publicada pelo I

O que raio é ser português?
Eu não sei. Quando me falam nisso, quando querem fazer de mim um especialista de identidade portuguesa, recuo sempre. Não tratei da identidade portuguesa, penso sobre mentalidades que são transitórias por natureza. Não sei qual é a identidade portuguesa.

[I, nº1833, 14/15 de Março, 2015, p.26]

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Identidades - pelo cinema




“Quem és tu?” é a pergunta que sendo colocada pela noviça, em experiência mundana, antes dos votos finais, à heterodoxa, provocadora tia Wanda Lebenstein, atravessa um filme marcante na indagação da identidade (e seus limites). Não, apenas, a identidade da Polónia – atravessada, simultaneamente, pelo catolicismo, pelo comunismo e pelo Holocausto, a meio do séc.XX -, mas, efectivamente, a identidade colocada à pele, em cada personagem desta obra, em cada um de nós. A dimensão dicotómica está, é certo, muito presente na película, não apenas entre grandes narrativas que procuram (concorrem para) conquistar os espíritos, como nos dilemas maiores que atravessam cada alma (particular). Anna ou Ida, católica ou judia, no século ou no mosteiro? Mas, não menos interessante, a antítese de postura entre Anna e Wanda não pode deixar de conservar um percurso irónico: Anna (Agata Trzebuchowska, uma estreante actriz não profissional, em grande desempenho, pelos vistos incursão sem repetição pelo mundo do cinema), ao fim e ao cabo, acaba por aceitar o repto “tens que provar” [o mundo, o sensível, eros] da tia e esta última, aparentemente muito segura de si e da sua abordagem puramente imanente, termina suicidando-se (numa cena impressionante, com Mozart como banda sonora). Quando em presença do flirt com o namorado encontrado na experimentação do ‘século’ – cá está, ‘só saindo de si alguém dá lume’ -, Anna, que assumira, dias antes não estar ainda preparada para o ‘sim’ definitivo à causa que assumira, pergunta, sucessivamente: “E depois? E depois? E depois?”. As respostas, sempre provisórias, do (eventual) futuro marido/companheiro, numa leitura à la H.Kung, seriam sempre pequenos sentidos, para quem se habituara a perscrutar e buscar um grande sentido na vida – afinal, o hábito sempre permanece e a transformação não é total, mesmo quando posta à prova…mas tal só se sabe prova feita – e a saída, muito determinada e consciente, porta fora, no romper da aurora, surge com naturalidade.
Belíssimo filme, tempo exacto, preto e branco de contrastes numa Polónia que, na década de 60 do século passado já ouvia John Coltrane, mesmo para desgosto do partido, e se afogava no álcool que não permitia, contudo, esquecer os mortos judeus enterrados algures, mortos por quem viria a ficar com as suas casas, como séculos antes em Portugal, quando havia denúncias e inquisição, tempo perturbador que, muito embora o seu realizador, Paweł Pawlikowski, não queira como “retrato sociológico do seu país”, fica, sem dúvida, como material com o qual, como Hobsbawm ou Tony Judt demonstraram, a historiografia não deixara de contar (como antes sucedera, por exemplo, para ficarmos pela Polónia, com os filmes de Andre Wajda).

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma antologia da identidade


Guilherme d’OLIVEIRA MARTINS, A inocência que curaJornal de Letras, 23.07 a 05. 08. 2014, ano XXXIV, número 1145, 27

“É a inocência que enche este vazio de tudo / É a inocência que cura”. Lembrei-me de Charles Péguy, aqui traduzido por Alberto Vaz da Silva, com a sensibilidade que lhe conhecemos, quando me deparei com a novíssima antologia da autoria de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia intitulada Verbo. Deus como interrogação na Poesia Portuguesa (Assírio e Alvim). O conjunto de textos permite-nos compreender a importância da espiritualidade na nossa cultura, como Unamuno bem entendeu, ou como Eduardo Lourenço tem revelado de um modo superior. “As antologias são documentos sociológicos sobre o país”, sendo a poesia o “elemento de agregação de identidade nacional, não só do passado, mas também em relação ao presente”. José Tolentino Mendonça tem razão ao afirmá-lo, sobretudo porque a leitura dos poemas escolhidos vai muito para além de uma seleta literária, há perguntas essenciais (ou uma pergunta sacramental) que permitem caracterizar a identidade complexa, que tem feito correr rios de tinta sobre quem somos e sobre o que nos distingue dos outros.
A antologia percorre nomes representativos: Vitorino Nemésio, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Fernando Echevarría, José Bento, Ruy Belo, Cristovam Pavia, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão, Adília Lopes e Daniel Faria. Não se trata, porém, de textos para crentes e não crentes, nem de uma lista exaustiva de autores, mas de algo que Pedro Mexia esclarece: “O que está em causa não é a religião ou a crença, mas a pergunta”. Daí a importância do percurso poético, que leva a Jorge de Sena e às suas inquietações (bem nítidas até ao fim da vida): “se Deus partiu para o limite da vida/ quando olhámos ambos a realidade das coisas;/ se não existe uma barca onde o rumo se invente,/ embora as pontes sejam dessas barcas;/ se onde estiver um homem não estará outro homem./ Não sei, de facto, porque falo de Deus”.
Eduardo Lourenço, nado e criado sob o calor dos nossos maiores poetas, Camões, Garrett, Antero e Pessoa, aponta-nos uma vereda prometedora: “O fervor é pensar que apesar de perdido, o paraíso continuará a ser ainda aquilo de que nos lembramos, aquilo que permite que saiamos desta terra, onde aparecemos, sem ter o sentimento ou a convicção de que estivemos no inferno”. O elemento agregador da identidade cultural que constituímos tem, assim, a ver com essa subtil articulação entre uma fé herdada e uma razão obtida e conquistada, feita vontade e bem presente na voz romântica do “profeta” Herculano. Sophia situa-se, aliás, nessa mesma encruzilhada, tornando-se, ela mesma, símbolo sereno e indefinível do nosso modo de ser: “Escuto mas não sei/ Se o que ouço é silêncio/ Ou deus/ Escuto sem saber se estou ouvindo/ o ressoar das planícies no vazio/ Ou a consciência atenta/ Que nos confins do universo/ Me decifra e fita/ Apenas sei que caminho como quem/ É olhado amado e conhecido/ E por isso em cada gesto ponho/ Solenidade e risco”.
E aqui chegamos a Charles Péguy, que João Bénard da Costa gostava de lembrar: “A fé é que vela nos séculos dos séculos. A caridade é que vela nos séculos dos séculos. Mas a minha pequena esperança é a que se deita todas as noites e se levanta todas as manhãs e faz verdadeiramente muito boas noites”. Muitos têm falado do estranho silêncio que tem rodeado em Portugal o ano do centenário de Notre Jeunesse, mas o certo é que seria fundamental associar este trabalho de recolha com o ano propício em que celebramos o centenário da morte de um poeta importante, desaparecido no início de uma guerra que se adivinhava breve e que se tornou longa, trágica, sangrenta e absurda - cristão, poeta, militante social, republicano, que acreditava intimamente em “dire la verité, toute la verité, rien que la verité, dire bêtement la verité bête, enuyeusement la verité enuyeuse, tristement la verité triste”.
Se a antologia em causa permite perscrutar a interrogação essencial, o recente ensaio de José Carlos Seabra Pereira, no último número da revista Brotéria (volume 178, nos 5-6, Maio e Junho de 2014), intitulado “Inquietação transmanente na Poesia do Século XXI” é um estimulante itinerário, que permite abrir horizontes bem curiosos. Aí estão os ecos de Nemésio, Sena, Carlos de Oliveira ou Ruy Belo, até Luís Quintais, passando por Luísa Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, além de Adília Lopes e Daniel Faria, naturalmente. E não passa despercebido o eco das palavras de Adília: “A cada cidade/ basta a sua pena// e/ o amanhã/ é/ como o arco-iris”; mas também de Valter Hugo Mãe: “as flores mais belas da ladeira/ seriam capazes de criar/ deus”.
O texto de Seabra Pereira permite-nos, aliás, dizer que a pergunta fundamental da antologia está um pouco por toda a parte desde Gonçalo M. Tavares a invetivar-nos: “Nenhuma célula é Fértil a não ser a Alma”, até Adília Lopes a dizer-nos: “Deixa/ o dia de ontem/ com Deus// ... // Um anjo está contigo/ quando desanimas”. Os exemplos multiplicam-se, quer na antologia quer no texto académico sente-se que a matéria-prima da poesia, como nos ensaios sobre quem somos, tem a ver com as perguntas difíceis que vão do sentimento trágico da vida, à intensidade da existência, à força das circunstâncias, à graça e à gravidade, passando pelo rosto do outro (de Levinas), pelo sonho criador (referido à essência da pessoa humana por Maria Zambrano) e pela consciência (de Rosenzweig) de que mais importante do que a utopia é a redenção, como “experiência da espera por uma mudança que pode desencadear-se a qualquer momento como uma repentina iluminação”.
“E o que vai ser de ti? Serás talvez/ não o que deus não foi para ti: rins/ cingidos mas um nome para a tua timidez”. Ruy Belo obriga-nos persistentemente à pergunta e à dúvida. E voltamos à inocência de Charles Péguy (ou, quem sabe?, à inocência de Orhan Pamuk). Pedro Sena-Lino lembra-nos, deste modo, que “onde hoje se levanta uma árvore morou uma angústia” e é “tão nítida que se pode separar/ a respiração de Deus dos seus escombros”. E Ana Luísa Amaral (que encontrei há dias perante o extraordinário grupo do “Disquiet”, herança cada vez mais intensa de Alberto Lacerda) põe sobre a mesa “O pensamento mais iluminado./Saber de energia, o mais puro conceito./ Como Deus // Podem ainda assim/acontecer...”.
Mas Fernando Pinto do Amaral previne-nos contra “essa herança do céu que há no inferno,/ tudo isso a que chamamos melancolia”, e Daniel Jonas põe os olhos na “luz refracta de Deus”, longe das catedrais no azul de Chartres. E Ana Marques Gastão pergunta: “Diz-me, ó Deus,/ Se só há mortos/ em minha língua”. Daniel Faria: “Rebento no interior da morte como o trigo”. Enquanto para José Tolentino Mendonça “Deus não aparece no poema/ apenas escutamos a sua voz de cinza/ e assistimos sem compreender/a escuras perícias”. A poesia permite assim olharmo-nos.



sábado, 12 de abril de 2014

Hoje, mais do que nunca, como dizia o Jardel




Para o Paulo. Que mantém a chama sem tergiversar. Como deve ser.

Não quero a explicação, banal, das vitórias que multiplicam adeptos.
Quero um cachecol, azul forte, azul clássico, azul familiar, tecido à mão e inquebrantável nos que o partilhávamos, cachecol não clean, limpinho e cheio de bordados e inscrições artificiais, tão lindinhos, tão bonitinhos quanto impessoais, quero o cachecol na era pré-marketing, pré-merchandising, e outras palavras tais de que nem fazia ideia, então, existirem, nem, tão-pouco, afinal, o futebol as conhecia.
Quero a imensa alegria de uma bandeira comprada no estádio adversário, após uma vitória arrancada na última fibra de um estofo que permitiu trinta anos de alegrias. Não, não é uma despedida, é um já aí vamos.
Talvez aos quatro ou cinco anos, em Chaves, o miúdo insultado pelo cachecol do Porto, insultado, em simultâneo, com a familiar presença que o também segurava, o miúdo que presenciava uma hostilidade visceral àquelas cores, o vidro do autocarro – ainda modesto – da equipa inapelavelmente partido, ano após ano, naquele local, as redes que separavam a bancada do relvado invadidas de um ódio inconcebível, as cuspidelas na direcção do banco do Porto, o acinte permanente, as portas dos camarotes a estourarem a qualquer falta assinalada ao visitante, enfim, esse miúdo que, contudo, com incontida felicidade (infantil) desfraldava a bandeira na estrada de regresso a casa, era já o adepto fermentado no caldo de cultura que o fazia saber ser portista como uma segunda carapaça, epidérmica ligação, um não sei quê de conexão telúrica aos que vibravam – e vibram – no mesmo sentido. Uma respiração. Com vitórias – no futebol, nunca um excesso, nunca um ornamento, nunca supérfluas e sempre essenciais. Mas com mais do que vitórias. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Identidade, o santo graal


Inquéritos recentes mostraram que os portugueses continuam a ver na selecção nacional de futebol e em Fátima dois fortes elementos identitários. Agora que tanto se fala da “geração mais qualificada de sempre”, então é tempo, também, consequentemente, de assumir outros traços, além destes, que nos vão caracterizando. Por exemplo, a investigação de qualidade e a publicação em jornais/revistas científicas de referência, em diferentes áreas, em muitos casos por uma geração jovem, mostram que nos distinguimos, igualmente, nestas áreas e que as apostas na Ciência e Educação valeram e valem a pena. A partir do artigo da Lara, foi sobre isto que falei, hoje, na rádio. A nossa independência, se a Educação (Universidades, Ciência) é soberania, como Adriano Moreira ensina, passa por aqui. Sem protectorados.


sábado, 23 de novembro de 2013

Um trinta e um



Calhou que o dia estava mesmo propício à introspecção (identitária).

Chamava-te Professor Letras. Porque falavas como um intelectual.

O Artur, que não via há séculos, e o início da adolescência, no Liceu.

Li, algures, por essa altura, uma definição de amigo: aquele que diz bem de nós nas nossas costas.

Se bem que, não nos enganemos ou iludamos, hoje, e em particular em Portugal, aparentar alguém com qualquer coisa que remeta, de algum modo, para uma dimensão de tipo intelectual não seja, propriamente, um elogio. Para lembrar, de novo, Manuel António Pina, sabemos bem o que, na nossa terra, quer dizer “aquele tipo é um poeta…”, ou “aquele gajo é um filósofo…”. Idiossincrasias lusitanas, no entanto alheias ao bom do Artur, que assim atirou a retomar a espontaneidade nele tão natural e preparando futuros reencontros.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

A identidade de Jesus Cristo



O agir e o falar de Jesus, tão diferente dos profetas e dos sacerdotes, fariseus e saduceus do seu tempo, é de tal maneira original e subversivo que, de duas uma: ou foi um megalómano, um narcisista, um taumaturgo iniciado em dons paranormais, ou, então, é o Filho de Deus, Messias e Salvador, a cumprir a vontade do Pai como o Emanuel profetizado – Deus connosco.

Carreira das Neves, entrevistado por António Marujo, O coração da Igreja tem de bater, Paulinas, Prior Velho, 2013, p.16.