Mostrar mensagens com a etiqueta ironia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ironia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vidas


Resultado de imagem para laborinho lúcio

Por causa da Dona Maria [professora primária que lhe perguntara sobre uma composição que ele redigira: "Diz lá, meu filho, não foste tu quem escreveu, pois não?"], zanguei-me com o Português. Não ligava às onomatopeias, desprezava as parassínteses, desleixava de propósito as redacções, não atinava com o lugar das vírgulas. Aqui a culpa não era da Dona Maria. O problema vinha de trás, da Aritmética. Na 3ª classe, o professor verdescava-me as orelhas de cada vez que, nas divisões com números decimais, eu não acertava com o sítio de pôr a vírgula. Ainda hoje não certo. Passei a detestar Aritmética e acabei por vir a recusar para sempre a Matemática. O divórcio, agora, do Português ameaçava deixar-me perdido, em terra de ninguém. O professor de Moral, conhecido do meu pai, levou-lhe a má nova e segredou-lhe: 
- O rapaz não dá para os estudos. Ponha-o na loja de fazendas do avô.
Mas sabia o mestre que, dias antes, numa breve passagem pelo balcão, "o rapaz" vendera ali, por 4 escudos e 50 centavos, uma peça de 45 escudos. Creio bem que o meu pai só serenou definitivamente quando, muitos anos mais tarde, o filho se classificou em primeiro lugar no exigente concurso para juízes sendo, entre 23 magistrados do Ministério Público concorrentes, o único a obter a classificação de Muito Bom. (...)
E como sofria a minha mãe com a minha participação nas greves académicas, nos lutos, nas manifestações de estudantes, com o meu pai a recomendar-me que o deixasse mediar as más notícias e a esconder, dela, outras, como a do retorno a Coimbra, detido, em grupo, pela PSP, por tentativa de participação no Dia do Estudante, em Lisboa, em plena crise académica de 1962.
- E agora, queres seguir o quê?, perguntou o meu pai, concluído o 7º ano do liceu.
- Quero ir para o teatro - respondi.
Fui para a Justiça!
Acabou por me interessar mais esta do que o Direito. Ainda que sem este jamais a Justiça possa verdadeiramente realizar-se.

Álvaro Laborinho Lúcio, Autobiografia, Entre as linhas, Jornal de Letras, Ano XXXVII, nº1214, 12 a 25 de Abril, de 2017, p.36

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ennui


Hoje em dia, a opinião universal, ou aproximadamente universal, é que ser um maçador é um pecado imperdoável. Isto é um engano tremendo. Se é para se usar esta terrível fraseologia, deve-se dizer antes que o pecado imperdoável é ficar aborrecido. O Ennui é, de facto, o grande pecado, o pecado pelo qual todo o universo tende continuamente a ser subvalorizado e a desaparecer da imaginação. Mas trata-se da pessoa que o sente, não da pessoa que lhe dá origem (...) A culpa, se é que faz sentido falar de culpa, é somente nossa por nos deixarmos aborrecer. O assunto não é de todo maçador; não existe no mundo um só assunto que seja maçador. O simples facto de ele, o nosso interlocutor, uma pessoa perante todas as evidências muito mais estúpida do que nós, ter encontrado o segredo e captado o charme desse assunto em particular constitui a demonstração suficiente de que não se trata necessária ou invariavelmente de um assunto maçador. Se ele consegue ficar entusiasmado com o mecanismo de uma alavanca ou com a abominável conduta dos Robinsons, como não poderemos nós partilhar desse entusiasmo? Achamo-nos subjugados, ele mantém-se extasiado. Numa frase, somos apresentados à sua definitiva e imensurável superioridade. O homem feliz é natural e necessariamente superior ao homem enfastiado. A tristeza e a inércia do indivíduo aborrecido podem revelar-se como o resultado da educação ou da intelectualidade, mas não é possível que estas sejam particularidades tão cativantes em si mesmas quanto a grande convicção, o cintilante entusiasmo e a divina felicidade do maçador. (...) Uma discussão familiar, por exemplo, pode ser um acontecimento deveras sórdido e maçador (...) Mas seguramente uma discussão familiar não é por si algo de desinteressante (...) Que ninguém se felicite a si próprio por abandonar a vida em família com o pretexto de partir em busca da arte ou do conhecimento; ele abandona-a porque anda a fugir do desconcertante conhecimento da humanidade e da impossível arte da vida (...) O pecado diz respeito àquele que se deixa aborrecer, não à pessoa maçadora. Dada a fraqueza de espírito da humanidade, vamos permitindo que se façam revoluções e se promovam emancipações e rupturas com laços afectivos. Mas o indivíduo vigoroso, o indivíduo ideal, achar-se-ia interessado por qualquer ambiente em que, pela ordem natural das coisas, fosse inserido. O herói seria assim uma pessoa inteiramente domesticada; o Super-humano sentar-se-ia aos pés da sua avó.

G.K. Chesterton, Em defesa dos maçadores, in Ficar na cama, Relógio d'Àgua, tradução de Frederico Pereira, 2016, pp.50-53


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Textos que são texturas nossas



Frederico Lourenço, embora educado na religião católica, escreve, sobre as Escrituras, em O livro aberto: leituras da Bíblia (Cotovia, 2015), numa perspectiva não religiosa. O autor sente, em todo o caso, uma pronunciada simpatia pela tradição judaica. E é "hipersensível" ao apelo do Divino. Crê que Deus, em existindo, terá uma conformação diversa da manifestada no Antigo e Novo Testamentos. Mas faz questão, ainda, de registar: "não tenho nenhum problema em afirmar que, pessoalmente, considero Jesus de Nazaré a figura mais admirável de toda a história da Humanidade" (p.14). A sua revisitação da Bíblia poderá inspirar - di-lo não sem justificada ironia - muitos católicos a uma primeira leitura dos textos vetero e neo-testamentários.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Lobo humano (pessimismo antropológico)


Mas eu acredito no Inferno. Para a minha fraca mente, o Inferno parece muito mais exequível do que o Céu. Sem dúvida porque o Inferno é uma coisa de aparência mais terrena. Consigo imaginar os tormentos dos danados, mas não consigo imaginar as almas desencarnadas suspensas num cristal para toda a eternidade, a entoar louvores a Deus. É natural que eu não consiga imaginar isto. Se conseguíssemos cartografar o Céu com rigor, alguns dos nossos cientistas promissores começariam logo a traçar planos para o aperfeiçoar, e os burgueses venderiam roteiros, a dez cêntimos cada exemplar, a todas as pessoas acima dos sessenta e cinco anos.

Flannery O'Connor (traduzida por Paulo Faria), Um diário de preces, p.20