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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Fábrica de morte



No Museu de Auschwitz, conservam-se, ainda, os relatórios, as decisões, os mandatos acerca do que se pretendia e se fez daqueles campos de concentração e extermínio. Os detalhes do que ocorria no dia a dia, dos objectivos traçados e cumpridos, de metas, de números eram enviados, pelos oficiais, para a Alemanha. A frieza absoluta de uma burocracia despiedada, uma racionalidade instrumental levada ao paroxismo que pôs fim a milhões de vidas. A especificidade destes campos, como várias vezes se recorda, foi serem «fábricas de morte».

Marcados a ferro


Tatuados com um número. Marcados a ferro. Prisioneiros de Auschwitz. Despersonalização. Burocracia macabra.

Peregrinação



Do mesmo modo que na nossa tradição, com as flores, entre outras coisas, fazemos memória e homenageamos os que partiram, na tradição judaica (pequenas) pedras têm, igualmente, esse significado. Como podemos ver, em Birkenau, junto ao que foram as câmaras de gás.

De todos os lados da Europa - para Auschwitz


Foram para Auschwitz de todas as partes da Europa. Demoravam dias, demoravam semanas, mais de um mês até nos casos mais remotos/longínquos. Ao calor, ao frio, à fome, à sede - imensos, morreram na viagem. Nesta foto, a guia (em castelhano), explicava o mapa que das mais diversas proveniências. Note-se a quantidade de linhas e intua-se, em diversos casos, as enormes distâncias até àquele centro da Europa.

In memoriam



Na primeira das fotos, o local onde, antes de existirem câmaras de gás, se assassinavam judeus com tiros (na nuca, nomeadamente). Em salas contíguas, temos, ainda, uma sala de julgamento, uma farsa feita pelos nazis, condenando, evidentemente, sempre os prisioneiros, que ficavam em celas extremamente exíguas que ainda se mantém. 
Na segunda das fotos, lugar da câmara de gás que ainda funcionou, mas por pouco tempo, em Auschwitz I.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Extermínio


Outra das memórias fortes de Auschwitz é a de Elie Wiesel. Para evitar o pânico, a ida de morte ao subsolo de Birkenau, campo de extermínio (com gás). O que Wiesel escreveu, em Noite, sobre o que sentiu e pensou quando as nuvens de fumo se formaram não se apagará jamais.

domingo, 23 de abril de 2017

"Um povo deicida?"


Três razões, pelo menos, nos obrigam a contrapor a isso uma negação formal. Em primeiro lugar, não se pode acusar aqui um povo inteiro, nem a nível dos acontecimentos em causa, nem - e muito menos - ainda depois dos vinte séculos que nos separam dos mesmos! Apenas a classe sacerdotal ao mais alto nível pode ter estado envolvida nessa questão [condenação de Jesus de Nazaré à morte]; os escribas mencionados no relato evangélico pouco tiveram a ver com isso, e, seja como for, os gritos da populaça de que por vezes se fala parecem provir mais do extravasamento emocional de uma multidão excitada do que da expressão racional de uma tomada de posição responsável. Segunda consideração: não devemos perder de vista que tudo o que diz respeito ao conjunto das opiniões e atitudes a respeito de Jesus tem a ver com os judeus, visto que, como é óbvio, ainda não há cristãos separados do Judaísmo. Por fim, e certamente acima de tudo, devemos reconhecer toda a responsabilidade do próprio Jesus pela sua própria condenação. Voltaremos a isso, mas foi precisamente o seu comportamento em relação ao judaísmo da sua época, e de modo especial a respeito do Templo, com o eventual risco adicional de perturbações sociais ou até sociopolíticas, que suscitou à sua volta tomadas de posição antagónicas, que deviam conduzir à sua condenação.
Da parte dos chefes e do Sinédrio (supremo tribunal dos judeus, ao qual pertencia o sumo sacerdote), não se pode certamente negar um envolvimento judeu; contudo, este não tomou a forma de um julgamento, contrariamente à opinião durante muito tempo transmitida. Tratou-se, antes, de uma denúncia junto dos representantes do poder romano, que a partir de então foram os únicos a conduzir, em relação a Jesus, aquilo que podemos considerar um processo de condenação. A denúncia diante da instância política pelos chefes da nação judaica não deixou de ser duplamente hábil. Por um lado, ela revelava a sua vontade de não ultrapassarem a incapacidade jurídica de actuar judicialmente em que os colocava a ocupação romana. Por outro lado, punha em destaque as perturbações a nível social e político que poderiam gerar os comportamentos e as tomas de posição de Jesus. Em suma, se houve prisão, julgamento e condenação, tudo isso só se deveu formalmente ao poder de ocupação romano. (...) Assim como a condenação de Jesus foi romana, a sua execução também o foi. Em vez de recorrer à lapidação, como se teria feito segundo a tradição judaica, decidiu-se recorrer à crucifixão, segundo o uso romano. (...) Pesquisas arqueológicas recentes forneceram elementos fiáveis em relação ao local do julgamento conduzido por Pilatos - o pretório já evocado -, o itinerário seguido por Jesus através da cidade (aquilo a que tradicionalmente se chama «caminho da cruz», ou «via sacra») e, por fim, o próprio local da crucifixão (o Gólgota, de uma palavra aramaica que significa «crânio», em referência à forma de rochedo situado fora da cidade, sobre o qual teve lugar a crucifixão).

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.39-44.

P.S.: Joseph Doré é arcebispo emérito de Estrasburgo, teólogo e um dos maiores especialistas franceses em cristologia. Foi membro da Comissão Teológica Internacional, do Conselho Pontifício para a Cultura e da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Francesa.