Pareceu-me que a publicação da mais recente obra do
Professor Frederico
Lourenço, Bíblia
- o livro aberto, suscitou nos autores que na nossa imprensa escrevem
vindos, especialmente, do mundo religioso (católico), de José Tolentino de Mendonça a Frei Bento Domingues,
passando por Anselmo
Borges, um especial interesse e enfoque nas questões historiográficas
relativas à Bíblia e a Jesus de Nazaré. Em quatro posts, procurarei aqui
relembrar, neste âmbito, de modo esquemático, alguns dados a termos em conta:
16.Paulo cita Jesus nos
Act 20,35 e esta citação não aparece nos Evangelhos: “Há mais felicidade em dar
do que em receber”
17.Nos Padres
Apostólicos encontram-se pequenos grupos de palavras do Senhor que fazem supor
que circulavam como pequenas tradições independentes.
18.A fé na ressurreição
é fulcral para se conhecerem os Evangelhos, mas tal não impede que a tradição
se tenha começado a formar no - na fase
do – Jesus pré-pascal.
19.Jesus fala aramaico.
Nada escreveu (que conheçamos)
20.Logia (de Jesus): palavras soltas com o formato de sentenças
(atribuídas a Jesus). Apotegma
significa «dito» de Jesus
21.O Evangelho de
Marcos é o mais curto – nele sobressai a actividade missionária de Jesus, em
jeito de «biografia», apenas com dois discursos. Data do ano 70 d.C. (ou um
pouco anterior a esta data). A figura de Pedro é central no Evangelho de
Marcos, pelo que é possível que (tal Evangelho) pertença a um intérprete de
Pedro. A comunidade que esta por trás de Marcos, segundo Rafael Aguirre, será
de procedência pagã.
22.O Evangelho de
Mateus (e também o de Lucas) copia Marcos, mas desenvolve-o e reelabora-o com
muito material de outras tradições e com o seu cunho pessoal de autor
judeo-cristão.
23.O Evangelho de
Mateus depende da tradição Quelle (Q) – palavra alemã que significa «fonte
literária» - que refere um «Evangelho» doutrinal de Jesus que aparece em Mateus
e Lucas, mas não em Marcos. Portanto, Mateus e Lucas são fruto de duas fontes
literárias: Marcos e Quelle (Q), para além das fontes ou tradições próprias a
cada um e do trabalho redacional próprio dos autores.
24.O Evangelho de
Mateus é chamado «evangelho eclesial». O seu objectivo consiste em responder,
através da doutrina de Jesus, à comunidade a quem escreve, de maneira alargada,
precisa e completa. Mateus é o único Evangelho onde a palavra Igreja surge duas
vezes.
25.O redactor do
Evangelho segundo S.Lucas: percebe-se de que se trata de um cristão helenista e
de um grande retórico. Em Lucas, como em Mateus, aparece a narrativa da
infância de Jesus. Lucas contém muito material próprio (que não se encontra em
outros Evangelhos). O autor do Evangelho segundo S.Lucas e o dos Atos dos
Apóstolos é o mesmo. Este Evangelho pertence ao tempo da segunda geração (de
cristãos).
26.O Evangelho de João
é fruto da fé cristã de várias comunidades joânicas, difíceis de identificar à
luz da história. Nele são possíveis de detectar 5 camadas histórico-redacionais.
27.Nos Sinópticos, o
centro da pregação de Jesus é o Reino de Deus; em João, o tema do Reino de Deus
aparece, apenas, duas vezes.
28. S.Paulo é o primeiro
escritor cristão. É cristocêntrico.
29.As 7 cartas
originais de Paulo datam da década 50-70 d.C. Estamos perante a 1ª geração de
cristãos. Não se conservaram as cartas (papiros) originais de Paulo. Não se
conservaram como ele as redigiu. Paulo não contava que as cartas se
preservassem, respondendo, antes, a situações específicas das suas comunidades.
30.A biografia de
Jesus, num certo sentido, não começa com o nascimento em Belém, mas com a
Ressurreição em Jerusalém. Jesus é apresentado como o Messias prometido no
Antigo Testamento. Jesus viveu, mais ou menos, até aos 27 anos em Nazaré e nada
conhecemos dessa história. Foi discípulo de João Baptista. Começou a pregar na
Galileia a vinda do Reino de Deus. A sua pregação diferenciava-se da moral
judaica.
[Pequena bibliografia
consultada: “A verdadeira história de Jesus”, de E.P.Sanders; Gerd Theissen e
Annete Merz, “O Jesus histórico – um Manual”; Joachim Gnilka, “Jesus de
Nazaré”; Joaquim Carreira das Neves: “Deus existe?”; “Evangelios Sinópticos e
Hechos de los Apóstoles”, de Rafael Aguirre Monasterio e Antonio Rodríguez
Carmona]