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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O Papa e o Islão


Penso que seria proveitoso fazerem um estudo crítico do Corão, como nós fizemos das nossas Escrituras. O método histórico e crítico da interpretação fá-los-à evoluir

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.81.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Historiografia (II)


Pareceu-me que a publicação da mais recente obra do Professor Frederico LourençoBíblia - o livro aberto, suscitou nos autores que na nossa imprensa escrevem vindos, especialmente, do mundo religioso (católico), de José Tolentino de Mendonça a Frei Bento Domingues, passando por Anselmo Borges, um especial interesse e enfoque nas questões historiográficas relativas à Bíblia e a Jesus de Nazaré. Em quatro posts, procurarei aqui relembrar, neste âmbito, de modo esquemático, alguns dados a termos em conta:



16.Paulo cita Jesus nos Act 20,35 e esta citação não aparece nos Evangelhos: “Há mais felicidade em dar do que em receber”

17.Nos Padres Apostólicos encontram-se pequenos grupos de palavras do Senhor que fazem supor que circulavam como pequenas tradições independentes.

18.A fé na ressurreição é fulcral para se conhecerem os Evangelhos, mas tal não impede que a tradição se tenha começado a formar  no - na fase do – Jesus pré-pascal.

19.Jesus fala aramaico. Nada escreveu (que conheçamos)

20.Logia (de Jesus): palavras soltas com o formato de sentenças (atribuídas a Jesus). Apotegma significa «dito» de Jesus

21.O Evangelho de Marcos é o mais curto – nele sobressai a actividade missionária de Jesus, em jeito de «biografia», apenas com dois discursos. Data do ano 70 d.C. (ou um pouco anterior a esta data). A figura de Pedro é central no Evangelho de Marcos, pelo que é possível que (tal Evangelho) pertença a um intérprete de Pedro. A comunidade que esta por trás de Marcos, segundo Rafael Aguirre, será de procedência pagã.

22.O Evangelho de Mateus (e também o de Lucas) copia Marcos, mas desenvolve-o e reelabora-o com muito material de outras tradições e com o seu cunho pessoal de autor judeo-cristão.

23.O Evangelho de Mateus depende da tradição Quelle (Q) – palavra alemã que significa «fonte literária» - que refere um «Evangelho» doutrinal de Jesus que aparece em Mateus e Lucas, mas não em Marcos. Portanto, Mateus e Lucas são fruto de duas fontes literárias: Marcos e Quelle (Q), para além das fontes ou tradições próprias a cada um e do trabalho redacional próprio dos autores.

24.O Evangelho de Mateus é chamado «evangelho eclesial». O seu objectivo consiste em responder, através da doutrina de Jesus, à comunidade a quem escreve, de maneira alargada, precisa e completa. Mateus é o único Evangelho onde a palavra Igreja surge duas vezes.

25.O redactor do Evangelho segundo S.Lucas: percebe-se de que se trata de um cristão helenista e de um grande retórico. Em Lucas, como em Mateus, aparece a narrativa da infância de Jesus. Lucas contém muito material próprio (que não se encontra em outros Evangelhos). O autor do Evangelho segundo S.Lucas e o dos Atos dos Apóstolos é o mesmo. Este Evangelho pertence ao tempo da segunda geração (de cristãos).

26.O Evangelho de João é fruto da fé cristã de várias comunidades joânicas, difíceis de identificar à luz da história. Nele são possíveis de detectar 5 camadas histórico-redacionais.

27.Nos Sinópticos, o centro da pregação de Jesus é o Reino de Deus; em João, o tema do Reino de Deus aparece, apenas, duas vezes.

28. S.Paulo é o primeiro escritor cristão. É cristocêntrico.

29.As 7 cartas originais de Paulo datam da década 50-70 d.C. Estamos perante a 1ª geração de cristãos. Não se conservaram as cartas (papiros) originais de Paulo. Não se conservaram como ele as redigiu. Paulo não contava que as cartas se preservassem, respondendo, antes, a situações específicas das suas comunidades.


30.A biografia de Jesus, num certo sentido, não começa com o nascimento em Belém, mas com a Ressurreição em Jerusalém. Jesus é apresentado como o Messias prometido no Antigo Testamento. Jesus viveu, mais ou menos, até aos 27 anos em Nazaré e nada conhecemos dessa história. Foi discípulo de João Baptista. Começou a pregar na Galileia a vinda do Reino de Deus. A sua pregação diferenciava-se da moral judaica.


[Pequena bibliografia consultada: “A verdadeira história de Jesus”, de E.P.Sanders; Gerd Theissen e Annete Merz, “O Jesus histórico – um Manual”; Joachim Gnilka, “Jesus de Nazaré”; Joaquim Carreira das Neves: “Deus existe?”; “Evangelios Sinópticos e Hechos de los Apóstoles”, de Rafael Aguirre Monasterio e Antonio Rodríguez Carmona]