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domingo, 11 de fevereiro de 2018

A SEDE QUE SABE DA ÁGUA


Este é o modo de ser do homem paciente, capaz de permanecer à espera até que as coisas se abram por si mesmas, até que desabrochem sozinhas, sem sentir a urgência de violentá-las para que deem a todos, custe o que custar, o fruto que esperávamos. A oração consente no mistério profundo e ínsito em cada coisa, de emergir e de se revelar com os seus tempos e as suas modalidades próprias. 

O homem de oração é como uma criança que grita a sua fome, mesmo quando alguém lhe diz que não há pão (Simone Weil) 

A oração sabe que há pão porque, se se sente a sede, é porque também existe a água. A oração é tensão irrenunciável para ir sempre além da «datidade» das coisas, da própria realidade, porque, no fim, a realidade nunca cumpre as suas promessas. O real não é suficiente. Por isso, quem ora sabe que não pode render-se à realidade e já vislumbra alguma coisa com o sabor da transcendência, alguma coisa que está além.

Paolo Scquizzato, Ainda melhor no silêncio. A oração cristã, Paulinas, Prior Velho, 2017, pp.28-29

quinta-feira, 23 de março de 2017

Chave d'ouro


Provavelmente, a mais interessante e bela das respostas de Bento XVI, na última entrevista a Peter Seewald, aquela que mostra o carácter sempre inacabado de uma busca, a recusa da rotina das imagens e conceitos gastos e (a)batidos, o homem de fé que procura e sente a necessidade de dizer de novo, de fermentar e pensar a fé a partir do essencial.

Peter Seewald: Faço-lhe agora a pergunta que repetidas vezes nos tem ocupado: onde está na verdade esse Deus de quem falamos, do qual esperamos ajuda? Como e onde podemos localizá-l’O? Hoje em dia, vemos sempre cada vez mais longe no universo, com os seus muitos planetas, os incontáveis sistemas solares, mas até onde quer que seja que tenhamos conseguido ver até hoje, em lado nenhum há aquilo que poderíamos imaginar ser o céu, no qual Deus supostamente reina.

Bento XVI: (Ri) Sim, porque não existe tal coisa, não existe esse lugar onde Ele reina. Deus é, Ele próprio, o lugar dos lugares. Quando [você] olha para o mundo, não vê nenhum céu, mas por toda a parte vê os vestígios de Deus. Na constituição da matéria, em toda a racionalidade da realidade. Do mesmo modo, onde vê pessoas, encontra vestígios de Deus. Vê o vício, mas também a bondade e o amor. Esses são os lugares onde Deus Se encontra aqui.
É preciso libertar-se totalmente dessas noções antiquadas de espaço, que já não são bem-sucedidas, quanto mais não seja porque o universo, embora não sendo infinito na acepção rigorosa da palavra, é tão vasto que nós, os seres humanos, podemos designá-lo de infinito. Além disso, Deus não pode estar algures dentro ou fora, a sua presença é inteiramente outra.
É realmente importante renovar o nosso pensamento em muitos aspectos, eliminar por completo essas questões do espaço e compreender de novo. Tal como entre as pessoas existe a presença anímica – duas pessoas que estejam em continentes diferentes conseguem tocar-se, porque esta é uma dimensão diferente da espacial -, também Deus não Se encontra num lugar determinado, Ele é a realidade. A realidade que suporta todas as realidades. Para essa realidade eu não preciso de nenhum «onde», porque este «onde» já é uma delimitação, já não é o infinito, o Criador, que é o universo, que atravessa todos os tempos, mas Ele próprio não é tempo, cria-o e está sempre presente.
Creio que é preciso mudar muita coisa, tal como também se alterou toda a nossa imagem do ser humano. Já não são 6000 anos de história, segundo a imagem dada pelo calendário bíblico, mas não sei quantos mais. Deixemos em aberto essa questão desses números hipotéticos. Seja como for, com este conhecimento, a estrutura do tempo e da História é hoje diferente. Antes de tudo a teologia tem aqui de pôr mãos à obra e trabalhar mais profundamente para dar mais uma vez às pessoas possibilidades conceptuais. Neste aspecto, a transposição da teologia e da fé para a linguagem de hoje ainda é imensamente deficiente; é preciso criar esquemas conceptuais, ajudar hoje as pessoas a compreenderem que Deus não deve ser procurado num lugar determinado. Há muito a fazer. (…)
Ser amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre mais evidente que Deus, Ele próprio, não só não é, digamos, um governador poderoso e uma autoridade distante, mas também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d’Ele, dessa força que se chama Amor.

Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.268-269 e 272.