1.Ao contrário do que é norma, no seu espaço de comentário semanal, aos Domingos, na TVI, sobre política internacional, Paulo Portas, há oito dias, aconselhou livros. Todos ensaios, e todos como contraponto à ideia de que tudo vai mal, de que estamos cada vez piores. Nesse sentido muito estrito, compreendo a opção por Steven Pinker (no caso, este livro) - ao contrário do que se pensa, isto nunca esteve tão bem e, por isso, não há motivos para os ressentimentos (populares), na base da ascensão dos populismos. Mas talvez um maior cepticismo conservador fosse de esperar em Paulo Portas. Niall Ferguson, numa interessante conversa com Pinker (aqui, a partir do minuto 15.10), mostrou como 100 anos (ou um pouco mais) antes dos dois livros de Pinker mais recentes a garantir-nos que nunca estivemos tão bem se podia dizer exatamente a mesma coisa e não foi por isso que deixámos de ter duas guerras mundiais consecutivas. O que não deixa, ainda, de ser uma advertência quanto à linearidade histórica, ao problemático "progresso". Quando olhamos para a História, talvez todos procuremos uma sabedoria que combine o longo espectro, com um olhar de grandes tendências, com a observação microscópica e o colar-mo-nos/envolver-mo-nos nos acontecimentos: se, neste último dos casos, podemos hiperbolizar males que, comparados com a humana história, são bem mais leves do que aqueles que o Homem já suportou, no primeiro dos casos, com a lente tão longe do quotidiano, talvez tendamos a relativizar o sofrimento e as dores presentes. Pinker dirá, pelo inverso, que quis animar os homens e as mulheres do século XXI, face a um discurso muito recorrente em tons sombrios. Os usos políticos, no entanto, das suas conclusões, talvez estejam, contudo, nos antípodas do que um "liberal" (em sentido norte-americano do termo) desejaria.
Uma outra surpreendente escolha/sugestão de Paulo Portas foi o livro "Utopia para realistas", de Rutger Bregman: que citei aqui, ou aqui.
2.Revê-se na Doutrina Social da Igreja?, pergunta (cito de cor), a certa altura da entrevista, Vítor Gonçalves, a Paulo Rangel, na semana passada. Resposta: "É isso. (...)". Nas palavras do próprio, "cristão de cultura católica", Rangel escreveu um livro a sustentar que não existe uma justificação (na vida de Jesus de Nazaré) para haver uma "Doutrina Social da Igreja". Houve uma apresentação curiosa e conhecida da sua obra, no Porto, com Jaime Gama e João Taborda Gama, Paulo Rangel, e bem, traz estes temas para o espaço público - referindo, de resto, que isso é muito comum na Alemanha, por exemplo, no seio dos democratas-cristãos -, mas, ainda assim, e perante a afirmação do eurodeputado das suas preocupações de natureza social a pergunta surgiu - e o entrevistador deveria conhecer o escrito do entrevistado - e o entrevistado também não entendeu aprofundar e ser mais rigoroso, em função do que deixara escrito em livro, na resposta dada.
Acontece muito na vida pública-mediática portuguesa não se gostar de ir a um questionamento mais radical das coisas.