Para quem tenha a ideia de que a abordagem não literal das Escrituras é algo muito recente:
A Igreja antiga e medieval tinha sempre reconhecido que a Bíblia devia em muitos casos ser lida alegoricamente, de acordo com as doutrinas espirituais da Igreja, e que as principais verdades das Escrituras não estão confinadas ao seu significado literal, que muitas vezes reflecte apenas a mente dos seus autores humanos. Orígenes, Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa, Agostinho - todos negaram, por exemplo, que a história da criação do Génesis fosse um relato histórico autêntico do modo como o mundo foi feito (Agostinho escreveu aquilo a que chamou uma interpretação «literal» do Génesis, mas esta não era literal no sentido considerado pelos fundamentalistas modernas). E figuras tão distantes no tempo como Agostinho e Tomás de Aquino acautelaram contra expor as Escrituras ao ridículo quando elas são tomadas como um tratado científico. No séc.XVII, contudo, em resposta à crítica protestante, a Igreja Católica tinha passado a mostrar muito maior hesitação quanto à liberdade de interpretação da Bíblia, e opiniões que, um ou dois séculos antes, poderiam ter sido expressas sem provocar qualquer reparo institucional, passaram a ser olhadas por alguns como profundamente perigosas.
p.99
Um segundo olhar quanto ao facto de os primeiros cristãos recusarem os deuses pagãos:
Nós, hoje, estamos provavelmente predispostos a esquecer que, embora os primeiros cristãos olhassem de facto para os deuses da ordem pagã como falsos deuses, eles não entendiam necessariamente que isso significava simplesmente que estes deuses eram reais; para eles, isso significava simplesmente que estes deuses eram enganadores. Os cristãos acreditavam que por detrás das devoções do mundo pagão se ocultavam forças de grande crueldade e astúcia: demónios, espíritos malignos elementares, agentes ocultos mascarados de divindades, aproveitando-se do anseio humano por Deus e esforçando-se por frustrar os desígnios de Deus, de forma a manter a humanidade escrava das trevas, da ignorância e da morte.
p.166
Os primeiros escritos cristãos e a ideia de inferno:
Os escritos cristãos mais antigos, por exemplo - as epístolas autênticas de Paulo - não contêm nenhum traço de uma doutrina do tormento eterno, e o próprio Paulo parece ter imaginado apenas uma aniquilação final dos que praticaram o mal. A evidência que se pode colher dos Evangelhos a este propósito, por outro lado, é muito mais ambígua do que muitas pessoas julgam; até mesmo o relato alegórico do juízo final proposto por Cristo no capítulo 25 de Mateus dá azo a uma considerável liberdade de interpretação, e houve teólogos patrísticos tão diferentes como Orígenes, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa e Isaac de Nínive que não viram na frase aionios Kolasis (habitualmente traduzida como «castigo eterno», mas que também se pode ler como «correcção durante um longo período» ou «durante um tempo» ou mesmo «na época que há-de vir») nenhuma razão para concluir que o inferno fosse mais do que um processo temporário de purificação espiritual. Na realidade, se se deve dar crédito ao testemunho dos diversos Padres da Igreja, esta visão «purgatória» do inferno estava longe de ser uma opinião minoritária excêntrica entre os cristãos dos primeiros séculos, especialmente nas paragens orientais do Império. Dito isto, há que admitir que a ideia de castigo eterno para os maus ou para os descrentes fez parte desde muito cedo dos ensinamentos cristãos. Mas deve também ser afirmado que a ideia de um castigo eterno não era uma noção unicamente, ou mesmo distintivamente, cristã: eram muitos os seus precedentes pagãos.
p.221
O papel dos "milagres" nas primeiras conversões ao cristianismo:
É reconhecida e incontestavelmente verdade que os primeiros cristãos prezavam muito as curas e exorcismos miraculosos e que , no domínio da narrativa cristã, se faziam com frequência afirmações ousadas a propósito do poder do seu Senhor sobre os poderes das trevas. Mas é igualmente verdade que o processo de se tornar cristão passava por uma longa e cuidadosa doutrinação, mesmo para os que facilmente se tinham convencido, e que, como assinala Robin Lane Fox, «entre a era apostólica e o séc.IV não se conhece nenhum caso em que um milagre ou exorcismo tenha levado um indivíduo, muito menos uma multidão, à fé cristã.» O próprio ministério de Paulo, acrescenta Lane Fox, consistia numa pregação, instrução e persuasão incansáveis, que muitas vezes durava diversos dias. Por isso, imaginar que se obtinham conversões à vista de uma única maravilha é «abreviar um longo processo» e «avaliar mal a perspicácia dos homens do Mediterrâneo»; mesmo quem estivesse genuinamente convencido de ter testemunhado um acontecimento sobrenatural, ainda assim não teria nenhuma razão para julgar que o deus cristão fosse mais do que uma divindade poderosa entre muitas (...) Fosse qual fosse a atracção exercida pelo Evangelho sobre as pessoas da antiguidade, certamente que exercia um maior impacto sobre os espíritos do que a inata capacidade humana de se deixar iludir por uns tantos truques de esperteza.
p.220
David Bentley Hart, Ilusões dos ateus. A revolução cristã e os seus adversários da moda, Frente e Verso, 2016.