Provavelmente, a mais
interessante e bela das respostas de Bento
XVI, na última entrevista a Peter
Seewald, aquela que mostra o carácter sempre inacabado de uma busca, a
recusa da rotina das imagens e conceitos gastos e (a)batidos, o homem de fé que
procura e sente a necessidade de dizer de novo, de fermentar e pensar a fé a
partir do essencial.
Peter
Seewald: Faço-lhe
agora a pergunta que repetidas vezes nos tem ocupado: onde está na verdade esse
Deus de quem falamos, do qual esperamos ajuda? Como e onde podemos localizá-l’O?
Hoje em dia, vemos sempre cada vez mais longe no universo, com os seus muitos
planetas, os incontáveis sistemas solares, mas até onde quer que seja que
tenhamos conseguido ver até hoje, em lado nenhum há aquilo que poderíamos
imaginar ser o céu, no qual Deus supostamente reina.
Bento XVI: (Ri)
Sim, porque não existe tal coisa, não existe esse lugar onde Ele reina. Deus é,
Ele próprio, o lugar dos lugares. Quando [você] olha para o mundo, não vê nenhum céu,
mas por toda a parte vê os vestígios de Deus. Na constituição da matéria, em
toda a racionalidade da realidade. Do mesmo modo, onde vê pessoas, encontra
vestígios de Deus. Vê o vício, mas também a bondade e o amor. Esses são os
lugares onde Deus Se encontra aqui.
É
preciso libertar-se totalmente dessas noções antiquadas de espaço, que já não
são bem-sucedidas, quanto mais não seja porque o universo, embora não sendo
infinito na acepção rigorosa da palavra, é tão vasto que nós, os seres humanos,
podemos designá-lo de infinito. Além disso, Deus não pode estar algures dentro
ou fora, a sua presença é inteiramente outra.
É
realmente importante renovar o nosso pensamento em muitos aspectos, eliminar
por completo essas questões do espaço e compreender de novo. Tal como entre as
pessoas existe a presença anímica – duas pessoas que estejam em continentes
diferentes conseguem tocar-se, porque esta é uma dimensão diferente da espacial
-, também Deus não Se encontra num lugar determinado, Ele é a realidade. A realidade que suporta
todas as realidades. Para essa realidade eu não preciso de nenhum «onde»,
porque este «onde» já é uma delimitação, já não é o infinito, o Criador, que é
o universo, que atravessa todos os tempos, mas Ele próprio não é tempo, cria-o
e está sempre presente.
Creio
que é preciso mudar muita coisa, tal como também se alterou toda a nossa imagem
do ser humano. Já não são 6000 anos de história, segundo a imagem dada pelo
calendário bíblico, mas não sei quantos mais. Deixemos em aberto essa questão
desses números hipotéticos. Seja como for, com este conhecimento, a estrutura
do tempo e da História é hoje diferente. Antes de tudo a teologia tem aqui de
pôr mãos à obra e trabalhar mais profundamente para dar mais uma vez às pessoas
possibilidades conceptuais. Neste aspecto, a transposição da teologia e da fé
para a linguagem de hoje ainda é imensamente deficiente; é preciso criar
esquemas conceptuais, ajudar hoje as pessoas a compreenderem que Deus não deve
ser procurado num lugar determinado. Há muito a fazer. (…)
Ser
amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como
fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos
outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre mais evidente que Deus, Ele próprio,
não só não é, digamos, um governador poderoso e uma autoridade distante, mas
também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d’Ele,
dessa força que se chama Amor.
Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald,
D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.268-269 e 272.