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quinta-feira, 23 de março de 2017

Chave d'ouro


Provavelmente, a mais interessante e bela das respostas de Bento XVI, na última entrevista a Peter Seewald, aquela que mostra o carácter sempre inacabado de uma busca, a recusa da rotina das imagens e conceitos gastos e (a)batidos, o homem de fé que procura e sente a necessidade de dizer de novo, de fermentar e pensar a fé a partir do essencial.

Peter Seewald: Faço-lhe agora a pergunta que repetidas vezes nos tem ocupado: onde está na verdade esse Deus de quem falamos, do qual esperamos ajuda? Como e onde podemos localizá-l’O? Hoje em dia, vemos sempre cada vez mais longe no universo, com os seus muitos planetas, os incontáveis sistemas solares, mas até onde quer que seja que tenhamos conseguido ver até hoje, em lado nenhum há aquilo que poderíamos imaginar ser o céu, no qual Deus supostamente reina.

Bento XVI: (Ri) Sim, porque não existe tal coisa, não existe esse lugar onde Ele reina. Deus é, Ele próprio, o lugar dos lugares. Quando [você] olha para o mundo, não vê nenhum céu, mas por toda a parte vê os vestígios de Deus. Na constituição da matéria, em toda a racionalidade da realidade. Do mesmo modo, onde vê pessoas, encontra vestígios de Deus. Vê o vício, mas também a bondade e o amor. Esses são os lugares onde Deus Se encontra aqui.
É preciso libertar-se totalmente dessas noções antiquadas de espaço, que já não são bem-sucedidas, quanto mais não seja porque o universo, embora não sendo infinito na acepção rigorosa da palavra, é tão vasto que nós, os seres humanos, podemos designá-lo de infinito. Além disso, Deus não pode estar algures dentro ou fora, a sua presença é inteiramente outra.
É realmente importante renovar o nosso pensamento em muitos aspectos, eliminar por completo essas questões do espaço e compreender de novo. Tal como entre as pessoas existe a presença anímica – duas pessoas que estejam em continentes diferentes conseguem tocar-se, porque esta é uma dimensão diferente da espacial -, também Deus não Se encontra num lugar determinado, Ele é a realidade. A realidade que suporta todas as realidades. Para essa realidade eu não preciso de nenhum «onde», porque este «onde» já é uma delimitação, já não é o infinito, o Criador, que é o universo, que atravessa todos os tempos, mas Ele próprio não é tempo, cria-o e está sempre presente.
Creio que é preciso mudar muita coisa, tal como também se alterou toda a nossa imagem do ser humano. Já não são 6000 anos de história, segundo a imagem dada pelo calendário bíblico, mas não sei quantos mais. Deixemos em aberto essa questão desses números hipotéticos. Seja como for, com este conhecimento, a estrutura do tempo e da História é hoje diferente. Antes de tudo a teologia tem aqui de pôr mãos à obra e trabalhar mais profundamente para dar mais uma vez às pessoas possibilidades conceptuais. Neste aspecto, a transposição da teologia e da fé para a linguagem de hoje ainda é imensamente deficiente; é preciso criar esquemas conceptuais, ajudar hoje as pessoas a compreenderem que Deus não deve ser procurado num lugar determinado. Há muito a fazer. (…)
Ser amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre mais evidente que Deus, Ele próprio, não só não é, digamos, um governador poderoso e uma autoridade distante, mas também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d’Ele, dessa força que se chama Amor.

Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.268-269 e 272.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O tempo (VII)


A modernidade já não é sustentada por uma narrativa teológica. Todavia, a secularização não comporta uma desnarrativização do mundo. A modernidade continua a ser narrativa. É uma época da história, de uma história do progresso e da evolução. Espera-se que sobrevenha uma salvação dirigida ao mundo interior. A narrativa do progresso ou da liberdade outorga ao tempo um sentido e uma significação. A aceleração surge dotada de sentido e desejável em função de um fim que se espera que venha a ter lugar no futuro, deixando-se integrar na narrativa sem problemas. Daí que os progressos técnicos sejam acompanhados de uma narrativa praticamente religiosa. São progressos que devem acelerar a vinda da salvação futura. Desse modo, o caminho de ferro será sacralizado como máquina do tempo capaz de alcançar mais rapidamente no presente o futuro ansiado. (...) O autor desta entrada da enciclopédia Brockhaus relaciona o telos de uma "humanidade que se determina a si própria" com o progresso técnico. O caminho de ferro é uma máquina de aceleração que serve para tornar mais depressa realidade a meta sagrada da humanidade. "A história moveu-se sempre na direcção dessa meta verdadeiramente divina, mas, graças às rodas do caminho de ferro, que avançam embaladas, alcançá-la-á alguns séculos mais cedo". A história, como história da salvação, sobrevive à secularização sob a forma de uma história do progresso mundano. A esperança da salvação religiosa dá lugar à esperança mundana da felicidade e da liberdade.

Byung-Chul Han, O aroma do tempo, pp.44-45