Mostrar mensagens com a etiqueta natureza humana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta natureza humana. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Aprender


Na sessão com a Diretora do Estabelecimento Prisional e com o Chefe dos Guardas Prisionais, a minha questão foi: como conseguem conciliar a obrigação da esperança, da crença na regeneração do indivíduo, na sua reabilitação - a obrigação desse discurso, mas mais fundamentalmente dessa convicção para um trabalho bem sucedido, em virtude do que se preceitua para a pena de prisão - com, por outro lado, o terem de lidar com o pior da natureza humana, com aquele lado que, por um ou outro motivo, ocorreu/veio ao de cima naquele concreto agente do delito, lado esse com que têm que lidar (diariamente) e que talvez lhes suscitasse um certo pessimismo antropológico. Uma das coisas interessantes que o Chefe dos Guardas prisionais me disse, a propósito, foi que, claro, também ele vai ao café e lê jornais, por vezes percebe que daí a nada vai receber uma pessoa que cometeu um delito que a ele, como a qualquer pessoa, lhe repugna e que tem a noção suplementar de que uma coisa é a indicação do delito, outra a explicitação, detalhada e factual do mesmo, muitas vezes com requintes de malvadez. Então, neste sentido, não sendo fácil esta luta interior, evita ler a sentença (para que o preconceito, o pré-juízo, o conseguir lidar melhor com a pessoa que praticou aquele acto ocorra).

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"A QUE ESPÉCIE PERTENCEMOS?" (II)

Resultado de imagem para livre-arbítrio

Vou agora considerar outra característica da condição humana que nos distingue dos nossos parentes simiescos: a responsabilidade. Consideramo-nos mutuamente responsáveis pelo que fazemos e, em resultado disso, entendemos o mundo de formas que não têm paralelo nas vidas das outras espécies. O nosso mundo, diversamente do ambiente de um animal, contém direitos, méritos e deveres; é um mundo de sujeitos conscientes de si mesmos, no qual os eventos são divididos entre livres e não livres, os que têm razões e os que são meramente causados, os que têm origem num sujeito racional e os que irrompem no fluxo de objectos sem qualquer desígnio consciente. Pensando no mundo desta forma, reagimos a ele com emoções que estão para lá do reportório dos outros animais: indignação, ressentimento, e inveja; admiração, compromisso e elogio - todas estas implicando pensar nos outros como sujeitos responsáveis, com direitos e deveres e uma visão autoconsciente do seu futuro e do seu passado. Só seres responsáveis conseguem sentir estas emoções e, ao senti-las, situar-se de certa forma fora da ordem natural, distanciando-se dela para emitir julgamento. De Platão a Sartre, os filósofos divergiram radicalmente nas suas tentativas para descrever estas características peculiares da condição humana - mas quase todos concordaram em intentar uma descrição filosófica, em vez de científica. (...) A condição humana, seja em que forma primitiva se imagine, é a condição de «criaturas como nós», que riem e choram, elogiam e culpam, recompensam e castigam - ou seja, que vivem como seres responsáveis, que respondem pelas suas acções.
Há outras verdades marcantes acerca da condição humana que, embora muitas vezes desvalorizadas ou ignoradas pelos pensadores de orientação biológica, ocupam um lugar central na perspectiva das pessoas comuns: por exemplo, há o facto de sermos pessoas que regulam as suas comunidades com recurso a leis que atribuem deveres e direitos. Alguns filósofos - nomeadamente Tomás de Aquino, mas também Locke e Kant - defendem que é «pessoa», e não «ser humano», o que constitui o nome verdadeiro da nossa espécie. E isso dá origem a uma questão metafísica que foi trazida para a ribalta por Locke e ainda hoje é discutida - a questão da identidade pessoal. Qual é a relação entre «mesma pessoa» e «mesmo ser humano» quando ambas se referem a Jill? (...) Para sublinhar as dificuldades com que se depara a perspectiva de que Jill é, de certa forma, reduzível aos processos biológicos que a explicam. Em que circunstâncias esses processos reproduzem a pessoa que Jill é?
Há também a divisão que separa criaturas meramente conscientes de criaturas conscientes de si próprias como nós. Apenas as segundas têm uma perspectiva genuinamente na «primeira pessoa», a partir da qual distinguem como as coisas me parecem de como as coisas te parecem. As criaturas com pensamentos de «eu» têm uma capacidade para se relacionar com outras da sua espécie que as distingue do resto da natureza, e muitos pensadores (Kant, Fichte e Hegel entre os mais importantes) acreditam ser este facto - e não o facto da consciência per se - que cria ou revela os mistérios centrais da condição humana. Embora os cães sejam conscientes, não reflectem na sua própria consciência como nós - vivem, como Schopenhauer afirmou, num «mundo de percepção», com os seus pensamentos e desejos voltados para fora, para o mundo perceptível.
Tentei ilustrar o modo como, a fim de elaborar explicações biológicas vívidas da nossa vida mental, somos tentados a atribuir à biologia todas as coisas que ela deveria estar a tentar explicar. Se queremos chegar a uma teoria plausível da natureza humana, teremos, antes do mais, de resistir a essa tentação. E teremos de estar preparados para admitir que leis de ser-espécie como as que estabelecemos - as leis da genética e a descrição funcional das características hereditárias - não são ainda adequadas para descrever ou para explicar o nosso comportamento normal. Ficam aquém do que se pretende pela simples razão de que aquilo que somos não é aquilo que elas supõem que somos.
Somos certamente animais, mas também somos pessoas incarnadas, com capacidades cognitivas não partilhadas com outros animais que nos dotam de uma vida emocional completamente distinta - dependente dos processos do pensamento autoconsciente que é único à nossa espécie.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.33 e ss.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A que espécie pertencemos?"


Quando Darwin e Wallace apresentaram a ideia de selecção natural, foi discutido se algumas das nossas características «superiores», como a moral, a consciência de nós mesmos, o simbolismo, a arte e as emoções interpessoais, cavavam um tal fosso entre nós e os animais «inferiores» a ponto de exigirem uma explicação de outro tipo. Inicialmente, Wallace pensou que não, mas depois mudou de ideias, chegando à conclusão de que existe um salto qualitativo na ordem das coisas que situa as faculdades mais elevadas da espécie humana numa categoria diferente da categoria daquelas características que partilhamos com os nossos vizinhos de evolução. Nas suas palavras: «somos dotados de capacidades intelectuais e morais não necessárias à luz dos requisitos da evolução», e a existência dessas capacidades não podia, por conseguinte, ser explicada pela selecção natural dos mais aptos.  (...)
Reflectindo nisto, parece-me claro que Wallace tinha razão ao colocar a ênfase nas características que pareciam pôr a Humanidade num mundo à parte, embora estivesse certamente errado ao pensar nessas características como «não necessárias à luz dos requisitos da evolução», pois se temos atributos adaptativos, a racionalidade é com certeza um deles. Por outro lado, a racionalidade está, num certo sentido dessa difícil expressão, «na nossa essência». Por conseguinte, Wallace apontava para o facto de nós, seres humanos, mesmo sendo animais, pertencermos a uma espécie que não ocupa um lugar no esquema das coisas comparável ao ocupado pelos outros animais. Aqui a controvérsia filosófica - uma controvérsia paralela à existente entre biólogos e psicólogos evolutivos relativa à importância da cultura - é precisamente uma controvérsia acerca da natureza humana: a que espécie pertencemos?

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.11-12 e 22.