A crónica de Natal (de rádio) que fiz este ano juntou um conjunto de elementos, no essencial já referidos neste blog, mas, se quisermos, compactados do seguinte modo:
[ter em atenção as imagens do presépio de Torgueda de 2014: aqui]
1.Um dos mais
interpelantes presépios de Natal com que me deparei, ao longo dos anos, na
mostra que a cidade de Vila Real vem acolhendo, pertenceu à freguesia de
Torgueda e data de Dezembro de 2014. Na imagem, duas cadeiras vazias – onde, supor-se-ia,
estariam os pais do menino esperado -, sendo que ausente parece também
encontrar-se o próprio Jesus apontado pela estrela. Creio que se tratou de um
dos mais inspirados presépios com que, até hoje, me confrontei, seja enquanto
diagnóstico cultural – o desaparecimento das figuras que compõe o presépio, o
questionamento do lugar da fé e do religioso no nosso horizonte
colectivo/comunitário –, seja como reflexão teológica.
2.João Manuel Duque, em
“Dizer Deus na pós-modernidade”, creio que citando a recepção heideggeriana de
Nietzsche, afirma que quem fala, ou constata a “morte de Deus” é quem O
procura. E que, na verdade, o que morre é um dado conceito, idolátrico [um deus
feito à medida humana], de Deus. Já Deus, ele mesmo, é, por natureza, eterno;
não morre. Tomas Halík, por seu turno, faz notar – palavras que de imediato me
assomaram enquanto me defrontava com o presépio de Torgueda, em 2014 – que há
poucos lugares nos quais se note tanto a presença de Deus como na sua ausência.
Por isso, os grandes santos e místicos amaram tanto a noite e a escuridão
(estas entendidas como o desapossamento de um “objecto” – Deus é o que de maior nada pode ser pensado, no
dizer de Anselmo, e se compreendes
[se tens uma definição exacta no bolso] não
é Deus, na fórmula de Agostinho; Deus não é um ente entre os entes, não
existe como existem as demais coisas, de aí a fórmula do pastor protestante
Dietrich Bonhoeffer: “o Deus que é não existe” [não existe como as outras
coisas] – e o encontro com, digamos, uma forma
nua). Sim,
escreve Halík, “há pessoas que no
momento do silêncio de Deus se afastam da fé porque chegam à conclusão de que
Deus «não existe». Seria mais honesto afirmar que a sua actual noção de Deus
«não funciona». (…) [Ora] O objectivo de
superar os ídolos é libertar espaço para um encontro com um Deus vivo. É esse
o momento do «eclipse» que no caminho espiritual se pode tornar um encontro
decisivo com um Deus vivo”.
3.Em 2015, A.M. Pires Cabral publicou o
livro A noite em que a noite ardeu,
no qual se encontra o seguinte poema homónimo:
Na noite em que a noite ardeu
dentro do meu seio propenso a rescaldos,
não houve qualquer outra claridade
senão a que as chamas produziam.
E essa parecia uma dança macabra
de fantasmas ébrios celebrando a morte.
Depois, desgastada a parte
consumível da noite,
restaram os resíduos do costume:
cinzas, brasas apagadas
de que todo o calor já se apartou -
- e às vezes
uma radiosa escuridão
que aos poucos se reordena e de novo
torna possível navegar o rio
como velha barcaça cujas tábuas
já mal ajustadas entre si
não vedam águas e medos.
Na noite em que a noite ardeu
dentro do meu seio propenso a rescaldos,
não houve qualquer outra claridade
senão a que as chamas produziam.
E essa parecia uma dança macabra
de fantasmas ébrios celebrando a morte.
Depois, desgastada a parte
consumível da noite,
restaram os resíduos do costume:
cinzas, brasas apagadas
de que todo o calor já se apartou -
- e às vezes
uma radiosa escuridão
que aos poucos se reordena e de novo
torna possível navegar o rio
como velha barcaça cujas tábuas
já mal ajustadas entre si
não vedam águas e medos.
Atentando no poema: o
sujeito poético é dado a reflectir acerca da experiência por que passa
("seio propenso a rescaldos"). Trata-se, de resto, de (se) elucidar
acerca dessa experiência maior que é a (passagem da/pela) noite. A primeira
clarificação, fundamental, feita é a de que não foi a luz que sucedeu à
escuridão ("não houve qualquer outra claridade"). A luz que vem da
noite parece ao sujeito poético "uma dança macabra/fantasmas ébrios
celebrando a morte". E, se há uma parte da noite que é
"consumível", o que resta, na verdade, no fim da noite, são
"cinzas". A experiência/expressão do desencantamento do mundo é
inequívoca, com toda a frieza que esse apartar (do encantamento) significa:
"brasas apagadas/de que todo o calor já se apartou". Numa pequena mas
nada insignificante inflexão/nuance, não se nega, contudo, que a escuridão,
"às vezes", é "radiosa" (a noite pode ser caminho),
vislumbre, porventura, do sentido, dado que é esse lado radioso que "torna
possível navegar o rio" (de existir). Mas nesse sentido, sempre entra
"água" e na noite se jogam diversos "medos".
Pereambulando pela cidade, entre a memória do musgo e do lodo verdinho,
das formas claras e perfeitas dos presépios em São Pedro, até ao aprofundamento
e à viagem, nunca abandonados, convocando a noite das formas e o lusco-fusco do
dizer cultural do mais importante, passámos décadas juntos.
A todos os ouvintes
da universidadefm, votos de um Santo
Natal.
P.S.: como então também escrevi, sobre o título do livro, deste poema e do seu verso inicial: "Gosto particularmente deste título do mais recente livro (de poesia) de A.M. Pires Cabral: A noite em que a noite ardeu. Ele reconduz-nos, abre-nos, de imediato para uma possível pluralidade de caminhos de um roteiro espiritual: a) o momento em que da escuridão, da peregrinação da ausência, da aridez - na qual pode haver, até, como sabemos dos grandes místicos, comprazimento, e a ausência como forma maior de presença, em paradoxo maior - se passa a uma visio beatifica; b) a noite, como o que fica quando a noite desaparece - não, não o contorno da luz clara e límpida, de um dia resplandecente ou rosa, mas ainda a noite que não cessa; c) a noite consumida, "ardida", o tempo de lidar, de lutar com essa dureza de recusa do ídolo enfim esvaído, e o soçobrar/cair no nada."

