O século XVIII usou a palavra «Lisboa» como hoje usamos a palavra «Auschwitz». Que peso pode uma referência cruel transportar? Não é preciso mais que o nome de um lugar para se obter este significado: o colapso da mais básica confiança no mundo, o ponto que torna a civilização possível. Ao perceberem isto, os leitores actuais podem sentir-se melancólicos: ditosa a época em que um tremor de terra podia fazer tantos estragos. O terramoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa e matou milhares de pessoas, abalou o Iluminismo até à Prússia Oriental, onde um desconhecido académico menor chamado Immanuel Kant escreveu três ensaios sobre a natureza dos terramotos para um jornal de Konigsberg. Kant não estava sozinho. A reacção ao terramoto foi tão alargada como rápida. Voltaire e Rousseau encontraram uma ocasião para discutir o assunto, academias por toda a Europa criaram concursos para ensaios acerca do tema, e o sexagenário Goethe, de acordo com várias fontes, foi levado à dúvida e a ter consciência moral pela primeira vez.
Susan Neiman, O mal no pensamento moderno. Uma história alternativa da Filosofia, Gradiva, 2005, pp.15-16.