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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Escritório no osso

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São cerca de cinco dezenas de advogados, cidade de média dimensão. Dão-se bem entre si, liberais funcionários, (transformados em) funcionários liberais (flexíveis, no sentido de disponibilidade total). Não resistem, contudo, às arremetidas da generalíssima. A “patroa” vai humilhando, dia após dia, com a constância do som paulatino do ponteiro do relógio, “colega” atrás de “colega”, coloca nisso um gosto gélido, implacável; um atrás de outro cai, qual castelo de cartas. Discutem entre si - a “turma” ganha, até, coesão face à megera - sobre a resistência, a resiliência de cada qual; quem tem, e quem não tem, personalidade em cada investida. “Quem os tem no sítio” e “não se deixa pisar”. Esta, ouviu em silêncio porque “não sei fazer outra coisa”, a outra, porque precisa mesmo daquele salário; irrita-se uma terceira, “não admito que me falem assim!”, saio daqui, “despeço-me”, “nem que tenha que ir limpar escadas”. Quantas pessoas que dizem “nem que tenha que ir lavar escadas” algum dia irão lavar escadas? E, ao mesmo tempo, quem pode duvidar da genuinidade da expressão, quando tudo convida ao sorriso engravatado, mesmo que o mundo esteja infinitamente dorido por dentro? “Ela pode…tem quem lhe guarde as costas”, sussurra-se na sala. “Como ‘não sabes fazer outra coisa’?! Aprendes! Não tiraste um curso?!”. Podem andar na casa dos 30, têm idiossincrasias diversas, temperamentos, medos e vontades de arriscar não coincidentes. Em qualquer caso, todos acham os administrativos da empresa, “burros”. O marido da “patroa”, na verdade a autoridade no direito era (d)ele, um “pau mandado”, um “banana” que às 3h da tarde se apresenta em estado decadente, na sua garrafa de uísque diária. Sim, falam em “patrão” e “patroa”, e as palavras mostram como pensamos, apesar da profissão “liberal” – alguma vez pensaram, mesmo, em serem “liberais”? Todos os administrativos da empresa, repita-se "são burros”; de aí que, a um tempo, entendam, e a outro desesperem, quando é dito a um deles que deve “separar o correio” de cada um dos “colegas”. “Separar o correio” dá (para) uma manhã inteira, mesmo em velocidade de cruzeiro. Houve aquela idade em que ela, olhando ao que eram as aulas de Educação Física do Secundário – ó João, vai-me buscar uma sandes de queijo e um Compal, dizia o Professor, dirigindo-se ao único rapaz que não gostava de jogar à bola, enquanto que, já com o JN debaixo do braço, se dirigia para o seu gabinete para passar as duas horas seguintes -, pensou “que vidinha santa, aquela!”. Todavia, agora, aos 30, não era o “não fazer nada” que lhe dava forma alguma de contentamento; entendeu bem cedo que essa não seria forma de se realizar. E menos ainda, esforça-se por arrancar palavras justas, equilibradas, respeitadoras do outro, politicamente correctas – mas não consegue, finalmente! – “fazer de carteiro”! “Para isso, não precisava de estudar!”. Em realidade, com os dias a passarem, torna-se clara, no seu espírito, “a falta de consideração pela minha inteligência”, mesmo - quer se queira quer não - “pela minha pessoa”, ainda que tudo venha acompanhado por elogios insuportáveis “ao que estou a fazer”. Acumula-se tensão: há o escritório “clean”, um emprego, seguro pelos 50 da companhia que evidenciam a extensão da litigância, da clientela, da receita que permitirá que receba um pouco acima dos mil euros limpos. O contrato é fraco, aliás a recibos verdes. A especulação imobiliária obrigou à muda de casa, vão mais de 500 euros para renda. Há as contas (luz, água, net…), mais a alimentação, e a mobilidade. Há a possibilidade de dizer que trabalha num escritório de advogados, de vestir o fato. Mas ela sabe que separa o correio, agora; como não pode ignorar ter andado, antes, “no sistema” informático “a verificar os prazos” e vir, a breve prazo, a andar a somar, de manhã à noite, dívidas que um dos clientes, credor, tem por receber. Nada disto é, a seus lúcidos olhos, mais, nem melhor, do qualquer trabalho mecânico, robótico, em qualquer fábrica. Nem mais desafiante intelectualmente; igualmente destruidor de qualquer espécie de criatividade, autonomia, independência. “Você não é o paquete do escritório”. Finge acreditar na sinceridade do que lhe é dito. Muitas vezes, aliás, aquele “doutor”, “doutora”, para trás e para a frente, parece o único momento de conforto ao ego – e felizmente que há alguém, em salas ao lado, que o não é, para poder distinguir-se. Imagina, naquele instante, que a cidade não é de média dimensão sequer, e que, ao fim do mês, tudo somado, leva uns 800 euros para casa. Não fora aquele “doutor” “doutora”, mais valiosos de resto em contexto provinciano, nada haveria como consolo. É, no entanto, dito está, suficientemente inteligente para compreender a mediocridade absoluta da situação. Ela não quer ficar como as demais, como até a patroa, vinte anos a xanax. Isto está em countdown desde o início dos tempos e não desperdiço a minha vida aqui. Quero ir além da sobrevivência. Sai do escritório, diz “tudo o que tinha a dizer” aos “patrões” naquele último momento, a vida é dela mesmo que, por instantes, isso possa embaraçar pais, tios, padrinhos e avós, tão compostinhos para a vida a fazer de conta. Fura a malha e aposta que poderá ser outra coisa.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"QUEM ENSINA HOJE A LER A VIDA?"


Um excerto que vale um livro:


'Atrevo-me a sugerir que as grandes questões da vida, questões acerca da tragédia, do sofrimento, da verdadeira felicidade e do significado das nossas vidas, nunca serão resolvidas pela ciência nem pela tecnologia. Wittgenstein tem razão: a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. Claro que a ciência e a tecnologia são impressionantes, frutos de grande coragem intelectual e em muitos aspectos uma benção para a humanidade. Sem a ciência médica eu, que agora sou um velho, não estaria aqui sentado. Mas é preciso compreender que o pensamento científico nos trouxe também uma caixa de Pandora. E não, não estou me refiro à destruição que a tecnologia também pode causar. Não estou a falar da tecnologia. Refiro-me a algo mais fundamental, algo que penetra muito mais fundo as nossas vidas, no nosso mundo, sem que nos demos conta disso (...) A ciência privou-nos da verdade (...) Riem-se, e entendo isso, entendo muito bem. Parece loucura. A ciência, a ciência que quer pura e simplesmente permitir-nos conhecer a verdade, para a qual nada pode existir além da verdade, como poderia privar-nos da verdade?! Porém é o que sucede. Era isso que Wittgenstein queria que compreendêssemos, mas infelizmente só algumas pessoas compreenderam. Escutaram uma palestra, e não desejo fazer outra palestra, e porém, Verzeihung bitte, es ist wichtig [Atenção, por favor, isto é importante], isto é mesmo muito importante. A verdade científica nunca é mais que a realidade, os factos, o que podemos observar, tocar e calcular. É a razão, o racional, mas a razão [positivista] jamais pode determinar o valor, não tem significado. A razão [positivista] pode descrever, pode informar-nos acerca dos factos, mas não pode dizer-nos qual é o significado moral desses factos, porque não sabe o que é o bem ou o que é o mal. A ciência, e é este o seu maior dom, permite-nos conhecer a natureza, mas não o espírito. A ciência tem de trabalhar com teorias e definições, mas o espírito humano não pode ser aprisionado em teorias e definições, e tampouco a nossa ordem moral, o reconhecimento do que é, ou não, uma sociedade justa. Esse conhecimento pertence a uma verdade diferente, uma verdade que a ciência não pode conhecer porque é uma verdade metafísica. Talvez por inveja, motivada pelo facto de haver outra verdade superior, a ciência tenha tentado privar-nos da verdade, fazer-nos esquecê-la, fazer-nos acreditar que tudo o que existe é científico, de contrário não será importante. Uma mentira, senhoras e senhores. Uma grande e perigosa mentira! Uma mentira em que infelizmente todos passámos a acreditar e à qual nos submetemos. Para nós só os factos contam; apaixonámo-nos por dados e informação, e como já não podemos conhecer o verdadeiro significado, o único valor que ainda reconhecemos é o valor económico: Quanto podemos cobrar? Quanto renderá? De modo que tudo tem de ser útil, instrumental, 'temos de conseguir ganhar alguma coisa com isto', porque de contrário de nada nos serve. A ciência tornou-se uma ideologia, uma ideia, uma ilusão, na qual estamos enredados. Enredados porque no nosso mundo só as coisas materiais existem, tudo se transformou em dinheiro, tudo é calculável e redutível a um número. Compreendem? Compreendem as consequências, o terrível resultado do facto de com o desaparecimento da realidade metafísica perderemos todas as qualidades, a qualidade de vida, porque a qualidade é a expressão de um valor espiritual, um valor que já não reconhecemos, já não desejamos reconhecer? O mundo, o futuro, como acabam de nos dizer, torna-se 'exponencial'. Os desenvolvimentos tecnológicos, a informação, aumentarão exponencialmente e transformarão o mundo. Sem dúvida. Mas sabem o que aumentará ex-po-nen-ci-al-men-te? A estupidez! A ciência oferece-nos conhecimento, mas nem o mais ténue auto-conhecimento. Pascal, que, não esqueçam, era matemático, estava certo: Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît point. O coração tem razões que a razão desconhece. O novo conhecimento, com o auxílio do conhecimento científico, tudo quer tornar sagaz. Mas já ninguém procura a sabedoria e a ciência jamais a encontrará. Todo o ensino superior tem de ser científico, o que significa, cheio de teorias, definições e demonstrações. Porém, a literatura, a história, a filosofia e a teologia, não conhecem teorias, definições ou demonstrações. Contam histórias, histórias acerca do que é ser-se humano, acerca das limitações humanas e de quem nós, como pessoas, deveríamos ser. A verdade não é científica, porque a verdade que oferecem é metafísica, e isso foi-nos retirado e já nem se ensina. Quem ensina hoje a ler a vida? Tudo isto nos tornou cegos ao que é verdadeiramente importante na vida e ao que a torna digna de ser vivida. O que é que consideramos ainda importante? A utilidade, em especial a utilidade económica. O nosso ideal de conhecimento, o mundo da cultura, a nossa vida social - a tudo e todos se mede por esta bitola económica. Os economistas tornaram-se por isso os novos sumo-sacerdotes da nossa época, que numa linguagem oracular de teorias e números declaram o que tem, ou não tem, utilidade económica, o que se deve, ou não deve, permitir que exista. Porque a qualidade de vida não se pode provar económica nem cientificamente, a economia só reconhece a quantidade; tudo é um número, de modo que economia tem de crescer sempre, porque um número maior é melhor do que um número menor, quaisquer que sejam as consequências sociais. Tudo o que conta é o dinheiro. (...) A ciência como ideologia tornou-nos não somente estúpidos, mas também mudos. Já não fazemos ideia alguma do significado das palavras e tornámo-nos incapazes de manter uma conversa a sério. O que resta é a tagarelice.

Rob Riemen [aqui, citando a alocução de Walter],  O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, 63-70.