"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
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quarta-feira, 31 de outubro de 2018
sábado, 22 de julho de 2017
Compatibilizar contrários?
Assunção Cristas firmou, e bem, a sua decisão de repúdio e afastamento da candidatura de André Ventura, à Câmara Municipal de Loures, nos princípios democrata-cristãos que são a base com que se identificaria o CDS. Não obstante, alguma insurreição interna (em realidade, um número considerável de militantes com lugares de alguma notoriedade), de corpos intermédios do partido, perante tal tomada de posição, remetendo para os tempos de Paulo Portas, e do modo como este, a dado momento da sua vida político-partidária, associava "rendimento mínimo" e "ciganos" (louvando-se, e revendo-se, tais dirigentes, em tal histórico e, pelos vistos, legado), não deixam de levantar várias questões: a) será que o ideário democrata-cristão é o mais representativo para a maioria dos militantes do CDS?; b) a importância do PP, essa criação de Paulo Portas e Manuel Monteiro, não será muito substantiva neste partido?; c) diferentes correntes, no interior de um partido, serão sempre compatíveis (entre si)?; d) no caso concreto, democracia-cristã e populismo são susceptíveis de conseguir, sem um deles se colocar em causa, manter um cimento?; e) irá Assunção Cristas conseguir manter sempre a rota aqui firmada, face à pressão de que esta semana foi alvo, neste contexto, com o subliminar de que com Portas a posição do seu partido seria outra?; f) que posição teria, nas mesmas circunstâncias, Nuno Melo?; g) um resultado menos conseguido, por Assunção Cristas, em Lisboa, depois de expectativas colocadas muito altas - incluindo os media, que a colocaram como podendo chegar a um segundo lugar, e nisso, mesmo que para apoucar a escolha do PSD, não lhe fazendo grande favor -, e face a este ruído, de que modo poderão afectar a sua liderança?; h) ao falar-se de populismo, como se fosse um estádio político muito recente e tivesse nascido com Donald Trump e como se, de aí em diante, quase todo o movimento, ou objecto político menos identificado, pudesse ser catalogado, sem mais, como aí estando filiado, não se ignora um conjunto de manifestações políticas, nomeadamente, no nosso país, em décadas recentes (os cartazes com os tachos, do PP de Manuel Monteiro, como se a política fosse isso ou a isso se reduzisse, e como se o PP estivesse fora da política; a encenação de um país onde a criminalidade seria dramática, no final dos anos 90, quando esta estava a diminuir neste país - quando, não, então, a sugestão de ligação da mesma a determinados grupos de imigrantes; as frases sobre os "ciganos do rendimento mínimo", ignorando-se quanto gasta o estado com esta prestação social não contributiva, qual a natureza da mesma, quanto, em média, recebe cada beneficiário, em que situação se encontra cada um destes, qual o valor da fraude calculada no recebimento de tal prestação, que obrigações impendem sobre quem dela pretende ser beneficiário e como se o grande problema das finanças públicas portuguesas fosse o rsi)?
Claro que, para lá dos princípios aplicáveis, e bem aplicados, ao caso concreto, não deixou de haver algum aproveitamento partidário, próprio do dito jogo, deste caso de Loures; também não creio que Passos Coelho seja racista ou xenófobo, nem me parece que tenha sentido entrar-se por aí. Dito isto, o candidato em causa, em Oeiras, de maneira nenhuma, com o tipo de posicionamento público que tem - por vezes, mesmo com seus interlocutores, olhos nos olhos, colocando em causa a sua honorabilidade, perante a sua complacência, e como se essa alusão ao carácter nada lhe interessasse -, nos conhecidos domínios em que participa, em termos mediáticos, contribui para o engrandecimento de qualquer movimento ou partido que contribua para o suportar.
A finalizar, duas notas: uma para referir a perenidade de certa postura dos cidadãos sobre o modo como são alocados recursos/subsídios do Estado, em diferentes épocas e sociedades, bem como os juízos de valor que são feitos sobre quem possa usufruir de ajuda pública em situação de pobreza. Por um lado, lembro-me dos escritos de George Orwell, de há sete ou oito décadas, nos quais recorda as senhoras ao chá falando dos mandriões que são pobres e que podiam ir limpar as matas e os caminhos e não querem fazer nenhum e, ainda por cima, em vez de uns bons suminhos de laranja naturais que fariam bem à saúde gastam o dinheiro em guloseimas - escrito, relembro há uns 80 anos -; depois, e até pela leitura que estou a fazer do livro de J.D.Vance, Lamento de uma América em ruínas (a tradução da obra cujo título original, de que aqui se dera conta há um ano, é Hillbilly Elegy), o nome dado, nos Estados Unidos da América, por parte de certos sectores sociais, a pessoas que recebem subsídios da Segurança Social é "rainha da Segurança Social", o nome para o estereótipo/preconceito da senhora negra, preguiçosa, que passará o dia a dormir e só quer viver à custa dos contribuintes. Entre os "ciganos do rendimento mínimo" e a "rainha da Segurança Social" a mesma retórica que explora sentimentos menos nobres em busca de um ganho político - partindo para uma generalização que parece ter pouca acomodação nos factos - só o alvo mudando, mas, porventura, sugerindo coordenadas e constantes antropológicas/sociais/sociológicas a registar.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Da política (IX)
Desde meados dos anos 70 que os melhores estudos mostram o declínio do voto classista. O eleitorado torna-se, pois, mais volátil, faz demandas mais complexas e fragmentadas. Mais difícil, assim, a resposta dos partidos, formatados como partidos-contentores, no pós-modelo fordista, em que tu está em su sítio. Decai, ainda, o voto ideológico, programático e a personalização é a pedra de toque. Com o plus de esta não recair em representantes conhecidos, mas em produtos fabricados pelo marketing, gente longínqua que nos chega pelos ecrãs. E, no entanto, os que acreditavam nas promessas miríficas de uma sociedade totalmente horizontalizada, e uma democracia direta na internet, certamente perceberam que partidos não organizados - aparentemente mais fashion e sedutores, sem a carga pesada de outrora - potenciam, por paradoxal que pareça, a liderança autoritária e despótica (a ausência de regulamentos, a ausência de baias, corpo doutrinário a que obedecer, que se intrometam entre a vontade de poder de quem quer exercê-lo totalmente e os direitos e interesses dos representados: "a organização é a arma dos fracos contra o poder dos fortes"). Da esquerda digital à direita que pretende enfraquecer os mecanismos de exigências sociais, o espaço político vem sendo desregulado. Por vezes, partidos monotemáticos, sem ideologia, irrompem em cena. A diferença (necessidade de reconhecimento) como o tópico que parece suplantar, no espaço político, a desigualdade (necessidade de redistribuição) como factor determinante das lutas hodiernas (não é só a economia...). Como que só assentindo na diferença se encontrasse maior igualdade. Como se a diferença entre direitos individuais e colectivos tivesse deixado de fazer sentido (não podendo ser olhados de modo cindido: "os culturalmente excluídos costumam ser economicamente excluídos (...) não existem zonas puramente económicas nem espaços exclusivamente culturais", p.70). No equilibro precário entre o comunitarismo e a privatização das identidades. Exigindo lideranças sensíveis, em que o psicológico conta, em que a articulação do pluralismo é o grande desafio.
[a partir de Daniel Innerarity, A política em tempos de indignação, D.Quixote, 2016]
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Uma estreia

Alguma coisa muda quando uma aspirante à liderança de um partido, como Assunção Cristas, diz que se candidata porque quer, porque tem vontade, "porque gosto da política". Não tarda em cair em desuso a abnegação contrariada pela pátria, o serviço a contra-gosto, a penúria hercúlea no pastoreio colectivo (acompanhado do não menos fadário "para prejuízo da família"). As declinações anti-Cavaco, muito na moda, que o tempo oferece são, na verdade, infindáveis. Ademais, para o CDS vejo a vantagem de escutar o país, finalmente vence no partido - em um partido - quem, fora do partido, a generalidade dos portugueses preferiria. Helena Matos propôs um ângulo outro para apreciar esta habitual divergência, hoje convergência (no CDS face ao eleitorado globalmente considerado): popularidade e adequação seriam coisas diversas e um partido, se seguisse o que de fora lhe sopram, poderia acabar por eleger uma liderança que seria alheia ao intento interno. Prefiro pensar, por uma vez, no sinal optimista que daqui pode advir: os partidos recolherem do eleitorado a noção de quem, aos olhos do país, adquiriu méritos suficientes para ser levado a sério, pressionando estes a contrariar o habitual cursus honorum das jotas, do arroz de pato e dos jogos de multibanco.
quinta-feira, 5 de março de 2015
O top dos tops
O caso da compra de milhares de exemplares de A confiança no mundo, livro de José Sócrates, por uma articulada rede de amigos (da política), espalhada por diferentes concelhos, confirmada por Carlos Santos Silva - ver o trabalho, hoje publicado na revista Sábado por António José Vilela -, com os seus pormenores rocambolescos - a mulher do motorista João Perna a adquirir, em nove ocasiões diferentes, 134 livros, ou os gastos na ordem dos 170 mil euros por Santos Silva como fundo para aquisição de tal obra, por diferentes pessoas, de modo a estar no top dos tops -, se não releva de crime, todavia é muito expressiva e ilustrativa de um modo de ser e de actuar e do que são, ainda, os homens de mão dos aparelhos e, assim, muito do que há nos partidos (não, não é populismo; os partidos são indispensáveis, mas têm mesmo de mudar). Desde que o Sol revelou o "empréstimo milionário" de Santos Silva a Sócrates, com um modus operandi extremamente estranho que, aos olhos de um cidadão interessado e sem uma posição pré-definida sobre o caso (sim, sim, éramos alguns), este ganhou novos contornos. Agora, ao perceber-se, a crer no que a Sábado hoje publica, todo o estratagema de promoção do livro (neste caso, os pormenores contam mesmo), fica a convicção quanto a um conjunto de personagens ainda mais preenchida. É certo, contudo, que de entre o material agora publicado pela newsmagazine não se encontra uma concreta evidência de corrupção. Desde o início deste caso que creio que pode suceder que nem este crime seja demonstrado (como tendo sido praticado por estes agentes; Marcelo Rebelo de Sousa explicou bem por que tal é bem possível de acontecer), nem a imagem das pessoas indiciadas, por outro lado, pode passar incólume. Pode acontecer, com efeito, que todos saiam mal. "Há crime?", pergunta-se, várias vezes, ao longo das páginas que hoje nos são facultadas na imprensa. Não sei. Mas há muitas outras coisas negativas que saem, que foi possível saber, deste processo. O juízo negativo de um cidadão acerca de uma personalidade política está bem longe de se esgotar na responsabilidades penais que lhe sejam imputadas. Deveria este concreto processo existir para sabermos delas, dessas outras coisas negativas? Deve, sobretudo, demonstrar, solidamente, o indiciado.
Não sabemos de muita coisa. Mas, ficando pelo que sabemos, confirmado pelas partes (no caso do esquema do livro, Sócrates terá negado o seu envolvimento nele, ao contrário de Santos Silva que admitiu ter contribuído para procurar promover o amigo), não é nada bonito de se ver. Entretanto, a lamentável resposta de Passos Coelho às dúvidas sobre a sua situação fiscal, remetendo, com insinuações, para Sócrates - vejam quem é pior, parece ele dizer e veja-se, então, a que ponto chegámos; os seus defensores, nas redes sociais, parecem seguir o mesmo caminho: era melhor termos o Sócrates como PM, ironizam, num argumento de grande nível, não há dúvida -, permitiram ,a este, voltar à estória da prisão com motivação política (algo que olhando para o que já sabemos parece muito pouco verosímil). Só a António Costa esta troca de galhardetes - que interessa ao actual e ex-PM; um, porque, à falta de defesa sustentada, tem alguém em quem bater; o outro, porque assim agita o papão da conspiração - não interessa nada (se Costa atacar Passos, lá lhe respondem com Sócrates; e este último, a quem interessa ser atacado para se vestir de vítima de um caso político, faz o papel que acaba por interessar a quem o quer manter na agenda).
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domingo, 21 de dezembro de 2014
Reformar
Um
dos adquiridos, que data pelo menos desta última década, para a nossa vida
política, de um conjunto de experiências eleitorais no interior dos partidos é
o de que aquilo que se passa na existência de cada agremiação partidária e, em
especial, a escolha de um programa e seus representantes, não é algo que diga,
exclusivamente, respeito aos militantes dessa força partidária. Em sociedades
abertas, a comunidade interessa-se, os media escrutinam, e a democracia pode
revitalizar-se em momentos em que, em virtude de uma dada disputa eleitoral, em
público e às claras, se discutem concepções sobre a cidade, planos ou projectos
para esta. São momentos, aliás, de raro privilégio, de atenção concentrada dos cidadãos,
para que um partido possa afirmar-se.
Esta
perspectiva, válida para o todo nacional, é-o, ainda, no âmbito local. Nesse
sentido, e pensando-se na noticiada eleição (próxima) para a concelhia de Vila Real do
PSD, com natural expectativa os cidadãos interessados na coisa pública procuram em jornais, rádios,
televisões ou sítios da internet locais que pensamento, que políticas, que
ideias se propõem para a cidade, atendendo a que não pode deixar de se esperar
que as candidaturas que possam surgir resultem de uma ambição em concretizar
uma estudada ideia sobre o concelho.
Sendo,
sem dúvida, importantes os nomes, as pessoas que corporizam uma ideia ou
projecto, não menos fundamental é que estes – a ideia ou projecto – existam
mesmo. Que não se navegue à vista, nem tudo termine em opções casuísticas. E,
em sendo mais do que uma as candidaturas, que se confrontem visões sobre as
escolhas a prosseguir.
Assumir esta necessidade de clareza - quer quanto ao leit-motiv de ambições políticas, quer quanto aos conteúdos programáticos - é que seria, não nominal mas substancialmente, politicamente incorrecto.
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