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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Coligações na fragmentação cultural


Lendo as análises de Piotr Buras ao momentum político por que passa a Europa - com uma presença forte de movimentos de extrema-direita e populismo -, a ideia, a fixar, da cada vez maior dificuldade de partidos obterem registos eleitorais que lhes permitam obter maiorias absolutas e governarem sozinhos. Em sociedades cada vez mais fragmentadas, com uma enorme diversidade, com muitos públicos, com múltiplos nichos, torna-se, cada vez mais, complexo, tudo o indicará, elaborar-se uma proposta capaz de cobrir mais de 40% do eleitorado. O fenómeno é, desde logo, cultural - no caso norte-americano, o caso de pessoas que só vêem a Fox News, ou, inversamente, os programas de humor concorrentes que fazem tiro ao alvo aos republicanos, a fragmentação dos canais especializados, a net que responde (apenas) ao que queremos - não alargando o espectro -, o fim das livrarias (e das sugestões mais alargadas que vão além do que já conhecíamos, ou da área temática de conforto), os facebook em (pequena) rede que só corroboram as nossas ideias (preconceitos). O fim das grandes narrativas, a recusa do compromisso
Claro, face ao mesmo contexto, as respostas podem ser diferentes: uma estratégia que aposte tudo em falar, sucessivamente, para camada de público (para cada nicho), pensando que, assim, somará constantemente (o pecúlio eleitoral); ou, ao contrário, ainda assim, formular um discurso único que ouse convocar todos, respondendo com um chão comum onde parece existir apenas eleitorado líquido; propor um cimento para todas as fendas.
Durante anos, pensar-se-ia que falar para um ou outro nicho seria típico de pequenos partidos que não aspirariam a uma vitória; hoje, a doutrina dividir-se-à. A mesma que, em qualquer caso, será capaz de salientar como tal perspectiva - a do modo como a política absorve/reage a um fenómeno cultural marcante nos nossos dias - tem consequências/resultados diversos consoante estejamos os graus de diversidade étnica, religiosa, presença migratória, unidade linguística, territorial, história nacional.

domingo, 6 de agosto de 2017

Óbvio, ou nem por isso



"Ele [Trump] vai actuar muito na área da economia e ele aí tem algumas vantagens, porque ele é um empresário. E nós temos que saber que a maior parte dos políticos não tem noção nenhuma de como funciona a economia real (...) Ele sabe o que é o mundo real. Ele vai baixar os impostos. É óbvio que quando ele baixar os impostos a economia vai crescer! Uma economia que está cheia de impostos é uma economia que as pessoas têm medo de investir porque vão perder dinheiro, não é? Uma economia onde se pagam poucos impostos, compensa investir. É óbvio que ele percebe como isto funciona!

José Rodrigues dos Santos, há 8 meses, no programa Cinco para a meia noite, na RTP1.

Neste excerto, José Rodrigues dos Santos dá por adquirido que a) baixar os impostos, nos EUA, vai produzir um efeito multiplicador naquela economia; b) que um multimilionário, com palacetes extravagantes e aviões, com uma herança brutal que chegou a desbaratar por completo, com um percurso cheio de negócios mal parados e que arruinaram a vida de muitas pessoas "sabe o que é o mundo real" [seja lá o que for o "mundo real"]; c) que, regra geral, os políticos [Trump não é?] "não sabem como funciona o mundo real"; d) que Trump sabe, e sabe-o "porque é empresário" (vantagem dos empresários sobre os políticos, pelos vistos "classes" [e] estanques]; e) talvez ser empresário dê, necessariamente, um bom ministro da economia (a julgar por esta reflexão); f) Trump vai baixar os impostos, com vantagem para a economia norte-americana, porque, supõe-se ao escutar-se este arrazoado, "uma economia que está cheia de impostos" não permite investimento. Logo, depreende-se que a economia norte-americana poderá inscrever-se nessa condição (pré-reforma fiscal a implementar por Trump); g) haverá uma relação causa-efeito entre descida de impostos e crescimento da economia; h) o entrevistado fala, apenas, em "baixa de impostos", não detalhando tipo de impostos, grupos aos quais se aplicar, etc. (como se tal, portanto, seja indiferente em termos de repercussão na economia). Em todo o caso, nos últimos meses, já durante o mandato do atual Presidente (numa longa tendência que vem da Administração Obama), a economia cresce, sem que os impostos tenham baixado.

Há uns meses que me dei na conta desta entrevista, no youtube, constatei como dela fazem parte uma espécie de vários pontos (cegos) de um determinado imaginário sobre a política e seus actores (uma certa ideia da política e da economia, muito popularizadas por determinados sectores de opinião com uma certa tendência populista, nuns casos, e liberal na economia, noutros), mas repesco-a, este fim de semana, para a confrontar - podia ir buscar-se uma inteira biblioteca, mas fiquemos por aqui - com o artigo do Nobel da Economia Joseph Stiglitz publicado no suplemento de Economia do Expresso (porque nele podemos ver a contestação enfática de enunciados, ou melhor e em realidade, postulados tão perentoriamente acima assumidos). Não para ancorar um argumento de autoridade, não para colocar no mesmo pé, porque não coloco, no debate sobre a Economia, quem tem uma outra área de especialização académica (jornalismo), com quem professa, como área de investigação, o domínio do económico (como se equivalessem), não para procurar, apenas, um arbítrio técnico como se ignorasse que, em qualquer dos agentes, a ideologia existe; não para negar a legitimidade de qualquer das ideologias (que cada um dos agentes professará), mas, justamente, porque, desde logo, do ponto de vista pedagógico me parece muito ilustrativo que as pessoas anotem a diversidade, se dêem na conta de um pensamento que passa por ressoar uma objectividade que manifestamente não possui - "é óbvio..."; como quem diz, "é assim que as coisas são, e quem conhece a economia real sabe que sim" -, e para que cada um possa ajuizar acerca do modo como quem tem responsabilidades no espaço público-mediático nem, sequer, problematiza as suas posições, não as contextualiza num quadro mais amplo de discussão política, não faz nenhum esforço de diálogo crítico das suas convicções com outras diversas, numa palavra, não mostra (não é capaz de mostrar?) o que há (ignorando o demais?). 

Programas como o Cinco para a meia noite, em Portugal, têm como finalidade, muito naturalmente, o entretenimento. Mas, para alguns sectores da população, nomeadamente mais jovens, estou em crer, fazem (ou ajudam a fazer), também, (alguma) opinião (política) e de aí - mas se as declarações fossem produzidas noutro programa o mesmo se aplicava; não diminuo, necessariamente, é a responsabilidade de quem se pronuncia, sobre estas estritas questões políticas - que pudesse esperar-se que quem se debate com os temas maiores da polis se considerasse obrigado a uma outra postura.

Poderá dizer-se que no seu texto, Stiglitz principia por referir-se a baixas de impostos para aqueles que se encontram entre os mais favorecidos. Mas, no seu raciocínio, como se verá, contemplará, inclusive, uma baixa de impostos generalizada (para todos) e as suas conclusões são igualmente de modo a tecer um juízo muito negativo quanto a tais medidas. O seu foco é a reforma fiscal (cortes incisivos de impostos) anunciada por Trump, mas ainda por concretizar e desenhar por completo:

"Isto não funcionará, porque nunca funcionou. Quando o Presidente Ronald Reagan tentou o mesmo, na década de 1980, afirmou que as receitas fiscais cresceriam. Em vez disso, o crescimento abrandou, as receitas fiscais caíram e os trabalhadores sofreram (...) O mais provável será uma redução fiscal generalizada (...) A sordidez de tudo isto será disfarçada pela estafada afirmação de que menores taxas de imposto fomentarão o crescimento. Não existe base teórica ou empírica que confirme isto, especialmente em países como os EUA, onde a maior parte do investimento (em termos marginais) é financiado pelo endividamento e onde os juros são dedutíveis nos impostos. Os rendimentos marginais e os custos marginais são reduzidos de forma proporcional, deixando o investimento em grande parte inalterado. Com efeito, um olhar mais atento, que considere a depreciação acelerada e os efeitos sobre a partilha do risco, mostra que a diminuição da taxa de imposto provavelmente reduza o investimento. Num país com tantos problemas - especialmente, a desigualdade - as reduções fiscais para as empresas ricas não resolverão nenhum deles. Esta é uma lição para todos os países que estejam a contemplar reduções ficais para as empresas"

José Stiglitz, As reduções fiscais para ricos não resolvem nada, Economia, Imobiliário e Emprego, Expresso nº2336, p.39

Que se adira ao achismo é pobre. Que não se perceba, ou não queira perceber que o achismo é achismo pior. Que não se encontre alternativa...Quanto à impreparação de Trump tanta demonstração se fez, e o mandato tem sido tão eloquente, até ao momento, nesse sentido, que nunca percebi bem o que era isso de uma superioridade dele face "aos políticos" e quanto ao seu conhecimento do "mundo real". 

Adenda: nem de propósito, na edição desta semana do programa GPS, Fareed Zakaria recordava que George Bush (pai) qualificou como "vudunomics" (economia vudu) as propostas de Ronald Reagan para fazer crescer a economia, com base num corte drástico de impostos. Em realidade, com Reagan a dívida norte americana triplicou. O mesmo se veria, um forte aumento da dívida, com as política de redução de impostos levada a cabo por George W. Bush (filho), já neste século. E, ao invés, quando Bill Clinton aumentou os impostos, isso não teve nenhum efeito negativo sobre a economia: esta cresceu muito significativamente. Atualmente, segundo os estudos mais independentes a economia, já com as reduções de impostos, crescerá 1,9%. Nos últimos 15 anos, a média foi de 1,8%. Pelo meio, um crescimento enorme de dívida, ou corte forte em funções do Estado. Num dos Estados em que se aplicou esta teoria de baixar impostos para que houvesse crescimento económico, este foi muito inferior à média nacional, tal como o crescimento do emprego, e o Estado foi, mesmo, à falência, sendo que Trump nomearia o responsável para um cargo internacional relacionado com a liberdade religiosa. Para ver aqui, o programa em causa: https://www.rtp.pt/play/p2064/e301414/gps

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A impopularidade do populismo (em Portugal): causas

Resultado de imagem para passividade

Segundo António Rolo Duarte podemos divisar um acervo de explicações para que o populismo não obtivesse vencimento em Portugal (sendo Marinho e Pinto apontado como único caso de relativo, e efémero, sucesso):

i) características da imigração em Portugal - "ainda hoje, temos a segunda taxa de imigração mais baixa da União Europeia. A ausência de um aumento súbito de população estrangeira desde 1976, de números significativos de refugiados, e de crimes mediáticos associados à imigração (caso do terrorismo), leva os portugueses a não se sentirem ameaçados. Neste contexto, o eleitorado não sente a necessidade de um tipo de partido que politize este assunto.; Um estudo recente do Eurobarómetro concluiu que apenas 4% dos portugueses vêem a imigração como um dos principais problemas do país. É um número baixo, se tivermos em consideração que a média da UE se situa nos 26%.os estudos de diversas agências europeias mostram que os portugueses não são menos xenófobos ou anti-imigração do que os outros europeus."


iii) a transição histórica entre o Estado Novo e a Revolução de 1974, criando desorientação psicológica foi convidativa a grandes reservas quanto a mudanças radicais na ordem sócio-política.

iv) Portugal é um país que não teve a tradição industrial de outras nações que, no pós-II Guerra, viram as condições materiais satisfeitas e puderam dedicar-se a reivindicações pós-materiais, entre as quais questões atinentes à dimensão identitária, libertação de minorias, ecologia. Muito do mundo fabril rebelou-se contra um certo tipo de agenda que colocava no topo tais questões. A fractura não se deu em Portugal, país agrário com o Estado Novo, com sector secundário sempre relevante mesmo no que se seguiu.

v) Apesar de não poder negar-se uma diferença de valores entre o litoral urbano e o norte mais conservador, o eleitorado é passivo e ninguém foi capaz de mobilizar as massas para um confronto identitário.

vi) os partidos existentes cumprem já o desiderato de cobrirem todo o espectro ideológico, pelo que se não afigura fácil o surgimento de novos partidos.

Na íntegra, o texto no Públicoaqui.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Social-democracia de taberna


Soaram-me a um completo falso unanimismo, em Portugal, as reacções às afirmações de Dijsselbloem sobre os países (e as pessoas) do Sul da Europa: qual foi o discurso predominante, no nosso país, como explicação da crise, pela qual também (e tanto) passámos (e passamos), durante os últimos sete anos? Não foi o de que as pessoas, as pessoas concretas, tinham gasto mais do que podiam, e que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades (com enfoque individual/subjectivo)? A abordagem não foi aos plasmas que se compraram, às subscrições de tvcabo, aos automóveis adquiridos a crédito, às férias nas Caraíbas (de quem, supostamente, ganharia o salário mínimo, ou coisa parecida)? Então não foi este o discurso hegemónico, de cariz moralista, que não precisava de estudo - o que é uma união económica e monetária, os choques assimétricos, o tipo de moeda que temos, a abertura à China da OMC em 2000, o alargamento da União a Leste, a localização geográfica dos países e o tipo de economia que cada um destes possui e o que mais lhe convém, os desequilíbrios comerciais no seio da UE, a relação entre culturas diferentes e as políticas comuns, a diferenciação e concorrência fiscal (aceitável?), o projecto federal, etc., etc., etc. -, que passou das televisões, de figuras muito reverenciadas, adoptadas por inúmeros políticos e repetidas nos cafés? Pior do que o preconceito externo sobre os nacionais - ou os cidadãos da Europa do Sul - é, na verdade, compatriotas a tratarem seus congéneres como PIGS. Isso, sim, devia indignar, mas não indignou, e de que maneira. Aliás, se, hoje mesmo, se pedir à generalidade dos portugueses que identifiquem as causas da crise, e como não lhe deram melhores explicações - e a maioria não se interessa, nem tem possibilidades, a diferentes níveis, de gastar horas a ler ensaios políticos que foram sendo publicados entre nós a propor linhas bem mais complexas de interpretação dos nossos problemas económico-sociais -, o que esperar se não a ladaínha, triste e pobre, paupérrima, debitada semana após semana, ao longo de anos? Vale a pena dizer, entretanto, que por coincidência, ontem, um estudo, assinado (atente-se no título desta notícia, Afinal, as empresas e o Estado é que viveram acima das suas possibilidades), entre outros, por um ex-secretário de Estado do governo anterior, Fernando Alexandre, não deixava de sublinhar que não foram as famílias, mas antes as empresas e o Estado a gastarem em excesso ("“Às vezes, há uma leitura moralista destes dados dizendo que as pessoas vivem acima das suas possibilidades, mas as pessoas não são estúpidas”, afiança o investigador, considerando que “grande parte das despesas que as pessoas fazem não são consumo, são investimento“. Fernando Alexandre dá o seu próprio exemplo, notando que tem três filhos e que gasta “a maior parte do rendimento na sua educação”.). Segundo este académico, o que as pessoas gastaram em habitação - a esmagadora fatia do crédito concedido foi para esse efeito - fazia, evidentemente, todo o sentido (por muito que isso custe aos moralistas dos plasmas). Hoje, em todo o caso, um colunista do Negócios que é muito requerido por programas de tv que crêem que as pessoas não devem ser confrontadas com pensamento crítico, assume as palavras do presidente do Eurogrupo e coerentemente refere que aquilo que o holandês disse é o que "muita gente pensa" por cá, a começar, claro, pelo dito colunista. As pessoas que por diferentes motivos passam, diariamente, horas em frente aos televisores, às vezes em grande sofrimento, não mereciam que lhes oferecessem motivos suplementares de masoquismo. Parece que descobrimos o populismo com Trump, e o ranço com Dijsselbloem. Lamento informar: já cá estavam.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Contra o populismo (II)


A hostilidade em relação aos imigrantes na Alemanha tem sido mais forte nas regiões onde eles vivem em menor quantidade: nos antigos estados da Alemanha de Leste. Estes continuam a ser mais pobres do que a Alemanha Ocidental. O crescente fosso entre ricos e pobres no país em geral promove sentimentos contra os imigrantes e contudo não existem fundamentos que justifiquem os sentimentos de ansiedade face aos refugiados, argumentou Naika Foroutan. A economia alemã é forte, a taxa de desemprego é baixa e, no ano passado, o governo registou um superavit de 19400 milhões de euros. A Alemanha pode dar-se ao luxo de integrar refugiados e, simultaneamente, investir em infra-estruturas que beneficiem os alemães. "Não é um pânico real", comentou Naika. "É um pânico cultural"

Robert KunzigOs novos europeus, in National Geographic, nº187, Outubro 2016, p.28

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Da política (XIV)


Há um desfasamento muito grande entre as enormes expectativas do cidadão sobre a política e aquilo que ela pode (fazer, dar). E esta é um fonte de grande decepção. Para criticar a política, ou os políticos, importa, por isso, circunscrever aquilo a que esta se pode ater. E, paradoxalmente, à medida que ela pode menos, à medida que os Estados estão mais expostos e a soberania sofreu grandes transformações, mais se pede à política. Ela não pode garantir a felicidade. E o regime democrático, por sua natureza, gera desilusão, na medida em que tem em si inscrito o inacabado, o inacabável, é um caminho aberto, por concretizar. Para Daniel Innerarity, em A política em tempos de indignação, a dicotomia tecnocracia vs populismo será um melhor descritor ideológico, hoje, do que o direita vs esquerda. Para os tecnocratas, as limitações, o nada a fazer, o "realismo cínico", os constrangimentos apenas, sem estados de alma, nem necessidade de legitimação das decisões; aos populistas, a ausência de limites, a possibilidade de tudo, o irrefreável, a venda de ilusões como se obstáculos não existissem. Como, no mesmo texto, Innerarity associa a direita a um pragmatismo que mede tudo pela lógica do custo-benefício, sem se importar com grandes expectativas ou transformação da realidade (e, logo, menos propensa a grandes desilusões com o balanço que faz), e a esquerda a viver com dificuldades os entraves que hoje se colocam ao agir dos governos nesta era, tecnocracia e populismo não serão, afinal e radicalmente, dois pseudónimos para o par mais perene, em termos ideológicos, desde 1789? Ganhar-se-à, assim muito, em termos de descrição da realidade (política), em substituir os pólos de dicotomia em questão? Claro, dir-se-à, há populismos de direita, mas o articulado do filósofo político, não vai muito por aí. Por outro lado, entender, como o autor faz, que um dos (três) possíveis pomos de (hipotética) repolitização da sociedade pode passar pela discussão das características pessoais dos candidatos, se perspectivado como um desejo (se, aqui, "pode" significar "deve"), não tem, a meu ver, ganhos claros para o debate político, para uma sociedade com uma discussão (deliberação) qualitativamente mais densa. As ideologias, os grandes nomes, geraram, com efeito, justa desconfiança; a política é feita por pessoas, não só de ideias, e seria errado desprezar a dimensão pessoal; o escrutínio dos curricula, das posições de cada aspirante a representante é necessário, mas retomar um maior interesse (societário) pela política, assente, em um dos (três) pilares, por aqui, não me parece que vá produzir os melhores resultados (porque a captura do acessório, do voyeurismo, da pequena intriga teriam pasto de sobeja, em esse contexto).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Demagogia


Se a democracia emerge como a promessa daquilo a que se poderia chamar uma «aristocracia universal», uma democracia de aristoi marcada pela «educação liberal» de que falava Leo Strauss, dir-se-ia que as democracias se convertem cada vez mais em processos nos quais massas puritanas, ingénuas e maniqueias, se erguem contra as elites invertidas dos responsáveis políticos, as quais são já não os bons (aristoi) mas os «maus» (kakoi), isto é, os escolhidos para serem sacrificados ciclicamente, ao perderem eleições, pelos «cidadãos impecáveis» que os julgam e destituem.

Alexandre Franco de Sá, Direita e Esquerda: entre crítica e hegemonia, in As direitas na democracia portuguesa, p.136.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Deixem o pimba em paz



Os primos que (há muito) estão na Suiça, e na França, e são ou da minha idade, ou mais novos do que eu, não ouvem, não gostam de música pimba. Não é que optem pela música erudita, não, mas rejeitam um género que interpretam como ilustrando o que sentem como atraso, ou pior, no país que visitam com maior ou menor regularidade, mas sentem, ainda, como seu. Ofendem-se com a RTP Internacional, que desligam quando, incessantemente, lhes pretende impingir os artistas de sempre. Desiludem-se com festas do emigrante que para eles, manifestamente, não são (dirigidas). Perguntam se os políticos, ou outras forças vivas, por cá, gostam mesmo desta música e respondo-lhes que não; sempre que questionados, formal ou informalmente, ou, então, em manifestação de livre e espontânea vontade, dirão que nem pensar, respeitam quem goste, façam favor, sirvam-se, mas eles não, nunca. Então porque se ufanam tanto por trazer à terra tais festas? Porque não conhecem que vocês, e tantos outros como vós, não gostais. Não é por mal. E se há tanto público (maioria não emigrante) para estes espectáculos, haverá necessidade de apoio/subvenção pública a tais eventos? Deixem o pimba em paz.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Viver acima das possibilidades




Ricardo Paes Mamede "rejeita a ideia de que os portugueses viveram acima das possibilidades: 'Há uma tendência para se confundir a situação macroeconómica do país com aquilo que são os comportamentos dos indivíduos. Rejeito em absoluto explicações moralistas para uma crise que tem uma base institucional.', justifica. Para ilustrar a tese, socorre-se da estatística: há 60% das famílias que não têm acesso a crédito. Dos 2/5 que tiveram acesso a crédito foi sobretudo para aquisição de casa própria - e pouquíssimos entraram em incumprimento. 'É possível que as pessoas não vivam acima das possibilidades e o país se encontre numa situação de acumulação de défices externos muito preocupantes' ".

in Sol, 24/07/2015, p.45, em peça da autoria de João Madeira.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tenham juízo


Não há, agora, sessão da Assembleia Municipal onde não se derrame um ou dois poemas, à laia de bons sentimentos. Acontece a selecta nem sempre primar pelo bom gosto e/ou pelo bom senso. A propósito do encerramento de escolas com menos de 20 alunos, e da passagem das crianças para outros estabelecimentos de ensino, comparar-se a ida, desses rapazes e raparigas, da sua terra natal, em autocarros, para outro local, a alguns quilómetros de distância, com o sucedido com os judeus, no século passado, com franqueza, será (minimamente) aceitável? E quem pega nessa evocação desconhece as políticas levadas a cabo, em muitos casos bem, apoiadas pelo seu próprio partido, “porque todos os estudos demonstram” (Maria de Lurdes Rodrigues) como tal favorecia/favorece (pedagogicamente) as crianças? O debate faz-se com estudo e de forma séria, ou com recurso a umas boutades em que se deita mão às piores imagens possíveis, cujo efeito é, aliás, afastar um público conhecedor? Como diria o dr.Assis, tenham juízo.


terça-feira, 6 de maio de 2014

O mirabolante caso da Taça da Liga




O jogo em que o Sporting se atrasou 24 dias

A histórica parcialidade e desrespeito da Federação Portuguesa de Futebol para com o FC Porto teve no “Processo Travassos” um dos mais célebres episódios do despotismo crónico que deliciava os pontas-de-lança do regime, independentemente da esfera da acção. O caso, absolutamente bizarro, remonta a Dezembro de 1955, quando o FCPorto de Yustrich punha em perigo a hegemonia dos clubes de Lisboa.
A irradiação do presidente do FCPorto, à revelia dos mais elementares princípios de justiça, foi a “pérola” dos protectores e afilhados do Estado Novo, em que o futebol era bandeira amiga e Lisboa área protegida. Qualquer maquinação era simples rotina. E com o tenente-coronel Ângelo Ferrari, um militar de carreira, à frente da FPF, a tirania não conhecia limites.
O insólito “caso Travassos” germinou a 7 de Dezembro de 1955, véspera de um FCPorto-Sporting, o sporting dos cinco violinos que se via repentina e duplamente em maus lençóis: tinha perdido o título para o Benfica e assistia à supremacia portista sobre toda a concorrência da capital.
Às 19 horas desse Sábado, o FCPorto, sem consulta prévia, recebeu um telegrama da FPF a comunicar arbitrariamente o adiamento do jogo para 1 de Janeiro de 1956. Tudo porque Travassos, o melhor jogador leonino, ficara retido, devido ao nevoeiro, durante 48 horas no aeroporto de Barajas, em Madrid, após um jogo particular entre as associações de Madrid e de Lisboa.
O FCPorto, que nada tinha a ver com a selecção lisboeta, repudiou a prepotência da FPF e condenou a pressão da Associação de Futebol de Lisboa, a reboque dos interesses leoninos. Cinquenta mil portistas com bilhete na mão foram ignorados. Cesário Bonito protestou com elevação, mas foi irradiado e a su Direcção punida colectivamente com três anos de suspensão. Tudo sem inquérito, processo disciplinar ou julgamento. Uma preciosidade própria do Estado Novo. Dois meses depois, após infatigáveis lutas pela verdade, a FPF arquivaria o processo.

Quando, a menos de 24 horas do encontro, Cesário Bonito recebeu o telegrama, ficou perplexo. Milhares de pessoas desceram às Antas na noite da véspera do jogo e, informadas da infâmia, voltaram para casa em clima de revolta. Cesário Bonito pediu calma, assumindo em entrevista, publicada a 12 de Dezembro de 1955, quatro dias depois do jogo adiado: “O insulto foi muito claro e violento. Se o esquecermos, perdemos o domínio de nós próprios e o direito de estar à frente do clube. Respeitamos a FPF quando actua com os regulamentos na mão e com independência. Isto é abuso de poder, abuso de homens, que a lei não admite. Cortaremos relações com as pessoas, protestaremos nas entidades oficiais, os sócios terão a palavra. A culpa não é da Federação, que tem estatutos e regulamentos. É dos homens, que ouvem Benfica e Sporting e a nós dão ordens”.
A Associação de Futebol do Porto demitiu-se em bloco, o juiz Gomes da Costa, o dr.Paulo Sarmento e Cabral de Matos abandonaram os cargos na Federação e, a 26 de Dezembro, a cinco dias do jogo, rebenta a “bomba”: irradiação do presidente e Direcção suspensa por três anos, mesmo depois de o FCPorto ter acatado o adiamento e as suas inconcebíveis razões.
A decisão de adiamento, incompreensivelmente unilateral e tardia, minou toda a cidade do Porto, mas Cesário Bonito, apesar da demissão da Direcção, juntou 5000 associados numa assembleia escaldante. Todos os especialistas consultados foram unânimes: não aceitar a irradiação, nem as suspensões.
“A lei não dispensa a existência de um processo. Nem Adão foi expulso do paraíso sem prévio aviso de um anjo…”, ironizou o advogado de Ângelo César, ex-presidente portista que passara olimpicamente por idêntica situação.
Afonso Queirós , provedor e professor catedrático na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, falou de “monstruosidade ilegal”; Constantino Fernandes, vogal do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, adicionou: “Ilegalidade manifesta. Não se aplicam penas sem processos, falta o corpo do delito. Processo disciplinar é condição imperativa”; Guilherme Oliveira, presidente da Associação de Futebol de Coimbra, escreveu: “Erro calamitoso, punições decididas sem qualquer respeito pelos regulamentos”.
Para pasmo geral, o recurso do FCPorto para a Direcção-Geral dos Desportos é indeferido, sentença conhecida a 4 de Janeiro, três dias depois de o FCPorto bater os leões por 3-1…
“O despacho da DGD é texto que se afasta dos Princípios Gerais da Justiça. Escrito em tom de enfado e a sugerir que é ‘comer e calar’”, assinalou o catedrático de Direito, Afonso Queirós, rebatendo todas as habilidades do acórdão, que queria meter no mesmo saco infracções de jogadores e dirigentes, balizando todo o julgamento sumário.

O apelo para o Ministério da Educação Nacional acabou com a pouca-vergonha, que já era amplamente comentada no estrangeiro. A 13 de Janeiro, e pela pena do ministro Pinto Leite, o nível de irradiação punha em alerta máximo os tiranos da FPF: “Nenhuma pena pode ser imposta sem dar voz ao eventual infractor. É imperativa a formalidade de audiência aos arguidos. A FPF deve ouvi-los antes de decidir”, lê-se no acórdão que dá provimento ao recurso do FCPorto. A 10 de Fevereiro de 1956, e de mansinho, a FPF arquivava o processo.
Com a imprensa internacional a rir da justiça desportiva portuguesa, o tenente-coronel Ângelo Ferrari durou poucos meses na presidência da FPF após o “caso Travassos”. Em 1957 cedeu o lugar ao capital Maia Lourenço e prosseguiu a sua carreira militar, atingindo o posto de coronel e a posição de Chefe de Estado-maior da Guarda Nacional Republicana.
Como Chefe do Estado-Maior da GNR foi determinante no fracasso do Golpe das Caldas, o célebre levantamento/intentona de 16 de Março de 1974, precursor da Revolução dos Cravos, e na madrugada de 25 de Abril, o Quartel do Carmo, onde se refugiou Marcello Caetano, estava sob o seu comando.
A forma como lidou com a segurança do sucessor de Salazar, principalmente a incapacidade de organizar defesa no exterior do Carmo perante uma Revolução em marcha, motivou do antigo presidente do Conselho comentários mordazes, como “personagem ridícula” e “apalhaçado”.
No currículo do então tenente-coronel Ângelo Ferrari está também a primeira ‘chicotada’ na selecção nacional. Foi em 1957, pondo na rua Tavares da Silva, a meio da fase de apuramento para o Mundial de 1958, na Suécia. Uma vitória, um empate, uma derrota, um despedimento selvagem. Entro José Maria Antunes, que acabou a qualificação com uma derrota…


VICTOR QUEIRÓS/MUSEU FCPORTO, DRAGÕES, Nº330, Ano 28, Março 2014, p.39-41.




P.S.: Cesário Bonito, natural do Peso da Régua, foi seis vezes presidente do FCPorto. Avançado, médico, figura tutelar do clube durante três décadas. Determinante na escolha dos terrenos para a construção do Estádio das Antas. No quinto mandato presidencial daquele que era sócio portista desde os 9 anos, nasceu a primeira dobradinha da história do FCPorto, em 1955/56. Presidente honorário do FCP, morreu em Setembro de 1987, três meses depois de Viena.


sábado, 5 de abril de 2014

Populismo e universidade


A finales de la Edad Media el caudal más fecundo de la cultura europea pasó de los monasterios a las universidades. Con este trasvase lo que había permanecido depositado en los recintos monásticos bajo la tutela de los monjes, preservado casi en secreto, se abrió al debate urbano que proponían los espacios universitarios. La cultura europea entró en una nueva dinámica que implicó el fin de dogmas y tabúes, pero que sobre todo supuso la superación del temor en la búsqueda del conocimiento. Los escritores y los filósofos aspiraron a romper el hermetismo de la época anterior, con la aspiración de someter sus concepciones a públicos cada vez más amplios. El uso, junto al latín, de las lenguas populares contribuyó a la consolidación de esta tendencia, como lo demuestra el caso de Dante que, si bien escribió muchas de sus obras en lengua latina, reservó para su joya literaria, la Divina Comedia, el uso del toscano. La culminación de todo ese proceso fue el Renacimiento. La invención de la imprenta y la consolidación de las universidades en las grandes ciudades forjaron un primer gran escenario de convergencia entre la cultura y la sociedad. Aumentó extraordinariamente el número de lectores al tiempo que las obras literarias influían en públicos cada vez más amplios. Shakespeare, Montaigne, Bruno o Cervantes simbolizan bien esta confluencia.
Las universidades occidentales se consolidaron definitivamente en los siglos xix y xx (sumando las americanas a las europeas) y, aunque nunca se despojaron por completo de su origen, por así decirlo, monástico, participaron activamente en la vida cultural moderna. Siempre mantuvieron una tendencia centrípeta y endógena pero, paralelamente, muchos de sus miembros se incorporaron a los debates públicos de su época y fueron grandes creadores de la literatura y del pensamiento. En estos dos últimos siglos es imposible tratar de comprender la historia cultural, o simplemente la Historia, sin atender a la función de las universidades en la dinámica pública y sin subrayar la importancia de numerosos profesores en la esfera creativa.
Pero no estoy seguro de que esto continúe siendo cierto. En los últimos lustros, y de un modo increíblemente acelerado, se ha producido una suerte de inversión de tendencias, a partir de la cual la universidad ha tendido a replegarse sobre sí misma, como si añorara, en un modelo laico, su antiguo origen monástico. Paradójicamente este repliegue se produce en el momento en que las tecnologías de la comunicación, como en el Renacimiento la imprenta, podrían facilitar la expansión de las ideas mucho más allá de los circuitos universitarios.
Desde una cierta perspectiva este retraimiento es la consecuencia de un nuevo antiintelectualismo que se ha asentado poderosamente en la vida social y política de principios del siglo xxi. En un reciente artículo escrito en el New York Times y titulado ¡Profesores, os necesitamos! Nicholas Kristof ha recordado el uso común de la expresión "That's academic" para descalificar la aportación de un adversario, poniendo, además, el ejemplo de su utilización por el conservador Rick Santorum para criticar los discursos de Obama. Que algo sea "demasiado académico", o sencillamente "demasiado intelectual", es una piedra de toque común en nuestra sociedad. El antiintelectualismo es una de las formas más toscas del populismo, pero parece proporcionar fáciles réditos en una población ávida por ese consumo inmediato de las cosas que la complejidad intelectual casi nunca otorga.
El problema es que la universidad actual se ha convertido, por inseguridad, cobardía u oportunismo, en cómplice pasivo de la actitud antiintelectual que debería combatir. En lugar de responder al desafío arrogante de la ignorancia ofreciendo a la luz pública propuestas creativas, la universidad del presente ha tendido a encerrarse entre sus muros. Es llamativo, a este respecto, la escasa aportación universitaria a los conflictos civiles actuales, incluidas las crisis sociales o las guerras. En dirección contraria, el universitario ha asumido obedientemente su pertenencia a un microcosmos que debe ser preservado, aún a costa de dar la espalda a la creación cultural.
Cada vez más alejado de lo que había significado la gran cultura, ese microcosmos ha elaborado complicadas normas de autopreservación en las que apenas se reconoce el talante intelectual, abierto y crítico, que se halla en la raíz renacentista de la universidad. Dicho de manera brutal: el humanista ha sido arrinconado por el burócrata (o si se quiere, por un monje sin fe pero con gran perspicacia en la tarea de la propia conservación). Naturalmente, esto no es atribuible a numerosos profesores, pero sí es el dibujo simbólico de una tendencia general que, en sí misma, supone la destrucción de la universidad tal como históricamente la habíamos concebido.
Es importante detenerse en las leyes que rigen en el microcosmos. Hasta hace poco lo que se valoraba en un profesor, además de su capacidad para la investigación, era su magisterio docente y la publicación de libros relevantes en su área de conocimiento. Precisamente esta última tarea era decisiva para facilitar una ósmosis entre la universidad y la sociedad. El libro —y, a poder ser, el gran libro— era el instrumento básico en la vertebración de la cultura y, simultáneamente, el desafío que debía afrontar el profesor que aspiraba a la madurez intelectual. La cultura occidental moderna está jalonada por libros que son fruto de aquel reto. Como complemento de esta tarea muchos profesores trataban de comunicarse con el público más amplio posible mediante la intervención en revistas y periódicos.
No obstante, de un tiempo a esta parte, se ha producido un estrechamiento paulatino del anterior horizonte al mismo ritmo en que la universidad, como institución, ha sacralizado el paper como medio de promoción profesional. En la actualidad una gran mayoría de profesores ha descartado la escritura de libros como labor primordial para concentrarse en la producción de papers. En muchos casos esta renuncia es dolorosa pues frustra una determinada vocación creativa, a la par que investigadora, pero es la consecuencia de la propia presión institucional, puesto que el profesor deber ser evaluado, casi exclusivamente, por sus artículos supuestamente especializados. Como quiera que sea, el nuevo microcosmos en el que se encierra a la universidad traza una kafkiana red de relaciones y hegemonías notablemente opaca para una visión externa a la institución. Además de atender a sus labores docentes, los profesores universitarios emplean buena parte de su tiempo en la elaboración de papers, textos con frecuencia herméticos, destinados a denominadas "revistas de impacto", publicaciones que tienen, por lo común, escasos lectores —siempre del propio ámbito de la especialización— aunque con un gran poder ya que son las únicas "que cuentan" en el momento de evaluar al universitario. En consecuencia, los profesores, sobre todo los jóvenes y en situación inestable, hacen cola para que sus artículos sean admitidos en publicaciones de valor desigual pero insoslayables. Se conforma así una suerte de mandarinato que rige el microcosmos. Los profesores son calificados, mediante las evaluaciones oficiales, de acuerdo con el acatamiento a aquellas normas. La ilusión o vocación de escribir obras de largo alcance —algo que requiere un ritmo lento, que a menudo abarca varios años— debe aplazarse, quizá para siempre.
Este ensimismamiento de la universidad, si merece críticas crecientes en el ámbito de las ciencias, y a las que alude Nicholas Kristof en el artículo antes citado, es directamente desastroso en el de las humanidades, puesto que erradica la figura creativa e intelectualmente abierta para imponer un perfil del profesor sometido a las servidumbres de un pequeño mundo que se presenta como "especializado" pero que, en realidad, es puramente endogámico. Lo peor es que este pequeño mundo, que alardea de rigor académico, se hace implícitamente cómplice del antiintelectualismo populista, al refugiarse en un lenguaje oscurantista y críptico. Podría confeccionarse una auténtica antología del disparate si juntáramos las exigencias burocráticas que, en el presente, rigen la vida universitaria. Entender las normas del microcosmos requiere tantas horas de estudio que apenas queda tiempo para estudiar lo demás. Comprender cómo hacer el paper servilmente correcto obliga, por lo general, a renunciar a toda creatividad y a todo riesgo.
La cultura humanista, nacida de la libertad y de la crítica, corre el peligro, en la actual universidad, de ser enclaustrada, como si volviera al recinto monástico: no a la grandeza de aquellos monasterios que conservaron el saber antiguo sino al inmovilismo dogmático de los que pretendían preservar los conocimientos mediante su reclusión. Por admirable que sea originariamente un conocimiento aprisionado es un conocimiento muerto.

Rafael Argullol es escritor. ELPAIS, 05/04/14.