O
jogo em que o Sporting se atrasou 24 dias
A
histórica parcialidade e desrespeito da Federação Portuguesa de Futebol para
com o FC Porto teve no “Processo Travassos” um dos mais célebres episódios do
despotismo crónico que deliciava os pontas-de-lança do regime,
independentemente da esfera da acção. O caso, absolutamente bizarro, remonta a
Dezembro de 1955, quando o FCPorto de Yustrich
punha em perigo a hegemonia dos clubes de Lisboa.
A
irradiação do presidente do FCPorto, à revelia dos mais elementares princípios
de justiça, foi a “pérola” dos protectores e afilhados do Estado Novo, em que o
futebol era bandeira amiga e Lisboa área protegida. Qualquer maquinação era
simples rotina. E com o tenente-coronel Ângelo
Ferrari, um militar de carreira, à frente da FPF, a tirania não conhecia
limites.
O insólito “caso
Travassos” germinou a 7 de Dezembro de 1955, véspera de um FCPorto-Sporting, o
sporting dos cinco violinos que se via repentina e
duplamente em maus lençóis: tinha perdido o título para o Benfica e assistia à
supremacia portista sobre toda a concorrência da capital.
Às 19 horas desse
Sábado, o FCPorto, sem consulta prévia, recebeu um telegrama da FPF a comunicar
arbitrariamente o adiamento do jogo para 1 de Janeiro de 1956. Tudo porque
Travassos, o melhor jogador leonino, ficara retido, devido ao nevoeiro, durante
48 horas no aeroporto de Barajas, em Madrid, após um jogo particular entre as
associações de Madrid e de Lisboa.
O FCPorto, que nada
tinha a ver com a selecção lisboeta, repudiou a prepotência da FPF e condenou a
pressão da Associação de Futebol de Lisboa, a reboque dos interesses leoninos.
Cinquenta mil portistas com bilhete na mão foram ignorados. Cesário Bonito protestou
com elevação, mas foi irradiado e a su Direcção punida colectivamente com três
anos de suspensão. Tudo sem inquérito, processo disciplinar ou julgamento. Uma
preciosidade própria do Estado Novo. Dois meses depois, após infatigáveis lutas
pela verdade, a FPF arquivaria o processo.
Quando, a menos de 24
horas do encontro, Cesário Bonito recebeu o telegrama, ficou perplexo. Milhares
de pessoas desceram às Antas na noite da véspera do jogo e, informadas da
infâmia, voltaram para casa em clima de revolta.
Cesário Bonito pediu calma, assumindo em entrevista, publicada a 12 de Dezembro
de 1955, quatro dias depois do jogo adiado: “O insulto foi muito claro e violento. Se o esquecermos, perdemos o
domínio de nós próprios e o direito de estar à frente do clube. Respeitamos a
FPF quando actua com os regulamentos na mão e com independência. Isto é
abuso de poder, abuso de homens, que a lei não admite. Cortaremos relações com
as pessoas, protestaremos nas entidades oficiais, os sócios terão a palavra. A
culpa não é da Federação, que tem estatutos e regulamentos. É dos homens, que
ouvem Benfica e Sporting e a nós dão ordens”.
A Associação de Futebol do Porto demitiu-se em bloco, o juiz Gomes da
Costa, o dr.Paulo Sarmento e Cabral de Matos abandonaram os cargos na Federação
e, a 26 de Dezembro, a cinco dias do jogo, rebenta a “bomba”: irradiação do
presidente e Direcção suspensa por três anos, mesmo depois de o FCPorto ter
acatado o adiamento e as suas inconcebíveis razões.
A decisão de adiamento,
incompreensivelmente unilateral e tardia, minou toda a
cidade do Porto, mas Cesário Bonito, apesar da demissão da Direcção, juntou
5000 associados numa assembleia escaldante. Todos os especialistas consultados
foram unânimes: não aceitar a irradiação, nem as suspensões.
“A
lei não dispensa a existência de um processo. Nem Adão foi expulso do paraíso
sem prévio aviso de um anjo…”, ironizou o advogado de Ângelo César, ex-presidente portista que passara olimpicamente por
idêntica situação.
Afonso Queirós ,
provedor e professor catedrático na Faculdade de Direito da Universidade de
Coimbra, falou de “monstruosidade ilegal”; Constantino
Fernandes, vogal do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados,
adicionou: “Ilegalidade manifesta. Não se aplicam penas sem processos, falta o
corpo do delito. Processo disciplinar é condição imperativa”; Guilherme Oliveira, presidente da
Associação de Futebol de Coimbra, escreveu: “Erro calamitoso, punições
decididas sem qualquer respeito pelos regulamentos”.
Para
pasmo geral, o recurso do FCPorto para a Direcção-Geral dos Desportos é
indeferido, sentença conhecida a 4 de Janeiro, três dias depois de o FCPorto
bater os leões por 3-1…
“O
despacho da DGD é texto que se afasta dos Princípios Gerais da Justiça. Escrito em tom de enfado e a sugerir que
é ‘comer e calar’”, assinalou o catedrático de Direito, Afonso Queirós,
rebatendo todas as habilidades do acórdão, que queria meter no mesmo saco
infracções de jogadores e dirigentes, balizando todo o julgamento sumário.
O apelo para o
Ministério da Educação Nacional acabou com a pouca-vergonha, que já era
amplamente comentada no estrangeiro. A 13 de Janeiro, e pela pena do ministro
Pinto Leite, o nível de irradiação punha em alerta máximo os tiranos da FPF:
“Nenhuma pena pode ser imposta sem dar voz ao eventual infractor. É imperativa
a formalidade de audiência aos arguidos. A FPF deve ouvi-los antes de decidir”,
lê-se no acórdão que dá provimento ao recurso do FCPorto. A 10 de Fevereiro de
1956, e de mansinho, a FPF arquivava o processo.
Com
a imprensa internacional a rir da justiça desportiva portuguesa, o
tenente-coronel Ângelo Ferrari durou poucos meses na presidência da FPF após o
“caso Travassos”. Em 1957 cedeu o lugar ao capital Maia Lourenço e prosseguiu a sua carreira militar, atingindo o
posto de coronel e a posição de Chefe de Estado-maior da Guarda Nacional Republicana.
Como
Chefe do Estado-Maior da GNR foi determinante no fracasso do Golpe das Caldas,
o célebre levantamento/intentona de 16 de Março de 1974, precursor da Revolução dos Cravos, e na madrugada de
25 de Abril, o Quartel do Carmo, onde se refugiou Marcello Caetano, estava sob o seu comando.
A
forma como lidou com a segurança do sucessor de Salazar, principalmente a incapacidade de organizar defesa no
exterior do Carmo perante uma Revolução em marcha, motivou do antigo presidente
do Conselho comentários mordazes, como “personagem ridícula” e “apalhaçado”.
No
currículo do então tenente-coronel Ângelo Ferrari está também a primeira
‘chicotada’ na selecção nacional. Foi em 1957, pondo na rua Tavares da Silva, a
meio da fase de apuramento para o Mundial de 1958, na Suécia. Uma vitória, um
empate, uma derrota, um despedimento selvagem. Entro José Maria Antunes, que acabou a qualificação com uma derrota…
VICTOR QUEIRÓS/MUSEU
FCPORTO, DRAGÕES,
Nº330, Ano 28, Março 2014, p.39-41.
P.S.:
Cesário Bonito, natural do Peso da Régua, foi seis vezes presidente do FCPorto.
Avançado, médico, figura tutelar do clube durante três décadas. Determinante na
escolha dos terrenos para a construção do Estádio das Antas. No quinto mandato
presidencial daquele que era sócio portista desde os 9 anos, nasceu a primeira dobradinha da história do FCPorto, em
1955/56. Presidente honorário do FCP, morreu em Setembro de 1987, três meses
depois de Viena.