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segunda-feira, 5 de março de 2018

Espírito do mundo


Disse o Papa Francisco que devemos pensar com o coração e não apenas com a cabeça: devemos pensar com o espírito que temos dentro. Isso significa que cada pessoa é livre, tem uma consciência livre, que, no entanto, o espírito do mundo tende a atacar e a homologar. O espírito do mundo quer que sejamos massa, não quer que sejamos povo; quer que sejamos indivíduos e não pessoas; quer que não tenhamos liberdade nem espírito, como se não tivéssemos a faculdade de pensar, de sentir, como se não fôssemos pessoas livres.

Peter Turkson, in Corrosão, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.36-37

domingo, 23 de abril de 2017

"Um povo deicida?"


Três razões, pelo menos, nos obrigam a contrapor a isso uma negação formal. Em primeiro lugar, não se pode acusar aqui um povo inteiro, nem a nível dos acontecimentos em causa, nem - e muito menos - ainda depois dos vinte séculos que nos separam dos mesmos! Apenas a classe sacerdotal ao mais alto nível pode ter estado envolvida nessa questão [condenação de Jesus de Nazaré à morte]; os escribas mencionados no relato evangélico pouco tiveram a ver com isso, e, seja como for, os gritos da populaça de que por vezes se fala parecem provir mais do extravasamento emocional de uma multidão excitada do que da expressão racional de uma tomada de posição responsável. Segunda consideração: não devemos perder de vista que tudo o que diz respeito ao conjunto das opiniões e atitudes a respeito de Jesus tem a ver com os judeus, visto que, como é óbvio, ainda não há cristãos separados do Judaísmo. Por fim, e certamente acima de tudo, devemos reconhecer toda a responsabilidade do próprio Jesus pela sua própria condenação. Voltaremos a isso, mas foi precisamente o seu comportamento em relação ao judaísmo da sua época, e de modo especial a respeito do Templo, com o eventual risco adicional de perturbações sociais ou até sociopolíticas, que suscitou à sua volta tomadas de posição antagónicas, que deviam conduzir à sua condenação.
Da parte dos chefes e do Sinédrio (supremo tribunal dos judeus, ao qual pertencia o sumo sacerdote), não se pode certamente negar um envolvimento judeu; contudo, este não tomou a forma de um julgamento, contrariamente à opinião durante muito tempo transmitida. Tratou-se, antes, de uma denúncia junto dos representantes do poder romano, que a partir de então foram os únicos a conduzir, em relação a Jesus, aquilo que podemos considerar um processo de condenação. A denúncia diante da instância política pelos chefes da nação judaica não deixou de ser duplamente hábil. Por um lado, ela revelava a sua vontade de não ultrapassarem a incapacidade jurídica de actuar judicialmente em que os colocava a ocupação romana. Por outro lado, punha em destaque as perturbações a nível social e político que poderiam gerar os comportamentos e as tomas de posição de Jesus. Em suma, se houve prisão, julgamento e condenação, tudo isso só se deveu formalmente ao poder de ocupação romano. (...) Assim como a condenação de Jesus foi romana, a sua execução também o foi. Em vez de recorrer à lapidação, como se teria feito segundo a tradição judaica, decidiu-se recorrer à crucifixão, segundo o uso romano. (...) Pesquisas arqueológicas recentes forneceram elementos fiáveis em relação ao local do julgamento conduzido por Pilatos - o pretório já evocado -, o itinerário seguido por Jesus através da cidade (aquilo a que tradicionalmente se chama «caminho da cruz», ou «via sacra») e, por fim, o próprio local da crucifixão (o Gólgota, de uma palavra aramaica que significa «crânio», em referência à forma de rochedo situado fora da cidade, sobre o qual teve lugar a crucifixão).

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.39-44.

P.S.: Joseph Doré é arcebispo emérito de Estrasburgo, teólogo e um dos maiores especialistas franceses em cristologia. Foi membro da Comissão Teológica Internacional, do Conselho Pontifício para a Cultura e da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Francesa.

domingo, 23 de outubro de 2016

A semana política

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Glória Teixeira abandona o grupo que negociava o Orçamento, nomeadamente as questões fiscais (a convite do BE), entre outros motivos porque considerou que o Governo não apresentava esforços (sérios) de combate à fraude em sede de IRC; Jerónimo de Sousa, sem deixar de sublinhar "a franqueza e seriedade" com que Costa negoceia com os partidos que servem de suporte parlamentar ao Executivo que lidera, e de o distinguir de Mário Centeno (com Costa há "outra produtividade", nas reuniões, "para o bem, ou para o mal"), avisa que a Função Pública vai à rua (pelo descongelamento das carreiras). E revela que a proposta de aumento do subsídio de alimentação, para a função pública, se cifrava em 4 cêntimos, tendo o PCP proposto 50 cêntimos de acréscimo diário (pelo que os 25 cêntimos a que, finalmente, se chegou teriam a sua impressão digital; e o conteúdo das negociações, de algum modo, assim revelados; isso, e a conturbada relação do PCP com o BE, agora assumida na entrevista ao Expresso). Jerónimo mostra-se disposto a vir a aceitar a introdução de condição de recursos nas pensões mínimas, mas o problema, para Centeno, é que poucas são as novas pensões mínimas solicitadas nos anos mais recentes, pelo que a poupança para futuro, para o Estado, pode não ter o significado que se poderia esperar. Já poupar com as pensões mínimas em pagamento poderia valer mais de 1000 milhões, só que os parceiros (de coligação; pelo menos estes) não aceitam. Pergunto-me, entretanto, se tal seria, ainda, constitucionalmente aceitável. O BE solicitou a Vieira da Silva a alteração das regras relativas ao Complemento Social para Idosos (CSI), que obrigam a que se entre em consideração com o rendimento do agregado familiar, incluindo aqui filhos, de quem solicita o CSI - com efeito, regras controvertidas que mereceriam uma maior discussão. Sem a demagogia de ser mais crítico com quem não é mais generoso nesta prestação social, do que com quem nunca quis meter a mão na massa para a poder criar, ou, tendo tido essa possibilidade, não entendeu oportuna. Vieira da Silva recusou liminarmente essa possibilidade. Ângela Silva dá conta que, em Belém, Marcelo confidenciou que da sua observação resulta a ideia de que as hipóteses deste Governo chegar ao fim da legislatura estarão agora nos 50% (quando, há um ano, se inclinava para os 10%). Mas notou que estas negociações mexeram com as elites - que não o povo - negociadoras dos diferentes partidos (e Marques Mendes havia chamado a este o "princípio do fim da Geringonça"). Na semana em que Louçã escreveu um texto duro a chamar a atenção do Governo: "cuidado com as pensões". Numa entrevista à solta, Isaltino Morais não percebe a viragem "neoliberal" de Passos Coelho (num governo que considera ter sido "uma calamidade") depois de anos a criticar os governos Cavaco pela esquerda, à época, pois, Passos um verdadeiro social-democrata - referência que ainda não tinha lido, ou escutado, a quem quer que fosse. E o ex-presidente da Câmara de Oeiras vê José Eduardo Martins - com a vantagem de "ser um tipo culto" - como possível candidato a uma sucessão de Passos. Se, há algumas semanas, Pedro Santos Guerreiro escrevia, em editorial, aliás com toda a razão, que "quando Luís Montenegro ou Rui Rio são o melhor que pode aparecer, confirma-se a desintelectualização que assola a direita (...) Essa é a desintelectualização do pensamento político. Querer ganhar eleições não é em si mesmo pensamento nenhum", Isaltino considera, agora, que se havia pessoas que pensavam, há 15 ou 10 anos, que Rio "era um tipo nazi" (sic), ele mudou muito e agora estará melhor preparado do que nunca.

domingo, 10 de julho de 2016

Democracia


De entre as discussões mais interessantes suscitadas pelo referendo do Brexit, o questionamento acerca do valor e importância do referendo enquanto instrumento para uma densa decisão política/democrática. Sem maniqueísmos, Mary Beard assina um notável artigo, este Domingo, em ElPais (Ideas), sendo que me parece particularmente importante a questão da educação democrática - as tertúlias e o sorteio, a praxis como elementos estruturadores na formação do cidadão ateniense:


La cuestión se complica por la casi universal hostilidad hacia la democracia que manifiestan los comentaristas antiguos, en los textos que han llegado hasta nosotros y la admiración casi universal que le profesan los historiadores modernos. Platón no fue el único que veía al electorado ateniense como una multitud indisciplinada, inculta y voluble, movida por demagogos sin escrúpulos. No se equivocaba tanto como cabría esperar. En una famosa ocasión, el pueblo se reunió cierto día y votó que se ejecutase a toda la población masculina de la ciudad de Mitilene, en la isla de Lesbos, como castigo por su revuelta contra el control imperialista ateniense. Al día siguiente, decidió celebrar una segunda votación —el equivalente a un segundo referéndum— y, entonces, se optó por la clemencia. Hubo una carrera desesperada del barco que llevaba la noticia del cambio de opinión remando furiosamente para dar alcance a la primera nave, que ya había sido enviada. Lo consiguió por los pelos, las víctimas se libraron. (...)

Las historias sobre el ostracismo dan a entender que, en la práctica, el sistema no era tan igualitario como insinúa la lisonjera imagen moderna. Los ciudadanos atenienses corrientes jamás se hicieron con ninguno de los escasos cargos electos con poder que quedaban, aun cuando la mayoría se asignaba por sorteo (y los viejos aristócratas se mostraban muy despectivos con los nuevos ricos que se las arreglaban para ser elegidos). La iniciativa política siempre permaneció firmemente en manos de la élite, y el nivel de participación popular en la toma de decisiones no siempre fue alto. Hacia finales del siglo V, la baja asistencia llevó a introducir un pago por el mero hecho de presentarse a las asambleas en las que se votaba. Con todo, el importante principio fundamental se mantenía: cada una de las decisiones del Estado democrático exigía la sanción del conjunto de la ciudadanía. (...)

Sobre el funcionamiento de ese principio, los atenienses tenían algunas dudas que ahora pueden ser relevantes para nosotros y nuestros torpes experimentos con los referendos. En primer lugar, les preocupaban los políticos que mentían. Cómo, se preguntaban, puede el pueblo tomar una decisión responsable si no se le dice la verdad. Ese es uno de los temas tratados en la comedia Las nubes, de Aristófanes, cuando los peligros de la retórica inteligente pero engañosa se ponen de relieve en un duelo humorístico entre las representaciones cómicas del “Argumento superior” y el “Argumento inferior”. En parte, el hecho de que el “Argumento inferior”, con todas sus mentiras, sus sobornos y sus adulaciones, sea el que gane, es una reflexión irónica sobre la preocupación que suscitaba la toma de decisiones en Atenas. No es difícil adivinar cómo habría interpretado Aristófanes algunas de las menos que medias verdades que se han dicho sobre la Unión Europea a lo largo de los últimos meses. Ninguno de los bandos ha sido totalmente inocente, pero la cifra de los 350 millones de libras que se destinarían al sistema de sanidad en lugar de a la UE, las amenazas sobre las invasiones de criminales turcos, la mítica directiva europea sobre los colegios y la prohibición de que los niños inflen globos pertenecen indudablemente al repertorio del “argumento inferior”.

A los atenienses también les preocupaba la educación política. No hacía falta acudir a los furibundamente antidemocráticos diálogos de Platón, que habría restringido el gobierno a una delegación de filósofos de élite, para darse cuenta de que “la gente” (rica o pobre, privilegiada o no) solo podría ejercer su poder político como es debido si era preparada para ello. Muchos demócratas atenienses habrían defendido que la gente tiene que aprender a hacer política, a ser ciudadana; que no es algo innato. Gran parte del sistema político ateniense tenía que ver con ese proceso de aprendizaje. Por debajo del nivel de las instituciones municipales había comités de gobierno local y tertulias en las que los atenienses practicaban el arte de la política. El empleo de la selección aleatoria para los cargos públicos también tenía un importante papel que desempeñar.

Hoy tendemos a pensar que el uso ateniense del sorteo era simplemente una manera de garantizar que todos los ciudadanos tuviesen las mismas oportunidades para desempeñarse como uno de los 500 miembros anuales del consejo de la ciudad (la boulé) o para ocupar uno de los muchos puestos como funcionarios administrativos. Y en parte era así; de hecho, algunos idealistas modernos han llegado a pensar que esta podría ser una manera de resolver el déficit democrático de la Cámara de los Lores en Reino Unido. Pero el sorteo desempeñaba otro papel estructural igualmente importante en el sistema ateniense, ya que también garantizaba que la experiencia política a nivel práctico estuviese ampliamente extendida por toda la ciudadanía. Dejando aparte los cargos restantes, según un cálculo aproximado, alrededor del 70% de los ciudadanos habría prestado servicio en el consejo una vez en su vida, con todas las responsabilidades que suponía preparar los asuntos para el pleno de la asamblea, enfrentarse a las crisis cotidianas cuando surgían, recibir e interrogar a los representantes de otras ciudades y países, etcétera. En la Atenas clásica no había equivalente del servicio civil. Participar en el consejo servía de curso práctico de administración y argumentación política.


No estoy insinuando que en este asunto haya una enseñanza directa que simplemente podamos aplicar a través de los milenios. La antigua Atenas era demasiado diferente; para empezar, su ciudadanía no era más numerosa que algunos sindicatos de estudiantes universitarios actuales, y ninguna mujer formaba parte del sistema. Pero Atenas nos puede ayudar a examinarnos con más atención. Presentarnos un referéndum una vez cada 20 años más o menos, privándonos en gran medida de una información exacta en una niebla de eslóganes y retórica, y permitir que todos nosotros, tanto de un bando como de otro, desahoguemos nuestros diversos prejuicios y descontentos en una votación de sí o no, no es manera de adoptar una decisión responsable. Y tampoco es una manera de volver a empoderar a una ciudadanía sin poder. Para eso —como habrían advertido los demócratas atenienses— se necesita algo mucho más radical, algo que tiene que suceder, no dos veces en nuestra existencia, sino en la práctica diaria en la vida política.

Na íntegra, aqui

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Povo e massa


Povo: cidadãos autónomos, unidos pela amizade cívica, pelo diálogo racional.

Massa: cidadãos heterónomos, em anomia social, desvinculados entre si.