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domingo, 24 de setembro de 2017

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Um trabalho de depuração interior

É necessário decidir entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é decepcionante (não temamos a palavra). Com aquela profunda lucidez espiritual que, por vezes, só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se; a segunda, quando eles se realizam completamente.
Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista da idealização à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.
A vida é o que permanece apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. O tesouro é a vida em si: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

José Tolentino de Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, 2017, p.14



Tolentino de Mendonça tece, em textos, pequenos fios, madrepérola, pedras preciosas que são imprescindíveis ao - à imperiosa necessidade de - maravilhamento. E à ousadia de uma sabedoria. Que não se quer "teologia auto-referencial", e por isso procura habitar a grande diversidade (debilidade agraciada) de todos os quotidianos. Seja quando recorre ao haiku, seja na poesia, seja nesta diarística, percebe-se muito a intenção de uma concentração no essencial, de esculpir, de chegar ao ponto, conjugando toda a simplicidade com toda a profundidade.