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sábado, 22 de dezembro de 2018

A rigidez da flexibilidade


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Em Entretanto (Antígona, 2018), John Berger chama a atenção do carácter contraditório da flexibilidade, de há uns anos tão apregoada como a chave para mover o mundo (da economia): é que a flexibilidade, para o trabalhador, significa uma rigidez completa, na medida em que aquela se traduz por uma disponibilidade permanente para se adaptar às demandas da empresa (ou do mercado), seja ao nível dos horários/turnos, períodos de maior laboração, dias que não seriam, à partida, de trabalho e passam a ser, concentração de horas de labor, etc.:"os que têm um emprego declarado e não são pobres vivem num espaço muito reduzido, que lhes deixa cada vez menos escolhas - excepto a contínua escolha binária entre a obediência e a desobediência. As suas horas de trabalho, o seu local de residência, as suas qualificações e experiência, a sua saúde, o futuro dos seus filhos, tudo o que não faz parte da sua função de empregados deve ocupar um pequeno lugar secundário relativamente às vastas e imprevisíveis exigências de lucro líquido. Além disso, a rigidez desta regra interna chama-se flexibilidade. Na prisão, as palavras são invertidas
A alarmante pressão exercida pelas condições de trabalho nos escalões superiores levou recentemente os tribunais japoneses a reconhecer e definir uma nova categoria para uso dos juízes de instrução, a de «morte por excesso de trabalho»."(pp.25-26).
Para Berger, a prisão é a nossa condição, quer dizer, aquela que resulta tudo e todos estarem submetidos a umas forças de mercado que, por exemplo, são mais fortes do que qualquer Estado-nação: "a afirmação é corroborada a todo o instante. Desde a não solicitada chamada telefónica que tenta persuadir o assinante a fazer um seguro de saúde ou a subscrever uma pensão de reforma até ao mais recente ultimato da Organização Mundial do Comércio" (p.28). Se Achille Mbembe dizia que a categoria de futuro desapareceu da Europa, John Berger fala em "horizonte" para nos dizer sensivelmente o mesmo (no domínio político): "por consequência, a maior parte dos governos já não governa. Os governos já não seguem o rumo por que optaram. A palavra «horizonte», com a sua promessa de um futuro de esperança, desapareceu do discurso político - tanto à direita como à esquerda. O debate já só diz respeito à forma de avaliar o que existe. As sondagens de opinião substituem o rumo e substituem o desejo. Em vez de seguir determinado rumo, a maior parte dos governos guarda o rebanho (...) «O que hoje está em jogo é criar condições favoráveis à confiança dos investidores». A única suprema prioridade. Em conformidade com isto, o controlo das populações mundiais, constituídas por produtores, consumidores e pobres marginalizados, é a tarefa atribuída aos obedientes governos nacionais. O planeta é uma prisão e os governos obedientes, quer sejam de direita ou de esquerda, são os carcereiros. O sistema prisional actua graças ao ciberespaço. O ciberespaço proporciona ao mercado uma velocidade de operações quase instantânea, que é utilizada de dia e de noite, nos negócios. Com base nesta velocidade, a tirania do mercado atinge a sua licenciosidade assente na extraterritorialidade. Uma tal velocidade, no entanto, exerce um efeito patológico sobre os seus  profissionais: anestesia-os. Aconteça o que acontecer, «business as usual»" (pp.28-32). Uma tirania anónima que favorece, face aos seus efeitos, a caça aos bodes expiatórios: "o próprio anonimato da tirania global favorece a caça aos bodes expiatórios, aos inimigos susceptíveis de ser instantaneamente apontados como tais entre os outros presos. As asfixiantes celas tornam-se então um manicómio. Os pobres atacam os pobres, os invadidos saqueiam os invadidos. Os companheiros de prisão não devem ser idealizados"(p.34).
A antropologia subjacente a este modo de organização social é de cariz individualista; e esse individualismo como lema - salve-se quem puder - é que permitirá que o status quo não se altere; a formação dessa cosmovisão, o inculcar da mesma na população segue vários canais: "No tocante à massa da população prisional, o objectivo não é estimulá-la, é mantê-la num estado de incerteza passiva, lembrar-lhe desapiedadamente que tudo na vida é risco e que a Terra é um lugar perigoso. Isto é aplicado através de informação cuidadosamente seleccionada, de desinformação, de comentários, boatos, ficções. Na medida em que a operação tem êxito, ela propõe e sustenta um paradoxo alucinante, porque leva a população prisional a acreditar que a prioridade de cada qual consiste em providenciar a sua própria protecção pessoal e em livrar-se do seu destino comum, seja como for e apesar de encarcerados. De facto, não tem precedentes a imagem da humanidade que esta visão do mundo transmite. A humanidade é apresentada como cobarde; só os vencedores são corajosos. Além disso, a noção de dádiva é eliminada; só há prémios, recompensas.". (p.36)
No entanto, Berger, curiosamente, parece encontrar espaço para certo tom positivo: "os prisioneiros encontraram sempre meios para comunicar entre si. Na prisão global dos nossos dias, o ciberespaço pode ser usado contra os interesses dos que inicialmente o estabeleceram. Deste modo, os presos informam-se sobre o que o mundo faz dia após dia, seguem as histórias censuradas do passado e resistem ombro a ombro com os mortos. Agindo assim, redescobrem pequenas dádivas, exemplos de coragem, uma simples rosa na cozinha onde não há comida suficiente, dores indeléveis, o carácter incansável das mães, o riso, a entreajuda, o silêncio, uma sempre dilatada resistência, o sacrifício voluntário, outra vez o riso..."(p.37). Frente a uma concepção puramente utilitária do humano e da vida, há, pois, aqui espaço, para o gratuito, o amor oblativo, o sem porquê e sem mérito, o sem  vencedores e sem vencidos, a amizade, o excesso do dom...
"O facto de os tiranos mundiais se situarem na extraterritorialidade explica a extensão do seu poder de vigilância, mas denota também a sua fraqueza. Operam no ciberespaço e moram em condomínios guardados. Não têm nenhum conhecimento da terra que os rodeia. Além disso, rejeitam este conhecimento como superficial, desprovido de profundidade (...) Os actos determinantes de uma resistência prolongada terão raízes no que é local, no local próximo e distante. Resistência do interior, ao escutar a terra. A liberdade está lentamente a ser descoberta, não no exterior da prisão, mas nas suas profundezas" (p.38)

P.S.: entre aqueles com os quais John Berger tomou conhecimento (pessoal), estão T.S.Elliot, uma "figura triste e às vezes desagradável" ou George Orwell.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mestres (VI)



"A beleza é o carácter", concretiza, em fórmula depurada, a definição solicitada, Wole Soyinka. É mesmo isso. O homem que esteve preso dois anos, pela ditadura nigeriana, encontra prazer, mas não beleza na sexualidade, no orgasmo. Na cadeia, nunca foram tais temáticas que solicitaram a sua atenção. Motivo de consolação, aí, as obras de arte entranhadas em si, em especial a música, sinfonias sabidas de cor que interiormente percorreu e o salvaram, num silêncio preenchido, na prisão. Além disso, muito logicamente, precaveu-se, lutando para encontrar as fórmulas, equações matemática aprendidas na escola para preservar a sanidade mental, ocupando-lhe muito tempo. Um ofício. Mas, momento belo, na cadeia, ele que viu seus semelhantes agrilhoados, nos pés, a caminho do enforcamento, foi escutar, certo dia, sem aviso, os seus companheiros naquele lugar inóspito, cantarem, cantarem colectivamente, canções tradicionais e outras, cristãs. Uma força que assim se afirmava, ainda que não agressiva.
Saberá Soyinka, o Nobel da Literatura de 1986, porque é que quem leu Rilke e ouviu Beethoven foi capaz, no momento seguinte, de torturar (a grande questão de Steiner)? Tal como Rilke quis aceder ao âmago, à essência (pura) da poesia, os carrascos podem ver-se no papel de escultores de uma humanidade purgada de elementos não puros, perfeitos. O mesmo quanto à exaltação, harmonia e perfeição, dimensão visionária em Beethoven: a transposição dessa perfeição cabia ao verdugo. Soyinka conheceu-o de perto: aquele julga que a humanidade se divide em escumalha e elite, e, obviamente, pertence a este segundo grupo, pelo que cumpre-lhe pôr fim ao restante conjunto (de [sub-]humanos).
O pressuposto de que a vida vale a pena não lhe interessa. Parece-lhe isso: um pressuposto, um a priori que rejeita. Vive-se e pronto. Sem fatalidade, cabendo a cada um cumprir o seu destino (moldá-lo). 
Para a religião yoruba, a que pertence, há três esferas inter-relacionadas: a dos que não nasceram, a dos vivos e dos mortos.
A conversa começara pela indagação acerca de uma eventual percepção do belo pelos animais (maxime, pavão), ou se se trata de propriedade - a percepção - dos humanos. Na infância, já Soyinka retirava consolação da literatura e da Natureza - estando a sós com ambas; gostando, ainda, hoje, de uma hora no mato, para descansar; gostando, ainda, da caça.