O conceito de racismo [:] preconceito quanto à descendência étnica combinado com acção discriminatória. (...)
Os nomes racista e racismo foram criados recentemente, em finais do século XIX, início do século XX, para designar aqueles que promoviam a teoria racial e a hierarquia de raças. (...) Os antónimos antirracista e antirracismo foram cunhados nas décadas de 1930 e 1950, respectivamente, para manifestar o protesto político contra os preconceitos, a descriminação e a segregação raciais. (...) A palavra [raça] começou a ser usada na Idade Média como sinónimo de casta, sendo aplicada à cultura de plantas e à criação de animais. Em finais do período medieval era usada como definição de linhagem nobre em Itália e em França. Durante a longa contenda ibérica entre muçulmanos e cristãos, seguida da expansão ultramarina, o termo raça adquiriu um sentido étnico - originalmente aplicado aos descendentes de judeus e de muçulmanos, referindo-se à impureza do sangue, e foi depois usado para nativos africanos e americanos. Assim sendo, o conteúdo semântico do termo desenvolveu-se através de um sistema hierárquico de classificação étnica no contexto ibérico. No século XVIII, o termo raça era usado na Europa para referir o género feminino e, de um modo geral, para indicar variedades de seres humanos. No seio das teorias das raças, o termo adquiriu um papel ambíguo na catalogação de subespécies, praticamente transformadas em espécies pelo racismo científico em meados do século XIX. Em finais do século XIX, o triunfo do nacionalismo por todo o mundo ocidental levou a que o termo raça fosse equiparado a nação. (...)
O debate desencadeado em finais da década de 1940 pelo UNESCO não viu o seu termo com o mapeamento e sequenciamento do genoma humano no ano 2000. Hoje em dia, os cientistas põe em causa a base biológica da raça, pois a variação genética das raças consideradas nos parâmetros tradicionais é maior do que entre raças distintas, embora aceitem a existência de aglomerados específicos étnicos com predisposições clínicas em termos de imunidade e vulnerabilidade a doenças. Entretanto, e como já referi, o termo raça foi usado pelos afro-americanos para expressar a sua identidade colectiva e subverter o uso pejorativo original da palavra. A questão do «desejo» de raça foi examinada neste contexto político e cultural. (...)
O racismo atribui um único conjunto de traços físicos e/ou mentais reais ou imaginários a grupos étnicos específicos, acreditando que essas características são transmitidas de geração em geração. Os grupos étnicos são considerados inferiores ou divergentes da norma representada pelo grupo de referência, justificando assim a descriminação ou a segregação. O racismo tem como alvo não só os grupos étnicos considerados inferiores, mas também os grupos considerados concorrentes, como os judeus, os muçulmanos ou os arménios.
Francisco Bethencourt, Racismos. Das cruzadas ao século XX, Temas e Debates, 2015, pp.17-31.