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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VII)



Não: devíamos ter direito ao “esquecimento digital”, ao “apagamento das nossas pegadas”. Elas não deviam perseguir-nos a vida toda. Há muita gente que, de modo inadvertido, coloca nas redes sociais imagens, fotos, sons, palavras da sua vida íntima de que mais tarde se vem a arrepender (T.Snyder: “Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece", p.69). Há quem tenha progenitores a colar fotos de quem ainda é menor nessas redes sociais, sem que este última intervenha e, pois, tenha nisso qualquer responsabilidade. Como é possível que não haja direito ao esquecimento digital? Como escreve o teólogo António Spadaro, “se a salvação, teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (António Spadaro, Ciberteologia, 34).

Sim: eis um ponto em que estamos de acordo: se temos direito a saber a informação que os Estados, e os Governos, têm sobre nós, como não obrigar a Google a dizer o que sabe a nosso respeito? O Facebook tem mais habitantes do que a China e as suas decisões acabam, muitas vezes, por ser mais importantes do que as dos governos de Alemanha ou França. E quem guarda estes guardas? (e que relação deles com as democracias?) Razão, aqui, ao politólogo Francis Fukuyama: "Até um certo nível, a regulação é apropriada e também me parece que há grandes problemas pelo tamanho destas organizações: se elas tentam comportar-se como empresas de média ou publishers, tomando decisões sobre o que é apropriado ou não, é um problema, porque estão a tomar decisões para o mundo inteiro!" (Francis Fukuyama, Visão, 27-12-2019).
O problema passa também por, na prática, em vez de uma única internet, termos uma “Chinanet”, ou uma “Russianet”, por exemplo (há muitas leis diversas, mas uma só internet).
Concluo, também, com uma das exortações do investigador Timothy Snyder que mais me tocam: “Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo à leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

Sugestão cinematográfica: “A rede social”, de David Fincher (2010)

Encerramento dos trabalhos.

Daniel Sampaio, Do Telemóvel para o mundo – pais e adolescentes no tempo da internet (2018)           

Consideram o e-mail ultrapassado, e mesmo o tempo de entusiasmo com o Facebook parece ter ficado para trás - porque nele passou a haver demasiados adultos, demasiados familiares, demasiados professoresNão terá ficado completamente obsoleto, porque é utilizado para marcação de eventos, em especial para perceber a adesão que terão - e se vale a pena realizá-los (ou onde efectivá-los, em função do número de likes)Instagram, pelos vistos, é que está a dar, actualizado sucessivamente, especialmente no feminino (com o pico das 10 da noite, hora em que a maioria dos adolescentes está na net). Há pais que entram nas redes sociais dos filhos através de «truques» tecnológicos "pouco éticos" (p.146). Em havendo, como deve haver, uma relação familiar de confiança, faz sentido os pais perguntarem o que os filhos colocam nas redes sociais; no entanto, se os progenitores nada questionam, mas espiam às escondidas para, a partir de aí, proibirem saídas ou impedirem jogos na net, não estão a contribuir para esse aumento de confiança mútua.
Os jovens utilizam a sigla POS (parents over shoulder), para alertar a presença dos pais «sobre o ombro», quando o computador caseiro se situava na sala comum. Hoje a sigla foi substituída por PIR (parents in the room) ou por 99 (parents are gone) para que possam estar mais à vontade. Daniel Sampaio sugere a ideia de limitação do tempo em que um filho, em idade precoces, possa estar na internet e sem negociação ("mais dez minutos..."). Quando esta limitação não é posta em prática, a utilização da internet tende a ser crescente, podendo mais tarde a vir a causar dependência (p.138). O autor de Do telemóvel para o mundo, deixa ainda uma possível sugestão aos pais:
"Serge Tisseron, no seu interessante livro Computadores, Telemóveis e Tablets (Lisboa, Gradiva, 2013) faz uma proposta sobre o uso das novas tecnologias de informação, com etapas progressivas de acordo com a idade:

aos 3 anos podem começar a ver televisão;
aos 6 anos podem começar a usar jogos offline
aos 9 anos podem ligar-se à net, com supervisão parental;
aos 12 anos podem entrar nas redes sociais, também com algum controlo por parte dos pais.

Trata-se apenas de uma orientação, embora proveniente de um especialista de reconhecido mérito" (p.147)

Mais: "as novas formas de comunicação, ao contrário do que por vezes se afirma, podem ser importantes veículos de aproximação entre pais e filhos. A partilha de uma foto, um sítio na internet que se acaba de descobrir, um sms ou mensagem pelo WhatsApp a avisar para onde se vai, são tudo oportunidades para estar mais perto, para educar e para veicular valores. A conversa formal entre pais e filhos, típica da juventude dos avós dos adolescentes de hoje, tem de ceder o lugar aos diálogos de pequena duração, tantas vezes imprevistos e improváveis, mas que podem ser carregados de significado (...) Segundo a revista norte-americana Highlights, num inquérito a 1521 crianças entre os 6 e os 11 anos, estas revelaram achar os pais demasiado distraídos e pouco atentos às suas necessidades, considerando que os telemóveis dos progenitores são os principais responsáveis. Era como se os aparelhos estivessem entre pais e filhos e contribuíssem para uma distância que os mais novos desejavam transpor. No Brasil, outro inquérito revela que 70% das crianças entre os 3 e os 5 anos sabe ligar um computador ou tablet e 42% sabe usar um smartphone" (pp.69-70). O psiquiatra alerta ainda para um estudo que aponta para 80% de pais que colocam fotos dos filhos até aos 2 anos de idade destes no facebook, e sublinha  que muitos empregadores vão verificar tudo o que há na net sobre o candidato ao emprego, pelo que a pegada que fica na net deve ser olhada com grande cuidado: "o nosso menino vestido de índio pode ficar bem numa reunião social, mas pode comprometer a criança junto dos seus amigos. Uma festa familiar pode tornar-se motivo de troça no seu grupo juvenil. Uma angústia desabafada na net, no contexto de uma depressão juvenil, pode tornar o adolescente alvo fácil para cyberbullying" (pp.71).


Gustavo Cardoso, A sociedade dos ecrãs, 2013

A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), (foco no) colectivo, autoridade, hierarquia, passividade como valores latentes ou explícitos (em causa), deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia, emancipação, autoridade (parental) negociada senão desaparecida/diluída, responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no quarto; não por acaso, de 2003 a 2010, o tempo médio de uma chamada telefónica diminuiu quase para metade, de três minutos para um minuto e quarenta e sete segundos, Gore, 2013, 92), mas, igual e paradoxalmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem maior no novo caldo de cultura em que nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas do globo; estamos, crescentemente, “sozinhos juntos”, no dizer da filósofa da internet Sherry Turkle).


Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.), importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação, da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o surgimento da internet, ou, pelo menos, a sua massificação -, inserem-se em uma cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com a comunicação de massas, o centro era o media, na comunicação em rede, o centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e, não menos relevante, sobre os próprios jovens em maturação, tornam-se delicados – em não poucos casos, a ignorância sobre o fenómeno da internet e, em especial, o das redes sociais, faz com que muitos pais criem uma verdadeira mitologia acerca destas: um estudo de 2007, com jovens norte-americanos, mostra que a motivação destes, quando utilizam as redes sociais é exactamente a mesma de quando enviam sms ou fazem chamadas telefónicas: prolongar a conversação com o grupo de pares. Uma outra investigação com adolescentes norte-americanos, realizada no mesmo ano, conclui que 91% destes jovens utilizava as redes para falar com amigos. De 2011 a pesquisa que mostrou possuir cada utilizador do facebook, a rede social mais utilizada no mundo ocidental, mas também em inúmeros países da Ásia e América Latina, em média, 229 “amigos”, sendo que apenas 7% destes nunca ‘conhecidos’ fora do mundo online. Não se assistiu, pois, à profecia pessimista – diminuição do contacto rosto a rosto, entre as pessoas, em geral, e os mais novos, em especial; nem aos amanhãs (tecnologicamente) cantantes  – não se regista o previsto aumento de sociabilidade; antes, o reforço do contacto com aqueles que já eram os nossos próximos; em conclusão, e nas sábias palavras de Nélson Ribeiro, quanto mais próxima, ou intensa, a relação de mais meios procura servir-se. Mais do que digitais, o que temos são amizades com existência tanto online quanto offline (Ribeiro, 2013); registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da pessoa, o possível choque de valores entre grupos de pertença – a família, ab initio – e grupos de referência – os media, e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade.

Pedro Miranda


(conclusão)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VI)



Não: As redes sociais permitem, senão favorecem, o anonimato. E, com ele, a desresponsabilização. As reacções a quente e extemporâneas. O grau de animosidade, os insultos, a grosseria que com tanta frequência se encontra nas redes sociais não tem paralelo em outras plataformas, nas quais a pessoa tem que dar a cara, pensa duas vezes antes de escrever, conserva, mesmo se a contragosto, um módico de civilidade. O historiador Timothy Snyder, num manifesto contra a tirania, alertava-nos, muito recentemente, para a importância das palavras: “Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

Sim: podemos encontrar formas mais rigorosas de estabelecer a identidade de cada usuário das redes sociais. Uma vez mais, a responsabilidade não é destas, mas de quem delas faz mau uso. De resto, quer a difamação, quer a penalização de discursos de ódio contra minorias, nomeadamente, são, e devem ser, punidas.


Nota

Há cerca de quatro semanas, Robert Habeck, líder de Os Verdes (alemães), decidiu deixar o Twitter (em protesto com o clima de ódio neste presente). 

A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.

(continua)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Por um olhar crítico sobre a internet


Resultado de imagem para internet

O que nestes dez anos se impõe é o desenvolvimento incrível da internet com uma ausência total de reflexão crítica. O que existe, isso sim, é uma espécie de adulação, um sentimento absoluto de liberdade. É a primeira vez que há assim tão pouca reflexão sobre a revolução técnica, económica, humana. Por exemplo, com a questão nuclear, houve crítica sobre a favor da ecologia, mas agora não existe qualquer crítica sobre a internet. Tudo está bem, tudo é encarado como progresso, tudo é entendido como suprema felicidade. E, quando alguém aparece a criticar, é logo apelidado de velho, diz-se que tem fobia da tecnologia. (...) A técnica jamais substituirá o Homem. Pode ajudá-lo, mas nunca poderá substitui-lo. (...) A emancipação da internet se transformou numa potência financeira gigante com o GAFAM [acrónimo de Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsof]. É interessante que, em vez de estarmos a regulamentar o GAFAM pelo lado da democracia, o estejamos a controlar pelo lado fiscal. Mas, além dos impostos, também é a vida privada, as fake news, a democracia.(...) Acreditamos que a técnica vai assegurar a comunicação - e não vai. (...) Uma pessoa pode ser um excelente internauta e, simultaneamente, ser um autista. Há anos que o digo: a internet é perfeita do ponto de vista da comunicação técnica, mas os homens não vivem sem sentimentos, sem visões, sem sonhos, sem representações. É preciso repensar tudo isto e sair do fascínio pela técnica. (...) É preciso estar consciente de que a técnica nunca tornou ninguém feliz. (...) As escolas devem ensinar a fazer uma reflexão crítica sobre as forças e as fraquezas da internet. Olhar para os livros, para os papéis, ouvir a rádio, ver a televisão. Parar de dizer que a rádio e a televisão são velhas e que, pelo contrário, a internet é que é o progresso. (...) Nós não amamos a técnica, amamos os homens e as mulheres. Por isso é mais fácil ser um bom internauta do que ter relações afectivas ou amorosas. (...) É o amor que nos mantém vivos. (...) Do meu ponto de vista, o mais importante no tema dos "coletes amarelos" é a solidariedade humana, a felicidade que as pessoas têm em se encontrarem, em estarem juntas, faça chuva ou faça sol. (...) Não estão lá [nos coletes amarelos] os mais pobres, os negros não estão lá, não se trata de um movimento multicultural. São homens, sobretudo brancos, integram poucas mulheres, que pertencem à classe média baixa; são um pouco racistas e não muito democratas, muito franceses (...) Os "coletes amarelos" são um problema clássico da política: não percebemos porquê, mas a dada altura tudo explode. As redes sociais tiveram um papel, mas, a meu ver, a importância dos "coletes amarelos" não são as redes sociais, é a redescoberta da solidariedade. (...) Nos últimos 50 anos convencemo-nos de que mais técnica significaria mais mensagem, mais verdade, mais informação, mais democracia. O que, pelo contrário, temos é mais fake news. Descobrimos que a abundância da informação não nos trouxe melhores democracias. (...) A China é a primeira potência económica mundial e, simultaneamente, a maior potência policial da internet, o maior totalitarismo político do mundo. (...) Não precisamos de mais técnica, precisamos de mais inteligência crítica. (...) A IA é a demissão do Homem, a inteligência, por natureza, é humana. (...) O génio do ser humano é não se saber, um centésimo de segundo antes, que associação de ideias vai fazer - ou de emoções, ou de cores. A imprevisibilidade do funcionamento humano é extraordinária. (...) Eu já lhe disse [ao Papa Francisco] 'os católicos de direita não gostam de si'. E ele respondeu: 'Eu sei'. 'Os católicos de esquerda também não gostam'. E ele: 'Eu sei'. Quem o ama são os ateus e os agnósticos

Dominique Wolton, um dos mais reputados cientistas sociais da actualidade, entrevistado por Sara Belo Luís, para a Visão nº1354, 14-02 a 20-02-2019, pp.62-67.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (V)



Não: A comparação com os outros, potenciada pelas redes sociais (os outros que, nessas redes, parecem sempre levar uma vida mais interessante, bem-sucedida, atractiva, divertida, melhor do que a que "eu" levo), também ajuda ao mal-estar hoje muito sentido em todas as gerações, mas, de modo especial, entre os mais novos/estudantes universitários. Interacções simples, como falar com o empregado do café ou com alguém na rua melhora mais o bem-estar do que aquilo que se pensava. Não devíamos prescindir do face a face, antes criar rotinas para estar mais vezes com os amigos. E o mesmo se diga, para a democracia, da importância da “política corporal”: “pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (T.Snyder, p.67)

SimA tecnologia está a eliminar as interacções sociais normais. Não surpreende, desta sorte, que Jean Pierre Casey nos proponha "desenvolver métodos de 'desintoxicação' digital global”, bem como a "redescoberta do silêncio (...) e redescoberta das virtudes. (...) Numa era digital de ritmos acelerados, a virtude da paciência é provavelmente uma das mais vulneráveis. Toda a nossa espera salvífica é uma história de espera (...) Ora, a paciência está intrinsecamente ligada à virtude teológica da esperança" (Jean Pierre Casey, Brotéria). E o destacado intelectual Nuccio Ordine acrescenta: “Quando pergunto a 500 estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da faculdade, há cinco que levantam timidamente a mão. Então e porque têm facebook?, pergunto. E respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo: fica a saber que um homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de ter sido muito rico” (Nuccio Ordine, Conferência FFMS). Não é com relações superficiais que nos construímos, realizamos e erguemos a paz.

Sim: eis uma crítica fácil e muitas vezes repetida às redes sociais, mas que não tem acomodação na realidade (verificada e estudada). No ano de 2011, em Portugal, cerca de 94% dos utilizadores de redes sociais tinha perfil no facebook; assim, aquilo que foi possível verificar é que uma esmagadora maioria daqueles que são frequentadores das redes sociais as utilizam para se manterem em contacto com o seu habitual grupo de amigos (offline); isto é, as redes sociais, são o prolongamento, em uma plataforma diferente, das conversas com, genericamente, as mesmas pessoas com quem estamos no café, no restaurante, no trabalho, na escola, na universidade, no teatro ou no cinema.


(continua)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (IV)



Não: A busca incessante de likes para as publicações que cada um introduz nas suas redes sociais induz a um certo (senão, a muito) histrionismo. Quanto mais polémica a opinião, quanto mais extremada e capaz, não raramente, de ir ao arrepio dos valores civilizacionais, relativamente consensualizados nas nossas sociedades, mais “gostos”, mais “partilhas”, mais “ruído” terá. Não por acaso, se fala na “indignação do dia” nas redes sociais, ou que “as redes sociais estão a arder”. É como se as redes sociais funcionassem, apenas, num registo de um exacerbamento emocional, que tudo divide entre “nós e eles”, fazendo com que um possível adversário de opinião seja visto não enquanto tal, mas como um desqualificado moralmente. Numa sociedade adulta, madura, a racionalidade tenderia a imperar, seriam os argumentos substantivos – e não ad hominem ou ad terrorem, ou, mesmo, a reductio ad hitlerum – a predominar. Conclusão: vivemos numa sociedade infantilizada, dada a brigas perigosas.
O filósofo Jurgen Habermas tem refletido sobre esta realidade, chamando a atenção para o facto de que uma democracia e um espaço público apenas serão robustos caso neles meios de comunicação de massas remetam os cidadãos para temas relevantes, haja um amplo conjunto de cidadãos que frequente assiduamente esses meios de comunicação e, assim, possa haver espaço, ainda, para o intelectual tomar lugar na cidade – com o seu conhecimento/perícia/sabedoria - e uma deliberação informada, conhecedora, livre. A internet veio fragmentar ainda mais o tecido social e, cúmulo, assistimos ao furto de dados pessoais que cada um deixou nas suas redes sociais (vide, entrevista a ElPaís, 10-05-2018).

Sim: em muitos países, as redes sociais estiveram ao serviço dos direitos humanos, denunciando a sua postergação. Foram instrumentos ao serviço da democracia e da paz. Vários conflitos internacionais estão aí para o demonstrar.
: o fenómeno das fake news está indissociavelmente ligado às redes sociais (uma das exortações do intelectual público norte-americano Timothy Snyder: “Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada). As pessoas não distinguem factos de notícias inventadas. Houve comprovadas interferências de potências estrangeiras/rivais em eleições democráticas (e, acerca desse fenómeno, escreveu Madeleine Albright: “O Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activosQuais são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia, dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos que se atrevem a enfrentar MoscovoEsta agenda não é ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente(Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, 2018, p.201).  Mais: a criação deliberada de notícias falsas tem servido para testar o perfil dos eleitores para, de seguida, adaptar a mensagem ao que cada utilizador pretende ouvir (veja-se o caso das falsas denúncias de violência contra mulheres em Espanha, na realidade 0,0070% dos casos, e o eco que tiveram no discurso do partido VOX em Espanha, o que serviu, segundo o L’Express (16-01-2019), como modo de chegar a mais públicos disponíveis para essa mensagem). Há, aqui, na fabricação destas news, sem necessidade de recorrermos a profissionais que verifiquem a autenticidade das mesmas, ou sem que contextualizem uma dada realidade, como que uma reivindicação de uma democracia direta – talvez digitalmente exercida -, sendo que esta recusa de mediação/representação pode levar populistas ao poder e, com eles, ao fim do pluralismo (respeito pelas minorias, cheque aos “checks and balances”, independência dos tribunais em causa, etc.). Como assinalou Daniel Innerarity, da democracia fazem parte órgãos como tribunais de contas ou outras entidades periciais – instituições que, de certa forma, não estão sujeitas a regras (ou ditadura) da maioria. As redes sociais estão a revelar-se um perigo para a democracia.

Sim: O que está a dar cabo da democracia não é o Facebook, são as formas mais predatórias do capitalismo, as desigualdades, os monopólios, a precariedade, uma economia de mercado distorcida pelos mais poderosos para obter vantagens para si próprios à custa dos mais frágeis, ou seja, uma rede - também ela social - de interesses a quem convém que tudo se mantenha como está e que se manifesta nos mais diversos planos, entre eles também no Facebook.
Há quem saia das redes sociais pensando que essa é a forma de contrariar forças antiprogressistas. Mas isso apenas criará vazios que serão ocupados por essas forças nocivas que se pretende iludir. Ontem como hoje, offline ou online, a opção é compreender onde nos situamos. É não idealizar. É ver limites, mas também potencialidades”. (Vítor BelancianoEstá-se mesmo a ver que a culpa é das redes sociais, Público, 13-01-2019, P2, p.2).
Como Daniel Innerarity há muito compreendeu, o (novo) espaço público desterritorializou-se, podemos assistir e participar, agora, numa conferência em Nova Iorque, em tempo real, o mesmo se dizendo quanto à assinatura de uma petição para libertar um preso político no Egipto de El-Sissi. Este alargamento do espaço público a uma escala global só promove os direitos humanos e obsta às autocracias.


(continua)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (III)


b) o argumento de que as redes sociais são um instrumento (?). Ou um meio (?). Ou ambas as coisas (?).

Sim: as redes sociais não podem ser vistas como más (em si mesmas). Permitem divulgar acontecimentos muito positivos que estimularão a sensibilidade de muitos humanos que os poderão replicar; facultam a convocatória para voluntariado; têm sido instrumento privilegiado para angariação de fundos para acorrer os mais necessitados, por vezes longínquos (vítimas de catástrofes naturais, com doenças para as quais não encontram meios de tratamento, etc.). Devemos afirmar, pois, a neutralidade moral das redes sociais: “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade para fazer bom uso dos meios ao seu dispor", escreveu o Papa Francisco. De resto, este líder espiritual da religião com mais crentes no mundo, apela a que "não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital", até porque "nas estradas congestionadas" do digital há "homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança". O Papa considerou determinante a presença online da Igreja. Podemos, pois, servir a causa da esperança e da paz, da não violência com as redes sociais.

Não: A internet não é mais um instrumento, mas um ambiente. Que nos molda tanto quanto o moldamos. Ecologia que, rigorosamente, se oferece como "novo contexto existencial" e que eclodiu e permanece, porque foi desejada/forjada, um centro como outrora (haviam sido) a catedral, ou a estação. Lá, onde as hierarquias mais rígidas se quebram, o sujeito adquire preeminência, e no qual o humano tem que ser, nesta hora, um "descodificador face a respostas múltiplas" (Antonio Spadaro, 2013, 52).
Mais do que um misto de ferramenta e espelho, o computador, procurado, não raramente, pelo humano como “máquina intimista”, “objecto no limiar entre o eu e o não-eu”, na medida em que sendo, simultaneamente, “interactivo e reactivo, proporciona a ilusão da companhia sem as exigências da amizade” (Sherry Turkle, 1997, 43), propicia “novos modelos da mente” e a internet, em particular, está a alterar “a forma como pensamos, a natureza da nossa sexualidade, a organização das nossas comunidades e até mesmo a nossa identidade” (Ibidem,11). O contexto da internet é o da “erosão das fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo” (Ibidem, 12); “inventamo-nos a nós mesmos à maneira que [nela] progredimos”. Se, tempos pretéritos, se concebia que os computadores expandiam a presença intelectual de alguém, hoje considera-se, igualmente, a dimensão física nesse prolongamento do estar-aí pessoal. Mais, ainda: “as velhas distinções entre o que é especificamente humano e o que é especificamente tecnológico tornaram-se complexas. Estaremos a viver a vida no ecrã ou dentro do ecrã?” (Ibidem, 30). Radicalmente: até que ponto não seremos já cyborgs, “misturas transgressivas de biologia, tecnologia e código de computador?”
Se o paradigma de inteligibilidade da comunicação assentou, durante algumas décadas, no último quartel do século XX, na pré-compreensão de Marshall McLuhan (1997) de que os media são a mensagem, isto é, todo e qualquer media induz comportamentos, e cria ligações psicológicas e mudanças de mentalidade nos indivíduos receptores, independentemente do conteúdo transmitido, já com (a teorização de) Castells assistimos a uma mudança coperniciana, com a relação organizacional dos media actuais a ser entendida como baseada em «message being the media» (Castells, 2002), ou seja, os media são escolhidos de acordo com a mensagem que se pretende transmitir, sendo possível seleccionar o media que melhor se adequa, e à audiência a que se destina, a mensagem (Cardoso, 2013, 35). Passávamos, então, de um contexto em que os media são a mensagem para um outro, de sentido inverso: a mensagem são os media. Hodiernamente, todavia, e mais propriamente, nova mutação comunicacional se nos impõe: os media precedem a mensagem (Eco, 2001), quer dizer, os canais existem antes (mesmo) de se saber o que se irá transmitir. A discussão sobre mensagem e media torna-se, desta sorte, obsoleta, “porque uma vez que entra a mensagem na rede chegará ao destinatário e se o formato não for o indicado será recriada” (Cardoso, 2013, 36).
Ora, qual é a ecologia – que tanto nos molda como nós moldamos – das redes sociais? De acordo com o politólogo Francis Fukuyama, "as redes sociais estão desenhadas na perfeição para promover a política da identidade. Ali as pessoas podem anichar-se em grupos que pensam exactamente como elas, e onde se sentem mais à vontade para dizer coisas que noutros sítios seriam consideradas polémicas” (Francis Fukuyama, entrevista à revista Visão, 27-12-2018, p.39) e o investigador, em matéria de Educação, António Sampaio da Nóvoa, corrobora: a internet (…) [é] lugar de fragmentação e isolamento e onde apenas vamos à procura dos nossos iguais, nos reforçam numa dada identidade” (António Sampaio da Nóvoa, Nova Ágora, Braga, 09-03-2018). Para o discernimento do valor das novas capacidades técnicas, o Papa João Paulo II propunha o seguinte teste: estas novas capacidades técnicas tornam o Homem "verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em particular com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos?". Será que, em consciência, poderíamos responder afirmativamente a esta pergunta? Creio que não.


Posição de experts:

No Facebook pedem-nos uma resposta emotiva: gosto, adoro, isto irrita-me, isto choca-me. São as reacções por emoji que a plataforma propõe. Quando Mark Zuckerberg anunciou mudanças no feed de notícias em Janeiro, disse que o Facebook não valoriza a informação com base na sua utilidade mas sim no número de conversas e interacções que provoca. Quem quiser tirar proveito das vantagens do algoritmo do feed de notícias do Facebook, precisa de ter muita gente a comentar as suas publicações; e se é isso que valoriza a informação em detrimento de outro tipo de conteúdos, estamos, acho eu, a mexer com instintos ancestrais da humanidade. Gostamos de provocar e gostamos que nos provoquem, e não é difícil conseguir ambas as coisas nestas plataformas que criámos.

Joshua Benton, investigador do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, entrevistado por Cristina MargatoO irreversível declínio dos media tradicionais, Electra nº4, Dezembro 2018, p.52.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (II)?



Sim: o que estava apenas acessível a uma elite, encontra-se agora disseminado; o conhecimento, levando ao fim, ou, pelo menos, mitigando a ignorância, permitirá a emancipação dos indivíduos, em várias zonas do globo, deixando para trás distorções da realidade acerca do mundo e dos outros circundantes. As redes sociais, se não produzem, elas mesmo, esse conhecimento, podem torná-lo muito mais próximo/acessível. Em vez de uma sociedade extremamente hierárquica - em que só alguns podiam falar e ter opinião em televisões, jornais, rádios, com separação em castas, permitindo uma excessiva desigualdade de poder entre pessoas – com a consequente possibilidade de, respectivamente, arrogâncias e humilhações desmedidas – reforça-se o sentimento de pertença à mesma comunidade; acentua-se a coesão social.
A internet, com as redes sociais, pode ajudar a forjar, mesmo, como refere o filósofo Pierre Levy, uma “inteligência colectiva”:

“O que é a inteligência coletiva? É uma inteligência globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a uma mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição  este acompanhamento indispensável: o fundamento e o fim da inteligência colectiva é o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não  o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas” (Levy, 1997, 38)



Não: A ideia de que quando emitimos uma opinião acerca d’Os Maias no facebook, quando lemos a crítica que um amigo publicou sobre o último filme na mesma rede social, de aí resulta um acréscimo de conhecimento, e de que, com a produção desses comentários, estamos ao mesmo nível, no mesmo patamar de quem estudou, afincadamente, ao longo de anos, Os Maias, leu as edições críticas, ouviu os melhores especialistas na matéria, o mesmo sucedendo com o background do crítico de cinema, do Professor de Cinema quando nos ensina a ler um plano, ou o significado do último travelling – face à nossa apreciação do filme, essa ideia de que estamos na mesma dimensão (horizontalidade) é, apenas, uma falácia. Não é por vivermos o “culto do amadorismo” (Andrew Keen) que as diferenças de conhecimento deixam de lá estar, com as suas hierarquias. Das redes sociais não emerge qualquer coisa a que possamos chamar “inteligência colectiva”.

Não: A promessa de (aparente) democraticidade que a internet trouxe, nomeadamente, ao nível do conhecimento e o modo como essa democraticidade não se tem observado na prática é bem ilustrada no que tem sido a abertura de cursos massivos online, muitas vezes grátis, e com os melhores professores de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo: quem os realiza, como indica Martin Ford, é quem já possui um conjunto de bases e ferramentas, muitas vezes já com um diploma académico; quem não tem background (prévio), ao fim de algumas semanas, desiste.
Em concreto, as redes sociais, ademais, costumam contribuir, no seu número limitado de caracteres, em alguns dos casos, na escassa leitura que um tópico com 4 parágrafos granjeia, para a simplificação de ideias, para a “gramatização do pensamento”(Bernard Stiegler), para a esquematização. O conhecimento degenera em informação. Sem capacidade de elaboração teórica, sem reflexão nem radicalidade ninguém se encontra apto para poder ler o mundo, nem munido da complexidade bastante para evitar ou minorar conflitos. Bem ao invés, a simplificação, os slogans, os soundbites são susceptíveis de gerar mais atritos.

Como refere Bernardo Carvalho, “nas redes sociais não cabe a excepção nem o devido, nem cabe a ambiguidade, nem a contradição e sem isso não há reflexão. (...) Pode ser que a literatura tenha um efeito de reação contrária, o lugar protegido contra esse mundo. Para mim, a literatura é isso, o lugar da resistênciaNo sentido político, ela é o lugar do real, o lugar da resistência, da ambiguidade, da contradição, da reflexão(Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel LucasO desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.62).


(continua)