Autor de referência que me acompanhou ao longo de alguns meses deste último ano foi Charles Taylor. Este Domingo, ElPais entrevistou-o (no âmbito da rubrica Conversas com futuro, no suplemento Ideas, a entrevista foi conduzida por Francesc Arroyo, pp.8-9). O jornal europeu de referência apresenta o autor como "pensador de amplo espectro, considerado um dos principais filósofos contemporâneos", professor que vê agora traduzida para espanhol a sua grande obra, felizmente já antes disponível em português, A era secular ("um grande tratado da última década"). De resto, registe-se que há grupos sectoriais especializados em escalpelizar, parte por parte, este monumental livro de mais de 1000 páginas.
O professor emérito de Filosofia na Universidade de McGill, formado em Oxford, foi encarregado, juntamente com o sociólogo Gérard Bouchard, pelo Governo do Canadá, de um trabalho sobre as diferenças culturais e o acolhimento de imigrantes, dando origem ao relatório da Comissão Bouchard-Taylor. O pensador afirma-se, por sua vez, politicamente, "muito comprometido" com o social-democrata Novo Partido Democrático do Quebec.
Mas, o mais, importante, na entrevista e tema subjacente a toda ela, incide no modo como reflecte a/acerca da aturada investigação que promoveu sobre o nosso tempo enquanto tempo secularizado:
"Vivemos séculos na Cristandade, não no cristianismo: uma civilização na qual tudo - a moral, a arte - era inspirado pelo cristianismo. A maioria das igrejas foram formadas nessa concepção moral, coroada pelo facto de ser uma moral considerada absolutamente válida, a salvo de qualquer crítica. É compreensível que quem geriu essas Igrejas resista ao novo, porque crê que questiona a lógica do cristianismo"
"Hoje, as pessoas não têm claro [qual é] o sentido da vida. Há séculos, sabiam que cada um tinha que conquistar a salvação - como se dizia no Quebec - obedecendo à Igreja, sendo um bom cristão. E tinha-se um imenso temor a ser condenado. O significado da vida era tão claro que ninguém se queixava da falta de sentido. Com as mudanças, há quem creia que a vida não tem sentido. As reacções podem ir desde a tentativa de dar sentido ao sem sentido, como Camus, até destruir-se ou paralisar-se. Creio que há algo no ser humano que actua contra isto: um desejo de sentido. Pode dizer-se que a vida não tem sentido, ou que o sentido é incerto, mas há constantemente no Homem movimentos de significação que renascem na vida e isso indica-nos que somos menos distintos dos antigos do que acreditamos, às vezes com sentimento de superioridade (...) Acreditamos ser superiores porque os antigos estavam obnubilados e aceitavam histórias que lhes contavam, e nós não. Somos menos diferentes do que isso, ainda que haja diferenças"
"Para explorar os diferentes modos de significação da vida, a linguagem filosófica, que quer ser muito clara, não é suficiente. Há um pensamento subtil, como dizia Pascal. Não há apenas um pensamento matemático capaz de explorar as diversas formas de significado. Para falar como um filósofo há que ler literatura, ouvir música, porque há outras formas de expressar as coisas. O discurso do filósofo coxeia um pouco, devo dizê-lo, sem essa referência à literatura. Nela, dá-se uma riqueza, uma densidade de pensamento que falta completamente noutros textos. Eu procuro navegar entre uns e outros porque penso que é necessário"
"Encontra-mo-nos numa nova situação. Irei usar uma analogia: se vou à China, no início estou desorientado; tenho que aprender algo da língua, aprender conceitos que me são estranhos, antes de poder falar com as pessoas. O mesmo se passa quando nasce uma nova era. Aparecem problemas novos e nem sempre temos as palavras adequadas para expressar uma opinião. Estamos obrigados a encontrar a linguagem que nos permita descrever a nova situação. Vivemos numa era na qual tudo muda muito rapidamente. Precisamos de uma linguagem que dê conta dos novos significados. É um processo sem fim".
[tradução minha]