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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Com sentido?


Hoje, a Sábado traz uma entrevista com uma das primeiras mulheres a entrar na Força Aérea e, neste momento, a única brigadeiro-general na história das Forças Armadas, Regina Mateus. "Como foi a recruta? Foi excelente! Quer dizer, na altura não foi [risos] (...) Acordar às 6h da manhã, formar, correr a chover. Mas fui atleta e estava habituada (...) Chamaram-me para ler em voz alta o juramento de fidelidade que eu, já tenente, nunca tinha lido. Aquilo termina com "mesmo com o sacrifício da própria vida" e quando terminei saí e reli: "deixa ver o que acabo de ler". Foi aí que percebi exactamente o que é ser militar". Licenciou-se, previamente, em Medicina. 
Confesso, sobretudo, que é muito raro ler ou ouvir alguém dizer, como esta senhora diz, que não tem filhos porque "tenho graves problemas existenciais, porque ao fim de 52 anos ainda não percebi bem qual é o propósito da vida - penso muito nisso". Penso que a frase ilustra bem, por outro lado, como essa "inteligência existencial" é tão central no humano, mesmo que negligenciada, ignorada ou esquecida, e como nunca é demais trabalhar(mos) sobre ela, com racionalidade (não de modo mágico, supersticioso ou análogo)
Com excepção de um conhecido casal na história da Filosofia - que se propôs indagar o sentido da existência, e, em caso de resposta negativa a essa indagação, assumir o suicídio -, ou de um amigo num momento mais azedo - trazer um filho a um mundo destes? - não é todos os dias que se colocam tais cartas sobre a mesa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O que vale a pena?


Se o trabalho de Sísifo parece, em si mesmo, absurdo, e imaginamos Sísifo completamente insatisfeito com o que faz, caso, contudo, uma substância lhe fosse inserta nas veias, de modo que agora Sísifo se sentisse satisfeito, feliz ao levar sucessivamente a(s) pedra(s) ao cimo da montanha (depois de estas, de modo igualmente imparável, rolarem dali a baixo para de novo serem conduzidas ao topo), esse mesmo exercício - o de levar a pedra ao cimo da montanha, que rola para de novo ser erguida até ao cume, e assim sucessiva e infinitamente - passaria a ser um bom trabalho? Quem, acerca da realização (no trabalho), quem de uma actividade/emprego tiver uma concepção estritamente subjectivista poderá alegar que sim: a pessoa está satisfeita com a actividade que desenvolve, pelo que o trabalho se justifica/vale por isso (por esse próprio facto; não há que procurar mais nada, aqui: o que conta é a satisfação com o que se faz, ponto). Todavia, este exemplo, ou experiência intelectual serve, na perfeição, a Susan Wolf para demonstrar o inverso: o facto de, por uma substância nas veias, Sísifo passar a satisfazer-se com aquilo que, manifestamente, é absurdo, em nada retira deste (despropósito), e facilmente compreendemos esse mesmo sem sentido (como prosseguindo/permanecendo naquele labor). Esse sem sentido não se altera porque o sujeito passa a alegrar-se com uma actividade que não o justifica (e quem diz levar pedras ao cimo da montanha para que voltem ao início para serem carregadas de novo, num processo imparável, dirá do fazer sudokus de manhã à noite, do fumar erva, do dedicar-se exclusivamente a jogar computador ou atirar setas - por muito que estas actividades satisfaçam o sujeito e/ou lhe assegurem a sobrevivência material). 
O exemplo de Sísifo permite, pois, com Susan Wolf, reconhecer um certo padrão independente - ou, em realidade, objectivo-subjectivo, dado que se espera que a dedicação a actividades que merecem a nossa devoção, que estão para além (não se esgotem ainda que as não excluam) do nosso perímetro de satisfação, de prazer, nos tragam realização, pelo que ao padrão objectivo se junta, ainda, esta entrega amorosa subjectiva - a uma actividade objectivamente valiosa - que podemos encontrar no tipo de actividades a que podemos dedicar-nos).
Muda a situação com a substância injectada em Sísifo? Muda. Mas para pior: o sujeito, em vez de estar insatisfeito (antes da injecção da substância), é agora uma pessoa que se encontra em um estado de ilusão, ou mesmo em posição de capacidades intelectuais diminuídas - o que é pior para ele.

sábado, 7 de abril de 2018

O sentido da vida (V)


Desidério Murcho que pode funcionar, aqui, como um dos guias sobre o modo como a filosofia (contemporânea) abordou o problema do sentido da vida (registando o ensaio O absurdo, de Thomas Nagel, como tendo lançado o debate: "o estudo contemporâneo do problema filosófico do sentido da vida começa praticamente", p.10, com ele; por sua vez, "o trabalho mais influente sobre o sentido da vida nas últimas décadas do séc.XX, sobretudo nos EUA, foi o último capítulo do livro Good and Evil (1970), de Richard Taylor", p.10), faz notar um sublinhado bem interessante: mesmo os positivistas não defendem a perspectiva de que a pergunta pelo sentido da vida é desprovida de pertinência ("hoje nenhum ou quase nenhum filósofo a defende", p.14). 

O sentido da vida (IV)


Thomas Nagel reage também ao argumento que afirma que a vida não tem sentido porque é efémera: se uma vida é absurda por durar 70 anos, não seria hiper-absurda se fosse eterna?

sábado, 31 de dezembro de 2016

Sentido


Gostava de encontrar diante de mim um desses sabichões que me chamam obscurantista. Dir-lhe-ia: não tenho culpa de trazer vestidos uns trajos de cangalheiro. A verdade é que o Papa se veste de branco e os cardeais de vermelho. Eu tinha o direito de me vestir como a rainha de Sabá, porque a alegria anda comigo. Dar-ta-ia por uma tuta-e-meia se ma pedisses. A Igreja dispõe da alegria, de toda a alegria reservada a este triste mundo. O que fizeste contra ela, contra a alegria o fizeste. Imperdir-te-ei porventura de calculares a precessão dos equinócios ou de desintegrares o átomo? Mas de que te teria servido fabricares a própria vida quando tu perdeste o próprio sentido dela? Não terias outra coisa a fazer senão estourares os miolos diante das tuas retortas. Fabrica vida para aí enquanto isso te dá prazer! A imagem que tu dás da morte envenena pouco a pouco o pensamento dos miseráveis, ensombra e descolora lentamente as suas derradeiras alegrias. A coisa aguenta-se enquanto a tua indústria e os teus capitais te consentirem que faças do mundo uma autêntica feira, com mecanismos que giram a velocidades vertiginosas no meio do estrondo dos metais e a explosão de fogos-de-artifício. Mas espera, espera pelo primeiro quarto de hora de silêncio. Então hão-de ouvir a palavra - não aquela que se recusaram a ouvir, e que dizia tranquilamente: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida - mas a que sobe do abismo: eu sou a porta fechada para sempre, o caminho sem saída, a mentira e a perdição.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, Paulinas, p.25

domingo, 27 de setembro de 2015

Sentido da vida



Para Richard Taylor, "o sentido da vida está no nosso interior, não é atribuído do exterior"; o propósito da existência "é simplesmente viver, como for natural viver". A cada castelo construído - prestes a cessar na medida em que, em construção, se encaminha para o seu terminus -, outro se erguerá. Há castelos para construir e vontade de os construir e isso basta - escreve Taylor. A compulsão interna para fazermos o que fomos aqui postos para fazer, e para o fazer sempre, eis, para este filósofo, o mais perto que podemos encontrar de um Céu. Construir o castelo, não a utilidade do castelo, não o castelo pronto, não o saber do que será, amanhã, o castelo, todas as perguntas, aliás, podem ser canceladas, para este autor, mas o simples entregar-se a fazer o castelo e aí realizar-se sem mais, eis o sentido descoberto na pedra levada ao cimo da montanha, constantemente, por Sísifo.

a partir de Desidério Murcho (org.), Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, Dinalivro, 2009, 33-46.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Referências (pessoais). E o sentido da vida




Autor de referência que me acompanhou ao longo de alguns meses deste último ano foi Charles Taylor. Este Domingo, ElPais entrevistou-o (no âmbito da rubrica Conversas com futuro, no suplemento Ideas, a entrevista foi conduzida por Francesc Arroyo, pp.8-9). O jornal europeu de referência apresenta o autor como "pensador de amplo espectro, considerado um dos principais filósofos contemporâneos", professor que vê agora traduzida para espanhol a sua grande obra, felizmente já antes disponível em português, A era secular ("um grande tratado da última década"). De resto, registe-se que há grupos sectoriais especializados em escalpelizar, parte por parte, este monumental livro de mais de 1000 páginas.
O professor emérito de Filosofia na Universidade de McGill, formado em Oxford, foi encarregado, juntamente com o sociólogo Gérard Bouchard, pelo Governo do Canadá, de um trabalho sobre as diferenças culturais e o acolhimento de imigrantes, dando origem ao relatório da Comissão Bouchard-Taylor. O pensador afirma-se, por sua vez, politicamente, "muito comprometido" com o social-democrata Novo Partido Democrático do Quebec.
Mas, o mais, importante, na entrevista e tema subjacente a toda ela, incide no modo como reflecte a/acerca da aturada investigação que promoveu sobre o nosso tempo enquanto tempo secularizado:

"Vivemos séculos na Cristandade, não no cristianismo: uma civilização na qual tudo - a moral, a arte - era inspirado pelo cristianismo. A maioria das igrejas foram formadas nessa concepção moral, coroada pelo facto de ser uma moral considerada absolutamente válida, a salvo de qualquer crítica. É compreensível que quem geriu essas Igrejas resista ao novo, porque crê que questiona a lógica do cristianismo"

"Hoje, as pessoas não têm claro [qual é] o sentido da vida. Há séculos, sabiam que cada um tinha que conquistar a salvação - como se dizia no Quebec - obedecendo à Igreja, sendo um bom cristão. E tinha-se um imenso temor a ser condenado. O significado da vida era tão claro que ninguém se queixava da falta de sentido. Com as mudanças, há quem creia que a vida não tem sentido. As reacções podem ir desde a tentativa de dar sentido ao sem sentido, como Camus, até destruir-se ou paralisar-se. Creio que há algo no ser humano que actua contra isto: um desejo de sentido. Pode dizer-se que a vida não tem sentido, ou que o sentido é incerto, mas há constantemente no Homem movimentos de significação que renascem na vida e isso indica-nos que somos menos distintos dos antigos do que acreditamos, às vezes com sentimento de superioridade (...) Acreditamos ser superiores porque os antigos estavam obnubilados e aceitavam histórias que lhes contavam, e nós não. Somos menos diferentes do que isso, ainda que haja diferenças"

"Para explorar os diferentes modos de significação da vida, a linguagem filosófica, que quer ser muito clara, não é suficiente. Há um pensamento subtil, como dizia Pascal. Não há apenas um pensamento matemático capaz de explorar as diversas formas de significado. Para falar como um filósofo há que ler literatura, ouvir música, porque há outras formas de expressar as coisas. O discurso do filósofo coxeia um pouco, devo dizê-lo, sem essa referência à literatura. Nela, dá-se uma riqueza, uma densidade de pensamento que falta completamente noutros textos. Eu procuro navegar entre uns e outros porque penso que é necessário"

"Encontra-mo-nos numa nova situação. Irei usar uma analogia: se vou à China, no início estou desorientado; tenho que aprender algo da língua, aprender conceitos que me são estranhos, antes de poder falar com as pessoas. O mesmo se passa quando nasce uma nova era. Aparecem problemas novos e nem sempre temos as palavras adequadas para expressar uma opinião. Estamos obrigados a encontrar a linguagem que nos permita descrever a nova situação. Vivemos numa era na qual tudo muda muito rapidamente. Precisamos de uma linguagem que dê conta dos novos significados. É um processo sem fim".

[tradução minha]

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crónicas




Leio a crónica A perfeição do cristal (inserta, por Frederico Lourenço, em O lugar supraceleste) e penso imediatamente que poderia pertencer a Claudio Magris; já Sob o signo do implacável remetendo/defendendo, bem, a ideia, a existência do Sublime (de que os gregos não duvidam) não oferece os instrumentos hermenêuticos indispensáveis para quem não perscruta ou entende a diferença entre Mozart e um cantor pop poder fazer a destrinça (faz, mais, por ela, um exercício para iniciados, de um grande professor de Música, numa das aulas de Yale disponíveis gratuitamente no youtube que Pacheco Pereira costuma aconselhar); quanto à exposição do autor, da sua intimidade, em muitos dos textos que escreve, dir-se-ia que, em alguns casos pelo menos, a sua crueza ajuda a ir muito além daquela história subjectiva (leia-se o "leve daqui as crianças" e, assim, a evolução do 'estatuto' destas, na nossa sociedade); não fugindo às questões últimas, Frederico Lourenço vê o sentido da vida em fazer algo por outrem. Ir além do egoísmo, do interesse próprio, servir outrem. Bebe - como no-lo mostra na aurora deste livro - em textos pré-cristãos (hindus) que lhe revelam o desígnio e compreende-se como ratificador desta perspectiva olhando para a sua experiência de vida; crê que faz sentido distinguir génio de bom gosto (e interroga-se se Paula Rego não cai neste caso: um génio sem a centelha do bom gosto).