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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Espiritualidade (II)


Na Idade Média, definia-se a espiritualidade como extensio animi ad magna (abertura do espírito a coisas grandes) que, a meu modo de ver, está muito unida a outras duas palavras: a humilitas [humildade, simplicidade, recato], tão própria da Idade Média, e a curiositas (curiosidade, busca, afã de saber), convertida quase em lema do Renascimento. Esta mescla entre humilitas e curiositas pode fazer parte da definição de espiritualidade. Ambas continuam na linha da profundidade (...) Heidegger disse-o, muito acertadamente, num pequeno escrito, intitulado Gelassenheit e que poderíamos traduzir como distendimento, sossego, serenidade, paz. A sua tese fundamental é que se está a dar uma fuga acelerada do pensar. E ele distingue no pensar duas variantes: a que chama de «pensamento instrumental» e a que denomina «pensamento meditativo». O «pensamento instrumental» é necessário para que possamos viver; se não, não tínhamos acedido à técnica nem ao progresso; mas o pensamento meditativo, contemplativo, constitutivo da espiritualidade, é necessário para acedermos à vida boa, ao humanismo, à própria interioridade.
Pessoalmente, eu teria em conta também a distinção entre crente e religioso. O crente é o que adere a um credo, a determinados símbolos, a certos ritos. Religioso, ao invés, é algo mais difuso, mais impreciso. Tem que ver com o dito de Goethe: «Se buscas o Infinito, corre atrás do finito em todas as direcções". Ser religioso é ser sensível ao que nos supera, o que nos coloca à beira do desorbitado; é ter antenas para a gratuidade, para o amor, para o Outro. (...)
Existem, ainda que apenas como excepção, funcionários do altar sem especial sensibilidade para o religioso. (...) Justamente o contrário da experiência que teve R. Otto, o grande fenomenólogo da religião, ao entrar na sinagoga de Tânger e escutar o três vezes «santo» de Isaías. Ali nasceu o título do seu livro O santo, provavelmente o livro de teologia mais lido do século XX. Foi ali onde compreendeu que a experiência religiosa possui uma dupla vertente: é «fascinante» (assombrosa, iluminadora, próxima da felicidade), mas também «tremenda» (exigente, rigorosa, próxima ao temor).
Também considero muito acertado, se me permitis que continue pedindo ajuda aos amigos da tradição filosófico-teológica, o olhar de Walter Benjamin sobre a figura do flâneur: o flâneur é o transeunte solitário na Paris do século XIX, abandonado entre a multidão, que se fixa nas claraboias e no cimento que tudo invade. Por todas as partes, alça-se o progresso moderno, mas Benjamin sente a falta da «experiência». O conceito de «experiência», o contacto directo com as coisas, pensa Benjamin, é algo que se está perdendo. Esta falta de sensibilidade manifesta-se igualmente na ausência de encontros [conversação, diálogo, citações]. Citar é um acto de espiritualidade, é ter em conta o passado do qual viemos. (...) [A sua missão] é interromper os discursos lineares da Modernidade. É necessário parar, olhar para trás, como faz o encontro [diálogo, conversa, citação]. A esta sensibilidade, Benjamin chama-a «cultura do coração» (...)
Penso que a espiritualidade não pode ser alheia a tudo o que venho narrando. Tão pouco a considero alheia às três experiências que nos legou o filósofo vienense L. Wittgenstein. A primeira delas é o assombro: uma pessoa é espiritual quando se assombra. Pelo assombro, começou a filosofia. «Vai pelo mundo e maravilha-te», escreveu o nosso R. Lulio. A segunda, alude ao sentir-se seguro aconteça o que acontecer (...) E a terceira leva o nome de sentimento de culpa. É inútil desculpar-se sempre. Algo dentro de nós nos diz: «Esse homem és tu».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.68-69


domingo, 12 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (IV)


6. Daniel faz-se à vida como “one man show” (p.20), nada mais apropriado aos tempos (híper-individualistas), sendo o “bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo) - que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado “100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo modo uma espécie de puta, adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita, contudo, nesta narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não há regras (p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até porque “é graças à memória que o sono não destrói de modo nenhum a sensação de identidade” (p.25).
As memórias de Daniel não são, em qualquer caso, um mero adentrar sociológico num dado espaço-tempo; elas são, em grande medida, uma reflexão existencial de quem parte da premissa de que “a vida não tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só sabemos da felicidade quando a perdemos; depois, sabemos que quando começamos a viver uma felicidade a acabaremos por perder. Na terceira fase, a antecipação da perda de felicidade inibe a própria vida” (p.143). A juventude “era o tempo da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das pessoas nasce, envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já se sabe, está longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há nenhuma razão para esta seita [elohimita, no interior da qual se registam homicídios e lutas fratricidas pelo poder] escapar” (p.299). Fox, o cão, era “o único ser digno de ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era propriamente mais optimista que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça” (p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de nada. Não fora capaz de ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera de um sinal” (p.386). Este ser “nunca tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me totalmente estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os “selvagens”, que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais aproximado dos (antigos) humanos: a “brutalidade das suas relações, com a ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo apetite indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou sexuais, de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade que se entendia observar: “as cenas a que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as repetir-se, quase as mesmas, em Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem a distâncias consideráveis e não tivessem há sete ou oito séculos nenhum contacto” (p.386).
Interessado no religioso porque, como pontuou com grande sagacidade, ele tem a capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar todos os sectores da vida social, Daniel que encontrara um católico com dificuldades de relacionamento sexual em virtude da sua filiação religiosa, no entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes” (p.212). O seu clone, quando passa por “condições extremas” lamenta “a ausência de Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista” em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num sublinhado curto, mas incisivo Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a ser] julgados culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte sublinhando ser essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca imperfeição, a sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo acusador da descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude de papel]. Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será – perfeito. A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em uma visão sombria da vida, dos humanos e do estádio civilizacional em que se encontra (em que nos encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como não contempla nem confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as pessoas, mesmo que soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca de um grande acontecimento “não se importariam, porque estavam habituadas a uma vida insípida e a um comentário” (p.302). O comentário insere-se na lógica do achismo quotidiano, que sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério, no meio da cacofonia (de que participa); o comentário da sociedade dos comentadores que merecia ser substituída pela sociedade dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).

Numa conferência, na Culturgest, há cerca de um ano, Maria Filomena Molder recordava que, em As razões de ser, Fernando Gil dizia que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.

Se tivéssemos que nos recolher a autores para quem a vida é um bem, na qual importaria depositar confiança, há um dom que importa agraciar e talentos a colocar a render, então, evidentemente, como pontos de partida, a ideia da vida como “desgraça”, a existência como incessante “dor de ser”, a imagem que retiramos desse mundo na mediação humana – sempre com lobos ferozes por rostos e companheiros, em vez de seres que fazem do amor, do apego, o essencial e entendem a alma, a dimensão espiritual como algo que lhes permite tocar os valores eternos – bem, verdade, beleza - não seria, evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um ponto de vista em que queremos perseverar nessa confiança na vida e no mundo, se a mundividência postulada passa pela necessidade da relação, de um forte vínculo e preocupação com o outro, então a crueza, a brutalidade, a violência extrema de um universo povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que seja – sem riso e sem lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer sentido – nenhuma conversa séria – e deixando de fruir das grandes indagações filosóficas e teológicas que marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente inacessível, com o aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da Filosofia, pelo culto do cientismo, do tecnológico), nesse mundo onde todo o dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não passam de exclusiva biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de Michel Houellebecq adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento literário (e de um background onde avultarão, nesse sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e da distopia que ele encerra – o fim do amor, das relações como a libertação/emancipação da humanidade; o isolamento como a nova condição, num humano maquinal e petrificado, no qual apenas a razão instrumental permanece - Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta da sociedade são indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil poder de associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e extinção. Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura moribunda já não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo muito marcado pelo determinismo, o fatalismo assacado ao fim das próprias relações humanas, de cada relação que entabulamos, parece querer surgir como resposta - na narrativa de Houellebecq. Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve um limite que irrompe enquanto esperança, e esta com(o) uma força da natureza que não adquiriria num texto delicodoce: “a história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam, desenvolvem-se e depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga pode romper o ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua morte constitui a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta de amor” (p.146). Um amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para Nova Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de Sócrates]” (p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a angústia pronta a devorar (p.274). É na debilidade da ferida, na inocência talentosa – e talento é algo que falta aos sem carácter, desenvolve – que Daniel se oferece na beleza da lágrima, na redenção do sentimento, na verdade do viver [num inusitado golpe romântico, de alguém que, porém, assume as suas “oscilações ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão de açúcar teria bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar” (p.341). Numa palavra, “um pouco sentimental, um pouco cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que nesta obra “ainda assim, Houellebecq deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança. Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada” (Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais tenebroso dos cenários encontrou espaço para a alteridade.  


(conclusão)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Abelhas


A abelha é um animal da minha infância. Vivíamos no Restelo e tínhamos uma horta e um jardim, que era um enxame de luzes e movimentos. Eram joaninhas, abelhas, gafanhotos, libelinhas, lagartixas, que sempre adorei. E todas as espécies de flores. Acho que os animais deixaram de habitar a cidade. Já a seguir ao 25 de Abril, ainda me lembro de ver uma vendedora de fruta com um cavalo e uma carroça, que fazia o seu caminho, na zona do Liceu Maria Amália, onde dei aulas durante cinco anos. Sabemos de resto que há muitas espécies que estão a desaparecer. S.Tomás dizia que entre haver dois anjos e um anjo e uma pedra é melhor que haja um anjo e uma pedra. Pelo princípio da bondade da criação, que tem que ver com a diferença. Só que ela está a arruinar-se claramente. Depois, aparecem os museus, onde põem o cavalo, o burro. E os homens estão cada vez mais sozinhos. (...) Através de meios tecnológicos pode-se simular. É curioso que a simulação pareça ter erradicado o valor moral, no sentido em que se faz de conta que não há nenhuma diferença em relação à realidade. Isso implica muito embuste, uma espécie de sonambulismo generalizado. Falo disto com a estranha sensação de não saber como o resolver. Essa consciência muito aguda também cria uma enorme inquietação. Mas apagar, calar isso é que não. O pior é não pensar. 

Maria Filomena Molder, Idem, pp.24-25

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Pensamento e solidão


Hermann Broch tinha uns oito anos quando, como sucede com outras crianças, lhe aconteceu aquilo a que chamou "cair em si", perceber que um dia ia morrer. Recorda na sua autobiografia que estava a brincar num bosque, perto de Viena, e percebeu que estava sozinho no mundo. Descobriu a solidão da vida humana e que a morte é um acontecimento solitário. O pensamento é uma tentativa de superação, uma espécie de protecção contra a morte. Move-se numa área em que ninguém pode viver. O pensamento conhece a solidão absoluta. Todo o esforço da nossa vida é na verdade dar-lhe forma, desde o fazer pão a abrir uma cova para enterrar alguém, a escrever um livro, a inventar um axioma. Tudo isso são efeitos da incidência da solidão imensa e irreparável do pensamento sobre o respirar, o correr do sangue nas nossas veias, o andar.

Maria Filomena Molder, em entrevista concedida a Maria Leonor Nunes, JL nº1201, 12 a 25 de Outubro de 2016, p.23

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Zeitgeist




Sobre prisões

Não quero falar sobre religião. Quero falar sobre a solidão de não haver mais nada para além de nós e deste egoísmo escondido que anda a atirar tanta gente para um buraco, buraco esse que visto de fora não deveria ser tão fundo como nos relatam os que lá estão dentro. Há este vazio nas pessoas, esta pergunta esquecida num sítio profundo demais para se poder ver. Há esta era em que não existe tempo para aprofundar seja o que for. Se olharmos, os sinais estão em todo o lado a apontar para a forma como não nos comprometemos e não nos aprofundamos: na casa que não se compra, no trabalho onde nunca estamos contentes, nos divórcios, na cultura “mainstream” oca, nas depressões, na busca tardia por uma espiritualidade imediata…Vive-se uma grande fatia da vida centrada em tudo o que é apenas humano: os estudos, o trabalho, a carreira, a casa, um “parceiro” para morar…até ao dia em que se tem tudo isso. Depois chega o fim de semana, do mês, do ano, e o vazio, que era tão pequenino que nem sequer se reparava, está de repente do tamanho de todo o tempo que se esteve sem olhar para ele. Depois choram, choram nos cantos sem saber porquê. Choram por falta de direcção, falta de sentido. São pessoas com emprego, com estabilidade, com condições para serem felizes. Ouço estas histórias e não consigo deixar de pensar no outro lado deste manto negro que veste em segredo as camadas mais confortáveis da sociedade. Parece que na ausência de problemas de maior importância, na ausência de preocupações que os mantenham acordados à noite, surge este sítio parado no tempo, este sítio sozinho em que perguntam “e agora?”. Imagino o silêncio avassalador. Um silêncio humano, limitado, terreno.
Lembro-me que eu era mais forte, quando tinha mais fé. A questão é que me lembro de ter mais certezas, de haver uma resposta às perguntas, de não haver silêncio. Só o facto de saber que existia uma qualquer força superior à minha pequenez, à minha ignorância, fazia com que todo o meu ser se sentisse menos pesado, como se constantemente estivesse a andar lado a lado com a própria razão desse andar, e tudo fluía, os problemas eram abraçados em vez de lamentados até à exaustão, porque eram parte do caminho, como se houvesse um plano. Era tudo mais simples, e eu era mais livre. Sinto que esta ideia, que se espalhou pelo mundo intelectual de que a espiritualidade é uma prisão castradora dos nossos instintos, não faz mais do que criar outro tipo de prisão, invisível, silenciosa, ignorante, desorientada. E de repente temos todo um mundo de fugas, feita de alucinogénios, de cocaína, de retiros que nos oferecem um pacote espiritual de fim de semana, como injecção que vai durar tanto tempo quanto esses dois dias de emoção extrema “instagramada” ao minuto. Há este buraco fundo, há esta ausência de profundidade para o entender e a ausência de armas e tempo para o desvendar. Não sei o que é suposto dizer esta crónica para além de apontar este vazio, porque à medida que os anos passam ouço mais histórias de gente a chorar sem razão.
Sei que ler um bom livro é melhor do que passar os olhos por um artigo de net sobre nada, que ouvir um bom disco é melhor que um “shuffle” pelos “hits” da semana, que ver um bom filme é melhor que o “diário da casa dos segredos”; que ir a uma boa exposição é melhor que um dia no “shopping”, e que ter tempo para perceber a partir do nosso interior o que existe para lá de nós é melhor que chegarmos ao fim do dia perdidos e acharmos que estamos sozinhos.


Tiago Bettencourt, compositor, Visão nº1207, de 21/04/2016 a 27/04/2016, p.102.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A solidão do guarda-redes



De uma genuinidade à flor da pele, o testemunho de Vítor Valdés fez-me recordar o que John Carlin escreveu acerca da biografia de Robert Enke: estranho, estranho é que mais jogadores, em alta competição, não se evadam, não fujam, não se passem. Valdés queria "nascer outra vez", e não seria guarda-redes com toda a certeza. Cru, sabe que nem as muitas vitórias atenuam o sofrimento tantas vezes passado. Não compensaram, não. Definitivamente, não. Várias vezes, não lhe apeteceu estar no estádio, para disputar um jogo. Queria estar noutro lado qualquer, certamente a ver um filme. Foi guarda-redes, porque sim, porque o convenceram de que era talhado para isso e, depois, muito trabalho, trabalho, trabalho, trabalho - podia ser profissional de outra área (trabalho, trabalho sempre).
O que distingue um guarda-redes de um central, um médio, um avançado? "A solidão". Aquele a quem o pai das outras crianças, mesmo inadvertidamente, mesmo sem maldade, apontam, cruelmente, o dedo. A culpa é tua. A derrota é tua. Foste tu que perdeste. Foste tu que nos perdeste. Tu que nos fizeste perder. A argamassa, depois, de que se nutre o gladiador que um dia parou Henry e Wenger em Paris, o êxito de uma vida que coloca e recoloca no DVD da sala. Afinal, a alegria da terra e das pessoas entre as quais nasceu. Eis o motivo da celebração (a festa de 2006 fora antecedida de uma de expressão idêntica...em 1992). Depois, bem depois, sozinho, na Alemanha, abandonado a uma lesão - que tinha tudo para não o ser, um penalty transformado em livre; um cruzamento, no qual a bola é sereia que todos prende e não há como pensar em proteger o cabedal -, viu quebrado o mundo artificial, a bolha em que são envoltos os jogadores e equipas do mais alto calibre, uma fantasia que desconhece o homem da rua, o tilintar da moeda no bus que o leva à clínica, diariamente. Excelente "cura de humildade". Para quem vê os guarda-redes dos infantis como irmãos, guarda-redes como ele (mas a quem quer vir a ensinar alguns truques que o mano mais velho já sabe). Mãos de aço, forjadas na dureza do trabalho que agradece a um "pai rígido", capazes de não deixar fugir, ainda, um fulminante amor à primeira vista. Uma grande entrevista, uma lição de electrizante, e raríssima, autenticidade.