
Aquilo [Hospital Miguel Bombarda], pensando bem, não era um hospital mas a Alice no País das Maravilhas a sério. Recordo-me da senhora que em lugar de
- Bom dia
me saudava
- Cri cri cri foguete
que me parece muito mais apropriado, ou do pintor francês que quando o meu pai lhe perguntou se tinha filhos respondeu indignado
- Não senhor doutor eu não fabrico cadáveres
ou da velhota grávida do Menino Jesus, sempre a tricotar casaquinhos de malha para a Divina Criança (...)
ou do sujeito que ligou para
a Urgência declarando
-Daqui a meia hora estou aí para matar o chefe de equipa
bem vestido, bem penteado, de gravata e pistola na mão,
e depois abraçou-me, e depois desatou a chorar porque a vida não é
verdade, porque a vida senhor doutor, porque a vida, porque a vida, porque a vida,
o enfermeiro pegou na pistola
-Isto tem mesmo balas, sabia?
comigo cheínho de vontade de
chorar por ele também. Meu Deus o que as pessoas sofrem, somos todos frágeis, tão
à mercê de tudo, estamos tantas vezes tão infinitamente sós. No Hospital Miguel Bombarda, onde o professor Miguel Bombarda foi assassinado a tiro, ele, agonizante,
impediu que matassem o assassino ordenando
- Deixem-no, é um pobre
e, de facto, somos todos tão pobres, estamos todos, tantas vezes, tão sós.
António Lobo Antunes, Ontem voltei a ser feliz, Visão, 22-11 a 28-11 de 2018, p.9