Já disse ao Costa, mas o Costa faz de conta que não ouve: deviam tornar-se públicos os documentos da troika. Primeiro, porque eu acho que não se cumpriu a lei e que há muita comunicação que não está registada (o Vítor Gaspar, por exemplo, usava um computador da troika para se corresponder). Depois, porque acho que quando se for ver o que é que a troika exigiu, os momentos em que exigiu e como é que formulou o seu programa de intervenção, nós percebemos muita coisa. A troika formulou uma parte do seu programa influenciada pelas pessoas que se iam lá queixar. E muitas coisas são de iniciativa do governo...Há ali muita falha de análise.
Se formos ver a evolução do governo de Passos Coelho, constatamos um período inicial de relativa continuidade, em linha com o programa eleitoral e na sequência daquilo que o Sócrates também dizia: que o nosso programa da troika era diferente do grego porque eles tinham percebido as asneiras que fizeram na Grécia. E o que é que aconteceu? Aconteceu que entre a tomada de posse do governo de Passos Coelho e o Natal não há verdadeiramente medidas de austeridade, porque eles pensavam que podiam continuar como estavam. A primeira crise é o subsídio de Natal, apresentado na Assembleia como sendo a única medida necessária. E então é a partir daí, quando já há um descalabro financeiro considerável, que vem o maior aumento de impostos...E depois há uma deslocação da elite governante com Passos Coelho e quem foi juntando à sua volta, para a engenharia social. Ou seja, já não se tratava apenas de aplicar as medidas da troika. Tratava-se de as usar como mecanismo de engenharia social que alterasse, no fundo, as relações de força da sociedade. É aí que a coisa ganha outra dimensão. O programa de privatizações, por exemplo, foi muito maior do que estava previsto...Aquela coisa da Taxa Social Única deu para o torto, como muitas outras medidas, que não eram novas, responsáveis pela degradação do país. Qual é o estado natural da nossa riqueza? É a pobreza. A pobreza é o nosso estado natural e o que se tentou foi voltar ao estado natural da nossa economia, assumindo-o como de pobreza e a partir daí arrancar. Por isso o ataque à classe média, daí os alvos da austeridade. E então estamos perante um processo que já não é meramente um processo de austeridade, mas um processo político de mudança. (...)
E como aquilo resultou muito mal na Grécia, há uma tentativa de correcção que apanha o Sócrates e leva ao PEC IV. O Sócrates lá consegue arranjar um conjunto de medidas menos drásticas. E ele tem razão, são menos drásticas que as da Grécia. Mas o que é que acontece? Acontece que essa margem de manobra diminui com o chumbo do PEC IV. É isso que abre caminho à radicalização da troika, porque a Merkel subiu pelas paredes com o chumbo do PEC IV, que tinha negociado com o Sócrates. (...) É esse projecto [de engenharia social] que Passos leva até ao fim, com a colaboração significativa do Partido Socialista, em muitos aspectos. (...) A primeira resposta [europeia], e isso está estudado, foi «gastem mais dinheiro». Mas depois há uma inversão, que tem muito da condução alemã (...) O caminho para o tratado orçamental, por exemplo, é um caminho alemão (...) sendo a chantagem à Grécia algo de inaceitável. Chantagem clara e completa, com ameaças e tudo. Aí os partidos socialistas tiveram de facto um papel vergonhoso. A queda da Grécia deu força à austeridade e as cedências de Tsipras, quando ele se torna num fiel mandatário (podia ao menos ter-se demitido), deixaram pendurada uma parte da esquerda europeia. Fez um referendo e dias depois aceita todas as coisas que tinham sido negadas.
José Pacheco Pereira, entrevistado por Ana Drago e Nuno Serra, para a Manifesto, Outono e Inverno 2019/20, nº4, 2ª série, pp.40-41.