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segunda-feira, 13 de maio de 2019

Sem abstenções


Segunda crónica semanal consecutiva que dedico ao tema europeu. Depois de dialogar com os principais sublinhados do livro do Prof.Nuno Sampaio, desta vez cerca de 6 minutos com Viriato Soromenho-Marques (com referência a Adam Tooze): aqui, na ufm.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Um Natal vilarealense


A crónica de Natal (de rádio) que fiz este ano juntou um conjunto de elementos, no essencial já referidos neste blog, mas, se quisermos, compactados do seguinte modo: 

[ter em atenção as imagens do presépio de Torgueda de 2014: aqui

1.Um dos mais interpelantes presépios de Natal com que me deparei, ao longo dos anos, na mostra que a cidade de Vila Real vem acolhendo, pertenceu à freguesia de Torgueda e data de Dezembro de 2014. Na imagem, duas cadeiras vazias – onde, supor-se-ia, estariam os pais do menino esperado -, sendo que ausente parece também encontrar-se o próprio Jesus apontado pela estrela. Creio que se tratou de um dos mais inspirados presépios com que, até hoje, me confrontei, seja enquanto diagnóstico cultural – o desaparecimento das figuras que compõe o presépio, o questionamento do lugar da fé e do religioso no nosso horizonte colectivo/comunitário –, seja como reflexão teológica.

2.João Manuel Duque, em “Dizer Deus na pós-modernidade”, creio que citando a recepção heideggeriana de Nietzsche, afirma que quem fala, ou constata a “morte de Deus” é quem O procura. E que, na verdade, o que morre é um dado conceito, idolátrico [um deus feito à medida humana], de Deus. Já Deus, ele mesmo, é, por natureza, eterno; não morre. Tomas Halík, por seu turno, faz notar – palavras que de imediato me assomaram enquanto me defrontava com o presépio de Torgueda, em 2014 – que há poucos lugares nos quais se note tanto a presença de Deus como na sua ausência. Por isso, os grandes santos e místicos amaram tanto a noite e a escuridão (estas entendidas como o desapossamento de um “objecto” – Deus é o que de maior nada pode ser pensado, no dizer de Anselmo, e se compreendes [se tens uma definição exacta no bolso] não é Deus, na fórmula de Agostinho; Deus não é um ente entre os entes, não existe como existem as demais coisas, de aí a fórmula do pastor protestante Dietrich Bonhoeffer: “o Deus que é não existe” [não existe como as outras coisas] – e o encontro com, digamos, uma forma nua). Sim, escreve Halík, “há pessoas que no momento do silêncio de Deus se afastam da fé porque chegam à conclusão de que Deus «não existe». Seria mais honesto afirmar que a sua actual noção de Deus «não funciona». (…) [Ora] O objectivo de superar os ídolos é libertar espaço para um encontro com um Deus vivoÉ esse o momento do «eclipse» que no caminho espiritual se pode tornar um encontro decisivo com um Deus vivo”.

3.Em 2015, A.M. Pires Cabral publicou o livro A noite em que a noite ardeu, no qual se encontra o seguinte poema homónimo:

Na noite em que a noite ardeu
dentro do meu seio propenso a rescaldos,
não houve qualquer outra claridade
senão a que as chamas produziam.

E essa parecia uma dança macabra
de fantasmas ébrios celebrando a morte.

Depois, desgastada a parte
consumível da noite,
restaram os resíduos do costume:
cinzas, brasas apagadas
de que todo o calor já se apartou -

- e às vezes
uma radiosa escuridão
que aos poucos se reordena e de novo
torna possível navegar o rio

como velha barcaça cujas tábuas
já mal ajustadas entre si
não vedam águas e medos.

Atentando no poema: o sujeito poético é dado a reflectir acerca da experiência por que passa ("seio propenso a rescaldos"). Trata-se, de resto, de (se) elucidar acerca dessa experiência maior que é a (passagem da/pela) noite. A primeira clarificação, fundamental, feita é a de que não foi a luz que sucedeu à escuridão ("não houve qualquer outra claridade"). A luz que vem da noite parece ao sujeito poético "uma dança macabra/fantasmas ébrios celebrando a morte". E, se há uma parte da noite que é "consumível", o que resta, na verdade, no fim da noite, são "cinzas". A experiência/expressão do desencantamento do mundo é inequívoca, com toda a frieza que esse apartar (do encantamento) significa: "brasas apagadas/de que todo o calor já se apartou". Numa pequena mas nada insignificante inflexão/nuance, não se nega, contudo, que a escuridão, "às vezes", é "radiosa" (a noite pode ser caminho), vislumbre, porventura, do sentido, dado que é esse lado radioso que "torna possível navegar o rio" (de existir). Mas nesse sentido, sempre entra "água" e na noite se jogam diversos "medos".

Pereambulando pela cidade, entre a memória do musgo e do lodo verdinho, das formas claras e perfeitas dos presépios em São Pedro, até ao aprofundamento e à viagem, nunca abandonados, convocando a noite das formas e o lusco-fusco do dizer cultural do mais importante, passámos décadas juntos.
A todos os ouvintes da universidadefm, votos de um Santo Natal.


P.S.: como então também escrevi, sobre o título do livro, deste poema e do seu verso inicial: "Gosto particularmente deste título do mais recente livro (de poesia) de A.M. Pires CabralA noite em que a noite ardeu. Ele reconduz-nos, abre-nos, de imediato para uma possível pluralidade de caminhos de um roteiro espiritual: a) o momento em que da escuridão, da peregrinação da ausência, da aridez - na qual pode haver, até, como sabemos dos grandes místicos, comprazimento, e a ausência como forma maior de presença, em paradoxo maior - se passa a uma visio beatifica;  b) a noite, como o que fica quando a noite desaparece - não, não o contorno da luz clara e límpida, de um dia resplandecente ou rosa, mas ainda a noite que não cessa; c) a noite consumida, "ardida", o tempo de lidar, de lutar com essa dureza de recusa do ídolo enfim esvaído, e o soçobrar/cair no nada."

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Convocar leituras/conhecimento à cidadania (II)

Resultado de imagem para Homo Deus

Enquanto mexia em papéis antigos, recordava sínteses com meses, nas crónicas semanais que fui fazendo na rádio. Deixando, aqui, em diferentes posts, sublinhados dos livros que me foram essenciais ao longo do ano, todavia, a rádio - como seria a crónica no jornal - obriga à sistematização e a um pequeno acrescento, uma nesga de luz que se ousa. Esta semana, Paulo Rangel, no Público, falava de Yuval Noah Harari, em Homo Deus, como já um clássico. A este, mas ainda mais do meu agrado - por exemplo, Harari, no que às imagens de Deus diz respeito, fica-se por um tradicionalismo e por concepções que foram populares mas estão, felizmente, ultrapassadas ao nível teológico, pelo que as conclusões não se seguem necessariamente, do mesmo modo que por vezes surge um tanto optimista, talvez em demasia, no que à fome, peste e guerra diz respeito -, somo, sempre, A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq (que, tendo saído há uma década, e inscrevendo-se no registo romanesco - se bem que futurismo, e, portanto, ficção há, também, em Homo Deus), penso que continua com uma frescura essencial para compreender estes nossos dias). Segue-se, então, uma das duas crónicas de rádio que dediquei a Homo Deus.


Biopolítica

Epicuro dizia que de nada valia orar aos deuses, sendo a felicidade o único motivo da existência. À época, uma blasfémia; hoje, o autoflorescimento – como exclusivo leit-motiv da vida – tornou-se concepção dominante ou hegemónica. Diferentemente do filósofo grego, os pensadores modernos entenderam que a felicidade não se resumia a um objectivo pessoal, mas tratava-se de um desígnio coletivo. Neste sentido, aliás, o Estado de Bem-Estar foi, originalmente, planeado no “interesse da nação e não no dos indivíduos necessitados” (p.43). Para Bismarck, no final do séc.XIX, com o estabelecimento, inédito, de pensões e segurança social estatal, o desiderato era alcançar a lealdade dos cidadãos e não, propriamente, aumentar a qualidade de vida das pessoas.
Se é certo que a Declaração de Independência dos EUA faz menção à felicidade, esta perspectiva-a como direito à busca da (felicidade) e não direito à (própria) felicidade, o que acarreta(va) diferenças (políticas) de monta: na primeira das formulações, impedir-se-á o Estado de se intrometer na vida de cada um, limitar-se-ia a esfera deste – obrigações de non faccere; no segundo dos casos, em se entendendo que cabe ao Estado a promoção da felicidade (colectiva) dos cidadãos, as obrigações são já positivas (obrigações de faccere).
Perceber, exactamente, o que significará felicidade, nem sempre se afigurará fácil, sobretudo se recorrermos a instrumentos tantas vezes debitados nos media, como o PIB: tendo um PIB per capita muito superior ao da Costa Rica, Singapura, no entanto, vê os seus cidadãos, nos inquéritos internacionais, mostrarem-se muito menos satisfeitos com a vida do que os seus homólogos costa-riquenhos. Os dados internacionais, neste contexto, não podem deixar de nos fazer reflectir: “apesar da maior prosperidade, conforto e segurança, a taxa de suicídios no mundo desenvolvido (…) [é] também muito mais elevada do que nas sociedades tradicionais” (p.45). Ilustrando, vemos que no “Perú, Guatemala, Filipinas e Albânia (países em vias de desenvolvimento e com instabilidade política), em cada ano suicida-se uma em cada cem pessoas. Em países ricos e pacíficos como Suiça, França, Japão e Nova Zelândia, anualmente tiram a vida a si mesmas vinte e cinco em cada 100.000 pessoas” (p.45).
Sabemos que a felicidade se jogará em uma dimensão psicológica e, também, no plano biológico. No primeiro dos casos, a relação que estabelecemos com as expectativas (que vamos formulando) determinarão o nosso grau de felicidade. No segundo dos âmbitos, estaremos moldados pela nossa bioquímica. Ora, se assim é, então muitos sugerem que para aumentar a nossa felicidade devemos manipular a bioquímica humana (para além de se insistir, hoje por hoje, na mudança na didáctica e pedagogia nas escolas, “pela primeira vez na história, pelo menos alguns, acreditam que seria mais fácil mudar a bioquímica dos alunos”; 12% dos soldados norte-americanos no Iraque e 17% dos que se encontravam no Afeganistão tomavam comprimidos para dormir, ou anti-depressivos para lidar com a depressão e a angústia da guerra). Em 2009, metade dos presos das cadeias federais dos EUA tinham ido para à prisão devido às drogas; 38% dos detidos italianos estribavam na mesma causalidade; 55% dos presos do Reino Unido padeciam de igual problema. Assim, a realidade com a qual nos deparamos é que “o Estado confia conseguir regular a busca bioquímica da felicidade, ao separar as «más» manipulações das «boas». O princípio é claro: as manipulações bioquímicas que reforcem a estabilidade política, a ordem social e o crescimento económico são permitidas e até fomentadas (por exemplo, as manipulações que acalmam as crianças hiperactivas na escola, ou que fazem os soldados avançar na batalha). As manipulações que ameacem a estabilidade e o crescimento são proibidas (…) À medida que a busca bioquímica da felicidade se acelere, remodelará a política, a sociedade e a economia e será cada vez mais difícil controlá-la” (p.53).
Grande parte do que agora podemos aqui ler fora antecipado, desde há muito, em Regras para o parque humano, de Peter Sloterdijk, um livro tão provocador como capaz de um diagnóstico cultural que, em boa medida, parece a caminho de cumprir-se. Veja-se a seguinte descrição, de Yuval Noah Harari, sobre como, hodiernamente, se encara a procura da felicidade: “a solução bioquímica consiste em desenvolver produtos e tratamentos que proporcionem aos humanos um sem fim de sensações prazenteiras, de modo a que nunca nos faltem. A sugestão de Buda era a de reduzir a nossa ânsia de sensações agradáveis e não permitir que estas controlem a nossa vida (…) Hoje em dia, a humanidade está muito mais interessada na solução bioquímica. Não importa o que digam os monges nos Himalaias, ou os filósofos nas suas torres de marfim; para o gigante capitalista, a felicidade é prazer. Ponto. (…) Tanto a investigação científica como a actividade económica orientam-se a este fim, e cada ano produzem-se melhores analgésicos, novos sabores de gelados, colchões mais cómodos e jogos mais aditivos para os nossos smartphones, de modo a que não padeçamos de nem um só instante de tédio enquanto esperamos o autocarro” (p.55). Contudo, gelados e telefones inteligentes não bastarão e, no limite, será a remodelação do homo sapiens que se visará (a ascensão a deuses), através de: a) engenharia biológica (não haveria razão, segundo este posicionamento, para que o sapiens seja a última estação); a engenharia cyborg (fusão do corpo orgânico com dispositivos não orgânicos, como mãos biónicas, olhos artificiais, ou milhões de nanorrobots, que navegarão pela nossa torrente sanguínea, diagnosticarão problemas e repararão danos: “um cyborg poderia existir em numerosos lugares ao mesmo tempo. Uma médica cyborg poderia realizar operações cirúrgicas de emergência em Tóquio, em Chicago e numa estação espacial em Marte, sem sair do seu escritório em Estocolmo. Só necessitaria de uma conexão rápida à internet, e uns quantos pares de olhos e mãos biónicas. Mas, pensando bem, porquê pares? Porque não quartetos? De facto, inclusivamente estes são realmente supérfluos. Por que é que um médico cyborg teria que suster na mão um bisturi de cirurgião quando poderia conectar a sua mente diretamente ao instrumento. Talvez isto pareça ficção científica, mas já é uma realidade. Recentemente, uns monos aprenderam a controlar mãos e pés biónicos não conectados ao seu corpo mediante elétrodos implantados no seu cérebro. Pacientes impossibilitados são capazes de mover extremidades biónicas ou de utilizar computadores só com o poder da mente. Se uma pessoa quiser, já pode controlar à distância os dispositivos eléctricos de sua casa utilizando um capacete eléctrico que «lê a mente». O uso do capacete não requere implantes cerebrais. Funciona ao ler os sinais eléctricos que passam através do couro cabeludo. Se alguém quiser acender a luz da cozinha, coloca o capacete, imagina algum sinal mental pré-programado (por exemplo, que a sua mão direita se move) e o interruptor aciona-se. Podem comprar-se estes capacetes pela internet por apenas 400 euros. No início de 2015, a várias centenas de trabalhadores do centro de alta tecnologia Epicenter (Estocolmo) foram implantados microchips nas mãos. Os chips têm o tamanho aproximado de um grão de arroz e armazenam informação personalizada de segurança que permite aos trabalhadores abrir portas e usar fotocopiadoras com um simples movimento de mão. Esperam que em breve possam efectuar pagamentos da mesma forma (…) «na atualidade (…) necessitamos de códigos, pin, contra-senhas: não seria mais fácil simplesmente tocar com a mão?»”, pp.57-58); c) engenharia de seres não orgânicos (produção de seres totalmente não orgânicos: “as redes neurais serão substituídas por programas informáticos com capacidade de navegar tanto por mundos virtuais como não virtuais, livres das limitações da química orgânica. Depois de quatro mil anos a vagar dentro do reino dos compostos orgânicos, a vida saltará para a imensidade do reino inorgânico e adoptará formas que não podemos imaginar nem sequer nos nossos sonhos mais fantásticos” (p.58).
Em realidade, não é possível imaginar-se, agora, com a mente e os desejos que possuímos como será a vida de quem possuirá uma outra mente e desejos, mas podemos concluir que quando e se a tecnologia nos permita remodelar a mente humana o homo sapiens desaparecerá, a história humana chegará ao seu fim e iniciar-se-á um processo completamente novo (p.59). As mudanças surgem a uma velocidade inaudita e nada parece poder deter tal aceleração (nem a morte), e para colocar o pé no travão necessário seria saber onde o travão se encontra.
De acordo com Noah Harari, a nova ordem – felicidade, divindade, imortalidade – serão só para alguns, e nos bairros mais sórdidos permanecerá a eterna luta com a pobreza, a doença e a violência. E mesmo a demanda daqueles novos valores está longe de ser um projecto com a certeza de êxito. Não podemos prever, com certeza, mesmo olhando para o passado. Este, de resto, serve para verificarmos o pouco natural, óbvio, inevitável do nosso estádio: estamos assim, numa dada etapa, mas se olharmos para trás com atenção, poderíamos ter seguido outras linhas, encontrarmo-nos em estações diversas desta, não era inevitável nem óbvio que fossemos assim. Olhar para trás permitir-nos-á, pois, propiciar caminhos diversos da tendência que se encontra agora à nossa frente. Enunciar um caminho, um diagnóstico cultural – como o de uma nova ordem que se vê despontar – surge, ultima ratio, como denúncia dessa mesma ordem, ou, quando menos, de consequências (nefastas) que pode adquirir o novo horizonte.
Num paradoxo tremendo, levar a apologia do humanismo (o culto da humanidade), que nos tem guiado nos últimos 300 anos, até ao seu extremo (alçar, à letra, o humano a deus, capaz de se criar e modificar, por completo), poderá significar o fim desse mesmo humanismo (porque poderia já não ser do humano que falaríamos). Aqui a nuance face a Sloterdijk: onde este vê na falência do humanismo – ler amansa a alma – a necessidade de antropotécnicas, Harari vê nas antropotécnicas o culminar e o apogeu do humanismo que nesse mesmo limite se negaria (a si mesmo, porque com as antropotécnicas mais arrojadas, e até técnicas não ligadas já ao antropos, superaria o humano).

domingo, 5 de junho de 2016

As discussões da Europa



Para uma crónica na telefonia.


Brexit

A possível saída da Grã-Bretanha da União Europeia implica um processo que poderá ser muito moroso, uma década mesmo em causa, com um contencioso nada fácil de resolver, se pensarmos, em particular, numa relação assente em acordos bilaterais (como a que, por exemplo, a Suiça estabelece actualmente com a União europeia), situação na qual o Reino Unido teria de negociar todos os tratados comerciais com terceiros Estados – aos quais até agora tinha sido a União Europeia a estar vinculada. Esta dimensão procedimental – mais determinante, ainda, se possível, para os que pretenderem sair da zona euro, com a equação grega durante tanto tempo em causa, na medida em que para abandonar a moeda única teria um país primeiro que sair da União e depois solicitar uma nova adesão a ser ratificada por 28 Estados, algo difícil de sustentar politicamente; o Grexit, portanto, mais difícil, ainda, do que o Brexit – tem sido, parece-me, obliterada dos debates em curso, mas que merece séria ponderação. Recorde-se, aliás, que são, hoje, da competência exclusiva da União as políticas comercial, aduaneira, monetária e de direito da concorrência, enquanto em concomitância com os Estados estão a política comum agrícola e pescas, políticas ambiental, social, energética, dos transportes, de protecção do consumidor, de segurança e política interna. Áreas não regulamentadas, no âmbito europeu: desporto, cultura, educação, protecção civil e juventude. Nas áreas da política externa, segurança e defesa, bastiões de um mínimo de Estado, muitos argumentam, não sem razão, que também aí hoje o Estado está longe de um exclusivo domínio.
Quando as três grandes alternativas para o futuro da Europa – upgrade federal, downgrade com devolução de competências aos Estados nacionais (em políticas a especificar) ou avanços diferenciados, dos diferentes Estados que compõem a União (diferentes grupos de estados vinculados a umas políticas, ou programas, mas não partilhando, no conjunto que hoje observamos, as mesmas normas) - continuam em cima da mesa, torna-se importante não apenas o desenho de uma estratégia por banda das elites nacionais (nomeadamente, as elites políticas, embora não apenas estas) para o momento da renegociação de tratados que venha a surgir, mas, ainda e sempre, uma suficiente ancoragem na sociedade que legitime as opções a prosseguir (de outro modo, também o défice democrático será apontado em âmbito nacional…), o que exigiria uma ulterior discussão acerca dos caminhos que o país deve trilhar neste contexto de pertença europeia. Eugénia da Conceição, Catedrática de Relações Internacionais, Professora Visitante em Harvard, no seu recente ensaio O futuro da União Europeia contesta aquilo a que chama de “obediência cega” e “subserviência extrema”(p.68) dos últimos anos, invocando as presenças de personalidades como Durão Barroso, ou Vítor Constâncio nas instituições europeias como sintomáticas da importância de um país como Portugal e, mais importante, da possibilidade que essas participações oferecem para contribuirmos para conformar o futuro europeu (suas instituições e tratados). De resto, a investigadora questiona não sem contundência: “se os ganhos absolutos e relativos da cooperação fossem quase nulos para países pequenos, e as grandes potências mundiais e regionais simplesmente impusessem decisões políticas a outros países, porque aceitariam Estados pequenos ser membros de organizações internacionais e regionais?” (p.70).
É certo que a especialista em questões europeias não esquece as lições deixadas por Ulrich Beck, um sociólogo alemão que era um dos intelectuais públicos de maior ressonância internacional: embora sem um plano deliberado, Merkel tirou partido da crise para reconfigurar as relações de poder na Europa, condicionando os demais países ao modelo alemão de poupança e à austeridade orçamental (“o neoliberalismo duro”, nas palavras de U.Beck). Nesta ambiguidade, de não ceder a uma política mais generosa ao nível europeu, mas, em simultâneo, de não tirar totalmente o tapete a um Estado europeu, satisfaz, aparentemente, a Chanceler, qual «quadratura do círculo», a “ortodoxia do interesse nacional e a defesa do «interesse europeu»” (p.54). Neste ponto, a analogia com a liderança americana no pós-guerra assumida, também, no financiamento maioritário das instituições de Bretton Woods (Banco Mundial, FMI) não encontra propriamente respaldo numa Alemanha disposta, por exemplo, a financiar a manutenção da Grécia no Euro. A ideia de hegemonia (uma Europa alemã) e de se esta é benigna são assim, seriamente, postas em causa.
Em chegando um momento de discutir políticas concretas, Eugénia da Conceição sugere, muito concretamente, a renegociação da PAC – actualmente, 40% do orçamento europeu é dirigido a esta política. Na medida em que prejudica os pequenos produtores e é nociva ao ambiente, necessitaria de mudanças muito significativas (p.57).
De um modo mais amplo e abrangente, a) uma política fiscal europeia (com capacidade de taxar e arrecadar impostos no âmbito europeu e de gerir os ciclos económicos); b) a introdução de uma instituição susceptível de coordenar a política fiscal dos Estados-membros, com gestão colectiva de uma possível reestruturação da dívida são soluções avançadas, na linha, de resto, daqueles que sustentam um federalismo europeu, com mais transferência de competências para a Europa (pp.43-44). Isto, numa obra que dá conta dos académicos que têm questionado a relação causa-efeito entre uma Europa a falar a uma só voz e a efectividade da mesma (da voz, isto é da Europa). Ora, os acordos comerciais com Estados fora das fronteiras europeias (sejam bilaterais, sejam multilaterais) são, justamente, um campo em que a relação entre as ambições e objectivos europeus, apesar de expressos a uma só voz, e os progressos planeados não têm tido garantia de efectividade e concretização (p.60).


Boa semana.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Reparo semanal



Nesta segunda-feira, os quatro pontos que faço, no reparo do dia, na ufm:


O homem que se questiona

1.Um determinado sistema económico, seja ele qual for, é gerador de comportamentos, atitudes, hábitos; numa palavra, faz cultura. De um modo muito sagaz, Richard Sennet questiona-se e questiona-nos se, em necessitando a formação do carácter de uma pessoa de uma amadurecido período de tempo, de um relato coerente e estruturado sobre quem somos, de companheiros que connosco demandam e sondam os grandes mistérios do Universo e da condição humana (que, sozinhos, nunca decifraremos), a mudança permanente – de trabalho, no interior do próprio emprego, de situação profissional, de cidade, de horários…– requerida pelo modelo económico que engendrámos (ou ratificámos) não colocará, rigorosamente, em causa esse desiderato de formar um carácter (ou, pelo menos, um carácter sólido e são).

2.A obra de Adela Cortina intitulada Para que serve realmente a ética? (Paidós, 2014) venceu o prémio nacional de ensaio, em Espanha, no ano de 2014. Nele, a académica, buscando uma correcta antropologia, uma descrição adequada da pessoa humana, deixa-nos esta curta, mas incisiva história: “conviria recordar a lição daquele chefe indígena que contava aos seus netos como, nas pessoas, há dois lobos: o do ressentimento, da mentira e da maldade, e o da bondade, da alegria, da misericórdia e da esperança. Terminada a narração, uma das crianças perguntou-lhe: 'avô, qual dos lobos acreditas que ganhará?'. E o avô respondeu: aquele que alimentardes”.

3.Desta curta, mas intensa narrativa, sobejam duas leituras imediatas: apesar de todas as condicionantes sociais e culturais, “o carácter é o destino do homem”, quer dizer, mesmo que escassa, temos alguma quota-parte (nossa) no (nosso) desempenho prático, nas atitudes, comportamentos, modos de ser, correctos ou inadequados, que oferecemos aos outros; sendo assim, devemos, por consequência, cultivar, praticar, desenvolver essas mesmas características positivas. Em Morte aparente no pensamento, Peter Sloterdijk diz-nos que, justamente, a vida prática – a procura da melhoria do desempenho, o treino, a repetição com vista a alcançar melhores padrões de resultado, seja do ponto de vista físico, seja psicológico ou espiritual -, apesar de descurada pela teoria, ganha fundas razões para ser estruturante na condição humana, em o prestígio alcançado em diferentes civilizações. Os primeiros monges cristãos autodesiganavam-se atletas de Cristo.

4.Debruçando-se sobre o desdém que alguns autores deram ao contributo do desvio ético para a crise pela qual continuamos a passar, Adela Cortina encontra como explicação plausível para que tal ocorra o facto de estes, filiados em uma ideologia liberal, tenderem a pensar que mesmo existindo (e reconhecendo-se essa existência) desvios éticos acabam estes, em múltiplas ocasiões, por originar resultados económicos positivos. Creio, contudo, que este é um dos pontos mais polémicos do texto, pois que se de autores liberais passássemos a sociais-democratas, talvez também o enunciado não fosse isento de reparos: provavelmente, não deixariam, agora, estes últimos, de salientar que se o problema se coloca, essencialmente, do lado do comportamento de um dado agente económico, então é o sistema mais vasto que passa indemne.


Boa semana.