
De uma crónica que fiz para a actual temporada de rádio, na ufm:
A
ideia de Universidade
Neste
início de ano letivo, na universidade a concretização do postulado socrático da
necessidade de uma vida examinada
corresponderia, estou em crer, a uma conversação, levada a cabo pela
«corporação» de mestres e alunos, acerca do sentido, da missão, da ideia de
universidade.
Neste
espaço radiofónico, em múltiplas ocasiões, e até por via da excelente
mini-colecção publicada, pela Angelus
Novus, sobre o tema, há meia-dúzia de anos, procurámos, com Ortega e Gasset, Henry Newman ou Derrida,
por exemplo, abraçar este desafio. Podemos pegar, agora, na interpelação e
revisão da matéria com que António Feijó
e Miguel Tamen nos brindam, em
publicação outonal pela Fundação
Francisco Manuel dos Santos.
Os autores deixam-nos um conjunto de
incisos que, na sua parte primeira, julgo poder sintetizar do seguinte modo: i) há uma noção generalizada no debate público de que
universidade é, ou deve ser igual, a licença
para um emprego; ii) com tal noção, a universidade deixa de ser vista
como fim em si mesmo, e adquire um mero carácter instrumental; iii) se essa
noção correspondesse à realidade, se a universidade tendesse a significar,
exactamente, essa licença para o emprego, então necessário seria que alguém
estivesse disposto a cumprir a promessa: afinal, quem garante tal licença, e
quem paga o consequente emprego (ao diplomado)?; iv) pensar que é boa, sem
mais, a finalidade "emprego", adstrita à universidade, é tornar
igualmente como bom qualquer emprego que se consiga (que se siga de
um curso; e independentemente de como ele venha a ser valorizado pelo próprio
empregado); v) não se pensa, pois, nesta ideia de universidade
maioritariamente presente na sociedade que outros fins esse emprego possa
permitir alcançar (por exemplo, se permite prosseguir a conversação iniciada na
universidade e, muito em particular, uma vida
examinada); vi) tal perspectiva, toma como assente que um curso é
exclusivamente um bem privado da pessoa; vii) ora, um diploma universitário é,
em realidade, "inconsequente" no sentido de que não conduz,
necessariamente, a uma dada "consequência" (por exemplo, no plano
laboral), é fim em si mesmo, que reconhece ganhos cognitivos e avanços no
adulto em formação.
No sentido mais
rigoroso do termo, consideram os ensaístas, nunca houve universidade no
Portugal contemporâneo (bem como na grande maioria de países europeus). E
porquê? Porque, muito embora possamos ter ensino universitário de elevadíssima
qualidade científica e pedagógica, o confinamento mono-disciplinar dos alunos do ensino superior contraria a ideia de
universidade. Esta - nos termos hegemónicos dos nossos dias europeus - é
exclusivamente vocacional; a universidade, assim, apresenta-se-nos como mosaico
de escolhas vocacionais. A ideia de Universidade do vice-Reitor da Universidade
de Lisboa e do seu colega de Letras, dada à estampa neste livro, “funda-se em três posições
simples e antigas. A primeira é a de que a universidade não deve visar fins úteis. A segunda é a de
que deve oferecer aos seus alunos
o acesso a todos os domínios do saber. A terceira é que deve ser autónoma de todos os poderes, e
gerir-se a si mesma”. Se o curso de Geologia tiver pouca
empregabilidade, por exemplo, e for curso proibido de abrir, bem pode um
interessado pelo conhecimento em si mesmo querer cursar geologia: por muito que
ele diga que não está interessado num emprego, ser-lhe-á respondido que essa
área não pode por ele ser estudada por não ter empregabilidade, o que, além de
redundar num diálogo de surdos, denota um ponto de vista do Estado sobre a
ciência, como estribando-se no mais trivial sentido prático. Ora, “até mesmo do ponto de vista prático, tal
negligência é imprudente, por não ser claro que eventual situação futura,
lesiva da espécie, a disciplina possa ser chamada a responder”, constatam tais
académicos. Que concluem este ponto do seguinte modo: “A razão maior do valor
da universidade é hoje relativamente imperceptível. Pode, no entanto, ser
formulada de modo preciso, mesmo se num vocabulário quase desaparecido: a
criação e a aprendizagem de uma disciplina científica induzem uma forma de
contentamento intelectual, e são um bem em si mesmas”.
Depois de anos de conversa sobre cursos inúteis que
condenariam ao desemprego, António M.Feijó e Miguel Tamen propõem, agora, que
pensemos de pernas para o ar: mesmo
os que só olhem para cursos universitários do ponto de vista prático não
entendem o que perigo que corremos, como sociedade, pelo abandono de áreas
disciplinares que o futuro poderá revelar de novo urgentes (interrompendo-se o
legado de gerações de investigadores). Os olhares parciais e reducionistas,
mesmo que apelativos, são quase sempre lesivos da inteligência colectiva e do «bem
comum».
Boa semana.
Pedro Miranda