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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Aprender


Na sessão com a Diretora do Estabelecimento Prisional e com o Chefe dos Guardas Prisionais, a minha questão foi: como conseguem conciliar a obrigação da esperança, da crença na regeneração do indivíduo, na sua reabilitação - a obrigação desse discurso, mas mais fundamentalmente dessa convicção para um trabalho bem sucedido, em virtude do que se preceitua para a pena de prisão - com, por outro lado, o terem de lidar com o pior da natureza humana, com aquele lado que, por um ou outro motivo, ocorreu/veio ao de cima naquele concreto agente do delito, lado esse com que têm que lidar (diariamente) e que talvez lhes suscitasse um certo pessimismo antropológico. Uma das coisas interessantes que o Chefe dos Guardas prisionais me disse, a propósito, foi que, claro, também ele vai ao café e lê jornais, por vezes percebe que daí a nada vai receber uma pessoa que cometeu um delito que a ele, como a qualquer pessoa, lhe repugna e que tem a noção suplementar de que uma coisa é a indicação do delito, outra a explicitação, detalhada e factual do mesmo, muitas vezes com requintes de malvadez. Então, neste sentido, não sendo fácil esta luta interior, evita ler a sentença (para que o preconceito, o pré-juízo, o conseguir lidar melhor com a pessoa que praticou aquele acto ocorra).

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vidas


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Por causa da Dona Maria [professora primária que lhe perguntara sobre uma composição que ele redigira: "Diz lá, meu filho, não foste tu quem escreveu, pois não?"], zanguei-me com o Português. Não ligava às onomatopeias, desprezava as parassínteses, desleixava de propósito as redacções, não atinava com o lugar das vírgulas. Aqui a culpa não era da Dona Maria. O problema vinha de trás, da Aritmética. Na 3ª classe, o professor verdescava-me as orelhas de cada vez que, nas divisões com números decimais, eu não acertava com o sítio de pôr a vírgula. Ainda hoje não certo. Passei a detestar Aritmética e acabei por vir a recusar para sempre a Matemática. O divórcio, agora, do Português ameaçava deixar-me perdido, em terra de ninguém. O professor de Moral, conhecido do meu pai, levou-lhe a má nova e segredou-lhe: 
- O rapaz não dá para os estudos. Ponha-o na loja de fazendas do avô.
Mas sabia o mestre que, dias antes, numa breve passagem pelo balcão, "o rapaz" vendera ali, por 4 escudos e 50 centavos, uma peça de 45 escudos. Creio bem que o meu pai só serenou definitivamente quando, muitos anos mais tarde, o filho se classificou em primeiro lugar no exigente concurso para juízes sendo, entre 23 magistrados do Ministério Público concorrentes, o único a obter a classificação de Muito Bom. (...)
E como sofria a minha mãe com a minha participação nas greves académicas, nos lutos, nas manifestações de estudantes, com o meu pai a recomendar-me que o deixasse mediar as más notícias e a esconder, dela, outras, como a do retorno a Coimbra, detido, em grupo, pela PSP, por tentativa de participação no Dia do Estudante, em Lisboa, em plena crise académica de 1962.
- E agora, queres seguir o quê?, perguntou o meu pai, concluído o 7º ano do liceu.
- Quero ir para o teatro - respondi.
Fui para a Justiça!
Acabou por me interessar mais esta do que o Direito. Ainda que sem este jamais a Justiça possa verdadeiramente realizar-se.

Álvaro Laborinho Lúcio, Autobiografia, Entre as linhas, Jornal de Letras, Ano XXXVII, nº1214, 12 a 25 de Abril, de 2017, p.36

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

As mil e uma noites de Portugal (II)



O texto narrativo fornece uma densidade à história, à vida dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo que nenhum apontamento de reportagem, em um telejornal, seria capaz de conferir (o plano de Mil e uma noites: o inquieto no qual vemos, ao fundo, um repórter da TVI a gravar a última peça, enquanto na primeira pessoa, e sem pressas, ouvimos, simultaneamente, toda a vida de um trabalhador dos estaleiros, desde o dia, aos 14 anos, em que as gruas e os guindastes exerceram um fascínio tremendo - o mundo sem fim e sem limites - até aquele em que tem que cumprir, no interior dos estaleiros, a jogar às cartas ou a escrever peças de teatro, as 8 horas que lhe estão reservadas agora que trabalho não há, estabelece, formalmente, um paralelismo/comparação que torna muito presente a diferença de registos a partir da qual acedemos à realidade e conseguimos - no segundo dos casos - penetrar em esta): no momento inicial do filme de Miguel Gomes são marcantes as palavras que nos remetem para a noção de que para aqueles trabalhadores cada barco pronto a partir para o mar tem um significado equivalente ao de dar, trazer ao mundo um filho; que todos os rituais devem ser cumpridos, o baptismo que junta toda a população, as bençãos e preces para que tudo corra bem ao e no barco, a festa comunitária por mais um ofício bem cumprido e entregue, sinal de (pelo menos relativa) prosperidade naquele lugar. O último barco a sair de Viana, porém, nem o baptismo recebe, pelo que desde logo ali se prefigura "um mau augúrio" para os que o irão habitar em terras, ou mares longínquos. Há uma desconformidade cósmica que abala aquela comunidade, cada um daqueles rostos - alguns dos quais não resistirão ao fracasso, colocando fim à vida, noutros casos emigrando, fazendo promessas de nem um tostão mais ver o país que não os abraçou.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O êxito


Morrer sozinho é desolador, é indecente, revela uma falha humana (...) que deve ser dissimulada, mantida na sombra, atrás do biombo que colocam diante da cama do hospital quando se preparam para fazer qualquer coisa feia ao paciente. Por outro lado, também se poderia dizer que morrer expressa apenas uma certa prepotência, algo que pode ser considerado um excesso de orgulho. Há que partilhar - dizem - ou seja, mendigar carinho, piedade, cobrar velhas dívidas: eu criei-te, alimentei-te, vesti-te, apoiei-te, fiz-te, dei-te. Agora é a tua vez. Pega na esponja, no toalhete higiénico, e toca a esfregar estas carnes manchadas, restitui-me alguma coisa do muito que eu te dei. Paga o que deves. O êxito de uma vida, aquilo a que se chama fechar adequadamente o ciclo de uma vida, depende de conseguires reuni-los à volta do teu leito de morte. Pô-los ao teu serviço, ter uma multidão disposta a limpar-te o cu com o toalhete higiénico. Quantos mais, melhor. Como se a unidade de cuidados intensivos fosse uma festa de Natal à qual comparece a família inteira, o vibrante momento em que pais, filhos, netos, primos e sobrinhos cantam juntos a Noite de Paz, e batem com as colheres do café nas garrafas de anis a fazer de sininhos, e tocam sarroncas os pastores, e o mesmo farias tu se não estivesses cheio de tubos e sondas, máscaras de oxigénio na cara e hipodérmicas espetadas nos braços, como um São Sebastião ou esse pobre touro de Tordesilhas perseguido por todos os brutos da povoação, de dardos em punho.

in Na margem, de Rafael Chirbes (com tradução de Rui Pires Cabral), Assírio e Alvim, 2015, p.139.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sorte




Escolhemos em condições de incerteza a carreira, a parelha e tantas outras coisas: a sorte tem um papel indiscutível.

Adela Cortina, Para que serve realmente a ética, 105.