Não: A busca incessante de
likes para as publicações que cada um
introduz nas suas redes sociais induz a um certo (senão, a muito) histrionismo.
Quanto mais polémica a opinião, quanto mais extremada e capaz, não raramente,
de ir ao arrepio dos valores civilizacionais, relativamente consensualizados
nas nossas sociedades, mais “gostos”, mais “partilhas”, mais “ruído” terá. Não
por acaso, se fala na “indignação do dia” nas redes sociais, ou que “as redes
sociais estão a arder”. É como se as redes sociais funcionassem, apenas, num
registo de um exacerbamento emocional, que tudo divide entre “nós e eles”,
fazendo com que um possível adversário de opinião seja visto não enquanto tal,
mas como um desqualificado moralmente. Numa sociedade adulta, madura, a
racionalidade tenderia a imperar, seriam os argumentos substantivos – e não ad hominem ou ad terrorem, ou, mesmo, a reductio
ad hitlerum – a predominar. Conclusão: vivemos numa sociedade
infantilizada, dada a brigas perigosas.
O filósofo Jurgen
Habermas tem refletido sobre esta realidade, chamando a atenção para o
facto de que uma democracia e um espaço público apenas serão robustos caso
neles meios de comunicação de massas remetam os cidadãos para temas relevantes,
haja um amplo conjunto de cidadãos que frequente assiduamente esses meios de
comunicação e, assim, possa haver espaço, ainda, para o intelectual tomar lugar
na cidade – com o seu conhecimento/perícia/sabedoria - e uma deliberação
informada, conhecedora, livre. A internet veio fragmentar ainda mais o tecido
social e, cúmulo, assistimos ao furto de dados pessoais que cada um deixou nas
suas redes sociais (vide, entrevista a ElPaís, 10-05-2018).
Sim: em muitos países, as redes
sociais estiveram ao serviço dos direitos humanos, denunciando a sua postergação.
Foram instrumentos ao serviço da democracia e da paz. Vários conflitos
internacionais estão aí para o demonstrar.
: o fenómeno das fake
news está indissociavelmente ligado às redes sociais (uma das exortações do
intelectual público norte-americano Timothy
Snyder: “Acredita na verdade”. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas
diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga,
consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se
conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de
sociedade fragmentada). As pessoas não distinguem
factos de notícias inventadas. Houve comprovadas interferências de potências
estrangeiras/rivais em eleições democráticas (e, acerca desse fenómeno,
escreveu Madeleine Albright: “O Facebook tem dois mil milhões de
utilizadores activos. Quais
são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia,
dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos
que se atrevem a enfrentar Moscovo. Esta agenda não é
ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente” (Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, 2018, p.201).
Mais: a criação deliberada
de notícias falsas tem servido para testar o perfil dos eleitores para, de
seguida, adaptar a mensagem ao que cada utilizador pretende ouvir (veja-se o
caso das falsas denúncias de violência contra mulheres em Espanha, na realidade
0,0070% dos casos, e o eco que tiveram no discurso do partido VOX em Espanha, o que serviu, segundo o L’Express (16-01-2019), como modo de
chegar a mais públicos disponíveis para essa mensagem). Há, aqui, na fabricação
destas news, sem necessidade de
recorrermos a profissionais que verifiquem a autenticidade das mesmas, ou sem
que contextualizem uma dada realidade, como que uma reivindicação de uma democracia direta – talvez digitalmente
exercida -, sendo que esta recusa de mediação/representação pode levar
populistas ao poder e, com eles, ao fim do pluralismo (respeito pelas minorias,
cheque aos “checks and balances”, independência dos tribunais em causa, etc.).
Como assinalou Daniel Innerarity, da
democracia fazem parte órgãos como tribunais de contas ou outras entidades
periciais – instituições que, de certa forma, não estão sujeitas a regras (ou
ditadura) da maioria. As redes sociais estão a revelar-se um perigo para a
democracia.
Sim: “O que está a dar cabo da democracia não é o Facebook, são as formas
mais predatórias do capitalismo, as desigualdades, os monopólios, a
precariedade, uma economia de mercado distorcida pelos mais poderosos para
obter vantagens para si próprios à custa dos mais frágeis, ou seja, uma rede -
também ela social - de interesses a quem convém que tudo se mantenha como está
e que se manifesta nos mais diversos planos, entre eles também no Facebook.
Há quem saia das
redes sociais pensando que essa é a forma de contrariar forças
antiprogressistas. Mas isso apenas
criará vazios que serão ocupados por
essas forças nocivas que se pretende iludir. Ontem como hoje, offline ou online,
a opção é compreender onde nos situamos.
É não idealizar. É ver limites, mas também potencialidades”. (Vítor Belanciano, Está-se mesmo a ver
que a culpa é das redes sociais, Público, 13-01-2019, P2, p.2).
Como Daniel
Innerarity há muito compreendeu, o (novo) espaço público desterritorializou-se,
podemos assistir e participar, agora, numa conferência em Nova Iorque, em tempo
real, o mesmo se dizendo quanto à assinatura de uma petição para libertar um
preso político no Egipto de El-Sissi. Este alargamento do espaço público a uma
escala global só promove os direitos humanos e obsta às autocracias.
(continua)