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sexta-feira, 10 de maio de 2019

DESIGUALDADE E VIOLÊNCIA


Há provas que demonstram que a desigualdade é uma fonte de violência. Uma análise feita pelo FiveThirtyEight a dados publicamente disponíveis do FBI e do Southern Poverty Law Center indicou que a desigualdade «é um importante indicador de crimes e incidentes de ódio». Dados referentes tanto ao antes como ao após das eleições presidenciais americanas de 2016 demonstram que «estados com maiores desigualdades têm maior probabilidade de registar valores per capita mais elevados de crimes motivados pelo ódio». Outros estudos indicam que a relação entre desigualdade e crime existe tanto no mundo desenvolvido como no mundo em desenvolvimento

Ian Bremmer, Nós contra eles. O fracasso do globalismo, Bertrand, 2019, p.35. 

P.S.: de acordo com um estudo publicado em Dezembro de 2016 pelo National Bureau of Economic Research, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos, os rendimentos da metade inferior dos americanos mantiveram-se estanques entre 1980 e 2014, enquanto o rendimento de 0,001% de americanos mais ricos subiu para uns estrondosos 636%. Em 1981, 1% dos americanos mais abastados ganharam 27 vezes mais que os 50% da metade inferior. Em 2016, este 1% ganhava 81 vezes mais (p.33).

domingo, 17 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VI)



Não: As redes sociais permitem, senão favorecem, o anonimato. E, com ele, a desresponsabilização. As reacções a quente e extemporâneas. O grau de animosidade, os insultos, a grosseria que com tanta frequência se encontra nas redes sociais não tem paralelo em outras plataformas, nas quais a pessoa tem que dar a cara, pensa duas vezes antes de escrever, conserva, mesmo se a contragosto, um módico de civilidade. O historiador Timothy Snyder, num manifesto contra a tirania, alertava-nos, muito recentemente, para a importância das palavras: “Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

Sim: podemos encontrar formas mais rigorosas de estabelecer a identidade de cada usuário das redes sociais. Uma vez mais, a responsabilidade não é destas, mas de quem delas faz mau uso. De resto, quer a difamação, quer a penalização de discursos de ódio contra minorias, nomeadamente, são, e devem ser, punidas.


Nota

Há cerca de quatro semanas, Robert Habeck, líder de Os Verdes (alemães), decidiu deixar o Twitter (em protesto com o clima de ódio neste presente). 

A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.

(continua)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (V)



Não: A comparação com os outros, potenciada pelas redes sociais (os outros que, nessas redes, parecem sempre levar uma vida mais interessante, bem-sucedida, atractiva, divertida, melhor do que a que "eu" levo), também ajuda ao mal-estar hoje muito sentido em todas as gerações, mas, de modo especial, entre os mais novos/estudantes universitários. Interacções simples, como falar com o empregado do café ou com alguém na rua melhora mais o bem-estar do que aquilo que se pensava. Não devíamos prescindir do face a face, antes criar rotinas para estar mais vezes com os amigos. E o mesmo se diga, para a democracia, da importância da “política corporal”: “pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (T.Snyder, p.67)

SimA tecnologia está a eliminar as interacções sociais normais. Não surpreende, desta sorte, que Jean Pierre Casey nos proponha "desenvolver métodos de 'desintoxicação' digital global”, bem como a "redescoberta do silêncio (...) e redescoberta das virtudes. (...) Numa era digital de ritmos acelerados, a virtude da paciência é provavelmente uma das mais vulneráveis. Toda a nossa espera salvífica é uma história de espera (...) Ora, a paciência está intrinsecamente ligada à virtude teológica da esperança" (Jean Pierre Casey, Brotéria). E o destacado intelectual Nuccio Ordine acrescenta: “Quando pergunto a 500 estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da faculdade, há cinco que levantam timidamente a mão. Então e porque têm facebook?, pergunto. E respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo: fica a saber que um homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de ter sido muito rico” (Nuccio Ordine, Conferência FFMS). Não é com relações superficiais que nos construímos, realizamos e erguemos a paz.

Sim: eis uma crítica fácil e muitas vezes repetida às redes sociais, mas que não tem acomodação na realidade (verificada e estudada). No ano de 2011, em Portugal, cerca de 94% dos utilizadores de redes sociais tinha perfil no facebook; assim, aquilo que foi possível verificar é que uma esmagadora maioria daqueles que são frequentadores das redes sociais as utilizam para se manterem em contacto com o seu habitual grupo de amigos (offline); isto é, as redes sociais, são o prolongamento, em uma plataforma diferente, das conversas com, genericamente, as mesmas pessoas com quem estamos no café, no restaurante, no trabalho, na escola, na universidade, no teatro ou no cinema.


(continua)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (IV)



Não: A busca incessante de likes para as publicações que cada um introduz nas suas redes sociais induz a um certo (senão, a muito) histrionismo. Quanto mais polémica a opinião, quanto mais extremada e capaz, não raramente, de ir ao arrepio dos valores civilizacionais, relativamente consensualizados nas nossas sociedades, mais “gostos”, mais “partilhas”, mais “ruído” terá. Não por acaso, se fala na “indignação do dia” nas redes sociais, ou que “as redes sociais estão a arder”. É como se as redes sociais funcionassem, apenas, num registo de um exacerbamento emocional, que tudo divide entre “nós e eles”, fazendo com que um possível adversário de opinião seja visto não enquanto tal, mas como um desqualificado moralmente. Numa sociedade adulta, madura, a racionalidade tenderia a imperar, seriam os argumentos substantivos – e não ad hominem ou ad terrorem, ou, mesmo, a reductio ad hitlerum – a predominar. Conclusão: vivemos numa sociedade infantilizada, dada a brigas perigosas.
O filósofo Jurgen Habermas tem refletido sobre esta realidade, chamando a atenção para o facto de que uma democracia e um espaço público apenas serão robustos caso neles meios de comunicação de massas remetam os cidadãos para temas relevantes, haja um amplo conjunto de cidadãos que frequente assiduamente esses meios de comunicação e, assim, possa haver espaço, ainda, para o intelectual tomar lugar na cidade – com o seu conhecimento/perícia/sabedoria - e uma deliberação informada, conhecedora, livre. A internet veio fragmentar ainda mais o tecido social e, cúmulo, assistimos ao furto de dados pessoais que cada um deixou nas suas redes sociais (vide, entrevista a ElPaís, 10-05-2018).

Sim: em muitos países, as redes sociais estiveram ao serviço dos direitos humanos, denunciando a sua postergação. Foram instrumentos ao serviço da democracia e da paz. Vários conflitos internacionais estão aí para o demonstrar.
: o fenómeno das fake news está indissociavelmente ligado às redes sociais (uma das exortações do intelectual público norte-americano Timothy Snyder: “Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada). As pessoas não distinguem factos de notícias inventadas. Houve comprovadas interferências de potências estrangeiras/rivais em eleições democráticas (e, acerca desse fenómeno, escreveu Madeleine Albright: “O Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activosQuais são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia, dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos que se atrevem a enfrentar MoscovoEsta agenda não é ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente(Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, 2018, p.201).  Mais: a criação deliberada de notícias falsas tem servido para testar o perfil dos eleitores para, de seguida, adaptar a mensagem ao que cada utilizador pretende ouvir (veja-se o caso das falsas denúncias de violência contra mulheres em Espanha, na realidade 0,0070% dos casos, e o eco que tiveram no discurso do partido VOX em Espanha, o que serviu, segundo o L’Express (16-01-2019), como modo de chegar a mais públicos disponíveis para essa mensagem). Há, aqui, na fabricação destas news, sem necessidade de recorrermos a profissionais que verifiquem a autenticidade das mesmas, ou sem que contextualizem uma dada realidade, como que uma reivindicação de uma democracia direta – talvez digitalmente exercida -, sendo que esta recusa de mediação/representação pode levar populistas ao poder e, com eles, ao fim do pluralismo (respeito pelas minorias, cheque aos “checks and balances”, independência dos tribunais em causa, etc.). Como assinalou Daniel Innerarity, da democracia fazem parte órgãos como tribunais de contas ou outras entidades periciais – instituições que, de certa forma, não estão sujeitas a regras (ou ditadura) da maioria. As redes sociais estão a revelar-se um perigo para a democracia.

Sim: O que está a dar cabo da democracia não é o Facebook, são as formas mais predatórias do capitalismo, as desigualdades, os monopólios, a precariedade, uma economia de mercado distorcida pelos mais poderosos para obter vantagens para si próprios à custa dos mais frágeis, ou seja, uma rede - também ela social - de interesses a quem convém que tudo se mantenha como está e que se manifesta nos mais diversos planos, entre eles também no Facebook.
Há quem saia das redes sociais pensando que essa é a forma de contrariar forças antiprogressistas. Mas isso apenas criará vazios que serão ocupados por essas forças nocivas que se pretende iludir. Ontem como hoje, offline ou online, a opção é compreender onde nos situamos. É não idealizar. É ver limites, mas também potencialidades”. (Vítor BelancianoEstá-se mesmo a ver que a culpa é das redes sociais, Público, 13-01-2019, P2, p.2).
Como Daniel Innerarity há muito compreendeu, o (novo) espaço público desterritorializou-se, podemos assistir e participar, agora, numa conferência em Nova Iorque, em tempo real, o mesmo se dizendo quanto à assinatura de uma petição para libertar um preso político no Egipto de El-Sissi. Este alargamento do espaço público a uma escala global só promove os direitos humanos e obsta às autocracias.


(continua)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (II)?



Sim: o que estava apenas acessível a uma elite, encontra-se agora disseminado; o conhecimento, levando ao fim, ou, pelo menos, mitigando a ignorância, permitirá a emancipação dos indivíduos, em várias zonas do globo, deixando para trás distorções da realidade acerca do mundo e dos outros circundantes. As redes sociais, se não produzem, elas mesmo, esse conhecimento, podem torná-lo muito mais próximo/acessível. Em vez de uma sociedade extremamente hierárquica - em que só alguns podiam falar e ter opinião em televisões, jornais, rádios, com separação em castas, permitindo uma excessiva desigualdade de poder entre pessoas – com a consequente possibilidade de, respectivamente, arrogâncias e humilhações desmedidas – reforça-se o sentimento de pertença à mesma comunidade; acentua-se a coesão social.
A internet, com as redes sociais, pode ajudar a forjar, mesmo, como refere o filósofo Pierre Levy, uma “inteligência colectiva”:

“O que é a inteligência coletiva? É uma inteligência globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a uma mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição  este acompanhamento indispensável: o fundamento e o fim da inteligência colectiva é o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não  o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas” (Levy, 1997, 38)



Não: A ideia de que quando emitimos uma opinião acerca d’Os Maias no facebook, quando lemos a crítica que um amigo publicou sobre o último filme na mesma rede social, de aí resulta um acréscimo de conhecimento, e de que, com a produção desses comentários, estamos ao mesmo nível, no mesmo patamar de quem estudou, afincadamente, ao longo de anos, Os Maias, leu as edições críticas, ouviu os melhores especialistas na matéria, o mesmo sucedendo com o background do crítico de cinema, do Professor de Cinema quando nos ensina a ler um plano, ou o significado do último travelling – face à nossa apreciação do filme, essa ideia de que estamos na mesma dimensão (horizontalidade) é, apenas, uma falácia. Não é por vivermos o “culto do amadorismo” (Andrew Keen) que as diferenças de conhecimento deixam de lá estar, com as suas hierarquias. Das redes sociais não emerge qualquer coisa a que possamos chamar “inteligência colectiva”.

Não: A promessa de (aparente) democraticidade que a internet trouxe, nomeadamente, ao nível do conhecimento e o modo como essa democraticidade não se tem observado na prática é bem ilustrada no que tem sido a abertura de cursos massivos online, muitas vezes grátis, e com os melhores professores de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo: quem os realiza, como indica Martin Ford, é quem já possui um conjunto de bases e ferramentas, muitas vezes já com um diploma académico; quem não tem background (prévio), ao fim de algumas semanas, desiste.
Em concreto, as redes sociais, ademais, costumam contribuir, no seu número limitado de caracteres, em alguns dos casos, na escassa leitura que um tópico com 4 parágrafos granjeia, para a simplificação de ideias, para a “gramatização do pensamento”(Bernard Stiegler), para a esquematização. O conhecimento degenera em informação. Sem capacidade de elaboração teórica, sem reflexão nem radicalidade ninguém se encontra apto para poder ler o mundo, nem munido da complexidade bastante para evitar ou minorar conflitos. Bem ao invés, a simplificação, os slogans, os soundbites são susceptíveis de gerar mais atritos.

Como refere Bernardo Carvalho, “nas redes sociais não cabe a excepção nem o devido, nem cabe a ambiguidade, nem a contradição e sem isso não há reflexão. (...) Pode ser que a literatura tenha um efeito de reação contrária, o lugar protegido contra esse mundo. Para mim, a literatura é isso, o lugar da resistênciaNo sentido político, ela é o lugar do real, o lugar da resistência, da ambiguidade, da contradição, da reflexão(Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel LucasO desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.62).


(continua)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Gilets Jaunes


Descobriu-se, nas prisões que foram feitas depois das manifestações, que, embora houvesse militantes de extrema-esquerda e de extrema-direita, mais os segundos de resto, que uma grande parte das pessoas presas, por exemplo nos actos de pilhagem, eram gente comum que nunca tinha participado em manifestações ou em partidos políticos. Deve manter-se a distinção entre o movimento e os casseurs, mas não é só isso. Os gilets jaunes perceberam muito bem que o seu eco nos media e a atenção constante da sociedade se devia apenas ao facto de manterem um elevado nível de violência. Compreenderam que havia uma correlação muito forte entre o ritual dos sábados e a atenção dos media. Perceberam que ocupam as cadeias de televisão em contínuo justamente porque praticam a violência. (...) Em democracia, a forma de resolver os conflitos é a negociação. Mas como negociar com gente que recusa qualquer representação? Eles eliminaram imediatamente aqueles que, numa ou noutra altura, quiseram arvorar-se em porta-vozes. Em segundo lugar, como iniciar uma negociação com um movimento cujas reivindicações são um catálogo absolutamente diverso em que cabe praticamente tudo, incluindo coisas que são absolutamente contraditórias entre si? Foi talvez para contornar este problema que Macron lançou o seu grande debate. Neste momento, o único sítio onde pode haver algum debate são as mairies (as câmaras municipais), com presidentes que são democraticamente eleitos e que são, aliás, o pessoal político que, em França, recolhe maior confiança por parte dos cidadãos. Foi uma escolha inteligente de Macron, mas é uma descoberta tardia do Presidente, que tinha ignorado os municípios - é este, de resto, o outro aspecto importante do debate actual. (...) Há muitas causas para os gilets jaune, mas uma delas é o desaparecimento dos corpos intermédios - sindicatos, patrões, associações profissionais, mas também câmaras, que são os mediadores entre os cidadãos comuns e o sistema político. Macron desdenhou-os ao ponto de se recusar a participar no Congresso dos Maires da França e reduziu os seus meios financeiros. Escolher agora as câmaras é uma coisa boa. Não haver temas tabu também é. Aliás, Macron participou agora [na semana passada] no primeiro debate numa câmara da Normandia, que durou sete horas. Esteve sete horas de pé numa sala apinhada de gente comum, mas também pelos chamados "notáveis locais". Diz-se que se saiu muito bem. Mas a maior dificuldade vai ser ultrapassar o cepticismo reinante perante a política e perante as elites políticas. (...) Temos a questão da fiscalidade e um conjunto de problemas sociais ligados ao que podemos chamar de classes médias baixas, que sofrem um pouco por toda a parte no contexto da mundialização. E que não são diferentes das pessoas que votaram pelo "Brexit" ou que alimentaram o Tea Party na América. É o mesmo perfil de pessoas, acompanhado pela mesma rejeição do peso dos impostos e da sensação de que o dinheiro resultante do crescimento vai não sabem bem para onde, mas nunca para elas. (...)
Em Paris, a moda entre os BoBo [designação dada a uma parte das elites citadinas: "Bon chique, bon genre"] é não ter carro. Eles podem dispensá-lo porque dispõem de uma rede de transportes eficaz. Para as pessoas das cidades, a questão política mais importante deste século são as alterações climáticas e o ambiente. Do outro lado, há este movimento que não tem o mínimo interesse pelas alterações climáticas e que apenas diz: eu preciso do meu carro para ir trabalhar, levar os filhos à escola e ir fazer as compras do mês à periferia. (...) Há dois mundos. A França urbana das grandes cidades que é bastante próspera, e a França periférica. Mas o que deixou as pessoas ainda mais espantadas não foi tanto o carácter súbito do fenómeno, mas esse ódio, essa cólera que se exprimiu espontaneamente e sem disfarces. Esta raiva às elites é nova e atinge as elites, mas também as instituições, que exige a dissolução do Parlamento e que se exprime contra um Presidente que foi eleito há menos de dois anos. Mas é preciso pôr as coisas na sua dimensão. Hoje, é um movimento que reúne 50 mil a 60 mil pessoas num país de 66 milhões. O que eles conseguiram, através da violência, foi ocupar o espaço público e isso é novo. (...) Outra coisa muito importante. Normalmente, quando há uma crise como esta numa democracia, as pessoas viram-se para a oposição. (...) Hoje ninguém pode dissolver a Assembleia, a não ser alguém que queira dar o poder a Marine Le Pen. Basta olhar para as sondagens para ver que nenhum outro partido conseguiu beneficiar com os gilets jaunes. Nenhum. Os republicanos, que estavam em 10%, continuam aí. Os socialistas mantém-se à volta de 6%. Além disso, ninguém os ouve. Desapareceram. Nesse contexto, se a opção fosse eleições legislativas, não haveria qualquer alternativa. (...) Ela [Le Pen] pode ganhar as eleições mas não tem meios para governar. As sondagens não chegam a dar-lhe 25%. (...) Acreditou-se que [Marine Le Pen], com o seu duelo perdido com Macron, estava acabada. Está de regresso. Por enquanto, parece ser a grande beneficiária da crise


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.4-9


P.S.: apenas uma precisão: de acordo com dados publicados em diferentes jornais, os "coletes amarelos" reunirá cerca de 80/90 pessoas (o que, de qualquer forma, não implica nenhuma alteração do argumento aqui citado, apenas se procura o maior rigor possível).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Realidades que transitam de ano


*Rui Pena Pires, do Observatório da Emigração, chamava a atenção, há dias, para o facto de mais de metade da imigração para Portugal, no último ano, ter consistido no regresso de nacionais a casa (e não na vinda de não nacionais para Portugal);

*Houve 100 mil novos emigrantes portugueses, em 2017, uma diminuição face a anos anteriores, ainda assim insuficiente para drenar o nosso défice migratório (continuam a sair muito mais pessoas do que a entrar, no nosso país);

*Há cerca de 2 milhões de imigrantes portugueses espalhados pelo mundo, pelo que o número de portugueses ronda, na sua globalidade, os 12 milhões de pessoas (um pouco mais);

*Há 80 mortes por dia, em média, no México: uma violência quotidiana brutal;

*Cerca de 12% a taxa de desemprego no Irão, a prosseguir, segundo as estatísticas, nos próximos anos, ainda que a inflação, por exemplo, tenha descido muito. Um país com uma população jovem muito significativa.

domingo, 12 de novembro de 2017

Um país em questão

Resultado de imagem para I'M not your negro

Também neste fim de semana, pude, finalmente, ver I am not your negro, de Raoul Peck. Extraordinário documento - baseado no manuscrito inacabado Remember this house, de James Baldwin, lido, na voz-off de Samuel L.Jackson, das representações norte-americanas (mais voluntaristas/perversas, mais inconscientes/mais perversas talvez no que tem de naturalização, impensada/irrefletida, dessas imagens), ao longo de décadas - em particular no cinema, mas ainda na publicidade, ou em programas de tv: uma antologia impressiva - da população negra nos EUA, em narrativa cheia de vivacidade, ritmo, colocando-nos, por um lado, entre 1955 e 1968 - intervalo de tempo em que grandes líderes das comunidades negras, nos EUA, Malcom X, Martin Luther King ou Medgar Evers emergiram, ainda se encontravam na sua juventude, aos vinte e alguns anos, na esfera pública norte-americana e a data em o último deles foi assassinado...à semelhança do que sucedera com os restantes dois referentes - e, por outro, nos traços de semelhança com a actualidade. Os supremacistas brancos, com suas suásticas, o segregacionismo, os negros como tendo uma espécie de condição natural à servidão, as lógicas de combate (com ou sem recurso à violência, com as estratégias a serem discutidas e, porventura a aproximarem-se, mesmo partindo de mundividências diversas) entre as comunidades negras, a elegia da música, do rosto, do modo negro de habitar o mundo, a tentativa, bem intencionada, de passar por cima dessas diferenças de cor de pele (mas a demonstração como tais tentativas pretendiam ignorar esse papel decisivo), o modo como a religião podia ser usurpada para os piores fins ("deus perdoa o homicídio ou o adultério, só não perdoa a integração"), os EUA como tendo criado, justamente, "o negro" e como necessitando de se questionar sobre o porquê de o ter criado, os ganhos de produtividade e crescimento económico - em particular no Sul - conseguidos à custa de trabalho escravo ou mão de obra barata, as forças de segurança como perpetuando uma ordem injusta, os demónios interiores de uma dissonância entre vida pública e vida privada (com esta mergulhada num grande crise de auto-confiança e autoridade), os negros que depois de mais de 450 anos nos EUA finalmente conseguem eleger um Presidente (negro), os EUA indagados até à medula num filme-documentário a guardar.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A Escola e a nação

(...)

4.Muitos, ainda não compreenderam a escola. Repetem que a educação não traz o desenvolvimento. Sempre pensei que o assunto havia sido encerrado por Ortega y Gasset na sua célebre conferência de 1930: "Quando uma nação é grande, também é boa a sua escola. Não há nação grande se a sua escola não for boa. Mas o mesmo deve dizer-se da sua religião, da sua política, da sua economia e de mil coisas mais. Se um povo é politicamente vil, nada se pode esperar da escola mais perfeita. A escola, como instituição normal de um país, depende muito mais de um ambiente público em que se integra do que do ambiente pedagógico artificialmente produzido dentro dos seus muros". Mas não. De tempos a tempos, temos de ouvir a ignorância de quem não entende que a escola é um lugar de humanidade, isto é, da arte e da ciência que forma os seres humanos. Não sendo uma condição suficiente, a escola é uma condição necessária do desenvolvimento.

5.Ler livros difíceis dá muito trabalho. A música dá muito trabalho. A matemática, também. Mas é nessa "dificuldade" que está a chave da educação. Não é fácil educar num tempo de gestos superficiais, de palavras irresponsáveis. Mas é preciso. Só se educa pelo exemplo. É por isso que os bons professores são tão necessários. Nada os substitui. Na educação, nada substitui a relação humana. "O meu professor me ensina para quando eu ganhar meu dinheiro eu ir morar bem longe do tiro com a minha mãe", escreve um aluno de oito anos do Rio. Não há nada mais importante do que adquirir na escola a possibilidade de ir "morar" num outro lugar.

6. 20 de Junho de 2017. O professor Roberto Ferreira é homenageado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No início da sessão, há um estampido na ligação do microfone. Uma criança ao meu lado assusta-se: "Ui!, outro tiro". A rede municipal tem mais de 1500 escolas. No decurso do último ano, houve apenas sete dias em que todas as escolas estiveram abertas. Nos outros dias, houve sempre escolas fechadas por causa da violência. "É muita guerra que eu vejo mesmo", diz uma criança. A violência tornou-se a regra. E quando a violência se torna a regra, deixa de haver educação e desenvolvimento.

 (...)
António Sampaio da Nóvoa, Rio de Janeiro, 1 de Setembro de 2017. O corredor da música, in JL, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.8

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Exploração


Em Espanha, 1700 casas de alterne movem uma economia de 5 milhões de euros por dia. O país vizinho é aquele em que na Europa mais procura há de prostituição (o terceiro, a nível mundial). As alterações à lei, nos últimos anos, por parte de nuestros hermanos, tem permitido libertar um conjunto de pessoas, mas, ainda assim, dizem os peritos, é preciso criminalizar o proxenetismo (em qualquer situação). El Pais publicou um acervo de reportagens neste âmbito, esta semana, muito impressivas, com mulheres nigerianas, caçadas nas suas aldeias natal, domesticadas com recurso ao vudu, vítimas de tráfico e violação, colocadas sob resgate - uma enorme dívida que nunca mais podem pagar - e com o medo permanente, incluindo do que suceda com seus familiares, além de, em muitos casos, a quando de gravidezes resultam filhos, estes são-lhes retirados e enviados para outras localidades, em mais uma forma de chantagem (tenebrosa). Além de mulheres nigerianas, romenas e chinesas são as maiores vítimas desta violência, a que muitas vezes há ainda o suplementar problema de em julgamento, nem tradutores se encontrarem dado, por exemplo, algumas destas senhoras apenas falarem o dialecto local (de origem).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Violência e batota

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Do mesmo modo que, pelo menos desde Johan Cruijff, o F.C.Barcelona tem uma clara identidade de jogo assente num modelo ofensivo, uma equipa que quer ter bola, aceita o risco, faz a bola correr mais do que os jogadores, busca o passe e a tabela, não se basta com ganhar, mas quer vencer com beleza, também em Portugal, o Boavista F.C., desde Jaime Pacheco, tem uma identidade inconfundível, ao nível do jogo: arruaça permanente, traulitada de criar bicho, violência, entradas assassinas, canela até ao pescoço, intimidação física, faca nos dentes, ausência de um mínimo de interesse pelo futebol e o espectáculo, numa palavra, tourada. Características potenciadas se o adversário se chama F.C.Porto. 
A esta identidade, o regulador, isto é, o árbitro, deve opor o critério do jogo que está em causa, que só por acaso - se se olhar a mais uma impensável demonstração de pugilismo, ontem no Bessa - é o futebol. O que se passou na última noite, quanto à arbitragem, só é, de resto, explicável num contexto de uma permanente coação e domínio sobre o sector exercido por quem desespera por que o FCP volte a perder pontos, seja de que forma for, e por um conjunto de media que, para não falar dos restantes "comentadores" colocados expressamente por clubes (ainda que nem todos os "coloquem", mesmo se todos "comentadores", aparentemente, defendam a sua dama), oferecem como opinadores "isentos" Jorge Baptista, José Nunes, Rui Pedro Brás, Joaquim Rita, Manuel José ou Carlos Daniel (e durante anos, João Gobern, só mais recentemente remetido para a categoria de adepto de clube, depois de muito tempo a passear, no canal público, como expert e isento! É preciso lata para tal opção editorial). Para se ter uma ideia, e após o FCP ter tido um jogo em que foi beneficiado, há uma semana, frente ao Tondela, pôde ouvir-se Baptista na SicNotícias, dizer que, apesar de remunerado para comentar o desafio, a seguir ao terminus do mesmo, nem sequer quis ver a segunda parte (para a qual olhou sem atenção, nem vontade), depois dos erros de arbitragem da primeira; esta, nunca mais lhe interessou, apontando, mesmo, para o papel vazio (dos seus apontamentos, quanto ao segundo tempo) que estava sobre a mesa (do estúdio), para referir que apenas tinha registado os golos "para não me esquecer do resultado"(sic)! À mesma hora, na concorrente RTP3, José Nunes mostrava-se compreensivo com a arbitragem, notando que apenas quando é assim um caso muito flagrante se indigna (exemplo? Pois claro, um penalty de Marcano sobre um jogador do Nacional, por marcar, na época transacta; quer dizer, das dezenas de jogos em que o FCP foi prejudicado e o clube de Nunes beneficiado, nada lhe meteu espécie; o único caso a que lhe mexeu com os nervos foi o da Madeira). Manuel José confessava, há poucos anos, que desligara a televisão no intervalo de um Gil Vicente-slb - de facto, um jogo de arromba -, porque estando o resultado num empate, enquanto benfiquista o nervosismo não lhe permitia continua a assistir ao encontro. Quando se chega a este ponto de transtorno emocional, não admira o toque a rebate, o aqui del rei, o acudam, "o regresso do apito dourado", "o medo instaurado por Fernando Madureira", da última semana, em mais uma brilhante operação de propaganda, não se curando de ver, mínimos olímpicos, como para uma partida de benefício havia mais de uma dúzia de prejuízo (que nunca haviam causado o menor incómodo aos Baptistas da televisão). Amanhã, o clube da luz, na reunião marcada com o Conselho de Arbitragem, deverá, pois, por certo, pedir explicações sobre como é possível num campeonato de futebol assistir-se a exibição tão contundente de artes marciais (como a observada no estádio do Boavista), e, já agora, explicar a táctica, a estratégia e a clarividência que suportaram a vitória frente ao G.D. Chaves. Já houve, contudo, quem, com graça ,explicasse, que em fazendo amanhã anos o clube que solicitou tal reunião, esta servirá para comemorarem em família o aniversário. Não há melhor epitáfio para mais um campeonato.

Da crónica do maisfutebol, de Pedro Jorge da Cunha, sobre o Boavista-FCP:

O FC Porto saiu com vida de um edifício em chamas e tem uma história para contar. De sobrevivência, pois então (...) No Bessa, a taxa de incidência criminal pediu meças às mais problemáticas urbes latino-americanas. (...) O golo de Soares, de resto, é um dos momentos que escapam à fúria e onde prevalece a fantasia (...) Aos sete minutos, com muito por jogar e ainda mais para contar, o selvagem dérbi da Invicta estava resolvido (...) O início do FC Porto levou tudo à frente, até mesmo um Boavista ao velho estilo de comanche investido de pinturas de guerra e danças capazes de fazer chover. (...) Corona também estava bem, muito bem, mas foi afastado da segunda parte por uma entrada violentíssima de Talocha. Criminosa? Andou por aí. (...) Nos próximos dias vai falar-se muito do árbitro Fábio Veríssimo, da complacência com algumas entradas violentas do Boavista, da não expulsão de Talocha, do vermelho a Maxi 

sábado, 29 de agosto de 2015

Desilusão


Para acabar no Saló ou 120 dias de Sodoma, que é um filme de uma violência e negrume extremos, acho que é preciso haver uma grande desilusão.

Miguel Gomes, em entrevista à revista Tabu

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ser social, ser de violência


A propensão para a violência parece ser um dos mais importantes pontos de continuidade entre os antepassados primatas e os seres humanos. Hobbes é famoso pela sua afirmação de que o estado de natureza era um estado de guerra de «todos contra todos». Rousseau, pelo contrário, afirmou explicitamente que Hobbes estava errado, que os seres humanos primitivos eram pacíficos e estavam isolados, tendo-se a violência desenvolvido numa fase posterior, quando a sociedade começou a corromper a moral humana. Hobbes está muito mais próximo da verdade, ainda que com a importante ressalva de que a violência não ocorria entre indivíduos isolados mas entre grupos sociais. As capacidades sociais e de cooperação altamente desenvolvidas dos seres humanos não são contraditórias com a prevalência da violência tanto em chimpanzés como nas sociedades humanas; pelo contrário, são a sua condição prévia. Ou seja, a violência é uma actividade social na qual participam grupos do sexo masculino e, por vezes, feminino.

Francis Fukuyama, A origem da ordem política, 123.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Política e violência


James Gilligan é um psiquiatra norte-americano, professor universitário, foi director de hospitais nos EUA, ensinou em algumas das melhores faculdades do mundo – uma pesquisa rápida pela net informou-me disto. Numa altura em que a compilação de dados estatísticos, em diferentes áreas, tem feito furor, leio, no mais recente livro de Gustavo Cardoso que Gilligan escreveu, em anos recentes, Porque alguns políticos são mais perigosos do que outros, no qual conclui, concatenando dados desde 1900, que sempre que o partido republicano esteve no poder, nos EUA, as taxas de homicídios e suicídios dispararam. Há um padrão, sustentará o autor e, segundo Cardoso, o mesmo se pode encontrar, para a relação com o suicídio, na Austrália e Reino Unido. “As razões são para Gilligan evidentes: os índices de todas as formas de sofrimento social e económico, de desigualdade e de perda – o desemprego, a recessão, a pobreza, a falência e a falta de habitação também subiram para proporções epidérmicas. Quando isto acontece, o número de pessoas mais vulneráveis aumenta, com consequências trágicas” (p.30).
Não conhecia o autor, nem o livro e ignoro o debate que possa ter suscitado – e imagino argumentos contrários como a complexidade de factores envolvidos na violência, a continuidade de várias políticas, etc. Mas aqui fica para pesquisas futuras.