"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
sábado, 11 de março de 2017
Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (III)
5.No
tempo de vida de Daniel, o nosso, como vimos de dizer, havia-se criado o M.E.A
(Movimento de Exterminação de Anões) que defendia o desaparecimento da raça
humana, funesta ao equilíbrio da biosfera (p.57). Construíam-se residências
proibidas a menores de 13 anos, dado que o humano já não suportava crianças, as
preocupações que geram, os cuidados que demandam (p.58). Os principais
critérios/pilares em que assentava a sociedade eram “juventude, beleza e força”,
ou seja, segundo o narrador, “os
critérios do amor físico são exatamente os mesmos do nazismo” (p.63). A
beleza desempenhava no início do séc.XXI o mesmo papel que a nobreza no Antigo
Regime (p.180), com a respectiva “manutenção
minuciosa do corpo” a que os humanos devotavam uma parte cada vez maior do
seu tempo livre (p.267). Para além das já citadas, a ambição, a riqueza e o sexo faziam parte do menu das virtudes
requeridas no dealbar do séc.XXI (p.21). Ou, ainda, os valores da competição, da inovação e da energia. Crueldade, egoísmo
cínico, violência. Dizia-se não à
fidelidade e ao dever (p.44). E, na quebra de todos os tabus, caminhava-se
para o parricídio ou o canibalismo. Procedia-se, de resto, então, a um trabalho
de uniformização das vidas, a
alimentação vegetariana generalizava-se, bem como as futilidades New Age; os animais domésticos substituíam as crianças (p.63). O progresso científico
e tecnológico permitia um inédito controlo social (p.27) e os homens estavam, agora, reduzidos ao estatuto de objecto sexual
(p.30) (aliás, sempre provocatório Houellebecq, “em geral, os homens são considerados pénis ambulantes”, p.195). Não
faltava a publicidade em doses maciças, a manipulação: “aumentar o desejo até ao insustentável tornando a sua satisfação cada
vez mais inacessível”, eis a sociedade ocidental (p.72). Repare-se que “levar um indivíduo inexoravelmente a
desejar e ansiar é ao mesmo tempo privá-lo do seu poder de autocontrolo e
apropriar-se da dignidade de outra pessoa: vemos um ser que já não se assemelha
a ele mesmo, deformado e inflamado pelo desejo” (L.Donskis). O consumismo
era a regra (p.27). O mundo das revistas
cor-de-rosa conhecia um sucesso estrondoso junto do público, moldando
hábitos e normas, contribuindo para a vitória do homem light: “o que procuramos
criar [diz Isabelle que trabalhava numa destas revistas do coração] é uma humanidade fictícia, frívola, que nunca
mais será acessível à seriedade nem ao humor, que viverá até à morte numa
procura cada vez mais desesperada do fun
e do sexo; uma geração de kids
definitivos. Conseguiremos lá chegar sem dúvida” (p.32). Onde não há
sentido, até da busca, da pergunta se afasta o cidadão que assim fica entre o
permanente engraçadismo para não se
entediar – mas não sabendo que há alguma discussão séria, porque nada é sério,
nada é para levar a sério - e o sexo (a única finalidade da existência, de
acordo com o profeta). “Nem um pêlo de
cultura, nem um grama de actualidade, nenhum humor” (p.34). Neste contexto,
não admira que as mães copiem as filhas (p.36), nem que Daniel, “um neurótico
ocidental” (p.174) faça questão de registar na sua auto-biografia “a primeira conversa que eu tivera a sério
nos últimos anos” (p.179), bem como a “primeira
vez desde há vinte anos que comecei a chorar” (p.276) [aqui fica, de novo,
o prelúdio para o desaparecimento das lágrimas e do riso nos neo-humanos]. O sistema estava programado para acabar com o dissenso, o pensamento
crítico, a alternativa; tudo desaguava num consenso mole e manso, sem nenhum
rebate de consciência, sem a emergência da figura do intelectual ou quejandos: “o sistema espectacular, destinado a
produzir um consenso abominável, abatera-se há muito sob o peso da sua própria
insignificância” (p.225). Mais fundo ainda, estamos perante a “impossibilidade geral das coisas”
(p.287): “Houellebecq evidencia mais um
fenómeno actual: o novo determinismo, essa incapacidade de acreditar que até
pessoas racionais, críticas e de mente liberal possam mudar o curso da
civilização” (Leonidas Donskis). Em realidade, anulava-se a opção política, pela “evidente neutralidade do real” [aqui ressoa a crítica nuclear a
toda a tecnocracia]. O comportamento humano “devia tornar-se tão previsível como um frigorífico” (p.366). Como
que assinalando uma etapa em que o chamado populismo
estaria para conhecer um momento de êxito larvar, um amigo de Daniel adverte
com contundência: “o que é preciso (…) é
que tenhas a ralé do teu lado (…) com a ralé do teu lado, serás inatacável (…) o
que a ralé respeita é essencialmente o dinheiro (…) Tu tens dinheiro, mas não
mostras. Tens de reluzir um pouco mais” (p.41). Se bem que os ricos gostem
de estar com os ricos (p.114), o mesmo não sucedendo com os velhos (sem vontade
de se encontrarem os da sua geração, p.170). Como anteriormente repetidamente
se sublinhou, hoje “já não temos um
objectivo determinado” (p.11). Assiste-se à “dificuldade do sentimento amoroso” (p.27).
Companhia
inseparável de Daniel é o cão Fox – e também ele irá perdurar, mesmo após a sua
morte (devido ao material genético recolhido). Lê-se a Visão (que traduz a Time no
seu principal dossier) desta semana e, nas aspirações/sonhos e delírios
societários que expõe(m) nenhuma novidade aduz, já cá está tudo (no livro de
Houellebecq, de 2006). Mas perceba-se: “o
cão era uma máquina de amar por efeito do treino” (p.158). Daniel, “um observador acerbo da realidade
contemporânea” (p.21), perdera a virgindade aos 17 anos (p.20), numa sociedade
saturada de sexo por todos os lados (“a
sexualidade talvez fosse sobrestimada”, p.152; os neo-humanos que não entendem o amor, no seu isolamento não integram
ainda “a inacreditável importância que
os humanos atribuíam ao contacto sexual”, p.266; note-se que nas memórias
de Daniel, são incontáveis as descrições de actos sexuais, como se o estético –
a forma – se ligasse à ética – o conteúdo). Face a este zeitgeist, após a queda do cristianismo, e com as melhorias de vida
no mundo árabe a promoverem mudanças políticas (p.292) e, concomitantemente,
nos hábitos de todos os muçulmanos, em todo o mundo, num sentido dos prazeres
serem satisfeitos, também o Islão cairá (ele que vivera agarrado ao machismo e
não sobreviverá ao feminismo e à revolução sexual). Primeiro, com os
integristas a darem lugar aos moderados. A seguir, com o seu puro e simples
desaparecimento (“os integristas islâmicos
deram lugar aos muçulmanos educados e cultos e depois ao desaparecimento destes”,
p.40). Significava isto o fim da religião, no mundo? Por um lado, o homo symbolicus e o homo religious parecem não ceder, o homem novo, apesar de tudo, ainda não desabrochara por completo e
mantinha intactas algumas características milenares, pese a ingenuidade dos
iluminismos e vanguardas mais radicais: “contra
todas as campanhas racionalistas e advertências”, a religião permanecera
(p.188). Só que, bem entendido, uma religião adaptada aos tempos (que na
imortalidade de um corpo tal quale
pode considerar-se que se nega a si mesma). Os Eloimistas vinham anunciar que
os humanos haviam sido criados pelos Elohim [já agora, veja-se nos nossos dias
o tradutor da Bíblia que publicou livro a dizer que a Bíblia não fala de Deus,
e que tal deriva da má tradução de Elohim, plural], seres que criaram os
humanos e regressarão (“Os Elohim que
nos tinham criado eram cientistas de nível muito elevado”, p.208) e a nova
religião – e “nunca na história uma
religião ganhara algum ascendente dirigindo-se apenas ao intelecto (em vez da
emoção e sentimento)”, p.204) – seria, como não?, “hedonista e libertina” (p.229). O Eloimismo não impunha nenhum constrangimento moral, “reduzindo a
existência humana às categorias do interesse e do prazer” (p.293), fazendo
a apologia dos valores sociais dominantes, com práticas como orgias, uma
manipulação e ausência de escrúpulo completos. Anunciando a imortalidade (e na
luta contra a morte parecia aproximar-se das religiões monoteístas mas) pelo
prolongamento do material genético. Erradicando
toda a dimensão espiritual, a vitória era a promessa ilimitada da vida
material, isto é, a satisfação ilimitada dos desejos físicos. Em chegando à
– ou perto da – terceira idade, os crentes (Eloimistas), e as adesões são em
massa, suicidam-se (em público); querem passar para um corpo novo (jovem). E a
morte desaparecerá sem que se saiba o que fazer (com a vida eterna terrestre)
senão prolongar indefinidamente os prazeres do estádio (androide) anterior – para isso serve
a vida. É o modo muito conseguido como Houellebecq retrata uma cultura,
como aquela em que nos situamos, que “está
pronta para conviver com tudo, menos com o envelhecimento. Mais cedo ou mais
tarde essa cultura vai tentar quebrar os últimos tabus, os que se relacionam
com a pedofilia, o canibalismo e o incesto. Não são eles que nos fazem tremer
de medo – a morte e a extinção é que causam o verdadeiro terror nos nossos
corações, sobretudo numa época em que a ciência, a tecnologia e genética nos
aproximam cada vez mais da fabricação da vida e da imortalidade. Terrível não é
a expectativa de que todos iremos morrer, mas a possibilidade de perdermos por
uma ou duas décadas o momento em que os geneticistas criarão uma raça de
abastados super-homens que deixarão todas as suas riquezas a um grupo
tecnológico ou de engenharia social, caracterizado como seita escatológica e
esperando o fim do mundo (como os elohimitas da imaginação de Houellebecq) (…)
Quando a vida em si se torna o único problema, a extensão da própria vida (…),
assim como os sonhos de imortalidade alcançada não pela realização de uma
promessa transcendental, mas pela ciência, pela genética, pelas tecnologias e
pela racionalidade instrumental, tornam-se a única realidade significativa. Não
a liberdade nem a autorrealização, mas a ampliação da vida terrena e uma
imortalidade mecânica – se isso for possível (…) Uma fantasia como a da
imortalidade é um testemunho não apenas da morte da religião, de uma fé
exaurida e dissipada, mas também de uma sociabilidade evanescente” (L.Donksis).
Daniel
recorda os acontecimentos, no início do século XXI, em França, com os mais
velhos a morrerem por falta de cuidados, nomeadamente com o calor (Daniel
refere-se ao ano de 2003, p.78). E como tal, de imediato, “entrara nos hábitos”,
ano após ano, corolário da indiferença generalizada bem como do economicismo científico que se abatera: a falta de
cuidados era, Houellebecq é corrosivo, “um
meio afinal natural de resolver uma situação estatística de velhice avançada
forçosamente prejudicial ao equilíbrio económico” (p.286). Sempre sem
concessões ou contemplações, o narrador leva a sua lógica até ao limite, num
exercício de um humor cáustico e ácido, hiperbólico e contundente: os velhos deviam revoltar-se “contra os
jovens, obrigando-os à prostituição para reembolsarem os sacrifícios” por si
feitos, por aqueles (p.179). Tínhamos chegado ao desejo de retorno ao
estádio primitivo em que os jovens se livravam dos velhos sem moderação. Era um
refluxo brutal, típico da modernidade, para um estádio anterior a todas as
civilizações (p.177). Era, assim, um sinal imenso da queda da civilização, pois
“toda a civilização podia ser avaliada
em função do destino a dar aos mais fracos” (p.177). [a propósito do
pessimismo cultural, Donskis traça analogias também entre Houellebecq e Thomas
Mann].
Esta
sociedade defendia a “ideia de que todas
as espécies, independentemente do seu grau de desenvolvimento, tinham igual
«direito» de ocupação do planeta (…) [e] alguns adeptos (…) tomam
sistematicamente o partido dos animais contra o homem, experimentam um maior
desgosto perante a notícia do desaparecimento de uma espécie de invertebrados
do que perante a fome devastadora da população de um continente” (p.368).
Nesta ideologia, vai o “desejo da
humanidade se revoltar contra si mesma” (p.369).
sexta-feira, 10 de março de 2017
Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (II)

3.Encontro,
por acaso, o Domingos que, em recusando usar telemóvel, email ou qualquer
dispositivo que o torne mais acessível,
e em lhe perguntando se não sente necessidade de falar com ex-colegas, amigos,
conhecidos responde-me que “a solidão é a melhor coisa que há!”. E repete - “a
solidão é a melhor coisa que há”. Talvez, de um modo tão franco e tão brutal,
raramente, ou nunca, tenha escutado, de viva voz, semelhante recusa de um
contacto. Embora não fosse a primeira vez que ouvia uma pessoa assumir como
desiderato de uma jubilação – tão antecipada quanto possível – uma fuga mundi, o deixar isto e ir viver
sozinho para a montanha, não apenas um desabafo, mas uma convicção, um
projecto, fazendo da auto-suficiência, e da prova de conseguir viver sem os
outros (vou demonstrar que não preciso
dos outros para permanecer), uma mostra de músculo e de um estoicismo que
continha, igualmente, em potência, e aqui talvez Houellebecq não tenha
considerado a perspectiva, uma (forte) crítica à sociedade em que se investe (e
não conterá, sempre, qualquer fuga mundi
esse protesto, ou pelo menos, uma desadaptação que encerra um desgosto com o
estado da arte do mundo?).
Em
realidade, quando os neo-humanos -
que Houellebecq forja para o quarto milénio – surgem assiste-se ao “desaparecimento do riso e das lágrimas”
(p.53); estes clones dos humanos – através da preservação do ADN daqueles – não compreendem, já, a emoção religiosa,
nem a caça, nem o êxtase místico dos seus antecessores (p.38); eles são “puramente
racionais” [de uma racionalidade instrumental], sem sentimentos ou emoções, sem
arrebatos, isolados, sem formarem uma comunidade. Esta recusa do outro, o amor como constrangimento, a relação
como algo a superar, e a formulação de um mundo povoado por átomos,
conta-se entre as mais incisivas páginas/reflexões (desta obra) sobre os
limites do paroxismo que já a sociedade que Daniel, o humorista que escreve uma
auto-biografia lida pelo seu sucessor neo-humano
(um novo humano, um humano de
tipo diferente, uma coisa outra que não o humano como o conhecemos), habitara
trazia incubado. Daniel – em certo sentido, como que assumindo-se como o louco nietzscheano capaz de dizer a
verdade por revelar e, ao mesmo tempo, como o profeta [Daniel] que golpeia a
sua sociedade: “sou cínico, amargo, só
posso ter interesse para pessoas algo predispostas à dúvida, pessoas que
começam a viver num ambiente de fim de festa” (pp.32-33) reconhece que a
certa altura da sua vida “já não tinha
amigos” (p.56), até porque “a partir
de certa idade, entre dois homens
inteligentes, já tudo foi dito” (p.76). E, embora vivendo com Isabelle, “não tínhamos ninguém com quem partilhar a
casa, nem um copo de vinho” (p.56).
Depois
de, para surpresa do próprio, ter sido surpreendido pelo amor, quando, anos
mais tarde, descobre Esther, como que sucumbe a um abismo de gerações – Esther,
muito mais nova, terá múltiplos relacionamentos, e desprezará a concepção e sua
materialização de ficar para sempre
com Daniel - que é, em realidade, bem mais do que isso, um salto, um mergulho qualitativo para um
humano a caminho de neo: em
percebendo que o seu quadro mental de apego a uma pessoa (a uma mulher), em que
a sexualidade não estava desligada e jamais dispensava o afecto (“sempre necessitara de afecto para me sentir
sexualmente feliz”, p.182; o sexo pelo sexo não chegava), se tornara uma tonteria para a gente mais nova – um retrato
corrosivo e certeiro de uma determinada cultura que perpassou/perpassa, de
facto, uma parte da juventude nas últimas décadas; mas não a vejo como a cultura; sem contemplações, Daniel
constata, a partir do masculino, a ironia das coisas: “o projeto milenar masculino de despir o amor de qualquer conotação
afectiva, tinha agora a sua concretização” (p.277) -, assume a sua ingenuidade – paradoxo maior, de quem se
afirma como uma espécie de super-homem
sem nenhuma ilusão, acerca do universo, dos humanos e de si próprio, mas como
que a dizer que isto é ainda mais negro,
mais sombrio do que o narrador julgava e, portanto, convocando, claramente, uma
dimensão moralista ao seu olhar – e discorre: as novas gerações recusavam o amor, a paixão, o sentimento de
exclusividade, de dependência (p.277); “deambulei entre eles como uma espécie de monstro pré-histórico
com as minhas imbecilidades românticas, os meus apegos, as minhas ligações”
(p.277); “quanto ao amor, não havia nada
a esperar: eu era sem dúvida um dos últimos homens da minha geração a amar-me
suficientemente pouco para ser capaz de amar outra pessoa, embora
raramente” (p.344) Ora, “para
esta geração a sexualidade não passava de um divertimento agradável” [sem
vínculos outros a ela associados]. Que “não
implicava nenhum compromisso sentimental especial” (p.277). Com uma crueza, uma ironia corrosivas e
uma sofisticação cortantes, Houellebecq, ou Daniel, oferecem-nos a nova
mundividência em que o sonho – na verdade, a distopia – é igualar a ausência de
vínculos, de relações, de apego, de ligação a liberdade, a ser (-se) livre
[ausência de vínculos é = a liberdade]. A captação do momentum sociológico adquire uma pertinência que cremos incontornável:
“o amor nunca fora com certeza mais,
como a compaixão para Nietzsche, do que uma ficção inventada pelos fracos para
culpabilizar os fortes, para introduzir limitações à sua liberdade e à sua
ferocidade naturais” (p.277); os humanos “haviam conseguido, após décadas de condicionamento e esforço, haviam
finalmente conseguido extirpar dos seus corações um dos mais velhos sentimentos
humanos” (p.277): “em nenhum
momento da vida conheceriam o amor. Eram livres” (p.277). Era, assim,
muito pouco provável que a nova espécie fosse uma “espécie sociável” (p.343): “a
sociabilidade passara de moda, desempenhara o seu papel histórico”, mas
“reduzira-se hoje a um vestígio
inútil e incomodativo” (p.343). Em suma, “hoje em dia, que tudo se extinguiu, todas as tribos se dispersaram,
encontramo-nos isolados mas semelhantes, e perdemos a vontade de nos unirmos”
(p.118).
4.Se
não estamos prometidos ao amor, se a relação não é, já, o alfa e o ómega da
existência, se não queremos, de modo algum, estar juntos, se não queremos saber
do outro, que coisa é essa a vida? Que sabor tem (se é que algum possui), que
sentido lhe descortinamos? E, numa palavra, o que é (nestas circunstâncias) ser
humano?
Somos
apenas biologia, na desencantada cosmovisão de Daniel: “um belo arranjo de partículas, uma superfície lisa, sem
individualidade” (p.275); um
animal amoral à procura do seu pedaço de prazer (p.276); “considero-os [aos humanos] mais
inteligentes do que os macacos e, por isso mesmo, mais perigosos” (p.24); o
homo homini lupus: “de dois animais egoístas e racionais, o
mais egoísta e o mais racional dos dois acabara por sobreviver, como acontecia
sempre entre os humanos” (p.392) “acontece-me
abrir as grades para socorrer um coelho, ou um cão vadio; nunca para socorrer
um homem” (p.24); “por eles, não
experimento nenhum dó, nem nenhum sentimento de pertença comum” (p.24); “odiava a humanidade” (p.341); “assisto sem um lamento ao
desaparecimento da espécie” (p.24). A questão da individualidade
coloca-se, aliás, ainda com maior acuidade, relativamente aos neo-humanos (clones), já que,
porventura, pode sopesar-se – indagação cada vez mais colocada em tempos de
Inteligência Artificial e fusão desta com o humano - que sejam “ficções resultantes de softwares”
(p.280), “seres incompletos, seres de
transição cujo destino residia em preparar o advento de um futuro numérico”
(p.185). Sem emoções, sem riso e sem
choro, sem amor e sem apego, o novo-humano, levado às últimas consequências, aperfeiçoado – diríamos no grotesco que
o livro consegue mostrar – seria (será?) um número. Repare-se que não
só há sentimentos que se tornam incompreensíveis para a nova humanidade (e as primeiras gerações de neo-humanos surgem no
século XXIV) – “estes dois
sentimentos, a crueldade e a compaixão, não têm obviamente muito sentido nas
condições de absoluta solidão em que se desenvolvem as nossas vidas”
(p.54) -, como, suplementarmente, “nada
sobrara das produções literárias e artísticas da humanidade, porque os temas
que lhe estavam na origem tinham perdido pertinência e o seu poder de emoção
evaporara-se” (p.370) e “nada
sobrara dos sistemas filosóficos e teológicos pelos quais os homens haviam
batido, morrido e matado mais vezes ainda” (p.370). A única coisa de
útil – e revelador de grande engenho, a inteligência como única qualidade e
reduzida esta ao cálculo, da humanidade – que ficara haviam sido os elementos
de tipo tecnológico (p.370) (o que manifestamente combina com um humano
autómato, maquinal, frio, além de fazer coro com o deslumbramento e
endeusamento do tecnológico, dos nossos dias). Desde os humanos – ainda antes
dos neo-humanos – inaugurara-se “uma tradição de desenvoltura em relação
aos dados científicos que viria a conduzir ao aniquilamento da filosofia”
(p.338). Neste quadro, neste entendimento acerca do Homem, neste apreender do
estádio civilizacional em que nos encontramos, neste posicionamento face à vida
e o mundo, “que fazer, então? (…) Viver?
É exactamente neste género de situações que, esmagados pelo sentimento da sua
própria insignificância, as pessoas se decidem a ter filhos” (p.56); “o único projecto da humanidade consiste em
se reproduzir, em prolongar a espécie” (p.220). Mesmo sendo como é óbvio insignificante, a humanidade persegue-o
[ao objectivo de prolongar a espécie] com
um encarniçamento aterrador. Mesmo sendo infelizes, atrozmente infelizes, os
homens opõem-se com todas as suas forças, a tudo o que possa alterar o seu
destino; querem ter filhos, e filhos semelhantes a eles a eles, a fim de
escavarem a sua própria sepultura e de perpetuarem as condições da desgraça”
[neste caso, a afirmação do profeta da religião dos Eloimitas, aquela que irá
prosperar, na narrativa de Daniel, e já veremos porquê] (p.220); “o ciúme e a vontade de procriar têm a mesma
origem que é a dor de ser. É a dor de ser que nos leva a procurar o outro, como
um paliativo [o outro serve para "eu" consumir]; temos de ultrapassar esta fase a fim de atingir o estado em que o
simples facto de ser constitui em si mesmo um permanente motivo de alegria; em
que a intermediação passa a ser apenas um jogo, livremente aceite, não
constitutivo do ser. Numa palavra, devemos alcançar a liberdade da
indiferença, condição de possibilidade da serenidade perfeita”
[repare-se como de uma mundividência assente na perspectiva de uma existência
em favor de uma promoção dos mais frágeis para a qual/os quais há que
trabalhar, interceder, transformar, se passa para uma outra em que a indiferença
passa a ser condição da serenidade perfeita, não admirando, neste contexto, o
que o autor escrevera sobre a queda de uma dada religião e suas consequências –
referindo-se, naturalmente, ao cristianismo na Europa – e na emergência de
filosofias orientais no Ocidente]. Houellebecq cita Henri de Régnier: “viver avilta” (p.49).
O
prazer sexual “era superior a todos os outros prazeres, em
requinte e violência; era o único prazer, o único objectivo da existência
humana” (p.320); uma
existência contínua devotada aos prazeres “era este o sentido do movimento da
história, era esta a sua direcção a longo prazo, que não se limitaria ao Ocidente”
(p.343) Mas nem o prazer sexual escapará ao impulso narcísico; este, o
fechamento absoluto da possibilidade da relação, conduzirá, afinal, para
utilizarmos os termos de Chu-Han, à agonia de Eros: “há um breve período
ideal, durante a dissolução das sociedades de forte moral religiosa, em que os
jovens sentem verdadeiramente vontade de uma vida livre, desregrada, alegre;
depois cansam-se, a competição narcísica vai-se sobrepondo aos poucos e, por
fim, têm ainda menos relações sexuais do que no tempo de forte moral religiosa”
[de aí que me pareça que o tempo de Bacantes,
a que se referia Steiner, se tenha esgotado um tanto e aquele confronto
geracional, acima descrito, ou salto qualitativo no que é o humano, se tenha
que mitigar e, por isso, a meu ver, não é a
cultura].
Em
todo o caso, a perspectiva de que o sexo, (e) a perpetuação da espécie são os
únicos desideratos da existência aponta bem ao deserto real, á ausência de
bússola porque o humano passa (a ocidente, mas, na visão de Houellebecq, nesta
obra, uma tendência universalista), ou, no caso da visão das coisas por parte
de Daniel, à ausência de qualquer arremedo de um (excesso do) dom presente na
vida (ou o dom que a vida constitui, ela mesma). Atente-se na descrição do
último estádio em que os humanos se encontraram antes de darem lugar ao neo-humanos, em rigor, como se percebe,
em quase tudo abrindo caminho para estes – que mais não são do que o estertor,
a consequência última, a ratio destes
últimos dias levada ao limite, a concretização da distopia que vivemos: “consta que os humanos, pelo menos os
humanos do último período, aderiam com grande facilidade a todos os novos
projectos, um pouco independentemente da direção do movimento proposto”
(p.338); “a mudança em si mesma era aos
seus olhos um valor” (p.338). Para quem desconhece o Norte, qualquer
caminho é bom, ou retomando o célebre adágio de Chesterton (formulado aqui
livremente): quem não acredita em nada,
está disposto a acreditar em qualquer coisa.
E,
face à ausência de rumo, para que queremos prolongar a existência? Já paramos
para pensar sobre para que serve a imortalidade, o sonho repetido semanalmente
nos jornais? O que vamos fazer numa vida (terrena) na qual não encontramos
sentido, nem valor? Manter indefinidamente os prazeres, reproduzirmo-nos até a
pedra de Sísifo nos tornar louco esse trabalho que nos impusemos, ou do mito
retiramos que justamente, in casu, humano é a cada prazer um outro se suceder,
sem nunca nos aborrecermos com prazer algum que antecede o próximo, numa lógica
de perpetuação que, em todo o caso, diferentes ensaístas e romancistas, entre
os quais Saramago, acreditavam, ainda que com humor, que não iam acabar bem?
(continua)
quinta-feira, 9 de março de 2017
Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq

Sobre A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq
1.Principiemos
pelo título. Possibilidades múltiplas de o decifrar. No interior do próprio
texto (que titula), podemos situá-lo num poema de Daniel a Esther: “Existe no meio do tempo/a possibilidade de uma ilha” (p.352). O
que significará, face a um cepticismo radical sobre o humano (“a criança é uma espécie de anão perverso,
de uma crueldade inata, no qual se reconhecem imediatamente os piores traços da
espécie”, p.56), o mundo (“calvário
ininterrupto que é a existência dos homens”, p.57), qualquer sentido (“o ser humano não foi concebido para a
felicidade”, p.57); face a um tom ácido, sombrio, corrosivo que o texto
comporta (“é triste, o naufrágio de uma
civilização, é triste ver soçobrar as mais belas inteligências”, p.285);
face, mesmo, e desde logo, a um cinismo brutal do seu autor, Daniel – que chega
a adquirir contornos de verdadeiro nihilismo: pense-se, a quando do suicídio do
filho, como nada lhe fica na memória, no sentimento, anotando que não gostava
do descendente, que este “era tão
estúpido como a mãe e tão mau como o pai” e cujo desaparecimento “estava longe de constituir uma catástrofe”
(p.26) –, o estranho e surpreendente, a real insuspeita presença de esperança,
reconhecimento de que o amor é possível no (seu) tempo (assim se poderá
decifrar a frase no poema, ele mesmo uma implausibilidade, “a poesia estava morta” (p.153), a
Esther, a quem se surpreende a amar). Mesmo no interior de um mundo mau, de
gente egocêntrica e cruel, há, afinal e ainda, uma ilha, o amor (“que o amor incondicional é condição de
possibilidade de felicidade, já os humanos o sabiam, pelo menos os mais
avançados”, p.66). Para um texto sem concessões, impiedoso, há um sopro de
poesia que reluz.
Por
outro lado, A possibilidade de uma ilha poderia
ser visto como um programa que visa sondar uma estação que fez da anomia
social, da recusa da relação, do isolamento, do fragmento marcas registadas.
Será que o humano consegue viver sendo uma ilha?, parece perguntar o
filósofo/sociólogo/antropólogo que o ficcionista mostra também ser. De outra
perspectiva: se, como celebremente John Donne afiançou, “nenhum homem é uma
ilha” não estaremos, num estádio em que nos recolhemos/encolhemos para ilhas,
perante a morte do humano? Não é essa a lógica subjacente à (ao desenho da)
emergência dos neo-humanos –
prolongamentos do ADN dos humanos que os precederam, mas diversos destes em “qualidade”,
“essência” -, por parte do romancista?
Serão
estas duas possibilidades interpretativas inconciliáveis? - poderemos, ainda,
perguntar. Será que ao afirmarmos que mesmo num mundo em decomposição o amor é
possível – porventura, a sua fonte de regeneração, assuma este carácter de eros, philia ou uma palavra de compaixão – não estamos a contrariar, no
seu núcleo, a ideia de morte do humano?
Se
olharmos para (a/uma) ilha de modo literal, então vemos que o último
neo-humano, em última instância, descobre o mar e este pode, finalmente,
significar um horizonte infinito, a possibilidade de utopia, lá onde a “narrativa
de vida” (autobiografia de Daniel) parecia inscrever, apenas, um mundo
distópico (Leonidas Donskis coloca,
em Cegueira moral, não por acaso, e
bem, esta obra magistral ao nível, ou na mesma linha de Nos, de Zamyatin, Admirável Mundo Novo, de Huxley ou 1984 de Orwell, embora observe também que Houellebecq diz o que Spengler diz, ainda que de outro modo).
Combinando
estas três perspectivas possíveis com vista a intentar interpretar o título
deste livro de Michel Houellebecq – e, bem entendido, a própria obra, ela mesma
– poderíamos dizer que num “mundo distópico” a verdadeira “utopia” é o amor (a
amizade, uma palavra de compaixão),
2.Para
Leonidas Donskis “o romance de
Houellebecq expõe a morte de Deus de maneira bastante inesperada: Ele morre
quando se eliminam os laços humanos e sociais”. Pois bem, a assimilação da “morte
de Deus” ao desaparecimento de “laços humanos e sociais”, parece-me, bem mais
do que inesperada, congruente: se Deus é amor e se age no mundo através da minha responsabilidade (ética) pelo
outro, e se Deus só vai ao Homem através do Homem (e este só sai de si, para o
seu semelhante, através de Deus), então a recusa em me responsabilizar, a recusa,
mesmo, em querer saber do outro pode, pois, ser lida em chave de recusa do amor
(e Deus é amor; e o amor, como Deus, oferece-se sempre, mesmo que não tenha
interlocutor; e só no outro, de modo mediado, amamos Deus) e, visto Deus mais
como relação/acontecimento do que entidade, como recusa de Deus (para que Deus
morresse era preciso que Deus pudesse morrer). Justamente, sem relação, sem
amor, o humano coloca-se em causa (destrói-se). “De forma interessante, essa implicação filosófica [a morte de Deus
enquanto deslaçamento social] do romance (…) é um retorno a La scienza nouva de Giambattista Vico,
trabalho em que a existência de Deus é provada por meio de poderes da
comunidade humana e da sociedade civil: sociabilidade, linguagem e sentimentos.
Em suma, quando se enfraquecem ou se destroem os alicerces da sociabilidade
humana, e a esfera da linguagem e dos sentimentos, entregam-se os seres humanos
a Satanás” (Leonidas Donskis, no citado livro A cegueira moral, em co-autoria com Zygmunt Bauman).
O
sociólogo fino de A possibilidade de uma
ilha, o Daniel (auto) biógrafo nota, como um dos traços do seu tempo – este
tempo histórico há muito ultrapassado, quando o lemos pela lente de um
neo-humano, no quarto milénio, mas que na verdade coincide com este nosso tempo
actual – “a perda do sentido do sagrado”
(p.27), acompanhado da “diminuição da
alegria de viver” (p.27). Sim, “vamos
vivendo, atravessamos a vida sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos
breve” (p.11). Em realidade, “as
noites já não vibram de terror nem de êxtase” (p.11). Tudo transparece na “claridade do vazio” (p.38), lá onde
houve a “condenação á morte da moral”
(p.44) e se assume que “os humanos não
têm dignidade nem direitos, que o bem e o mal são noções simples, formas pouco
teorizadas do prazer e da dor” (p.39). Em tom reflexivo, o humorista
milionário observa: “havíamos
simplificado tanto, suprimido tanto, quebrado muitas barreiras, tabus,
esperanças aberrantes, aspirações infundadas; restava tão pouco, realmente”
(p.21). Mais detidamente, “que pudesse
surgir uma nova religião no Ocidente já era em si mesma uma surpresa, a tal
ponto a história europeia dos últimos trinta anos fora marcada pelo
desmoronamento em massa, a uma velocidade surpreendente, das crenças religiosas
tradicionais. Em países como a Espanha, a Polónia e a Irlanda, uma fé católica
profunda, unânime, maciça estruturava a vida social e o conjunto dos
comportamentos dos últimos séculos, determinava a moral e as relações
familiares, condicionava o conjunto das produções culturais e artísticas, das
hierarquias sociais, das convenções, das regras de vida. No espaço de alguns anos,
em menos de uma geração, num lapso de tempo inevitavelmente curto, tudo
desaparecera, se evaporara no vazio. Hoje em dia, nestes países, já ninguém
acreditava em Deus, não se debruçava minimamente sobre o assunto, nem se
recordava de ter acreditado; e passara-se tudo sem dificuldade, sem conflitos,
sem violências nem protestos de qualquer ordem, sem sequer uma verdadeira
discussão, com a mesma facilidade com que um objecto pesado, sustentado durante
algum tempo por um entrave exterior, retoma a posição de equilíbrio logo que
pode” (p.289)
Michel
Houellebecq mostra compreender na perfeição o significado mais denso de uma
tradição religiosa: “os acontecimentos
políticos ou militares, as transformações económicas, as mutações estéticas ou
culturais podem ter um papel a desempenhar, por vezes um papel muito importante
na vida dos homens; mas nada, nunca, pode ter uma importância histórica
comparável ao desenvolvimento de uma nova religião, ou ao desmoronamento de uma
religião existente” (p.302)
(continua)
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