segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sem ilusões


O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto. O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve ist, considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.

(...)

Não. Os conhecimentos não se substituem uns aos outros, complementam-se. E o que falta, faz sempre falta. Várias vezes me interrogo como é possível atirar alunos do secundário para ler Os Maias, ou seja que obra for de Eça, ou Camilo, ou Camões, ou Gil Vicente, ou Nemésio, ou Jorge de Sena, ou seja lá que obra literária que é suposto ler-se no secundário e nos anos de escolaridade obrigatória, sem saber nada de mitologia grega ou da Bíblia, já para não falar do rico vocabulário do português que não cabe numa mensagem do Twitter. Não sei, aliás, por que se pensa nos nossos dias que “não cabe” na cabeça das pessoas muita coisa. É irónico que a modernidade nos forneça discos rígidos com terabites de espaço, e pareça encolher-nos as cabeças. Voltando a Frederico Lourenço, podemos de facto viver confortavelmente, em particular se herdarmos alguma coisa, e ter sucesso, sem saber nada da Odisseia, ou da Antologia Grega, saber quem era Argos ou Tifão, desconhecer tudo de Esparta e Atenas, de Sófocles e Tucídides ou nunca ter lido uma “vida” de Plutarco (por falar nisso, uma leitura obrigatória durante mais de um milénio para todos os que quisessem ter uma vida pública…) ou dos relatos em que um profeta apocalíptico chamado Jesus anunciava o fim do mundo e o caminho da “salvação”. Podemos. Mas somos mais pobres por isso. Antigamente isto chamava-se “experiência indirecta”, não substituía a directa, mas ajudava muito. E, numa curva da vida, em vez de ir a correr a um praticante de qualquer terapia arcana, ou à bruxa – o que, para a nova ignorância, não é tão diferente como isso – sempre se podia saber que outros homens e mulheres, que vivem no mundo dos “antigos”, conhecem alguma coisa sobre a doença ou a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança e o destino inelutável, sobre a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra e a vergonha, sobre a intriga, a moda e o sexo. As suas palavras tinham toda a força, porque eram muitas vezes as primeiras que eram escritas sobre as mais humanas das atitudes, e estão no terreno que pisamos, mesmo que não o saibamos. Mas vale muito mais saber.

José Pacheco Pereira, O nó górdio, Público, 03/04/2017

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Seguindo vilarrealenses pelo mundo: Violeta Santos, na Time.

domingo, 2 de abril de 2017

Leituras paralelas

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Há mais habitantes do Facebook do que da China; há mais telefones do que pessoas no mundo; previsão de 1974 no Congresso sobre a Alimentação: com os mil milhões de chineses, o futuro da China será uma catástrofe: seguiu-se, em termos cronológicos, precisamente, o milagre económico chinês; a fábrica de caixa de velocidade da Renault-Nissan, de Portugal, é a melhor do grupo, tendo protocolo com a universidade de Aveiro, na qual recruta muitos dos seus quadros técnicos.

AMIZADE


Celebrando os amigos, sempre.
Um concentrado exemplar de um conjunto de estudos e reflexões reunidos em Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade.

José TOLENTINO MENDONÇAOS AMIGOS, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2317, 25. 03. 2017, 92

A AMIZADE É UMA ESPÉCIE  DE FRATERNIDADE QUE ELEGEMOS. (...) OS AMIGOS FALAM  UMA LÍNGUA SÓ DELES


NÃO HÁ OUTRAS RAZÕES  QUE EXPLIQUEM UMA AMIZADE VERDADEIRA ALÉM DESTE “PORQUE ERA ELE, PORQUE ERA EU”.  O RESTO É ACIDENTAL E NÃO TEM IMPORTÂNCIA

O que aproxima os amigos, o que os liga entre si é a descoberta de uma afinidade interior, puramente gratuita, mas suficientemente forte para fazer persistir no tempo o afeto, a cumplicidade, a relação e o cuidado. Se quisermos explicar que afinidade é essa nem sabemos.
E isto é verdade tanto na amizade anónima que, por exemplo, dois miúdos do mesmo bairro estarão agora a iniciar, como nas amizades célebres, como aquela de Montaigne por Étienne de La Boétie, que levou o primeiro a escrever: “Na amizade, as almas mesclam-se e fundem-se uma na outra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem.Se me intimam a dizer porque era seu amigo, sinto que só o posso exprimir respondendo: porque era ele, porque era eu”.Não há, portanto, outras razões que expliquem uma amizade verdadeira e duradoura além deste “porque era ele, porque era eu”. O resto é acidental e não tem importância.
A amizade é uma espécie de fraternidade que elegemos. São irmãs e irmãos para a vida; presenças de todas as horas; baluartes discretos, mas inamovíveisfaróis que prolongam os seus sinais na distânciacompanheiros de viagem, mesmo quando não estão fisicamente a nosso lado. Os amigos falam uma língua só deles: bastam meias palavras para entenderem tudoos silêncios são tão interpretáveis como as palavras; a comunicação nunca é só funcional, mas traz associada uma componente afetiva; e, muitas vezes, é nessa língua que melhor se desenha a esperança, a consolação e a alegria.
Pode ser esclarecedor recordar que o termo latino para amizade, amicitia, deriva da raiz — am, que no latim popular designa mãe (amma) e ama (mama). A etimologia da amizade reenvia-nos assim não a uma qualquer experiência casual de superfície, mas àmemória daquela afeição primeiraque estrutura silenciosamente a existência. Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes,a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nósfaz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora. Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza. Porém, mesmo quando a amizade parece simplesmente prosaica é este programa que realiza, pois há sempre um instante em que os verdadeiros amigos se revelam como aqueles que estão dispostos a acompanhar-nos aconteça o que acontecer.
A amizade tem a natureza real de um vínculo. Não tendo a proteção de um quadro jurídico ou de um código de obrigações,corresponde a um laço de vida que sentimos a sustentar-nos e que precisa de ser cuidado. Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existirA doçura da amizade é equivalente a este seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa de ser distanteMas é também o distante que sabe tornar-se próximo e íntimo. Por isso, não é a posse que conta na amizade, mas a afeição pela afeiçãoa dádiva atuada no desprendimento, a presença movida pela generosidade. Aceitamos de forma natural a diferença, que não vem considerada como obstáculo à confiança, mas, pelo contrário, é condição do encontro. Os amigos, mesmo aqueles que têm a felicidade de se encontrar diariamente, sabem que são linhas paralelas destinadas a encontrar-se no infinito.

A leitura e as novas gerações


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José TOLENTINO MENDONÇA, QUANDO OS FILHOS NÃO LEEM, Expresso. A revista do Expresso, 01. 04. 2017, 92

ENTRE PAIS E FILHOS HÁ, A ESSE NÍVEL, UM AFASTAMENTO QUE EM OUTRAS ÉPOCAS JAMAIS OCORRERIA ENTRE GERAÇÕES TÃO PRÓXIMAS


LER É UMA ATIVIDADE INDISSOCIÁVEL DA CURIOSIDADE E DO DESEJO. É PRECISO APRENDER A SENTI-LA COMO UMA NECESSIDADE INTERIOR


Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.
Mas fiquei depois a pensar na história destes amigos e como ela se liga a um dos problemas mais amplos, complexos e sofridos das nossas sociedades: o da transmissão. A velocidade da mutação que o progresso tecnológico impõe vai cavando uma distância cada vez maior entre as gerações. Entre pais e filhos há, a esse nível, um afastamento que em outras épocas jamais ocorreria entre gerações tão próximas, e precisamos de ganhar consciência disso. Um bom começo talvez seja ativar caminhos de compreensão mútua entre adultos e jovens/adolescentes. Os filhos precisam de compreender melhor o mundo dos pais, aquilo que os apaixona, como é que eles chegaram aos seus pontos de vista, como construíram a sua linguagem e os seus códigos, como foi o encontro deles com o que consideram realmente importante. E os pais precisam de dar tempo aos filhos (e a si mesmos) para compreenderem a gramática deles, sem imediatamente comparar e corrigir tudo o que veem a partir da sua. Há um dado objetivo: o mundo está em mudança, e isso não foi uma escolha dos filhos. Os pais obcecados com o facto de os filhos não reproduzirem o mundo deles não reparam no esforço duríssimo e solitário que os filhos fazem para aprender a funcionar com as novas regras do tempo em que despontaram. Claro que tem de haver um equilíbrio. É verdade que não conseguirmos passar às novas gerações um sincero amor pelo património civilizacional e ético de que somos guardadores representará uma perda inqualificável. Mas isso não se faz retirando os jovens do seu mundo, mas colaborando para que eles ampliem sempre mais a experiência que lhes é própria. Os filhos de hoje são os primeiros nativos digitais, coisa que até aqui se desconhecia. Há insuficiências nesta nova condição? Certamente. Hoje, por exemplo, a comunicação humana tende a funcionar em tempos rápidos e simultâneos, sem pausas, sem espaço concedido à espera. Isso constitui um empobrecimento que será preciso trabalhar. Mas há dados positivos. Um deles é a personalização: os jovens veem e escutam o que querem, quando querem. Outro é a capacidade de expressão. As novas gerações serão saudavelmente menos afásicas do que as que as precederam.

Domingo desportivo

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1.Nuno Espírito Santo muda de onze, de sistema de jogo e de modelo de jogo a cada desafio. Para mim, trata-se de algo inédito. Já tinha visto, com António Oliveira, a não repetição de um único alinhamento inicial, ao longo de 30 (ou mais) jogos consecutivos; já assistira, com José Mourinho, a uma alternância do sistema de jogo, em função do tipo de adversário, e sua perigosidade (sobretudo, embora não exclusivamente, na segunda época no FCP); mas não me recordo de, em algum caso, simultaneamente, observar uma alteração tripla, a cada partida, mudando-se, pois, também, além dos elementos citados, o modelo de jogo - o FCP principiou na Luz em bloco baixo e em 4x3x3, mas jogara duas semanas antes, em casa, frente ao Setúbal, num 4x2x4 com bloco alto, sendo que o 4x3x3 do Bessa foi em futebol apoiado, em posse e o 4x4x2 com o Sporting, no Dragão, foi jogado com futebol direto. Houve cinco, ou seis bons jogos, durante a época (em especial, FCP-Chaves, FCP-Braga, FCP-slb, FCP-Boavista, Paços-FCP), mas não mais do que isso. NES chegou a desenhar os 60 metros em que queria que a equipa jogue, mas esses variam muito: em bloco baixo, os 60 metros acabam num Soares a muitos metros da baliza adversária; nos melhores momentos, Filipe e Marcano estão em cima do meio-campo adversário a recuperar de imediato a bola. Se resultar, dêem o Nobel ao Gaspar, chegou a escrever Nicolau Santos, noutro contexto (orçamental e de política económica, durante o consulado de Vítor Gaspar como ministro das Finanças deste país). Se a equipa tiver assimilado todo o processo, mudando, todas as jornadas, onze, sistema e modelo - mas, sobretudo, este último - creio que é caso para devolver o título (Nobel) ao treinador do FCP. Não vejo isto escrito, nem debatido - sendo, a meu ver, o mais importante na vertente futebolística do FCP - por dois motivos essenciais: em Lisboa, não conhecem o FCP (ex: fazerem de André André um grande jogador, ou de André Silva um jogador pronto para render o necessário no que a golos diz respeito, num candidato efectivo ao título, nesta época), e porque no Porto há demasiado wishfull thinking, muito querer ganhar, muita vontade (o Porto que estava numa forma brutal e ia à Luz arrasar), mas pouco discernimento.

2.No jogo frente ao V.Setúbal, NES, sabendo que a equipa iria entrar com natural ansiedade e uma pressão clara para chegar a líder do campeonato, em vez de manter uma linha de três a meio-campo que vinha a dar bons frutos, decide colocar um completamente desequilibrado 4x2x4, abdicando de um meio-campo que pausasse e pautasse o jogo (controlasse a ansiedade), e deixando os centrais livres para bombearem as bolas (que queimavam) da sua angústia - o primeiro lugar que tem que ser - para os avançados, que nem de avião lá chegariam. Nuno não percebeu o transfer entre a dimensão táctica e a psicológica/emocional, num dia muito particular, fronteira porosa que Vítor Frade teorizou - nunca tão elogiado como quando Mourinho perdeu algum brilho nos resultados -, e o actual treinador do Man.Utd corporizou. Também nisto se vê um treinador e sua dimensão
No mero plano de jogo, em tendo Couceiro apenas deixado livre Danilo, evidentemente mandaria a sagacidade avançar com Rúben Neves, melhor (do que aquele) no transporte, no passe e no remate, a isso convidando os vitorianos (do Sado). O que sucedeu, porém, foi ter-se escolhido Diogo Jota, sem capacidade física (não há um único rompedor pelos extremos, dado que Brahimi, o jogador em melhor forma, vem para dentro, e falta um 8 tipo Guarín ao meio campo, sendo ainda lacuna evidente a existência de alguém que remate bem de fora da área), para lateral direito (!), retirando o melhor assistente da época passada (Layun) após preenchimento da área com avançados talhados para o jogo aéreo (o regresso de Depoitre). 
É certo que a atitude do Setúbal foi indigna de qualquer futebol para levar a sério, uma coisa terceiro-mundista e estimulada desde fora, uma hino à manha, um compêndio do pior que se pode imaginar ser possível num campo de futebol (depois do ambiente selvagem do Bessa, o jogo frente ao Setúbal figura entre os casos de jogos que devem ser mostrados com bola vermelha no ecrã); mas NES não esteve, igualmente, à altura do exigível.
Soares, nesse jogo, deu mostras de quebra física considerável, que na Luz voltou a observar-se. Como André Silva não é efetivo, a questão dos golos fica como séria interrogação, de novo. Octávio foi como se não tivesse regressado da lesão. Corona não atingiu os níveis pré-Talocha. Danilo e Felipe, erráticos e nervosos.

3.FCP-Setúbal. Últimos minutos acompanhados em direto, em estúdio, pela sic notícias. O apresentador confidencia-nos que este tempo final está "a ser acompanhado com grande emoção em estúdio". Esperei para ver quem seriam os convidados, por certo algum ex-jogador do FCP a sofrer com o empate, ou ex-atleta do Setúbal ou de clube que beneficiasse da performance sadina; alguém das claques, talvez. E, sim, lá estava Jorge Baptista. Com Ribeiro Cristóvão e Daúto Faquirá. Agora, já percebo "a emoção em estúdio". Tempo de compensação: 7 minutos. Jorge Baptista, em pulgas na cadeira, não consegue calar a sua revolta, a gente percebe como está escandalizado com semelhante pouca-vergonha e não é apenas o sorriso irónico; não se fica pelo gesto, não vá um espectador menos atento não entender, e atira: "valia mais recomeçar o jogo!". Jorge Baptista é um dos inúmeros mártires (de Manuel José a João Querido Manha) que caíram por denunciar o sistema, e outras calamidades que tais. Claro que dizer que Baptista se mantém ininterruptamente a comentar, sempre com o mesmo espírito de isenção, honestidade intelectual e densidade de análise há mais de vinte anos, em tudo que é televisão, não é motivo para lhe retirar o título (de mártir da liberdade face à mão negra que denunciou e denuncia; em linguagem atualizada, "o caos e a anarquia"). Nunca lhe faltou a voz para denunciar Vítor Baía como "um produto de marketing" - segundo Rui Águas, este fim de semana, ao Sol, "o melhor guarda-redes português que defrontei" -, nem, agora, para pontuar os escândalos dos tempos de compensação de jogos do Porto, recusando-se, como se sabe, de resto, a assistir à segunda parte do FCP-Tondela, indignado com o que se estava a passar no Dragão. 
Um jornal como o Record, insuspeito de um mínimo de portismo, contabilizando apenas as principais paragens do FCP-Setúbal identificou 16 minutos de tempo perdido, 14 dos quais da responsabilidade do Vitória de Setúbal, incluindo 9 entradas da maca, 4.47mn perdidos pelo guarda-redes, e mais de 3' pelo lateral Vasco Fernandes. Segundo as contas deste jornal, só na primeira parte deviam ter sido concedidos 9 minutos de compensação (foram 5).
Um ex-Presidente da AG do clube da luz, ao tempo de Vale e Azevedo, protagonizava um anúncio que passava recorrentemente nas televisões, no qual o senhor exclamava: "querem matar o benfica!". Jorge Baptista, e os comunicados do sr.Luis Bernardo sr.João Gabriel  sr.Hugo Gil, são os herdeiros - os novos homens dispostos ao martírio - dessa escola exemplar. De stand up, claro.

4.É certo, como diz Jorge Costa, hoje, em OJogo, que Jonas, no clássico - fraquinho e mal jogado, ainda que com mais ocasiões, sem dúvida, para os visitados - da Luz, "encarnou o espírito do 1 de Abril" (quantos mergulhos, quantos fitas, quanto fingimento, quantas piscinas, quanta atitude anti-desportiva? E quantos amarelos?). Mas o que esperar depois de duas semanas em que se denunciaram conspirações contra o clube da luz, se boicotaram jogos e galas e em que tremiam de revolta contra a perseguição de que são alvo (lembram-se?, "querem matar o benfica!")? Xistra fez o que pôde - e, convenhamos, não pode muito. Mais três comunicados, cinco boicotes, quatro Jorge Baptistas e temos campeonato. 

5.Interessante entrevista de Rui Águas, ao Sol

Sobre Jesualdo Ferreira: "Jesualdo Ferreira foi daqueles que me conseguia explicar: 'vamos fazer isto por causa disto' (...) Depois trabalhei com ele como assistente durante três anos, conheço o trabalho dele quer enquanto atleta, quer enquanto atleta, quer enquanto colega. Trabalhou muito, refletiu muito, fez muito projeto, tem bases muito sólidas, uma experiência muito grande. Ultrapassou aquele estigma do professor de faculdade, que chega sem experiência de jogador e só com muito trabalho conseguiu a carreira que fez (...) Ter conseguido o que ele conseguiu, só com competência, muito trabalho e muito mérito". 

Sobre Eriksson: "Eriksson era uma referência mais global, mas não posso dizer que me tenha marcado pessoalmente. Era bom, mas não era 'Ah, o Eriksson era bestial!'. Não posso dizer isso (...) não foi o que mais me ensinou".

Sobre o treinador Pedro Carmona, que esteve esta época no Estoril: "Agora há pouco tempo, tivemos na I Liga um treinador que nunca treinou na vida e aparece no Estoril como treinador principal (...) Mas porquê? Com que credibilidade, com que experiência?"

Sobre a sua ida para o FCP: "havia um júnior do Sporting, que era um super-júnior, chamado Luís Figo, que ganhava mais do que eu na minha melhor altura do Benfica (...) Fui ganhar 11 vezes mais para o FCPorto".

Sobre a sua experiência no FCP: "Foi diferente, difícil, especialmente no início, mas boa, as pessoas trataram-me muito bem (...) Havia o estigma por ser ex-Benfica. Era um grupo muito fechado, atletas com história, com títulos. Vindo alguém exterior, e ainda por cima do rival, não era uma integração fácil. E há coisas que se sentem mesmo dentro de campo. Havia um ou outro que não gostava especialmente de me passar a bola - nem em treinos!"

Sobre o futebol: "O futebol para mim era como para o meu pai. Ele dizia muitas vezes que quando se estava em campo, era como se estivesse a meter o fato-macaco. E para mim era igual: era a minha profissão, o meu trabalho, mas não é que gostasse muito. Até por isso agora não jogo futebol. Faço a minha corrida sozinho, o meu exercício. Futebol só quando há um pedido especial, um jogo de caridade, a uma coisa dessas vou, mas jogar com amigos não".

Os melhores jogadores com quem jogou: "Madjer e João Vieira Pinto. Defesa? Venâncio"

6. "Mais importante do que um jogador fazer várias posições é saber fazer a mesma posição de formas diferentes. Esse é, para mim, o "jogador de top" do futebol moderno" (Luis Freitas Lobo, OJogo, 02/04/2017).

7. Mesmo quem defenda o vídeo-árbitro, e encontro-me entre esses, tem que reconhecer o que José Manuel Ribeiro lhe aponta como grande pecado: a perda da espontaneidade do festejo (a Espanha marca em França, o golo é anulado; 40 segundos depois, ah, afinal vamos festejar, foi golo; a França marca, uau, festejos, afinal não, 40 segundos depois estava fora de jogo; com graça o autor chama-lhe "orgasmo ao retardador"; mas antes isso do que vitórias alcançadas com golos com dois metros foras de jogo, ou penaltis inventados na piscina).

8. André Ventura vai ser candidato à câmara municipal de Loures. Numa entrevista ao Diário Económico, em 2015, disse que Sintra "é a única terra que me apaixona".

sábado, 1 de abril de 2017

Pensar de pernas para o ar


Que tipo de profissionais querem recrutar as empresas tecnológicas de Silicon Valley? Se lhe desse três hipóteses para responder, aposto que em nenhuma delas diria filósofos. Pois fique sabendo que além de engenheiros, matemáticos ou físicos, estas empresas procuram cada vez mais especialistas em Filosofia para cargos como "futurologista", "desenhador de ética" ou "analista de procedimentos". E porquê? Segundo o ElMundo, que dedicou esta semana na revista Papel de domingo um artigo ao assunto, para ajudarem a pensar e razoabilizar o futuro e a ponderar as questões éticas e os dilemas morais que as evoluções tecnológicas trazem. Faz sentido, sobretudo quando se avança na Inteligência Artificial, que trilha caminho no que já foi uma quimera e agora já é realidade: meter as máquinas a aprender e a pensar, essa actividade outrora apenas atribuível ao Homem.

Mafalda Anjos, Péricles e Nietzsches, procuram-se, in Visão nº1256, 30/03 a 05/04/2017, p.24