terça-feira, 11 de abril de 2017

Estatísticas


25947 veículos do Estado português. A maioria ao serviço das forças de segurança.
20% dos trabalhadores portugueses trabalha por turnos, uma tendência que veio para ficar e ser incrementada - com o BE a querer uma maior recompensa (p.ex., dias de férias) para quem tem tais trabalhos.

domingo, 9 de abril de 2017

Viagens de finalistas (adolescentes)


Sobre as viagens de finalistas do Secundário, Ana Vasconcelos, pedo-psiquiatra, hoje ao DN:

Bem, a maior parte deles ainda não tem 18 anos, são menores. Por outro lado, esta é a forma que encontram de extravasar as tensões que têm ao longo de um ano que é muito importante; o 12º ano é um projecto de vida. Mas o que acaba por acontecer é que estas viagens para o Sul de Espanha são viagens de deboche, destinadas a deixá-los numa excitação permanente. A indústria do turismo também é responsável. Tenho ouvido relatos de miúdos a dizerem que as agências de viagens chegam a colocar sete e oito alunos num quarto. (...) Acredito que muitos virão revoltados por terem sido expulsos. Penso que o melhor será os pais ensinarem-nos a comportarem-se como turistas quando estão noutro país. Mas os pais devem fazer um bom exame da situação e colocarem-se na posição dos espanhóis perante os estragos que os seus filhos causaram. (...) Os pais deveriam repensar sim, e arranjar viagens de finalistas com outro cariz, daquelas que ficam na memória dos estudantes. Porque a excitação permanente dos miúdos nestas viagens advém apenas de muito álcool e sexo. [Então os pais devem ser duros com os filhos?] Não é serem duros ou repressivos mas têm de impor limites. E também terão de funcionar como uma bússola empática com os filhos, tentarem perceber que os jovens se sentem encurralados no 12º ano, alguns em àreas que não correspondem às suas aspirações, e que depois se desforram com este tipo de comportamentos. As atitudes de beber e fumar demais, seja onde for, são acting out dos jovens e deviam funcionar como avisos sérios para os pais e encarregados de educação.

peça de Rute Botelho, DN, 09/04/17, p.35

P.S. Em 2010 e 2012 mortes de adolescentes, em quedas de varandas, em Lloret del Mar. Quatro alunos foram detidos, por distúrbios, em Palma de Maiorca, em 2006, numa noite de destruição que causou prejuízos de 50 mil euros. Vidros e portas partidas, mesas e televisores atirados pelas janelas. Em 2007, uma aluna foi violada em Lloret del Mar, encontrada seminua e inconsciente.

Solidariedade no sofrimento


MARGUERITE YOURCENAR  CONTA QUE UM AMIGO, QUE TINHA COMBATIDO NA GUERRA DA INDOCHINA, LHE TERÁ DITO: “SE JESUS TIVESSE MORRIDO FUZILADO EM VEZ DE CRUCIFICADO, EU ACREDITARIA NELE”

NÃO HÁ NENHUMA DOR HUMANA, NENHUMA, QUE NÃO TENHA EXPRESSÃO NO SOFRIMENTO DAQUELE CRUCIFICADO

A morte de Jesus permanece na paisagem do mundo como um sinal escancarado, capaz de falar com emoção a todos, crentes e não-crentes. Os evangelhos descrevem essa morte — a morte de um inocente — com um vocabulário despojado de elucubrações teológicas, atendo-se sem mais ao drama que se abate sobre aquela vida, como o poderíamos talvez encontrar lendo as páginas de um jornal. Relata-se o julgamento previamente decidido entre as autoridades em conluio, a solidão do condenado, a desvalorização impiedosa que lhe é imposta pela tortura e chistes que recebe dos soldados, o insuportável espetáculo da sua dor no caminho do calvário, até ao grito final que continua ainda a ecoar na história, e que em algum momento todos os viventes repetem como seu: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes?” Sem deixar de lado alguma informação significativa sobre o que essa morte imediatamente desencadeia: a desmobilização dos discípulos atordoados, a solidariedade corajosa de alguns anónimos, as lágrimas das mulheres assistindo àquilo, a presença frágil e inabalável da mãe do crucificado encarnando o que a poeta russa Anna Akhmátova escreve: “O destino de uma mãe ilumina-se na tortura.
 A própria liturgia cristã, no dia de sexta-feira santa, abdica da sua forma habitual para contemplar, da forma mais nua, o silêncio que a morte de uma vítima impõe. É o dia em que se suspende a celebração da eucaristia: os crentes reúnem-se para ler o relato da paixão e cair de joelhos perante a cruz. Apenas isso. E porquê? Porque talvez só o radical silêncio seja a oração possível. Talvez esse extremo, ardente e radical silêncio seja o hífen que avizinha os seres humanos entre si, para lá de todas as barreiras, e os coloca misteriosamente no espaço de Deus.
A fé de sexta-feira santa formula-se não como uma resposta, mas como pergunta intransigente e inapagável, aquela que o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen assim enuncia: “Vimos o mundo aceso nos seus olhos/ E por os ter olhado nós ficámos/Penetrados de força e de destino.// Ele deu carne àquilo que sonhámos,/ E a nossa vida abriu-se, iluminada/ Pelas paisagens de oiro que ele vira,// Veio dizer-nos qual a nossa raça,/ Anunciou-nos a pátria nunca vista,/ E a sua profissão era o sinal/ De que as coisas sonhadas existiam.// Vimo-lo voltar das multidões/ Com o olhar azulado de visões/ Como se tivesse ido sempre só.// Tinha a face orientada para a luz,/ Intacto caminhava entre os horrores,/ Interior à alma como um conto.// E ei-lo caído à beira do caminho,/ Ele — o que partira com mais força/ Ele — o que partira pra mais longe.// Porque o ergueste assim como um sinal?/ Pusemos tantos sonhos em seu nome!/ Como iremos além da encruzilhada/ Onde os seus olhos de astro se quebraram?”  Ajudam-nos a tatear no escuro as palavras do poeta Paul Claudel: “Cristo não nos foi enviado para explicar a dor, mas para enchê-la da sua presença.” De facto, não há nenhuma dor humana, nenhuma, que não tenha expressão no sofrimento daquele crucificado.
Não há solidão ou experiência de abandono que não possam ser aproximados do abandono em que Jesus morreu. A escritora Marguerite Yourcenar conta que um amigo, que tinha combatido na guerra da Indochina, lhe terá dito: “Se Jesus tivesse morrido fuzilado em vez de crucificado, eu acreditaria nele.” Ora, Jesus morreu crucificado, mas também fuzilado, também num canto da estrada, num pelotão de fuzilamento, numa cadeira elétrica, numa cama de hospital. Ele morre a morte de todas as vítimas da história. Se há  uma palavra que define a sua Paixão, essa é: solidariedade.

José TOLENTINO MENDONÇACONTEMPLAR O CRUCIFICADO, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2319, 08. 04. 2017,  92

Páscoa