"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
segunda-feira, 5 de junho de 2017
quinta-feira, 1 de junho de 2017
A utilidade do inútil
João PAIVA, A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades, Público,
01. 06. 2017, 46.
A grande pergunta da ciência é também a grande pergunta do Homem: “Quem
somos nós?”
Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos deliciaram
e apontaram caminhos... e não tinham
laboratórios. Benditos inúteis!
1.Tenho mais de 30 anos dedicados à ciência, principalmente ao seu ensino e
divulgação. Não me canso de sublinhar o fascínio pela forma científica de
questionar, conjeturar, observar, experimentar, teorizar e até prever o que se
passa no mundo natural. São, resumidamente, duas as pérolas desta empresa
científica: a) o sabor, o gozo, o prazer
e o deleite de tatear a natureza; b) a
potencialidade benfazeja que os conhecimentos científicos encerram, uma vez
que, quando aplicados por meio do que chamamos “tecnologia”, podem beneficiar a
humanidade. O aumento médio da esperança e da qualidade de vida, à escala
global, é um bom exemplo que sentimos (infelizmente não todos...).
2. O poder que a ciência adquiriu é impressionante. E adivinha-se que assim
continue a ser. As nações mais poderosas confundem-se com os países de maior
arsenal científico e tecnológico. Este
poder tem de ser questionado, para que não seja mal usado. A ciência atual,
tenha ou não aplicações imediatas, está condenada a viver no contexto social,
económico e político. A ciência pura, supondo que alguma vez existiu, morreu já
há muito. As grandes avaliações e decisões nunca são só científicas. A ética,
em particular, impõe-se de forma crucial à ciência. Trata-se do discernimento
pessoal e coletivo face à grande questão: “O que devo fazer?”
3. A agenda da ciência contém a
necessidade de autorreflexão. Vejamos três vetores apontados pela sociologia
da ciência: reconciliação com a Terra, combate à pobreza, promoção da mulher.
Muito tem sido feito. Mas, nas políticas científicas, o ambiente e a
sustentabilidade ainda não são priorizados, o combate à pobreza não se reflete
de forma consequente na distribuição de recursos de investigação à escala
mundial e a mulher ainda não ocupa lugares de destaque nas instâncias de
decisão empresarial, política, científica e tecnológica.
4. Aos futuros cientistas costumo
dizer que não haverá lugar na ciência para gente que só veja números, fórmulas
e laboratórios. Aqui emergem as
necessidades de competências transferíveis bem desenvolvidas, que façam dos
cientistas pessoas capazes de trabalhar em grupo, de apresentar ideias, de
esboçar projetos, de refletir sobre a ciência que protagonizam.
5. Como químico, sempre fui impelido para as misturas...Nós, químicos,
focados na realidade atómico-molecular, passamos a vida a fazer análises e
sínteses...As análises permitem-nos saber o que está e quanto está. As sínteses são muito relevantes: ligam,
constroem, geram novos materiais e novas vidas. As ciências exatas estão
carentes de sínteses. Temos de ter a consciência da artificialidade das
disciplinas científicas, face à natureza que teima em ser uma só. Sim,
separamos para analisar, mas, se perdemos a noção da floresta, lá ficamos
míopes ao ver só a árvore.
6. Durante muito tempo, e também para conseguirem afirmação de estatuto na
sociedade, as áreas do saber conotadas com as humanidades, como a história, a
psicologia ou a sociologia, aproximaram- se das metodologias das ciências
exatas e naturais. Também se usam, por exemplo, instrumentos e meios
tecnológicos naquelas áreas.
7. Os docentes e investigadores universitários vivem um dilema: a sua
carreira é dramaticamente competitiva. As exigências de financiamento não nos
permitem desperdiçar oportunidades de projetos. Alguma burocracia, sem
retaguarda de secretariados de apoio, subtrai-nos imenso tempo. A leitura e a escrita de artigos em grande
número deixam muito pouco tempo para outras leituras. Mas o virar as costas às
humanidades pode ser fatal para a ciência. E, portanto, quanto mais não
seja pela ciência, teremos de ser criativos para reconhecer e valorizar o que
somos e ao que vamos, numa perspetiva humanista. Estar conscientes de que a grande pergunta da ciência, nas palavras de
Schrödinger, é também a grande pergunta do Homem: “Quem somos nós?” Neste
sentido, não cair na conta, por exemplo, das nossas raízes
greco-latino-judaico-cristãs poderá ser suicidário.
8. Estas reflexões deverão ter implicações na vida académica das escolas de
ciência. As faculdades, incluindo as
de ciências, têm obrigação de proporcionar aos seus alunos, aos seus docentes e
investigadores espaços de reflexão transdisciplinar e de alargamento de
horizontes culturais. A
formação de professores de ciência deve contemplar mais profundamente a
história e a filosofia da ciência e da civilização, a literatura e a arte,
fazendo pontes com outros saberes. Talvez
as avaliações curriculares das carreiras científicas possam valorizar mais a
comunicação e inculturação da ciência, a par da análise das publicações
científicas, que poderão ser sujeitas a um olhar mais focado na qualidade do
que na quantidade. A universidade, na
universalidade a que está chamada, está ainda muito cristalizada na
disciplinação avulsa, oferecendo timidamente cursos de mistura humanista e
multidisciplinar, que o nosso tempo reclama como urgentes. Abstenho-me de falar das óbvias
consequências que todas estas ideias deveriam ter na atenção às humanidades nos
ensinos básico e secundário (de pequenino se torce o pepino!). Sem
prejuízo de, em simultâneo, na difícil metáfora de uma manta curta para a
complexa cama curricular, se aumentar a intensidade da aprendizagem das
ciências e da prática laboratorial, em particular.
9. Perceber-se-á agora melhor o título deste texto. Não coloquei aspas na
palavra inutilidade. Queria agarrar o leitor, é certo, mas, mais ainda, sublinhar que é de inutilidades que é
tecida a humanidade. A
ciência, recuperando a sua humildade epistemológica, deve saber abrir-se às
artes e humanidades. Um
cientista sabe que a sua grelha é um dos instrumentos para se ler o mundo, mas
nunca o único, nem o melhor. Sabemos que Kant, Tolstói ou Beethoven nos
deliciaram e apontaram caminhos... e não tinham laboratórios. Benditos inúteis!
Professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto
A missão da Igreja, um novo processo
A ideia de aprendermos (Igreja) a ser pequeninos, humildes, talvez irrelevantes: "uma minoria qualificada e qualificadora". Uma Igreja "que já não tem a preocupação de ser simplesmente triunfal [ela mesma], mas que ajuda a triunfar" na vida concreta. O objectivo não é ela ser triunfal, mas ajudar a que as pessoas triunfem e possam sentir-se salvas, transformando essa vida. Uma minoria qualificada porque leva a sério a vida. Qualificada na vida. E, levando a sério a vida, pode, de dentro dessa vida, qualificá-la. Levá-la mais longe. Ser benção. Antes de celebrar o central, começar por celebrar pequenas coisas na vida e ajudar a fazer caminho. Celebrar a singularidade e irrepetibilidade de cada um. Mas cada um só é singular e irrepetível em comunidade. Porque sozinhos somos mundos totais, cada um é total para si mesmo. Não tanto levar Deus onde ele "não estava", mas "ajudar a pessoa a dar-se na conta de atentar em Deus onde Ele sempre esteve".
Fé e vida (II)
Podemos pensar a cultura, com Juan Ambrosio, como os modos de vida de uma população e os esquemas de significação - que significado atribuem as pessoas - a esses modos de vida. Nesse sentido, as comunidades cristãs têm que propor um "cristianismo antropologicamente significativo": que dê significado à vida. Que dialogue e transforme a cultura (circundante/em que se insere). Quando a fé atribui significados novos à vida, produz novos modos de vida, porque dá sentido à maneira de viver. É aqui que se joga a benção. Porque ajuda a viver de outra maneira. E, como diz José Frazão, "a fé não pode deixar de saber aquilo que dá sabor à vida".
Fé e vida
Ainda a partir de Salmann, José Frazão fala da "correia" (da bicicleta) que se partiu, deixando as duas rodas de funcionar com a harmonia de outrora: "no tempo do meu avô", as pessoas "trabalhavam durante a semana", "à noite rezava-se o terço", ao "Domingo ia-se à missa, à tarde ia-se ao terço", quando se passava diante da Igreja "tirava-se o chapéu", procurava-se "ter uma moral" que correspondia a "uma compreensão da fé", durante os dias "aceitava-se os sofrimentos porque isso seria o que estaria nos planos de Deus", "se acontecia uma morte prematura, paciência, é a vontade de Deus" e, portanto, "a fé era celebrada na vida" e a "vida era celebrada na fé". Tudo funcionava. Esta ligação rompeu-se, em grande medida. E, de fora da Igreja, a fé pode ser percepcionada como irrelevante. Mesmo no interior da ecclesia, "também temos dificuldade em trazer para o espaço da celebração a vida como ela é - não como gostaríamos que ela fosse, ou como o catecismo diz que ela dizia ser". Uma linguagem, uma piedade, um conjunto de práticas que têm que ser repensadas.
Creio que, em sintonia com o que outros teólogos, aqui se pergunta, radicalmente, o que vai ficar (o que temos que salvar, e o que já não tem pertinência) de toda uma Tradição, a recusa de cingir o cristianismo a uma moral, e o que podemos intuir de gestos de mudança, de um acolhimento/hospitalidade sempre crescentes de um outro jesuíta na cátedra de São Pedro, a partir da central da categoria de "misericórdia".
"Benção" e a debilidade
A vida tomada como coisa boa e como quem respira. Sem uma fé "sacral", "dura", "intimidatória" - a "obsessão por respirar" -, nem reduzida a um sentimento (uma emoção, uma excitação, uma boa sensação antes do dia seguinte). O cristianismo pensado a partir da categoria de "benção" (Deus que nos "bem diz", que nos leva a "bendizer" a vida), em vez, por exemplo, de "salvação" (ou, no extremo oposto, p.ex., um sentimento). Assumindo a debilidade e fragilidade, um despojamento e uma humildade outra; a recusa de um "museu", uma "estátua". Um cristianismo que tem que significar para os homens e mulheres de 2017. Elmar Salmann apresentado por José Frazão - excelente Professor.
Os Judeus na Segunda Guerra Mundial - José Pacheco Pereira
Na apresentação do livro de Esther Mucznik, Pacheco Pereira reconhecendo a dificuldade de "com as categorias da História" se adentrar no fenómeno do "mal absoluto" que foi a Shoa, e recordando que duas das lições desse momento trágico foi o fim da ideia de uma história linear e em progresso e a de que a cultura, por si só, não basta para fazer de alguém uma pessoa recta.
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