sexta-feira, 20 de outubro de 2017

MOBILIDADE SOCIAL EM PORTUGAL



Estudo de Teresa Bago d’Uva e Marli Fernandes sobre a mobilidade social em Portugal, para a FFMS, publicado esta semana. Principais conclusões:

*Mobilidade social em Portugal é mais baixa do que na média da UE;
*Houve progresso e aproximação à média europeia, ao longo das últimas décadas;
*Mobilidade intra-geracional (o mesmo indivíduo ao longo dos anos passa de um patamar de rendimentos para outro?): também aqui uma mais fraca mobilidade em Portugal do que na média europeia;
*Entre 2003 e 2013, uma tendência de maior mobilidade intrageracional em Portugal (e alguma descida na UE);
*Em 1940, 84% de reprodução social (filhos, em 84%, com a mesma escolaridade que os pais);
*As alterações que mais se verificaram foi o aumento de escolaridade dos filhos de pais com o ensino básico;
*Dos anos 60 – onde a reprodução social ainda era muito próxima da década de 1940 - em diante é que se verifica a tal mobilidade social: em 1970, já são 41% os filhos a terem uma escolaridade superior à dos pais;
*Na UE, os filhos nascidos em 1940, em 40% dos casos, iriam ultrapassar a escolaridade dos pais;
*Na Mobilidade em termos de Profissões, de pais para filhos, verifica-se que entre os nascidos na década de 1940, em 64% dos casos, a categoria profissional era semelhante à dos ascendentes; entre os nascidos em 1970, esse valor cai para 51%; passam a ter uma categoria profissional superior à dos pais, nessa data, 36%; Não há, neste caso (da análise profissional) a mesma alteração dramática verificada para o caso da escolaridade;
*Ao nível dos rendimentos, quanto mais o pai estudou, mais o filho ganha; em Portugal, um filho de um pai com o ensino superior ganha, em média, mais 6700€ (ano) do que um filho de um pai com o ensino básico (mesmo entre os nascidos depois de 1970);
*Na mobilidade intra-geracional, entre 50 a 60% dos indivíduos mantém-se no mesmo decil de rendimento de um ano para o outro (nos anos 1986-2009); os que muda de decil, não vai muito longe (40-50%); ao longo dos anos, a este nível, menos mobilidade social (ao longo dos anos, menos pessoas conseguem passar, na sua vida, para um decil de rendimento maior, na sua carreira);
*Talvez o maior canal de transmissão de pais para filhos sejam os recursos financeiros;
*Podemos pensar nas aptidões inatas, competências adquiridas; saúde física e saúde mental; contexto familiar: normas, expectativas, estímulos, apoios; ambiente social, rede de contactos (na transmissão do estatuto sócio-económico);
*Possíveis políticas públicas face a este contexto: o país ter um ensino público de qualidade (que permita que quem vem de baixo possa ascender socialmente; as ferramentas que não teve em casa, possa adquiri-las na escola); combate à pobreza e exclusão social; combate ao desemprego de longa duração; orientação escolar e profissional nas escolas; pré-escolar; políticas de habitação (que promovam a integração em vez da segregação);
*Houve maior mobilidade de pai para filha e menos de pai para filho.

Comentários ao estudo de Carlos Farinha Rodrigues:

*Nos últimos anos, com a crise económico-financeira, assistiu-se à inversão de expectativas quanto ao bem-estar das novas gerações (face às gerações que as precederam), como estando estas a caminho de uma vida pior, ao nível de rendimento. Ainda não há dados, nesta altura, que validem esta hipótese;
*Relação entre mobilidade social e desigualdade: quer a mobilidade inter-geracional, quer a intra-geracional é bastante mais baixa do que na Europa, ao mesmo tempo que o nosso país possui das taxas mais elevadas de desigualdade na Europa;
*O estudo refere um papel equalizador à mobilidade; que relação entre níveis de desigualdade e a mobilidade social na Europa?;
* Relação entre mobilidade social e crescimento económico: até 2009, houve efectivo crescimento económico. Entre 1993-2000, diminuição da mobilidade intrageracional; entre 2003-2013 aumento. Era bom conhecer-se a relação entre o tipo de crescimento e o tipo de mobilidade; em períodos de crescimento é mais fácil haver mobilidade, ou o contrário?;
*No passado recente em Portugal, há períodos em que a desigualdade familiar desce, mas a desigualdade salarial sobe e períodos, recentes, em que se verifica o oposto;
*Mobilidade inter-geracional: uma abordagem exclusivamente económica é redutora; exige-se uma abordagem multidisciplinar;
*Em nenhuma parte do estudo, se avança com a questão legislativa sobre a escolaridade obrigatória; o mesmo grau obtido, pode representar coisas diferentes, ao nível do estatuto sócio-económico ao longo das décadas; a questão, ainda, do forte decréscimo de actividades como a pesca (há aqui factores estruturais – da estrutura do emprego – para além da mobilidade social);



Só considerar o pai – neste estudo – e não a mãe não levará a algum enviesamento no estudo, perguntou-se da plateia?


Omnipotência (II)


O vocábulo «omnipotente», martelado na liturgia, nunca aparece no Evangelho, nunca na boca de Jesus como atributo de Deus. Jesus é a narração não da omnipotência, mas da ternura de Deus, da sua combativa ternura. Deus é amor (...) pode somente o que o amor pode. Sua não é a potência de um cirurgião que intervém e extirpa o mal, nem a potência de um exército que destrói os inimigos, ou de um vulcão que transforma a geografia de uma ilha...Mas sua é a potência de uma semente, de um amante, de uma mãe com o seu filho amado, que não pode curar, mas mantém-se a seu lado e não o deixa só, está ali com o coração, com força e segurança, numa presença que não abandona.
Deus não é um «omnipotente que ama», um rei cheio de poder absoluto que se digna a amar; é um «Amor omnipotente», que pode amar as suas criaturas até ao extremo, até ao fundo, sem limites, como ninguém (cf. Jo 15,13). Ele é o primeiro a amar, ama perdidamente, ama sem contracâmbio. É um Deus que só pode o que o amor pode. Não é um Deus omnipotente, em conformidade com a linguagem política ou os nossos mitos humanos, que aniquila os inimigos (com efeito, as trevas persistem e o mal encontra-se ao lado do bem...), mas é um Deus omni-amante, que só pode tudo o que o amor pode.
Omni-amante significa belo, porque a norma, a regra, o nomos da beleza é o amor. Belo é todo o gesto de amor, belíssimo é quem te ama até ao extremo.

Ermes Ronchi, As inquietantes perguntas do Evangelho, Paulinas, 2017, pp.33-34

Omnipotência


A omnipotência de Deus é a omnipotência do amor. Deus pode o que o amor pode. E o amor pode tudo. E Deus é amor. Não um senhor de barbas, nos bastidores, que infringe as regras da natureza.



Onde está a vossa fé? Onde está? Nos sinais da omnipotência? Num Deus que mostra ser capaz de infringir as regras da natureza? Num Deus omnipotente ou num omni-amante? É muito fácil acreditar perante o milagre que te salva. «Não, acreditar na Páscoa não é uma fé correta: «És demasiado belo na Páscoa! A fé verdadeira é na Sexta-Feira Santa» (David Maria Turoldo)

Ermes Ronchi, As inquietantes perguntas do Evangelho, Paulus, 2017, p.33.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Salve-se quem puder


Os termos da carta de demissão de Constança Urbano de Sousa atiram a António Costa. Todavia, se alguém alimentava a expectativa de o Governo perder o suporte parlamentar, o debate quinzenal foi esclarecedor: tal não ocorrerá (e, diga-se, que conhecidas as linhas do OE 2018 não se compreenderia outra atitude dos partidos à esquerda do PS). Esta tarde, Hugo Soares não resistiu ao número de pequena política quando insistiu numa moção de confiança  que o Executivo devia apresentar para se perceber se as esquerdas estavam unidas - como se fosse isso o mais importante do dia de hoje, e como se alguma mossa isso causasse no Governo, como se viu, de imediato, na primeira intervenção da tarde de Catarina Martins. Assunção Cristas, no tom certo, colocou o ponto: o que disseram secretário de Estado da Administração Interna, e Ministra da mesma pasta, durante a tragédia de Domingo, foi um "salve-se quem puder". Eis um tópico em que João Miguel Tavares, no Público, teve razão: não se pode ter um discurso contra uma visão (ultra)liberal do Estado e da sociedade e, simultaneamente, fazer-se o discurso de que "as populações têm que ter outra resiliência" e não podem estar à espera dos aviões e do Estado (levando a lógica da visão criticada ao paroxismo). Tavares fazia, aqui, uma analogia com o "não sejam piegas" e o "aguenta, aguenta" (da legislatura anterior), e compreende-se, com efeito, a comparação. Há uma triste dança de máscaras. E, já agora, a contrario, durante quatro anos João Miguel Tavares sustentou - e creio que continua a defender - esse tipo de visão sobre o estado (mínimo) e a sociedade, em cujo discurso se situava o governo onde esteve também Assunção Cristas. 

Sem tirar nem pôr


Há muito, muito tempo que não sentia que um discurso de um dos mais altos magistrados da nação, em Portugal, calava tão fundo e correspondia tanto ao sentimento das populações, como o de ontem do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Um discurso com grande inteligência emocional, e a firmeza e dureza políticas que se impunham no momento. Um discurso justo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma distância inaceitável


Aos governantes exige-se empatia com aqueles de quem são emanação e representam. É especialmente chocante que entregues as pessoas à sua sorte num combate de vida e de morte com os fogos, regresse, pela voz socialista, o pior de um discurso moralista, feito de cima para baixo, sem se abeirar do outro: "as populações têm que ser mais resilientes", ou, "não podem estar à espera dos nossos aviões", etc. Se os cidadãos deste país não podem esperar nada do Estado quando mais dele necessitam, fica essa ajuda para que altura? Reacções, dirigentes, auto-centradas, distantes, longe do país e do seu sentir, sem a assunção das responsabilidades - que são já evidentes, neste caso, como a questão da desmobilização dos meios evidencia - mina a confiança das populações e faz com que ministros ou secretários de Estado tenham deixado de o ser, mesmo que ainda o não tenham entendido.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Tática, tática, tática, ego, ego, ego


Comecei a semana a ouvir a estreia de Manuela Ferreira Leite na TSF: desancou o CDS (e a sua proposta, a nível fiscal, das horas extra). Na quinta, na TVI24, considerou que Santana Lopes era a pessoa indicada para decidir sobre a participação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no Montepio Geral - por conhecer todos os dados do problema - e garantiu não perceber a saída daquele dirigente de tal instituição, ao mesmo tempo que se mostrou ufana com o discurso de apresentação de Rui Rio ("muito bom"). Já se tinha percebido com Marques Mendes: com Rio ao leme, o comentário laranja nas televisões deixará, em grande medida, de conter fogo amigo e haverá mais intervenções de tipo claque
No discurso de apresentação aos militantes, de Rui Rio, tudo é conjuntural, ditado pelas circunstâncias, o que depois de mais de um ano no terreno soa a pouco: o "reconhecimento a Passos" é resposta ao Santana que na véspera pedira que não se votasse em quem andou a criticar o "líder" em anos difíceis; o "não vou fazer um bloco central" era a resposta a todo o passismo que reagia em uníssono, dessa forma, aos avanços de Rio; o "partido que não é de direita" correspondia à necessidade do momento e a alguma base social de apoio no interior do partido (algumas elites). Todavia, Rio utilizou a expressão "rótulo de direita" (que teria sido colado ao PSD, nos últimos tempos). Das duas, uma: ou o problema é do rótulo - e aí a questão não implica nenhuma mudança de liderança, para quem acha mal essa vinculação à direita; quando muito, mudava-se a agência de comunicação no partido -, ou é de conteúdo, de políticas, e, nessa altura, sim, seria preciso mudar de liderança. Ora, como havia que fazer o elogio do trabalho de Passos - de quem, na entrevista à TVI, aliás, Rio disse nunca ter divergido por aí além - e, ao mesmo tempo, afastar-se de Passos, usa-se o velho truque do "problema de comunicação" (agora é o "rótulo"). Mesmo entre os mais afamados corajosos do país, a táctica e a velha escola não falham. E, claro, o que também não podia faltar no dia de apresentação, na mesma altura em que era conhecida a acusação do caso Marquês, era o "banho de ética" - embora os mais cépticos, depois da entrevista de Rio à TVI, se questionem se será ético associar André Ventura a Santana Lopes, em termos ideológicos (com todos os defeitos, não me recordo de Santana Lopes ter atacado etnias por inteiro, aceitar a pena de morte e ter percorrido com embalo tudo o que podia ser tema de franjas extremistas de direita, ou populistas).
A frase, em todo o caso, que talvez, a meu ver, melhor sintetize, o que vai estar em jogo até Janeiro, na disputa interna do PSD, foi assim dita por Rio: "acho que o que vai estar em jogo é um confronto de personalidades". Se a apreciação destas seria sempre importante e nada dispicienda, contudo, depois de ano e meio no terreno, não seria de apresentar algo do ponto de vista programático?
Do lado de Santana Lopes, as coisas não foram diferentes: com instinto mediático e 200 mil pessoas a invadirem o espaço do Tempo Extra de Rui Santos, lá fez a proverbial antecipação a Rio, teve a "converseta" (segundo o próprio) com o espectador e avançou "porque senti que tinha esse dever" - pois, mas a pergunta é porque acha que tinha esse dever -, até porque o outro menino dizia mal do anterior que estava no mesmo lugar. Não perguntem a Santana pelo programa - embora se diga uma pessoa que "não é de esquerda" - porque ele não esperava por esta e não é de um dia para a noite que este se elabora (dizemos nós, com candura). 
Nas hostes, digamos que não reina o entusiasmo: José António Saraiva, dos articulistas mais aguerridos no PSD, no Sol, escreveu que Rio "não tem dimensão nacional" e Santana é "uma solução do passado"; Sousa Tavares, que Luís Nobre Guedes sugeriu para um grupo de independentes a apoiar uma futura coligação do centro-direita, no Expresso, não poupou nenhum dos candidatos. 
Marques Mendes considera que serão eleições "muito competitivas". Ele conhece infinitamente melhor do que eu o partido e os bastidores, mas permito-me duvidar: depois da experiência governativa de Santana, depois de se ver como grande motivação de apoio a S.Lopes um movimento anti-Rio, creio que o ex-autarca do Porto tenderá a vencer com certa facilidade.
Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Santana dando o evidente sinal político (adivinha-se que mais anti-Rio que pró-Santana), e logo a seguir negou-o ("sabem bem que não visto a camisola de ninguém"; mais uma "traquinice" de Marcelo, apontou, Saraiva). Ao nível do jogo das personalidades, surpreendente mesmo, talvez só Carlos Moedas: "como sabem, um comissário europeu não pode apoiar ninguém, mas Santana Lopes é alguém excelente e com muito para dar ao país". A cantiga e a manha são as mesmas - aí, não há surpresa nem inovação.
A ideia de um Congresso programático já lá vai - parece que essa proposta foi há uma eternidade, tal a forma como qualquer ilusão a esse respeito foi desfeita em uma semana - e tudo se joga no "perfil", na "personalidade", na "táctica". Como diria Carlos Amaral Dias, "só pedia 10%" de empenho - em políticos; isto é, não é preciso bater demasiado no peito - pelo interesse público e o bem comum (quer dizer, para lá do ego). Mas não está fácil. 
Na semana em que se conheceu uma proposta de orçamento de estado que nos deixa muitas interrogações, reservas e difícil concordância, gostar do que se vê na política nacional - em que tudo parece subsumido a pequenos joguinhos, em praticamente todas as áreas políticas, onde a convicção e uma ideia de cidade surgem tão longínquos; Marques Mendes tem razão neste ponto: o resultado final da proposta de OE é indissociável do resultado autárquico do PCP, mas não se pode colocar em causa a sustentabilidade das finanças públicas em virtude desse arranjo - fica difícil.