Também salientámos uma das questões essenciais do actual processo de globalização: as trajectórias económicas divergentes das pessoas no velho mundo rico versus as na Ásia emergente. Em suma: os grandes vencedores foram os pobres e as classes médias asiáticas; os grandes vencedores foram as classes médias baixas do mundo rico.
Esta afirmação arrojada pode não surpreender muitas pessoas nos dias de hoje, mas teria sido certamente surpreendente para muitos, se tivesse sido feita no final da década de 1980. Os políticos do Ocidente lutaram por uma maior confiança nos mercados nas suas economias e no mundo depois da revolução Reagan-Thatcher não esperariam que uma muita exultada globalização falhasse em trazer benefícios palpáveis para a maioria dos seus cidadãos - ou seja, precisamente aqueles a quem estavam a tentar convencer das vantagens políticas neoliberais, comparadas com regimes de assistência social mais proteccionistas.
Mas tal afirmação teria parecido ainda mais surpreendente para aqueles, incluindo o economista vencedor do Prémio Nobel Gunnar Myrdal, que temeram no final da década de 1960 que as massas asiáticas, que ascendiam a muitos milhões e mal conseguiam sobreviver com os seus rendimentos, ficassem confinadas a uma pobreza perpétua. Toda uma literatura das décadas de 1950 e 1960 (como The Population Bomb [A bomba populacional] [1968] de Paul Ehrlich) tinha como principal tema o perigo que o crescimento da população representava para o desenvolvimento económico no Terceiro Mundo. A experiência asiática do último quarto do século XX contradisse na totalidade tais advertências alarmantes. Ao invés de «Drama Asiático»., o título do livro de Myrdal, ouvimos falar actualmente do «Milagre do Leste Asiático», do «Sonho Chinês» e da «Índia Cintilante», expressões cunhadas para se equipararem ao «Sonho Americano» e ao «Wirtschaftswunder» (milagre económico) alemão. Refiro este exemplo aqui (...) para sublinhar as dificuldades inerentes a uma previsão de longo prazo do desenvolvimento económico, sobretudo à escala mundial. O número de variáveis que podem mudar, e que mudam de facto, o papel das pessoas na história («livre-arbítrio») e a influência de guerras e catástrofes naturais são tão significativos que até previsões de tendências gerais feitas pelas melhores mentes de uma geração raramente estão correctas.
Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, Actual, 2017, pp.30-31

