quinta-feira, 2 de novembro de 2017

DESIGUALDADE (VIII)


Também salientámos uma das questões essenciais do actual processo de globalização: as trajectórias económicas divergentes das pessoas no velho mundo rico versus as na Ásia emergente. Em suma: os grandes vencedores foram os pobres e as classes médias asiáticas; os grandes vencedores foram as classes médias baixas do mundo rico.
Esta afirmação arrojada pode não surpreender muitas pessoas nos dias de hoje, mas teria sido certamente surpreendente para muitos, se tivesse sido feita no final da década de 1980. Os políticos do Ocidente lutaram por uma maior confiança nos mercados nas suas economias e no mundo depois da revolução Reagan-Thatcher não esperariam que uma muita exultada globalização falhasse em trazer benefícios palpáveis para a maioria dos seus cidadãos - ou seja, precisamente aqueles a quem estavam a tentar convencer das vantagens políticas neoliberais, comparadas com regimes de assistência social mais proteccionistas.
Mas tal afirmação teria parecido ainda mais surpreendente para aqueles, incluindo o economista vencedor do Prémio Nobel Gunnar Myrdal, que temeram no final da década de 1960 que as massas asiáticas, que ascendiam a muitos milhões e mal conseguiam sobreviver com os seus rendimentos, ficassem confinadas a uma pobreza perpétua. Toda uma literatura das décadas de 1950 e 1960 (como The Population Bomb [A bomba populacional] [1968] de Paul Ehrlich) tinha como principal tema o perigo que o crescimento da população representava para o desenvolvimento económico no Terceiro Mundo. A experiência asiática do último quarto do século XX contradisse na totalidade tais advertências alarmantes. Ao invés de «Drama Asiático»., o título do livro de Myrdal, ouvimos falar actualmente do «Milagre do Leste Asiático», do «Sonho Chinês» e da «Índia Cintilante», expressões cunhadas para se equipararem ao «Sonho Americano» e ao «Wirtschaftswunder» (milagre económico) alemão. Refiro este exemplo aqui (...) para sublinhar as dificuldades inerentes a uma previsão de longo prazo do desenvolvimento económico, sobretudo à escala mundial. O número de variáveis que podem  mudar, e que mudam de facto, o papel das pessoas na história («livre-arbítrio») e a influência de guerras e catástrofes naturais são tão significativos que até previsões de tendências gerais feitas pelas melhores mentes de uma geração raramente estão correctas.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, Actual, 2017, pp.30-31

DESIGUALDADE (VII)


Em 2013, de acordo com a lista de multimilionários da revista Forbes, havia 1426 indivíduos no mundo cujo património líquido era igual  ou superior a mil milhões de dólares. Este grupo pequeno e selecto, juntamente com os seus familiares, representa um centésimo de um centésimo de 1 por cento da população mundial. O seu património total está estimado em 5,4 biliões de dólares. Segundo um relatório de 2013 do Credit Suisse (...), a riqueza do mundo está estimada em 241 biliões de dólares. O que significa que este grupo incrivelmente ínfimo de indivíduos e as suas famílias controlam cerca de 2 por cento da riqueza mundial ou, dito de outra forma, o dobro de toda a riqueza existente em África.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, Actual, 2017, p.52

QUEM GANHOU COM A GLOBALIZAÇÃO? (II)


Trata-se das pessoas que são mundialmente muito ricas (os 1 por cento de topo a nível mundial) e cujos rendimentos reais aumentaram substancialmente entre 1988 e 2008. São também as vencedoras da globalização, quase tanto (e como veremos a seguir, em termos absolutos ainda mais) como as classes médias asiáticas. As pessoas que pertencem aos 1 por cento de topo a nível mundial são esmagadoramente de economias ricas. Os EUA dominam aqui: metade das pessoas nos 1 por cento de topo a nível mundial são norte-americanas. (Isto significa que cerca de 12 por cento dos norte-americanos pertencem ao 1 por cento de topo a nível mundial.) As restantes são quase inteiramente da Europa Ocidental, do Japão e da Oceânia. Dos que restam, Brasil, África do Sul e Rússia contribuem 1 por cento cada com as suas populações. (...) Vimos que o grupo B, com ganhos iguais a zero ou insignificantes decorrentes da globalização, é constituído sobretudo pela classe média baixa e pelos segmentos mais pobres das populações dos países ricos. Em contraste, o grupo C - vencedores da globalização - é constituído pelas classes mais ricas desses mesmos países. Uma dedução óbvia é que as disparidades de rendimentos entre o topo e a base aumentaram no mundo rico, e que a globalização favoreceu aqueles dos países ricos que já viviam bem.

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, p.32

Tempos de pessimismo


Resultado de imagem para pessimismo

Na entrevista concedida por António Damásio, a Clara Ferreira Alves, no último fim de semana, ao Expresso, fica muito patente, de novo, um sentimento de pessimismo - ou de um realismo que contrasta com um optimismo ingénuo de outrora - que hoje perpassa muitas elites ("uma coisa que me preocupa muito, o presente estado da cultura humana. Que é terrível. Temos o sentimento de que não está apenas a desmoronar-se, como está a desmoronar-se outra vez e de que devemos perder as esperanças visto que da última vez que tivemos tragédias globais nada aprendemos. O mínimo que podemos concluir é que fomos demasiado complacentes, e acreditámos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, que havia um caminho certo, uma tendência para o desenvolvimento humano a par da prosperidade. Durante muito tempo acreditámos que assim era e havia sinais disso"). Para quem, igualmente esta semana, leu a entrevista de Orlando Figes, ao Público, ou o livro Tempo de raiva, de Pankaj Mishra - só para dar três exemplos que me ocorreram - o que perpassa por todos eles é o mesmo tom sombrio sobre o presente (o fim da ideia de progresso, de qualquer «telos» inscrito na história, o desmoronamento da cultura, a democracia em risco, a que juntaríamos, com Milanovic, a alternância política vindoura entre populistas e plutocratas, uma "desigualdade incrível", ou todos os perigos de uma espécie de religião tecnocientífica com Y.Harari, pese o optimismo, porventura cândido, deste em matéria de guerra, fome e peste).

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

QUEM GANHOU COM A GLOBALIZAÇÃO?


Quem são as pessoas que fazem parte deste grupo, os beneficiários evidentes da globalização? Em nove de cada dez casos, são pessoas das economias asiáticas emergentes, predominantemente da China, mas também da Índia, Tailândia, Vietname e Indonésia. Não são as pessoas mais ricas desses países (...) São as pessoas situadas a meio das distribuições nos seus próprios países e, como acabámos de ver, também no mundo. Seguem-se alguns exemplos do incrível crescimento cumulativo experienciado por estes grupos de rendimento médio. Os dois decis medianos (quinto e sexto) na China urbana e na China rural multiplicaram o rendimento per capita por 3 e 2,2, respectivamente, entre 1988 e 2008. No que se refere à Indonésia, os rendimentos urbanos medianos quase duplicaram e os rendimentos rurais aumentaram 80 por cento. No Vietname e na Tailândia (onde a população não se divide em rural e urbana), os rendimentos reais em torno da mediana mais do que duplicaramEstes grupos foram os principais «vencedores» da globalização entre 1988 e 2008

Branko Milanovic, A desigualdade no mundo, Actual, 2017, p.29

Coligações na fragmentação cultural


Lendo as análises de Piotr Buras ao momentum político por que passa a Europa - com uma presença forte de movimentos de extrema-direita e populismo -, a ideia, a fixar, da cada vez maior dificuldade de partidos obterem registos eleitorais que lhes permitam obter maiorias absolutas e governarem sozinhos. Em sociedades cada vez mais fragmentadas, com uma enorme diversidade, com muitos públicos, com múltiplos nichos, torna-se, cada vez mais, complexo, tudo o indicará, elaborar-se uma proposta capaz de cobrir mais de 40% do eleitorado. O fenómeno é, desde logo, cultural - no caso norte-americano, o caso de pessoas que só vêem a Fox News, ou, inversamente, os programas de humor concorrentes que fazem tiro ao alvo aos republicanos, a fragmentação dos canais especializados, a net que responde (apenas) ao que queremos - não alargando o espectro -, o fim das livrarias (e das sugestões mais alargadas que vão além do que já conhecíamos, ou da área temática de conforto), os facebook em (pequena) rede que só corroboram as nossas ideias (preconceitos). O fim das grandes narrativas, a recusa do compromisso
Claro, face ao mesmo contexto, as respostas podem ser diferentes: uma estratégia que aposte tudo em falar, sucessivamente, para camada de público (para cada nicho), pensando que, assim, somará constantemente (o pecúlio eleitoral); ou, ao contrário, ainda assim, formular um discurso único que ouse convocar todos, respondendo com um chão comum onde parece existir apenas eleitorado líquido; propor um cimento para todas as fendas.
Durante anos, pensar-se-ia que falar para um ou outro nicho seria típico de pequenos partidos que não aspirariam a uma vitória; hoje, a doutrina dividir-se-à. A mesma que, em qualquer caso, será capaz de salientar como tal perspectiva - a do modo como a política absorve/reage a um fenómeno cultural marcante nos nossos dias - tem consequências/resultados diversos consoante estejamos os graus de diversidade étnica, religiosa, presença migratória, unidade linguística, territorial, história nacional.

Bem lembrado

Resultado de imagem para post it


José Carlos de Vasconcelos lembrava há dias que do pinhal de Leiria, ardido em cerca de 80% em Outubro, saiu a madeira que serviu para as caravelas dos Descobrimentos.