sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Serenidade


No entanto, antes de dar início à minha peregrinação, preciso de analisar uma pergunta explosiva que espreita nas sombras dos estudos sobre o Jesus histórico: será possível que Jesus Cristo nunca tenha existido, que toda esta história reproduzida nos vitrais seja pura invenção? É uma afirmação defendida por alguns cépticos assumidos, mas não, como vim a descobrir, pelos académicos, sobretudo os arqueólogos, cujo trabalho tende a deitar literalmente por terra os voos da imaginação.
"Não conheço nenhum investigador convencional que duvide da historicidade de Jesus", disse Eric Meyers, arqueólogo e professor emérito de Estudos Judaicos na Universidade de Duke. "Os pormenores são discutidos há séculos, mas ninguém tem dúvidas sérias sobre a sua identidade como figura histórica".
Ouvi praticamente o mesmo de Byron McCane, arqueólogo e professor de história. "Não consigo lembrar-me de mais nenhum exemplo que se enquadre tão bem no seu tempo e no seu espaço e que, mesmo assim, suscite dúvidas sobre a sua existência", afirmou.
Até John Dominic Crossan, antigo sacerdote e co-presidente de um polémico fórum académico, acredita que os cépticos radicais vão longe de mais. É verdade que as histórias sobre os feitos milagrosos de Cristo são difíceis de aceitar pela mente contemporânea. Mas isso não é razão para concluir que Jesus de Nazaré tenha sido uma fábula religiosa.

Kristin Romey, arqueóloga, Em busca do autêntico Jesus, in National Geographic, nº201, Edição portuguesa, Dezembro 2007, pp.5-34

[o que aqui se regista, de novo, é um fascínio (cultural) que permanece pela figura de Jesus de Nazaré (há um ano, nas publicações à venda nos quiosques nacionais, foi a vez da Super Interessante fazer uma capa e tema de fundo idênticos); depois, o meu interesse pelo modo como essa divulgação é feita: reprodução de dados genericamente aceites, naturalmente em moldes de um artigo de imprensa, com a leveza que não é a de um artigo ou livro académico, evidentemente; de qualquer modo, suponho que os dados que este passo - para mim, o mais importante do artigo em causa - volta a sublinhar, não farão as delícias nem gerarão as partilhas que outros que tinham o charme da disrupção mas sem grande fundamento a ancorá-los, gerou, por exemplo, num texto que o Público partilhou, há alguns meses: aqui fica, pois, a sugestão para o jornal dirigido por David Dinis

Riso


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Considere-se uma das características das pessoas que as distinguem das outras espécies: o riso. Nenhum outro animal ri. (...) Mas em que consiste o divertimento? Nenhum filósofo, estou em crer, conseguiu alguma vez responder cabalmente. A descrição de riso de Hobbes como «glória súbita» tem uma certa qualidade mágica, mas «glória» sugere que todo o riso é uma forma de triunfo, o que está longe da verdade. Schopenhauer, Bergson e Freud tentaram identificar o pensamento peculiar que se encontre no cerne do riso - nenhum deles, creio, com mais do que um sucesso parcial. Helmuth Plessner viu o riso e o choro como chaves da condição humana, características que tipificam a nossa distinção. Mas esta linguagem fenomenológica é opaca e não conduz a uma análise clara do riso e das lágrimas.
Contudo, uma opinião razoável poderá ser afirmar que o riso exprime uma capacidade para aceitar as nossas inadequações muito humanas: rindo, podemos atrair a comunidade de sentimento que nos vacina contra o desespero. Este facto sobre o riso - apontar para uma comunidade de sentimento - foi bem apontado por Frank Buckley. Todavia, dessa sugestão segue-se outra: só um ser que faz juízos pode rir. De um modo geral, rimos de coisas que ficam aquém das expectativas ou de gracejos que põem as nossas acções lado a lado com as aspirações que ridicularizam. (...)
Por conseguinte, para explicar o riso temos de explicar os processos peculiares de pensamento envolvidos no nosso julgamento dos outros: temos de explicar o prazer que sentimos quando o ideal e o real entram em conflito e também a intencionalidade social peculiar deste prazer. Claro que podemos intentar este tipo de explicação, postulando programas cognitivos no cérebro humano e na «mente física» nos quais são impressos. Mas por enquanto a explicação será pura especulação, com pouco ou nenhum contributo da genética.

Roger Scruton, A natureza humana, Gradiva, 2017, pp.27-29

Desemprego de longa duração


30% (134 mil) dos desempregados portugueses são desempregados de longa duração. Estão há mais de três anos à procura de emprego. São pessoas que, no máximo, têm o 9ºano de escolaridade.

Prognóstico antes do jogo


Rui Vitória fez um bom mind game quando, no final do slb-V.Setúbal, disse ir ao Dragão para ganhar os três pontos: a ideia é meter o medo no corpo (cabeça) do FCP. Se este tiver mais medo de passar a segundo classificado - se essa hipótese for omnipresente na cabeça do grupo de trabalho - do que de passar para 6 de avanço sobre o seu opositor desta noite, Vitória ganha o jogo. Não me admiraria que os encarnados entrassem ao ataque - ou, se se preferir, mais ao ataque do que se suporia - no Dragão na tentativa de gerar um certo pânico no seu adversário. Do ponto de vista estratégico - no continuum psicológico-tático - creio que assistimos a um remake, da parte visitante, do elaborado para Alvalade, há dois anos, num jogo muito importante da Liga (até para detetar estas semelhanças, penso que é importante no banco do meu clube alguém que conheça bem o campeonato português, e sua história e histórias recentes). Talvez que se o FCP, caso esta leitura não estiver errada, não se deixar abalar nessa meia hora inicial - onde, repito, creio que haverá tentativa de surpresa e de assustar -, terá renovadas hipóteses de ir mais longe. 
Com o que vai da época julgo que tem provado ser mais avisado o FCP jogar com três médios e sem Maxi em campo. Gostava que Conceição fosse mais incisivo no discurso, mais motivador do que foi. Eleger a exibição com o Leipzig como modelo e ao fazer um discurso contido, creio que apontou a um jogo mais "racional" (do que propriamente o "vamos comê-los").
Do ponto de vista da ligação ao clube, e pese o clamor acrítico gerado, as declarações das últimas semanas não correspondem, de modo algum, ao património imaterial que permitiu que o FCP fosse tão forte.

Lendas vivas do Far West

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Os democratas do respeitinho 

O professor da Faculdade de Direito de Coimbra Ricardo Costa, que exerceu vários cargos na justiça desportiva, tem uma noção bizarra da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão e da própria democracia. Incomodado com perguntas da Sábado sobre uma notícia que o refere, não se lembrou de melhor maneira de reagir do que queixar-se aos accionistas deste título. Não respondeu mas queixou-se a quem, na sua visão do jornalismo, nos pode repreender. Para quem passa a vida a escrever nos jornais sobre justiça, democracia e política, para quem ostenta uma sólida formação jurídica e é consultor da Abreu Advogados, uma das maiores sociedades nacionais, Ricardo Costa chumba no mais elementar teste ao seu espírito democrático. (...) É importante porque evidencia uma tendência crescente em sectores que convivem mal com a liberdade de imprensa e julgam que tudo se pode tratar na relação com os proprietários dos títulos. Esses democratas do respeitinho não nos travarão.

Eduardo Dâmaso, Editorial, Sábado nº 709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.8 

Cheias de 1967 (II)


P.S.2: Era impossível, além de tolo, tentar esconder a devastação material e humana. Doze anos mais tarde investiguei o assunto para uma cadeira universitária. Passei noites em arquivos. Soube da contribuição da Gulbenkian, imediata, para uma percentagem importante das reparações. A solidariedade de próximos (havia vizinhança nas cidades), amigos, empresas, agremiações. Os "párias" e aviadores da Ota a darem as refeições aos desalojados. A PSP, GNR, bombeiros, semanas sem folgas nem dormida.
P.S.3: concluí que, durante 10 dias, todos os jornais e revistas de 1967 ocuparam 90% das primeiras páginas com o acontecido. Acompanharam, registaram e publicaram o evoluir do número de mortos (de 100 a quase 500), com base nas informações municipais. E a Life moveu-se por onde quis, a trazer aos americanos o rosto do desastre português.
P.S.4: O regime era o que era, o exame prévio foi uma vergonha, mas a ideia do silêncio público é um mito urbano de hoje. Ofensivo para uma geração martirizada.

Nuno Rogeiro, Restauradores, in Relatório Minoritário, Sábado nº709, 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2017, p.68.