Daniel Innerarity, Gobernar las crisis, ElPaís, 13-09-2018. Aqui.
"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
sábado, 15 de setembro de 2018
Uma revelação
Já há uns anos que não via um político que se mostrasse tão talentoso na scientia e na ars política, como o que tenho observado nesta campanha para as Presidenciais brasileiras em Ciro Gomes. Apesar de este ter desempenhado vários cargos políticos ao longo de décadas, não o conhecia bem. Na exposição a que agora está obrigado, Ciro mostrou, a dois tempos, uma grande capacidade de articulação e preparação - um programa detalhado, preparado com grande antecedência, formulado, também, com base em experiência comparada, trabalho de mais de um ano com especialistas -, substância política pela qual se impôs para além do que seria o seu "tecto" ("natural") nas sondagens, e depois, já com um candidato do PT definido, e disputando, em boa media, o mesmo eleitorado, sendo sibilino, florentino no que disse e como disse sobre ele e respectivo partido, poupando Lula em simultâneo, conhecido o apoio popular que as sondagens exibiam ao ex-Presidente (isto na entrevista colectiva dada esta semana, a diversos órgãos de comunicação social, entre os quais a revista Época). A mais recente sondagem, que tem menos de 24 horas, da Datafolha, indica uma subida muito considerável de Haddad (na casa dos 4%); ao mesmo tempo confirma a descida de Marina Silva já indiciada em sondagens anteriores e o acréscimo de Bolsonaro após o esfaqueamento, ainda assim sem passar aqui dos 26% na primeira volta) e, muito provavelmente, a indicação definitiva de apoio de Lula, na semana passada, poderá fazer com que o candidato deste partido passe à segunda volta. Mas o que fica, até agora, é uma feroz disputa, uma luta dada com grande capacidade estratégica e táctica por banda do candidato do PDT - que pretende situar-se a meio caminho entre o PT e o PSDB.
Na rádio Jovem Pan, os comentários costumam situar-se, com clareza, à direita, pelo que partindo desse pressuposto, vale a pena escutar, no vídeo acima (que tem dois dias), a aula sobre "a aula de Ciro" (dada na passada quarta-feira).
Crónica
Atendendo a que a crónica vem com nome próprio, Curtita y al pie, suponho que venhamos a ter, aos Sábados, o prazer de ler Valdano, em permanência, em (regresso ao) ElPaís. Desde a saída de John Carlin, entretanto no La Vanguardia, que fazia falta quem contasse assim o jogo (e para estreia nada mau: suponho que a descrição do Var como "futebol com preservativo" seja metáfora que vai pegar):
Na íntegra, aqui.
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Yu Hua e a China

Durante a Revolução Cultural chinesa, a par da opressão, da violência, das mortes, o desenvolvimento foi lento, os resultados económicos parcos. A desigualdade, contudo, diminuiu, com a excepção da disparidade cidade-campo que se manteve elevada. Para ilustrar quanto a "abertura e reforma" de Deng Xiaoping não só não alcançou resolver este problema, como o agravou, Yu Hua, em China em dez palavras (Relógio d'Água, 2018) conta-nos como em 2006, por altura do Mundial de Futebol da Alemanha, ao qual assistiram 100 milhões de telespectadores chineses (o record, a este respeito, havia-se cifrado nos mais de 200 milhões que televisionaram o Brasil-China de 2002), visitou uma zona muito pobre junto da cidade de Xining e levando consigo o objectivo de colocar crianças desfavorecidas a alegrar-se com um desafio de bola, ficou a perceber duas coisas: a) naquela zona, não havia lojas para se comprar uma bola (sendo que nenhum miúdo tinha uma); b) as crianças chamadas a campo não sabiam, nem nunca tinha ouvido falar acerca, da existência de um desporto chamado futebol. Isto, num país no qual, desde 1978, são transmitidos os mundiais e em que, nesse mesmo ano, surgiu uma liga de futebol chinesa.
A disparidade entre o mundo urbano-rural, litoral-interior, ficaria ainda resumida, com especial eficácia, numa outra história: nas cidades costeiras chinesas, desde há muitos anos se bebia, com grande assiduidade, Coca-Cola. Pois os que viajaram do Interior para trabalhar no litoral, em alturas festivas em que regressassem a casa, ainda nos anos 90, levavam uma Coca-Cola como presente para os seus familiares/amigos, pois estes nunca tinham visto, e muito menos bebido, uma Cola.
Durante trinta anos consecutivos, a China cresceu, sucessivamente, a uma média anual de 9%. No entanto, ao segundo lugar na economia mundial, correspondia apenas o centésimo rendimento médio anual (à data da elaboração do livro, publicado originalmente em 2010). O número de multimilionários, de muito ricos, dos que ascendem ao mercado de luxo, confronta-se com a pobreza mais miserável (um filho pede uma simples banana aos pais, cujo dinheiro não chega para tal, pelo que a criança irrompe num choro tal que termina no desespero paterno e no suicídio deste; e logo depois deste, seguir-se-à o da mãe, na mesma noite, conta Yu Hua).
Se Mao não emparelhava com os ideais confucianos - e se Mao e Lu Xun, uma citação real ou inventada de qualquer um destes autores, esta última raríssima tal a heresia que representava, das referências dogmáticas chegava para resolver uma contenda, uma discussão em casa, ou com os amigos (sobre isso, o senhor Lu Xun disse que...), eram para seguir sem desvios -, e se uma das suas máximas, "a tudo o que o inimigo se opõe, nós devemos apoiar; a tudo o que o inimigo apoia, nós devemos opor-nos",p.126) era capaz de expressar enfaticamente quanto se vivia a preto-e-branco, com Deng Xiaoping, "não me interessa se o gato é preto ou branco, desde que apanhe o rato é um bom gato", ficava clara que a obsessão ideológica não era um motivo para a nova China.
Depois de 32 anos consecutivos a ver crescer ininterruptamente o número de candidatos ao exame de acesso ao superior, em 2009 o ano foi de retrocesso a este nível. O número de alunos nas universidades, entre 1998 e 2006 quintuplicou. A subida das propinas foi ainda bem mais vertiginosa (aumentos entre os 25 e os 50%). Para as pagar, as pessoas das cidades necessitariam, face ao seu rendimento médio anual, de mais de 4 anos para as pagar; as do campo, de um pouco mais de 13 anos. As pessoas de poucas posses foram-se endividando para tentar um futuro melhor para os filhos, mas entretanto, na viragem da primeira década do séc.XXI o número de desempregados licenciados, na China, aumentava (1 milhão, na altura; dados divulgados no ano passado apontavam para uma taxa de desemprego de 5%, na China, em cálculos sempre muito questionados: ver aqui).
No livro de Yu Hua, não faltam, como por cá nas idades adolescentes, as comparações entre os ténis dos meninos dos colégios, que usam fardas iguais e, assim, se distinguem pelos Nikes de vanguarda que colecionam (conta, não já o Nike, mas o último air Jordan ou air Kobe). Um país que é um palco onde se encenam duas peças, uma comédia (rica), e uma tragédia (pobre). Nesta última, a demolição de casas, pelos governos locais, quando as famílias não aceitavam as migalhas da indemnização, com as pessoas arrancadas das camas, presas, levando socos - em cenas que, à época, podemos testemunhar em documentários que não faltaram para expor a ditadura -, evidencia como algo do espírito da Revolução Cultural não deixou de permanecer (por muito que se pretendesse apagar da História).
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Desejo
Os atentados terroristas, em particular o Bataclan em Paris, e depois o da boite gay na Florida. Um e outro visam alvos que representavam o prazer, o prazer do outro, e o prazer do outro está relacionado com o desejo. É um ataque a alguma coisa que incomoda, que é insuportável. Embora fossem acções que tivessem por detrás uma justificação religiosa, ideológica, política, no fundo visavam o prazer do outro, havia um incómodo com esse desejo. Depois, quando se falou dos terroristas, eram garotos adolescentes, todos claramente com algum problema com o desejo. E então comecei a dar-me conta de que também nos movimentos identitários e libertários, tanto nos transgénero como no feminismo, o desejo não era mais o foco. O desejo fora posto de lado e o foco foi sempre posto mais no género do que no desejo, como se o desejo fosse um problema. (...) O desejo não acaba mas o corpo acaba e há uma relação desse corpo com o desejo e por vezes isso gera um tipo de ressentimento que é como do terrorista em relação ao prazer do outro (...) Imaginei esse sujeito que tem um problema inato, essencial, com as relações amorosas e com a sua sexualidade; reconhece que há ali um ponto frágil com o qual ele não consegue lidar: o desejo. Constrói toda uma carreira profissional, toda uma vida em que a questão da violência, do real que escapa, de um mundo descontrolado, passa a ter uma configuração que é domesticável, aprende a lidar com as zonas de conflito diplomaticamente. Canaliza isso como uma defesa e passa a lidar com a violência de uma forma social, externa quando não sabe o que fazer com a sua violência pessoal, interna. (...)
O desejo é contraditório, perturba, não acompanha o discurso racional. Ele escapa, como a morte também escapa, isso configura o real e a verdade está nesse lugar. Para mim, a grande literatura sempre foi a literatura que se deixou atravessar por essa contradição, então não é uma plataforma para eu dizer que coisa penso. É muito mais o lugar da experimentação no sentido de que eu não sei exactamente o que penso sobre as coisas que estou escrevendo. O próprio livro é o lugar da experiência e da expedição se deixar atravessar por essas questões que são questões do real. Escrever um livro que fosse uma tese, do tipo tenho uma ideia sobre o mundo e agora vou ilustrar essa ideia com essas personagens e fazer uma alegoria do que eu penso. Não é isso.
Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel Lucas, O desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, pp.55-59
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Verosimilhança e verdade
A verosimilhança está no âmbito da convenção. Há um registo que se aprende a reconhecer como verosímil; e a verdade está do lado do real e está ligado a uma sensibilidade que se tem na leitura. É mais subjectivo. Há livros completamente inverosímeis, mas a verdade está lá. E está lá porque aquilo está atravessado por alguma coisa que é incompreensível e escapa a uma convenção prévia. E há livros que são totalmente verosímeis, em que há um referente muito claro, está tudo descrito - e podem ser maravilhosos ou não - mas isso não quer dizer que eles estejam necessariamente com a verdade. O Roth fez essa distinção dizendo que iluminam o mundo, no qual nos reconhecemos. Há uma tradição de escritores importantes para mim, como o próprio Kafka, em que há pouca verosimilhança. Um homem que acorda como insecto não é muito verosímil, mas é clara ali a presença de uma enorme força, uma grande verdade, e que eu acho que tem sempre a ver com a experiência (...) Essa coisa de [Georges Bataille] lidar mal com a língua é um estilo, mas é como se ele dissesse: esse real é irrepresentável, na verdade isto é uma alusão a uma experiência possível com o real que não está no livro, mas noutro lugar. Há nisso uma coisa meio religiosa, como se a palavra nunca pudesse dar conta do recado. Há um lugar que se supõe que existe mas está noutro lugar que é irrepresentável. Também gosto disso, mas o que me interessa nessa coisa do irrepresentável é a ideia de uma potência, de um real, que é avassaladora. Este meu livro é um pouco a representação disso; é como se o desejo fosse incongruente com a própria ideia de identidade.
Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel Lucas, O desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.59.
O lugar político da literatura
O que eu acho estranho na internet é que é um lugar onde as excepções não cabem, é estruturado pelos algoritmos para que se veja sempre o que é mais visto e o que não se vê é cada vez menos visto e cada vez se torna mais invisível. Embora a literatura seja cada vez mais massificada, cada vez mais profissionalizada, para mim a literatura é excepção e a literatura que importa também é o que escapa. (...) Nas redes sociais não cabe a excepção nem o devido, nem cabe a ambiguidade, nem a contradição e sem isso não há reflexão. (...) Pode ser que a literatura tenha um efeito de reação contrária, o lugar protegido contra esse mundo. Para mim, a literatura é isso, o lugar da resistência. No sentido político, ela é o lugar do real, o lugar da resistência, da ambiguidade, da contradição, da reflexão.
Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel Lucas, O desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.62.
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