E na noite de segunda-feira, no Teatro de Vila Real, o inesperado privilégio de ouvir Eduardo Isaac.
"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
A campanha no Brasil nos instantes derradeiros
As (mais pessimistas/realistas) hipóteses que aqui alvitrava relativamente a dados essenciais para a decisão das eleições presidenciais brasileiras vieram a verificar-se por completo: Haddad, na semana seguinte a ser confirmado como candidato do PT, e com o eleitorado a disso tomar plena consciência, ultrapassou Ciro Gomes nas intenções de voto e de aí não mais saiu. Face à consolidação do segundo lugar de Haddad, o sentimento anti-PT cresceu e as pesquisas de opinião mostram uma subida drástica das taxas de rejeição do candidato apoiado por tal partido, ao mesmo tempo que se impôs uma probabilidade crescente da vitória de Bolsonaro.
A semana que passou, em realidade, deixou uma série impressionante de sinais de entusiasmo para Jair Bolsonaro: ao apoio importantíssimo da IURD à sua candidatura, pela voz de Edir Macedo - uma IURD que já foi um dos sustentáculos do PT, outrora -, somou-se o apelo ao voto por parte do líder dos empresários no Brasil. O mesmo aconteceu no endosso dado pelos "ruralistas" da agro-pecuária. E, ainda e muito fundamentalmente, vários candidatos a governadores estaduais e a deputados pelo PSDB decidiram abandonar as suas cores e, desde já, numa espécie de voto útil logo à primeira volta (perante a campanha frouxa de Geraldo Alckmin), transmitir a preferência por Bolsonaro. Nas duas sondagens dos últimos dias, Bolsonaro sobe 4% (em ambas) e a taxa de rejeição de Haddad chegam a crescer 11%. De modo que a euforia se instalou, com esta dupla dinâmica simultânea - favorável a Bolsonaro e anti-petista -, na sede de Bolsonaro, acreditando, ou isso, pelo menos, transmitindo, os seus mais próximos (fiéis) de que a eleição no 1º turno é possível - caso chegue aos 37/38% no total, e expurgados os votos nulos, brancos e abstenção, essa percentagem poderia subir para 50%. Registo para o grande, e aparentemente paradoxal face às declarações e atitudes ao longo de anos de Bolsonaro, crescimento de Bolsonaro entre o voto feminino e, não menos relevante, no Nordeste (habitual feudo do PT).
Face a este conjunto de dados, chega a pensar-se que só uma reviravolta absolutamente espectacular, com um voto estratégico, dos habituais eleitores do PT, e de uma esmagadora maioria dos cerca de 12% de indecisos, em Ciro Gomes (abandonando Haddad, nesta recta final da primeira volta) poderia resgatar o Brasil de Jair Bolsonaro, sendo que a probabilidade de uma tal operação, mesmo em cima da meta, surge como algo muito pouco provável (mas que seria o golpe de teatro perfeito para uma campanha verdadeiramente alucinante, lá isso seria). Crê-se que os candidatos que apresentam intenções de voto escassas sucumbirão, mais ainda, a um voto útil, podendo atingir números confrangedores (e isto é especialmente válido para o PSDB).
Enquanto em Portugal, os sábados, a um dia do acto eleitoral, são de reflexão, no Brasil Sábado é o dia em que sai a última sondagem antes do voto (a Datafolha, normalmente questionando 2 a 3 mil pessoas, irá agora publicar uma sondagem com 17 mil inquiridos).
P.S.: se Luis Marques Mendes dizia, no Domingo, na Sic, que entre Bolsonaro e Haddad entendia ser este último um mal menor, já Luís Nobre Guedes, na RTP3, se mostrava ontem um apoiante convicto de Bolsonaro.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Exposição (pequenas notas)
Por entre as fotografias que biografam Frida Kahlo, no Centro Português de Fotografia, no Porto, algumas citações, versos que integram, igualmente, a sua vida e obra - como a que acima se reproduz.
Uma das coisas que aprendi vendo a exposição foi que na Cidade do México, à semelhança, por exemplo, do nosso interior transmontano, a Queima do Judas era, pelo menos à data das fotografias, no século XX que a artista habitou, uma tradição (com milhares de espectadores - in loco, claro).
A exposição principia com um conjunto de retratos em família, com a figura proeminente do pai, Guilherme, a destacar-se (também a solo). Retratos à antiga, como que encenados, toda a família composta e aperaltada, hirta para a foto. Há, na antiga Cadeia da Relação, auto-retratos de Frida, mas muitas fotos suas são da autoria de terceiros. Podemos testemunhar a sua primeira comunhão (e uma foto, já Frida adulta, em que encena essa mesma comunhão, num gesto dado a múltiplas possíveis interpretações), e, detidamente, as doenças, acidentes, lesões que a acometeram longamente. Não há, nesta exposição, apenas retratos "privados" (muitos deles, de resto, contendendo, também, com a sua relação com Diego Rivera). A dimensão pública é captada não apenas nas viagens a Moscovo que documentou com detalhe (marchas, trabalhadores, alguns líderes, crianças, dia-a-dia), mas ainda, e principalmente, neste acervo, no cadáver de um trabalhador, exangue no chão, jorrando sangue, em resultado de repressão policial no México (talvez a foto mais marcante do conjunto). Trotsky, e o seu affair com Frida, têm, na economia da exposição, como que um circunspecto apontamento. E, talvez mais surpreendente em uma artista que foi militante do partido comunista mexicano, cabem aqui, ainda, um conjunto de fotografias de uma fábrica Ford (à época, símbolo capitalista por excelência; ainda que este desenvolvimento industrial, como já por aqui registámos, não tenha deixado de impressionar muitos socialistas soviéticos). A identidade mexicana passa pela obra, e há indígenas em luto, em um dos olhares, ou construções maias, em outro.
Quem também transparece fotógrafo (como, na verdade, era), nesta exposição, é Guilherme Kahlo, o patriarca, autor da foto de um impressionante mural à entrada da Escola de Instrução Primária (ainda em terras mexicanas). Lado a lado com uma outra fotografia, esta de cariz mais espectacular - aquela em que essa índole mais prima, creio, neste lote de fotos - em que uma motorizada levanta voo, por entre uma pirotecnia que sugere adrenalina e risco.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Objecções à possibilidade de os computadores poderem ser (tidos como) inteligentes
Arlindo Oliveira elenca e procura responder, em Mentes Digitais, aos argumentos, historicamente invocados, para rejeitar a possibilidade de se considerar os computadores como inteligentes (p.83):
1) "A objecção Teológica afirma que o pensamento é um resultado da alma imortal do homem e não pode, portanto, ser simulado por uma máquina. Baseia-se no pressuposto de que os seres humanos são únicos no universo e são as únicas criaturas que têm alma. (...) Baseia [-se] na dualidade da mente e do corpo";
2) "A objecção da Informalidade do Comportamento baseia-se na ideia de que não existe nenhum conjunto de regras que descreva o que um ser humano fará em todas as circunstâncias possíveis, o que implica que o comportamento humano nunca poderá ser simulado por um computador. De certa forma, este argumento equivale à ideia de que a inteligência humana é não-algorítmica";
3) "Uma outra objecção afirma que as consequências de uma máquina pensante seriam tão atrozes que nunca surgirá nenhuma, presumivelmente porque a humanidade evitará desenvolvê-la. Mas a humanidade não parece ter conseguido desviar-se de nenhuma tecnologia com o fim de evitar os riscos que ela apresenta";
4) "Duas objecções baseiam-se no argumento de que o cérebro não é equivalente a uma máquina de Turing, ou porque pode (de uma maneira não especificada) calcular funções não computáveis, ou porque a inerente capacidade das células cerebrais para trabalharem com sinais de valor real lhes confere um poder adicional";
5) "Outra objecção (...) baseia-se no argumento de que os computadores seguem necessariamente regras fixas e são, portanto, incapazes de originalidade, fazendo com que o comportamento deles conduza sempre a resultados previsíveis. Esta objecção ignora o facto de que os sistemas muito complexos, mesmo se completamente definidos por regras fixas, têm comportamentos totalmente imprevisíveis, como bem sabem os engenheiros e os cientistas modernos";
6) "Uma outra objecção baseia-se na ideia de que os seres humanos dispõem de percepção extrassensorial, que não pode ser emulada por uma máquina. Como a percepção extrassensorial nunca foi observada em condições controladas, esta objecção tem pouco peso";
7) "Uma última objecção filosófica, que poderá ser mais profunda do que as outras , defende que a inteligência só pode ter origem na consciência, e que uma máquina que manipule símbolos nunca poderá ser consciente. O argumento de que um computador nunca poderá exibir inteligência através da manipulação de símbolos foi apresentado muito mais tarde (...) na experiência conceptual da Sala Chinesa de John Searle (1980)".
O(s) clima(s) frio(s) estimulam uma especial criatividade e energia dos povos?
Outra explicação, popular entre os habitantes da Europa Setentrional, invoca os supostos efeitos estimulantes do clima frio das suas pátrias e os efeitos inibidores dos climas tropicais quentes e húmidos sobre a criatividade e a energia humanas. Talvez o clima variável segundo estações das latitudes mais altas apresente desafios mais díspares do que o clima tropical constante. Talvez os climas frios exijam que se seja tecnologicamente mais inventivo para sobreviver, já que se torna necessário construir uma casa quente e fabricar roupas quentes, ao passo que é possível sobreviver nos trópicos com alojamentos mais simples e sem roupas. Ou então poderemos inverter o argumento para chegar à mesma conclusão: os longos Invernos das latitudes mais elevadas deixam os indivíduos com muito mais tempo livre para ficarem dentro de casa a inventar.
Embora popular em tempos passados, também este tipo de explicação não resiste a um escrutínio mais apurado. Tal como veremos, os povos da Europa Setentrional não contribuíram com nada de importância fundamental para a civilização eurasiática até ao último milénio; limitaram-se a ter a sorte de viver numa zona geográfica onde poderiam receber as inovações (como a agricultura, a roda, a escrita e a metalurgia) desenvolvidas nas áreas mais amenas da Eurásia. No Novo Mundo, as regiões frias das latitudes mais altas eram ainda mais atrasadas. As únicas sociedades nativas americanas a desenvolver a escrita surgiram no México, a sul do trópico de Câncer; a cerâmica mais antiga do Novo Mundo surgiu perto do equador, na América do Sul tropical; e a sociedade do Novo Mundo que regra geral é considerada a mais avançada no que diz respeito à arte, à astronomia e em outros aspectos foi a sociedade mais clássica do Iucutão e da Guatemala tropicais, no primeiro milénio da era cristã.
Jared Diamond, Armas, Germes e Aço, Temas e Debates, 2015, p.26. Tradução de Luis Oliveira Santos.
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Trópico de Câncer
Candura sem graça
Pedro Adão e Silva, sobre a não recondução de Joana Marques Vidal (Por outro lado, 25-09-2018, RTP3): os principais dirigentes políticos portugueses aceitaram, no caso vertente, emular-se (nas sondagens) em função de princípios, ou, mais rigorosamente, do princípio (de mandato único para qualquer PGR) em que acreditavam. Não podemos acreditar que as pessoas na política agem por princípios, e teremos que fazer uma leitura táctica de todas as suas acções?, questionou, de modo retórico.
Podemos acreditar, mas, no caso concreto, não era a mesma coisa: por princípio, os principais dirigentes políticos portugueses deviam, mesmo, respeitar a separação de poderes, e outra coisa não fizeram do que, sistemática e enfaticamente, pressionar o poder judicial, no caso Manuel Vicente (se nem um princípio basilar destes se respeita, estamos menos receptivos a entender como oportuno o argumento "princípios" na decisão em causa); se o mandato único era um princípio intransponível deveria ter sido afirmado imediatamente após a questão da recondução da PGR se colocar, e nem se aceitava ponderar (nem, por princípio, se aceitaria fingir que se ponderava); se era um problema de princípio, não se percebe porque não se o quer plasmado na Constituição, qual regra de ouro (talvez com o fito de o princípio ser outro, quando o filme for diverso); se era um princípio, não se compreende como não ficou fixado quando, há duas décadas, os principais partidos portugueses e actores agora em cena puderam fazê-lo, na Lei Fundamental; se era um princípio sem transigências, para quê ouvir os partidos políticos (ou fingir que eram ouvidos estes)?
A generalidade da sociedade portuguesa, estou em crer, não vê com bons olhos o sinal dado, intencionalmente, no plano político, com a não recondução de Joana Marques Vidal. Vir falar na partidarização ou no enviesamento ideológico sobre a mesma - como se personalidades como Laborinho Lúcio, ou Ricardo Sá Fernandes, por exemplo, fossem "a direita", ou militantes empedernidos do partido A ou B - é apenas o princípio...da táctica. Pedro Adão e Silva não tem idade - e, ao invés, tem a experiência - para canduras fora de lugar e tempo (nem para nos tomar por parvos).
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
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