sábado, 3 de novembro de 2018

O que está em jogo - uma síntese perfeita


A grande guerra da direita

Na hora da festa, a vitória de Bolsonaro deu-nos uma ideia bem mais nítida sobre o ponto em que está a nossa direita. Já era claro, por exemplo, que tinha nascido por cá uma nova facção. Aquela que se move pela vingança de 2015, do golpe parlamentar que juntou as esquerdas para tirar Passos do poder. Que se alimenta com a raiva de um certo cinismo de António Costa, mas também da sorte dele por ter governado numa boa conjuntura (...) A verdade é que essa direita hoje não tem partido – o PSD de Rui Rio, estatista, é a antítese daquilo que ela defende. (...) E é também verdade que essa nova direita não tem programa. Porque o seu programa era o de Passos, que começou a perder-se ainda em 2010, com um projeto de revisão constitucional que não sobreviveu às primeiras notícias de uma tentativa de liberalizar o despedimento. Esse programa, depois, ruiu a meio da troika, quando Paulo Portas reduziu a reforma do Estado a um Powerpoint. E quando a esquerda levou a luta política para o patamar constitucional, travando a ideia de flexibilização do Estado para a qual a direita nunca conseguiu apoio popular. (...) epois do fim do resgate sobrou pouco, a Passos e à direita liberal. Quando chegou às legislativas de 2015, restava a ideia de que o país iria sair do aperto, mas devagarinho para enganar o diabo. A mensagem chegou para lhe dar uma curta vitória, mas não para lhe garantir uma maioria de Governo. Hoje, três anos depois, já nem isso vale para uma campanha. Porque Costa e Centeno reduziram o défice quase a zero e tiraram à direita o argumento de só ela sabia endireitar as contas. Assim sendo, o que é que sobra a esta nova direita? Olhando para a festa que fez com a eleição de Bolsonaro, ou com a defesa tímida que vai fazendo de Trump e de outras novas novas direitas na Europa, sobra-lhe em entusiasmo o que lhe falta em ideias para copiar. Porque o caminho não pode ser o protecionismo económico (Portugal é pequeno e não vive sozinho); também não será o do afastamento dos imigrantes (poucos são os que aqui querem viver); nem será o do combate com armas à violência, porque ela não se sente nas ruas; ou sequer o retorno à proibição do aborto ou à negação dos direitos das minorias sexuais (porque já nem o CDS tem aí refúgio eleitoral significativo). (...) Mas sobra-lhe, a essa direita, uma data no calendário: a do julgamento de José Sócrates. Qualquer que seja o resultado, dará margem para um discurso que já foi testado à distância com esta eleição brasileira: ou é o PS que é corrupto (se Sócrates for dado como culpado); ou é o sistema que está corrompido (por não ter culpado Sócrates). O argumento pode repetir-se para Ricardo Salgado, porque para esta direita um e outro são (apenas) a face e contra face da mesma moeda. Sim, esta nova direita quer correr a pista justiceira, antecipando na política um julgamento que ainda não se concluiu na justiça. Porque é o que lhe resta – e o que lhe resta cola bem com o seu ressentimento: o combate à corrupção, o discurso da elite cartelizada, do país amarrado. Dirá que é preciso menos Estado porque o Estado é corrupto. No Brasil foi Lula e a Petrobras, por cá foram Sócrates e o BES (como se a direita não tivesse tido os seus tristes pecados). Isto pode não ser um programa eleitoral, mas é bandeira para uma campanha. Como se viu no Brasil, elas fazem-se cada vez menos com programas ideológicos, cada vez mais de discursos identitários, aqueles que unem muita gente diferente, afastando todos os outros. São políticos que promovem a divisão, que detestam o politicamente correto. (...) Repare como tudo isto desequilibra o regime: enquanto à esquerda Costa integrou o PCP e Bloco, neutralizando parte do seu discurso populista (o Luís explica bem aqui), a direita divide-se entre o eixo da tolerância e o da rutura. Hoje, a que mais se faz ouvir é esta: a que largou o valor do diálogo e rasgou o seu compromisso com o consenso, a que detesta a esquerda e a direita que contemporiza com ela. Ouvirão isto muitas vezes: quem não é inimigo deles é seu inimigo – um “colaboracionista”. Como dizia esta semana o Nuno Garoupa, em Portugal “há hoje uma direita Bolsonaro e há uma direita não-Bolsonaro. Sendo que a primeira se caracteriza por um programa simples: ódio à esquerda, ódio a quem discorda, insultos permanentes, desprezo pelo ‘agree to disagree’, superioridade moral”. Haja ânimo para a direita moderada, porque também lhe sobram alguns exemplos, mesmo aqui ao lado: em Espanha, o Ciudadanos ganhou um papel central na política e no futuro da governação; em França, Macron refez o centro e redundou o sistema e reabilitou o liberalismo. Nos dois casos, é verdade, foram movimentos que nasceram do zero. Talvez seja a hora de os moderados pensarem nisso por cá também.

David Dinis, Eco, 02-11-2018

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

APOROFOBIA


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Para uma leitura de Aporofobia – a rejeição do pobre. Um desafio para a democracia, de Adela Cortina


Adela Cortina é Professora Catedrática de Ética e Filosofia Política, na Universidade de Valência, autora com vasta obra publicada e multipremiada (em Espanha e fora do seu país natal, sendo de destacar o Prémio Nacional de Ensaio, em 2014, distinguindo a obra “Para que serve realmente a ética?”. Já após a publicação de Aporofobia – a rejeição do pobre, foi galardoada com prémios literários, na secção crítica e ensaio de Associações de Editores de Madrid, António de Sancha 2018, e de Crítica Literária Valenciana).



1.Será que existe mesmo uma "aversão natural" ao estrangeiro, ao diferente, ao outro? Em realidade, face aquele que vem de longe, de outra cultura, de outros costumes e hábitos, de outra etnia, de uma cor de pele diversa da que nos é mais comum (observar no nosso dia-a-dia), que frequenta outros templos diferentes daqueles de que nos abeiramos (quando, e se, o fazemos), mas que se dirige para as nossas terras com vista a, durante 15 dias, instalar-se num hotel, frequentar os nossos restaurantes, entrar nos nossos mercados, levar para o seu país de origem o nosso artesanato, o que mais evidenciamos é uma hospitalidade no trato, um entusiasmo no acolhimento, uma vontade de (lhe) agradar e ser prestável, um desejo de que o visitante se sinta confortável, que esteja tão bem como em sua casa. Há, aqui, bem o podemos afirmar, uma verdadeira xenofilia, uma amizade para com o estrangeiro

2.Depois, contudo, há os que vêem de longe, fugindo da miséria, da fome, da guerra, da perseguição étnica ou religiosa, de catástrofes naturais - e a esses, em muitos casos, na melhor das hipóteses, oferecemos-lhes a selva de Calais, um gueto em alguma metrópole.

3.A questão não parece, pois, ser a do estrangeiro, do diferente, do outro - ainda que, note-se, diversos estudos apontem para uma tensão entre pessoas pertencentes a quadros culturais dissemelhantes (Amartya Sen, em "Identidade e Violência", assinala que os ambientes não homogéneos são os mais dados à criatividade e inovação, têm uma energia que falta onde a diversidade rareia, mas concede que se sente, em tais lugares também, uma tensão latente). Mas, vejamos, neste contexto ainda, com redobrada atenção: uma coisa é um medo, um receio, uma tensão entre pessoas oriundas de culturas diferentes. Outra, um patamar (conflituoso) acima: uma aversão, um desprezo, um ódio ao outro por ser quem é. Melhor: por se enquadrar num determinado colectivo em que o encaixamos - neste caso, o refugiado, o pobre. A questão parece, aqui, residir, pois, claramente, (não no estrangeiro, mas) no tipo de estrangeiro de que falamos. Neste caso, entre o estrangeiro turista, e o estrangeiro refugiado há, quase sempre, uma diferença fundamental: o dinheiro que cada um deles possui (e, para a nossa sociedade, abismal quanto, aparentemente, ao que cada um "vale" - como que, desta sorte, identificando, e não já distinguindo, essa mesma nossa sociedade, "preço" (d)e "valor"). Enquanto esperamos vir a beneficiar da estadia do estrangeiro turista, no nosso território, tendemos a imaginar nada receber, a não ser aborrecimentos - quando não imaginamos mesmo pressão sobre os serviços públicos de que dispomos, acréscimo de desemprego, terrorismo a caminho - com o refugiado que chega à nossa beira. Quando, ademais, passamos a configurarmo-nos como, não já economias de mercado mas verdadeiras "sociedades de mercado" (para me referir à tipologia proposta por Michael Sandel, em "O que o dinheiro não compra", a lógica mercantil, de lucro aplicada a todas as realidades/esferas da vida, sem excepção, sejam a família, a amizade ou outras que se julgava, e julga, dever estar a salvo de tal contabilidade e de uma estrita racionalidade de tipo instrumental), a recusa daquele que vemos como incapaz de nos fazer lucrar (alguma coisa) impõe-se com especial força.
Na síntese de Adela Cortina, "é impossível não comparar o acolhimento entusiástico e hospitaleiro com que se recebem os estrangeiros que vêem como turistas, com a rejeição sem misericórdia da onda de estrangeiros pobres. Fecha-se-lhes as portas, levanta-se-lhes muralhas, impede-se que atravessem fronteiras" (p.13) E, nestes anos recentes, estamos a viver a maior crise migratória desde a II Guerra Mundial - para a Europa dirigem-se pessoas de lugares tão remotos como os da Eritreia, o Sudão, a Somália, a Gâmbia ou o Bangladesh.
Ao longo de Aporofobia – a rejeição do pobre, a Eticista acrescenta outros exemplos (ao modo diferenciado como nos posicionamos face ao outro/estrangeiro): o cigano que vingou na música flamenca e é uma estrela internacional (pensemos em Joaquim Cortés, na ascendência de Paco de Lucía, em Diego el Cigala); o Abramovich que veio devolver a glória aos blues do Chelsea, ou o senhor do Catar que tornou o PSG um potencial vencedor da Champions (cujos rublos, ou petrodólares, respectivamente, quase ansiamos por ver aplicados ao FCP para nos levar de novo à vitória na Liga dos Campeões); os investidores da Volkswagen (vide o peso da Autoeuropa no PIB português), da Mercedes ou da Bosch que criam milhares de empregos, para mais bem remunerados, no nosso país; os enfermeiros ou médicos espanhóis, no Reino Unido, qualificados e bem preparados, acrescentando ao PIB britânico, todos estes estrangeiros, por mais que a sua língua, tez, hábitos e tradições, cultura divirjam da autóctone, da nossa em particular, são bem-vindos. O problema, ou o inferno, são os outros (estrangeiros - que não estes).

4.Como acabámos de observar, o problema não é com o estrangeiro, o xenos, ele mesmo - pelo que não será acertado, ou absolutamente rigoroso, quando este é rejeitado, falar, necessariamente, de xenofobia (ainda que ela exista, e de que maneira). O verdadeiro óbice é que o estrangeiro seja pobre ("Áporobos: é o pobre, o apórobos, o que aborrece, incluindo a própria família, porque [esta] vive o parente pobre como uma vergonha (...) enquanto que é um prazer mostrar o parente triunfador, bem situado no mundo académico, político, artístico ou no mundo dos negócios", p.21): "é o pobre que aborrece, o sem recursos, o desamparado, aquele que não pode acrescentar nada de positivo ao PIB do país a que chega (...) aquele que, aparentemente, não trará mais do que complicações", p.14; Fobéo: espantar-se; fobia: medo exagerado, aversão).
Ora, para que o radical desta realidade não fique submerso, escondido, escamoteado, impõe-se dar-lhe visibilidade; e para que haja visibilidade é necessária a nomeação (dessa realidade). É uma tarefa que a todos incumbirá, mas, talvez, de modo mais imediato, aos que praticam o ofício das humanidades: o literato, o romancista, o contista, o poeta, o filósofo, o filólogo. Um dos motivos pelos quais as humanidades são essenciais à democracia, escreveu  Martha C. Nussbaum em "Sem fins de lucro. Porque é que a democracia precisa das humanidades?", é que estas evitam, ou devem evitar, que haja invisíveis numa sociedade - pessoas, condições pessoais, que não conhecemos ou às quais, se pudéssemos, porventura, viraríamos o rosto, e que são socialmente ignoradas, que não nos são narradas no interior da comunidade em que nos encontramos, em primeira instância, vinculados. Pessoas, em rigor, bem entendido, não invisíveis, mas invisibilizadas (p.126) (tornadas invisíveis pelo seu não reconhecimento), as quais, portanto, precisam de ser resgatadas, reconhecidas. A Professora de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência, Adela Cortina, ao conceber, regressando ao seu dicionário de grego antigo, juntando intuições, avançando periclitante em um vocábulo talvez inexistente noutras línguas, talvez desajeitado mesmo no seu castelhano (natal), Aporofobia, a fobia/aversão aos pobres, resgatou, para a denunciar e visando eliminá-la, a iniquidade que vitima todos os que por serem pobres são humilhados, maltratados pelos demais. 
A necessidade genesíaca de nomeação - e se há realidades para as quais podemos apontar com o dedo, como cadeiras ou mesas, outras existem, como Democracia ou Estado que aí não cabem: o filósofo Giovanni Sartori dizia-nos, em "Homo Videns", que o homo sapiens evoluiu com o recurso a conceitos abstractos, e que o actual homo videns recua quando não consegue aceder a estes, e apenas vislumbra o que o dedo consegue apontar - é, ainda, um tributo ao labor de um saber e capacidade teoréticas, ou à complexificação de uma cisão simplista entre o que é da teoria e o que é da prática. O achado vocabular de Adela Cortina, Aporofobia, foi fundamental para criar um delito criminal específico, por banda do Ministério do Interior espanhol, com base no qual agentes, cidadãos que humilham pobres, por causa dessa sua condição, são punidos; associações que lidam e procuram ajudar os mais desfavorecidos, como a Caritas ou a Cais, consideraram fundamental a nova palavra para darem a conhecer aquela realidade que se encontrava negligenciada/silenciada; o mesmo sucedendo com muitas outras organizações, com académicos, instituições múltiplas que felicitaram Adela Cortina por lhes permitir aceder a uma categoria sobre a qual haveria, agora, que educar. Em realidade, possuir(mos) um vocabulário de cem palavras ou, um outro, de cinco mil permite(-nos) chegar a realidades, a mundos bem diversos, possuir horizontes e uma possibilidade de (procurar) compreender e perscrutar vidas e universos com instrumentos de alcance nada idêntico.
Aporofobia é um termo cunhado, pela primeira vez, por Adela Cortina, como título de uma crónica, para o jornal "ABC Cultural", em 1995, mas faria um longo caminho de reiteração - em artigos seus de jornal ou em obras escolares (universitárias) - até observar uma delimitada definição nas enciclopédias - incluindo a muito frequentada wikipédia - como sinónimo de "rejeição, aversão, temor e desprezo pelo pobre". Em 2017, foi a "palavra do ano", em Espanha.

5.Se algumas (ou muitas) pessoas são, de facto, xenófobas ou racistas, já, por outro lado, considera Adela Cortina, há um potencial universal de aporofobia: "todos os seres humanos são aporófobos, e isto tem raízes cerebrais, mas também sociais, que se podem e devem modificar, se tomarmos a sério pelo menos essas duas chaves da nossa cultura que são o igual respeito pela dignidade das pessoas e a compaixão, entendida como a capacidade de perceber o sofrimento de outros e de comprometer-se a evitá-lo" (p.15). Sublinhe-se: "uma compaixão não sentimental, mas produtiva" (Stefan Zweig); uma ética da razão cordial, igual dignidade que subverta a desumanização.

6.Quando os adeptos do PSV (de Eindhoven), em 2016, antes de um jogo internacional com o Atlético, atiram moedas aos mendigos, numa praça de Madrid, solicitando, obrigando-os a rastejar, muitas mulheres aparecem-nos nas imagens, pelo chão, humilhadas, em busca da esmola. Não é que estas mulheres, alguma delas, cada uma delas, tenha feito algo de mal aos adeptos, a algum adepto, do PSV: é que esses tiffosi encarceraram-nas (mentalmente; sitiando-se, acrescente-se, eles mesmos, nessa fixação) em uma dada categoria, categoria essa que desprezam. Neste caso, vêem essas mulheres como "pobres". Mas a categoria podia ser "homossexual", "islâmico", "cristão", "negro", "mulher", "asiático", por exemplo. Acontece que, para voltar a Amartya Sen, a nossa identidade é formada por múltiplas filiações - a pessoa, quase sempre, estabelece vínculos com uma localidade, um país, possivelmente uma religião, uma ideologia, talvez um partido político, está ligado a uma profissão, um ofício, uma ciência, uma arte, dentro desta aprecia mais uma dada corrente, um autor ou conjunto de autores, segue com especial atenção um dado realizador, um núcleo de actores ou actrizes, tem clube desportivo, uma banda favorita, um pintor ou uma escola de pintura, possui uma dada orientação sexual, etc. Dizer, em exclusivo, acerca de alguém que é "pobre" - sendo, de resto, e todavia, sublinhe-se com intensidade, que “pobre” não deve ser visto como fazendo parte de uma identidade, desde logo e até por não ser uma escolha do próprio -, ou "o homossexual", ou "o muçulmano" como se a sua pessoa, a sua personalidade, identidade ou condição se esgotasse numa única filiação ou característica - se bem que os constrangimentos causados pelo factor pobreza possam ser de tal modo condicionadores que esse seja, de facto, "o" factor determinante numa pessoa; mas o que pretende aqui destacar-se é que a riqueza e complexidade que a pessoa é, mesmo que por empatia e constatação nos foquemos na sua actual condição social (pobre; condição essa, a actual, desejavelmente em superação), excede sempre uma mono-descrição - é não se aproximar da complexidade que cada rosto concreto constitui. Pior, quando o "rótulo" em que encaixamos o outro vem acompanhado de um acervo de narrativas que ao longo de anos inoculámos, um conjunto de mitos ou "lendas negras" que, a nossos olhos, o demonizam, ou o tornam (como que) "sub-humano". Por exemplo, a ideia de que os pobres são, na verdade, ricos encapotados que mais não visam do que roubar o nosso dinheiro; "nosso" dos que não somos pobres - e nos vemos como "essencialmente" diferentes daqueles. Falar não das pessoas concretas, mas de "o pobre" revela - porque, como sabemos, o modo como falamos, a nossa linguagem, as metáforas ou imagens a que recorremos são expressão do modo como pensamos -, não raramente, que nos sentimos outros (com outro valor) face ao "pobre", isto é, quem discursa face a este, desta forma, e, sobretudo e muito particularmente, quem o humilha "está convencido de uma desigualdade estrutural entre a vítima [dos seus insultos] e ele" (p.38).  Tais práticas, no entanto, degradam (é) quem as realiza (p.25). A origem do ódio radica naquele que odeia e não no odiado - "a fonte da qual surgem o ódio e o desprezo é o que [assenta no que] odeia, não [n]o desprezado" (p.30) e a igualdade deve ser construída desde a educação e desde a conformação das instituições políticas e económicas.


(continua)

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A onda autoritária vai chegar a Portugal?


Os riscos de uma onda como esta são relativamente reduzidos em Portugal. Não temos nem um problema de criminalidade, nem de fracturas com imigração, que são os dois grandes tópicos que poderão motivar e mobilizar um discurso populista. Não temos problemas com a nossa comunidade migrante, nem de elevada criminalidade. Os riscos de uma espécie de populismo social ser mobilizado politicamente são baixos. A expressão do populismo em Portugal é canalizada através do futebol e dos seus dirigentes (...) Há uma constante, desde o 25 de Abril, e não vejo nenhuma razão para isso se alterar, de rejeição da extrema-direita, muito devido à memória do Salazarismo. Mesmo nos partidos de direita, nenhum reclamou o legado de Salazar. Em Portugal, um discurso como o de Bolsonaro de negação de que houve uma ditadura militar seria imediatamente remetido para algo muito limitado, é algo ultra-minoritário. (...) Até porque há um consenso ainda muito forte ao centro em questões como o tratamento de minorias e dos imigrantes. Não há forças extremistas de um lado e de outro que consigam induzir e fazer alastrar na sociedade portuguesa um sentimento de polarização e crispação como o que existe noutros países.

António Araújo, entrevistado por Maria João LopesBolsonaro mostrou que a nossa direita é 'menos liberal do que se julgava'Público, 01-11-2018, pp.6-7.


P.S.: nas comparações entre o momento que vivemos e aquele europeu dos anos 30, hoje foi a vez de Emmanuel Macron intervir para corroborar essa ideia (ver aqui, no L'Express). Esta semana, recorde-se, também Marcelo Rebelo de Sousa aludiu à possibilidade de um conflito bélico como ponto culminante dos autoritarismos e populismos em curso (e que, segundo o PR, estão para durar e aumentar). Na última década, Mário Soares ou Paulo Rangel foram alguns dos políticos portugueses que, como sabemos, colocaram a possibilidade de guerra como cenário a não excluir.

Direita portuguesa


Isto já não é uma questão do impacto que Bolsonaro tem na direita portuguesa, mas mais Bolsonaro e Trump revelarem que há uma direita que em parte se julgava liberal, mas que tem traços muito mais autoritários do que propriamente liberais. O espaço da direita liberal está a ficar cada vez mais confinado. Não é tanto o impacto que estes fenómenos têm na direita, é mais a revelação de que uma parcela muito substancial da direita portuguesa é menos liberal do que se julgava - porque houve uma série de vozes, é importante que se diga, na direita portuguesa, que não eram propriamente só de apoio a Bolsonaro, mas também de compreensão ou justificação do fenómeno Bolsonaro. Isto revelou pessoas mais autoritárias; pessoas que a pretexto de compreenderem acabaram por apoiar; e outras pessoas que sentiram necessidade de se demarcar, que foi o caso de Assunção Cristas. Mas também se notou desconforto em pessoas ligadas ao centro direita português.

António Araújo, entrevistado por Maria João Lopes, Bolsonaro mostrou que a nossa direita é 'menos liberal do que se julgava', Público, 01-11-2018, p.6 


P.S.: António Araújo é jurista e historiador. Foi assessor do Tribunal Constitucional. Foi assessor do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Dirigiu a colecção de ensaios da FFMS. Hoje, é assessor do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Ensaísta, com obra publicada de investigação acerca da direita portuguesa. Enquanto blogger, assina o Malomil

P.S.2: esta visão acerca da direita portuguesa não só é partilhada por outros observadores, que partem de um ponto de vista de direita liberal no nosso espectro político, como Nuno Garoupa, por exemplo, como, a julgar pela mais recente edição do Expresso, pelo actual Presidente da República que, a crer na descrição daquele semanário, trata o sector que considera mais radical à direita como "esta direita", que vê situada entre o passismo (e a que se juntou elementos do anterior PR que historicamente não seria dessa ala, como aqui já se assinalou) e várias das colunas do Observador (situando-a, em termos eleitorais, salvo erro, entre os 11 e os 15%).
O que, aliás, me tem feito repensar sobre o que há uns anos me parecia, claramente, o melhor: a questão do registo ideológico por parte de cada órgão de informação, nomeadamente no que à imprensa diz respeito (à semelhança do que sucede por essa Europa e mundo fora). É que se essa declarada filiação for também um livre-conduto para radicalizar e extremar de posicionamentos não sei até que ponto isso favorecerá a nossa democracia. A anterior "hipocrisia" tinha uma opção ideológica escondida ou subentendida num jornal, mas talvez o obrigasse a não carregar tanto as tintas e a fazer um esforço de racionalidade (sem a lógica amigos/inimigos, nós-eles). Não tenho, hoje, em suma, uma opinião definitiva, como já tive. E, no caso de alguns jornais, como o Público, creio que esse registo de interesses iria, se correspondesse à efectiva linha editorial que tem sido seguida ao longo dos anos, flutuar em função de quem lidera - ao nível da direcção - o jornal (de José Manuel Fernandes a Bárbara Reis convenhamos que vai o mundo; sorrio porque conheço diferentes pessoas que deixaram de comprar o Público durante os respectivos consolados, pertencendo a correntes ideológicas bem distintas. Pessoalmente, nunca deixei de ler o Público).

O elogio de Rui Rio


Independentemente de concordar com eles ou não, acho que os políticos estão todos a capitular perante o imediatismo. A agenda mediática é tão rápida, é tudo tão imediatamente urgente que um recuo para questões mais fundamentais, estruturais, está-se a perder. Surge uma questão, às vezes completamente artificial,e há logo a tendência de todos os políticos, do governo e da oposição, irem atrás dela e fazerem daquilo um problema candente. (...) E porque [os jornalistas] lhes dão prazo: "Diga lá, mas não disse, de manhã já foi ouvido e ainda não disse nada". De modo que uma certa flexibilidade que a política tem de ter, justamente para captar todos os pontos de vista, está-se a perder, e dá a ideia de um grande populismo. Há uns que jogam mais nessa tecla do que outros. Para lhe dar um exemplo. Um político que não é da minha cor, digamos assim, mas que está a reagir um pouco contra isso, está-se a lixar. É o Rui Rio. Independentemente da bondade das soluções que propõe, diz que não - "isto tem o seu tempo, agora não, agora tem de esperar, só daqui a 15 dias é que falo" - e foge um pouco da conversa engatilhada de corresponder ao imediato e à urgência. Está-se a lixar, e todos o estão a lixar, os de fora e os de dentro. E ele vai cair, não tenho dúvida nenhuma de que não vai resistir

António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, p.64.


P.S.: subscrevo a ideia de que a capacidade "editorial", a capacidade do distinguo, de não se pronunciar sobre tudo e mais alguma coisa, de tentar hierarquizar o que tem mais importância daquilo que é secundário, de evitar o fogo fátuo, tem sido o melhor de Rui Rio, e, de facto, completamente contra-corrente e contra a actual cultura (de tal maneira que há muito, os jornalistas têm perdido essa tal capacidade de "edição"). Do ponto de vista ideológico, por sua vez, Rio alterna entre propostas a que não regressa - como no caso das que efectuou sobre a natalidade, aparentemente sem calcular devidamente quanta despesa tal medida representava -, não se percebendo bem se as deixa, ou não, cair; entre propostas com preocupação social, como aquelas que têm que ver, por exemplo, com a residência dos estudantes do ensino superior; com ideias de matriz mais liberal, como a propugnada para a área da Saúde. Sem esquecer que a escolha de protagonistas também dá um sinal de preparação (ou falta dela) e o mesmo se passa relativamente ao que cada um deles sinaliza do ponto de vista das escolhas ideológicas. 

Moldar os jovens


Está na internet um vídeo que fez para os seus alunos da Nova, espécie de apresentação em que valoriza o conhecimento enquanto estímulo da inquietação e impulso para a inovação, ou, se quiser, para a rutura. Enquanto professor, nos últimos anos, continuou a ver nos seus alunos essa predisposição para a rutura?

Tenho de ser sincero. Não. Aqui em Portugal. No Brasil, sim. No Brasil noto isso muito mais. Tenho dado cursos de História do Direito no Brasil e, aí, a curiosidade intelectual dos alunos das boas universidades é algo que não existe em Portugal. São inquietos, querem saber. Nomeadamente alunos de Direito, mas também de História. Conhecem as problemáticas teóricas subjacentes, numa certa medida, estão habituados a problematizar, a perguntar: "de que lado estás tu a falar? Qual é o teu ponto de vista estratégico sobre esse assunto?". No fundo, se é Direito, ignorar o aspecto técnico e ver que, por detrás daquilo, há ali uma opção teórica, ideológica, política. Isto encontra-se muito no Brasil. Aqui, devo dizer que cada vez menos. Os alunos são cada vez mais aquietados. Lá vai aparecendo um ou outro, sempre, mas cada vez são mais aquietados, mais esmagados. Digo isto em relação ao Direito, que também são alunos especiais. O aluno de Direito está a pensar na sua profissão, está a pensar num certo perfil de carreira. São pessoas que ficam angustiadas, às vezes, com a dúvida. (...) Portanto, voltando ao que me pergunta, não só noto isso menos como tive casos de alunos angustiados perante essa ideia de que o conhecimento não está fechado e acabado. (...) Não pode ser só o sistema de ensino [responsável por esta situação]. A sociedade de hoje é uma sociedade de conhecimento, de informação em que a informação está em todo o lado e as pessoas sofrem banhos de informação. Comparado com esse banho de informação, o ensino deve ser uma coisinha assim (...) É um banho de cultura em que nós estamos que deve ser responsável por isso, e talvez o conformismo da informação. A gente liga a televisão à noite e, para ouvir uma voz destoante, assim muito destoante, é preciso procurar um bom bocado. E isto é transversal às orientações políticas, porque você à esquerda e à direita encontra realmente senso comum por todo o lado. Cascatas de senso comum. Um tipo que fuja disto, sei lá...O Pacheco Pereira foge um bocado, diz coisas diferentes, para além de que é um tipo bem preparado e, portanto, as coisas diferentes que diz fazem bastante sentido. Ou, na economia, o Paes Mamede, não só um tipo muito sólido, muito chato para o outro que lá está, pois dá-lhe uns banhos desgraçados, mas diz coisas diferentes. Mas a generalidade não, a generalidade repete coisas do senso comum, mais para um lado ou mais para o outro. Eu acho que isso molda muito os jovens.

António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, pp.68.


P.S.: de entre os adolescentes atentos ao mundo que os rodeia, em se falando de um tema de actualidade e/ou que contenda com o mundo político, não raro aproximam-se para me revelarem, não sem a sua ponta de orgulho, que seguem a vida política e citam um comentador que disse isto, ou aquilo, sobre o facto em análise. O comentador é quase sempre o mesmo. Viram-no, e escutaram-no, atentamente, em família. Limito-me a registar. E assinalar, agora, aqui, da importância da escolha das televisões em sinal aberto de quem comenta. E vale a pena pensar se o comentador mais visto e ouvido será aquele que mais alarga horizontes, que mais é capaz de problematizar, de mostrar os mais diversos pontos de vista acerca da questão - ainda que sem abdicar de se posicionar sobre estes. Que não é isso que importa, dir-me-ão, as audiências, não sei eu. 
Ou se não é mais do que um banal administrador deste "senso comum", sem profundidade ou densidade, ficando pela rama, apenas com inside information, mais nada, procurando contentar as partes todas, a caminho dos 50% mais um necessários para, em o partido assim o deixe, chegar à Presidência. Suponho que o Joaquim (e, porque não, a família) não se aperceba(m) que não estamos perante um comentador, mas mais um player entre tantos, e que não saiba que não lhe chega nunca tanto do que, sobre os mesmos problemas é questionado em outros lados. Nunca me chegou alguém a correr e a vangloriar-se de ter ouvido outros comentadores. Há os comentadores, ou o comentador certo - mesmo assim, uma cópia -, e há os outros (que não existem; bem, talvez vá existir a Moura Guedes, que entretanto já diz que o povo não quer saber da liberdade de expressão com que se preocupam as elites. Vamos longe).

Como contamos a História


A História dos Descobrimentos, entre nós, ainda hoje é feita com o completo desconhecimento das línguas orientais. Há uma, duas ou três pessoas que têm realmente alguns conhecimentos linguísticos. De japonês, chinês, malaio, de sânscrito ou de línguas indianas, ou de árabe. A generalidade não tem. Quanto às línguas africanas, dirão que eles não tinham textos - não é bem verdade, mas a Ásia está cheia deles. Os persas estão cheios de textos sobre os portugueses, as partes da Índia, Bengala, etc., cheias de textos, os japoneses, chineses...Mas não são tidos em conta pela nossa historiografia. Mesmo os holandeses. Os holandeses escreveram imenso sobre os portugueses, no Oriente, mas a maior parte das pessoas, aqui, não sabe neerlandês. Isto é contar a história enviesadamente, porque é não ter em consideração os outros. Atenção, que os ingleses fazem o mesmo, os holandeses fazem o mesmo. Mas isso não é desculpa para nós

António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, pp.66-67.

P.S.: A última década (e meia), no discurso público de diferentes historiadores e demais investigadores interessados na matéria histórica, tem coincidido com a necessidade de questionar um discurso exclusivamente eurocêntrico, necessitado de completar pelo ponto de vista do outro, nomeadamente acerca dos mesmos acontecimentos históricos, as trocas que fizemos, como nos viram e como se apropriaram e interpretaram idêntica factualidade. Muitas obras recentes têm buscado esse outro olhar. Por vezes, nem nos recordamos de - da falta de - elementos básicos, para conhecer o ponto de vista do outro, a sua estratégia, o que para si esteve exactamente em causa num determinado dia em nos cruzámos, como o caso do domínio da língua desses povos com quem estivemos. E, nem nos ocorrendo essa falha, não questionamos o domínio precário de uma leitura mais extensa do que se passou.