segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Uma das minhas obsessões


Finalmente, fez-se trabalho no sentido de alterar a realidade escolar portuguesa, no que à inflação de notas - e consequente entrada no Ensino Superior - diz respeito. O trabalho da Inspecção-Geral da Educação e Ciência levou-a a adoptar recomendações às escolas inflacionistas. E, em um conjunto significativo de casos, essas recomendações terão já estado na origem da diminuição do gap entre nota de frequência interna e nota em exame nacional. Da diminuição do gap, à (quase) eliminação vai ainda um passo. A reportagem e análise do Público mostra claros ganhos de equidade, transparência e justiça. Ficámos a saber que 2/3 das escolas que inflacionavam mais as notas eram privadas. Observamos que no Norte se inflacionam mais as notas do que a Sul (Viana do Castelo é o distrito campeão na discrepância entre a nota de frequência interna e os exames). Houve escolas onde direcções - apontadas a dedo - desapareceram e das quais muitos professores saíram (dar 20 em oralidade, a Português; atribuir nota máxima em matérias afins a atitudes e valores, classificando estes com percentagens elevadas - 30%, por exemplo -, eram truques). As melhores notas em exames nacionais, contudo, a Matemática e, sobretudo, a Português ocorrem, também, a Norte. Porto e Setúbal são os distritos do país com mais escolas. No distrito de Lisboa, os alunos têm, em média, uma nota de frequência interna inferior ao resultado em exameA lei, no entanto, não permite penalizar as escolas que inflacionam notas (sucessivamente; nem as que sejam demasiado severas na atribuição classificativa). Mas os procedimentos da Inspecção de Educação já se mostraram suficientemente persuasivos para a realidade mudar. Um dos marcos da legislatura, em síntese. A prosseguir. E intensificar.

Uma nova «terceira via» (?)


Nem de direita, nem de esquerda? «De direita e de esquerda» - foi o mantra ideológico de Macron durante a campanha que o levou ao Eliseu, postulado cuja decifração (em aberto) se prolonga até à data. Agora, entrevistado por Fareed Zakaria (GPS, CNN), foi confrontado sobre se a sua política não estava a reeditar a «terceira via» de Blair e Clinton («novo centro»), entendida esta como uma combinação de crença nos mercados, reforço destes, maior autonomia para estes com justiça social. A resposta de Macron foi a seguinte:  
a minha aposta passa por três pilares, a saber: a) reforma fiscal e das leis do trabalho - já levadas a cabo (mas que só darão resultado no prazo de 18 a 24 meses, segundo afiançou, confrontado com os números actuais de crescimento económico); b) aposta na inovação e qualificação das pessoas; c) soberania.
Se as reformas já levadas a cabo implicaram uma diminuição de impostos para as empresas e houve flexibilização laboral, e se algumas medidas de combate à pobreza também foram lançadas, a divergência face à «terceira via», na leitura do próprio Macron, prende-se, sobretudo, com o factor soberania e, nesta, o entendimento de que a história, as tradições francesas são importantes, ser francês não é o mesmo que ser japonês ou norte-americano, ou, sequer, alemão, o presidente francês não acredita no "ultraliberalismo" nem num globalismo que posso homogeneizar tudo, e de tudo fazer tábua-rasa, e por isso aposta no reforço do ensino da literatura e da história na Escola (os franceses devem conhecer detalhadamente a sua história e ter orgulho nas suas raízes, disse). No fundo, uma «terceira via» com uma pitada de identidade, esta última muito dentro do espírito do tempo. 

Para ver na íntegra, a entrevista, aqui.

P.S.: Serge Halimi, recentemente, no Monde Diplomatique, questionava o binómio cosmopolitas-nacionalistas como sendo a grande dicotomia ideológica do nosso tempo, dizendo que, em assim se colocando Macron e Trump em campos opostos não se dá conta do que têm em comum, em especial, as suas reformas fiscais e quem delas mais beneficia. Visto pelo prisma ideológico de esquerda, o Presidente Macron, vindo da banca, beneficiaria os grupos económicos mais favorecidos à partida, contribuindo, ainda, porventura, para cimentar a discrepância da tributação do capital face ao trabalho; visto pelo prisma ideológico de direita, os cortes fiscais garantirão um tal incremento de investimento e criação de emprego, gerando crescimento, que mais do que justifica a perda de receita para o Estado e o alavancar dos ditos grupos económicos.

domingo, 18 de novembro de 2018

Passar o testemunho


A viagem para o Monte da Forca não durou uma hora, em passo de caracol. Há agora um viaduto que levou uns 5 minutos a atravessar até nos colocar em Parada de Cunhos. Não foi preciso fintar aulas, pedir autorização para um furo a meio da tarde. Holofotes gigantes, para dar na tv, a magia que só então se detectava pela rádio (a taça era quarta-feira vespertina, e até os transístores se levavam para as aulas, antes da facilidade tecnológica dos smartphones). E, mau grado, o actual "grande ambiente", não obstante o "estádio cheio", a "expectativa da cidade" mal o sorteio foi conhecido, as reportagens nos jornais, a presença das televisões, o direto das rádios, não houve, neste caso, a "faca nos dentes", a corrente mais sanguínea, o bairrismo, o conhecimento, profundo, pelas bancadas, da equipa (e consequente comunhão com a mesma), do onze, do nome do lateral e do extremos, e uma esperança, mal disfarçada, de vitória nos locais, que se sentia em Fevereiro de 1991, quando, pela primeira vez, vi em Vila Real o meu FCP. Faltaram os milhares de papelinhos atirados a quando da entrada das equipas, não houve o "Re-al! Re-al!Re-al!!" gritado, com arreganho intimidatório, das bancadas - havia agora um simulacro de claque, com meia dúzia de crianças, a querer imitar os adultos do lado oposto. Nem sequer cabiam nas bancadas os mesmos de há quase três décadas - os camarotes confortáveis, que agora recebem a saudação dos atletas durante duas décadas realizada para a central do lado contrário, tiraram lugares à lotação. Desta feita, não houve lugar, sequer, à mitologia do "golo em off side" do Paille, do penalty sobre o Laranjo e outros feitos excepcionais - não fosse a arbitragem, e em Fevereiro de 1991, conclui-se, o FCP teria sido goleado na Forca. Haja boa disposição. 
Mas o que levei, e mostrei à saída, à geração seguinte, foi uma foto de Dezembro de há 27 anos. No espaço de meses, o Porto vinha jogar, pela segunda vez, ao Monte da Forca. Ainda criança, vejo-me, surpreendentemente, introduzido, por mão amiga, e muito improvável para o caso do futebol, no Hotel onde a equipa estagia (noite anterior ao jogo; em 2018, foi ir e vir túnel do Marão cumprido). Na sala, sento-me então ao lado de Octávio Machado - onde me vejo agora, com a timidez natural, quase a esconder-me - e de seguida sou acompanhado ao quarto dos jogadores que, cumprindo o estereótipo da época, jogam às cartas e bebem sumo de laranja natural. Ainda guardava os autógrafos dos Vítor Baías, dos Aloísios, dos Jorges Coutos de então.  
Hoje, há mais "evento" do que jogo; há menos Taça, e mais "prestígio"; o Vila Real portou-se como se tivesse tido, como teve, um privilégio, e como se disputar o jogo nunca tivesse passado pela cabeça. Há mais desencantamento do mundo, e menos possibilidades de feitiços e sucessos paranormais; um tempo plano, sem tempo fora do tempo, também se nota quase sempre em jogos de taça sem risco, e sem diferenças dos do campeonato, resignados e sem convocar a sorte das estrelas (mesmo que fosse reclamar um fantasmagórico off side do Paille, ou, em alternativa, um penalty do Laranjo).

sábado, 17 de novembro de 2018

Pode ser outra coisa


Os Verdes só chegaram ao Parlamento alemão em 1983. Tiveram, agora, a maior subida no Hesse e na Baviera. Um movimento muito mais forte do que o incrementar da extrema-direita da AfD. Em Portugal, com as excepções de Rui Tavares e Viriato Soromenho-Marques não vi ninguém sublinhar esta realidade que coloca, de algum modo, em cheque muita da narrativa sobre a inevitabilidade de certas vitórias (a chegar) e do que as motiva (ou de que lado, uma clara maioria da população, se encontra, sobre esses temas que fazem com que a AfD, a nível nacional, atinja os 15%). Na sondagem realizada, em se perguntando aos eleitores acerca da expressão nacional do seu voto em legislativas, os Verdes ficaram num segundo lugar, claramente acima da AfD e dos sociais-democratas que estão hoje profundamente descapitalizados (eleitoralmente, na Alemanha). De resto, no seu texto no mais recente número do JL, Soromenho-Marques, ao contrário de tantos e expressamente recusando o louvor, permanece extremamente crítico de Angela Merkel, da sua falta de visão e de estratégia ao longo dos anos duros de uma crise (mais ou menos) interminável.


P.S.: vejo os 19 minutos iniciais da Quadratura do Círculo. Dedicados, por inteiro, à magna questão da tourada. Há semanas em que, por deveres de ofício, talvez nos sintamos um pouco menos conectados com o que possa passar-se algures. Mas, vendo o programa, fico descansado: para quase metade do tempo ser dedicado a touradas, ainda para mais um tema repetido pela segunda semana (consecutiva), é porque não perdi nada do que se passou no país. Ou porque o programa anda pouco imaginativo. Ou, porque, em geral, a comunicação social não traz grandes discussões a debate...A segunda metade, foi dedicada às tricas no interior do PSD que de tão repetidas e gastas, e gastas de décadas, só pode suscitar um longo bocejo. O sorriso chega, porventura, a propósito destes temas com os posts sempre enérgicos de Alfredo Barroso que, a propósito das caçadas e touradas, acusou Manuel Alegre e Sousa Tavares de se comportarem como "fidalgotes empertigados". Falando mais a sério ainda, convinha ler o artigo de António Guerreiro, no Y, para se entender, de vez, porque não é possível qualquer equilíbrio, negociação, harmonização de posições entre defensores de touradas e anti-touradas (a dicotomia cultura vs civilização). E respigo, por fim, do Sol, os números do Relatório da Atividade Tauromáquica 2017: 181 touradas (face a 313 em 2009). 378 mil espectadores, dos quais a maioria nas praças de Albufeira e Lisboa. Decresce o número de touradas e espectadores, mas ainda assim não são tão poucas e tão poucos como poderia pensar-se.

Na sobreposição do dia e da noite


É extremamente importante saber que tais momentos em que tudo na vida espiritual de uma pessoa é abalado, como se Deus tivesse morrido, a sua fé tivesse escurecido e a pessoa realmente tivesse batido no fundo, são valiosos e importantes. Este momento deve ser recebido como uma experiência religiosa fundamental. É algures aqui onde termina a posse das «ideias religiosas» e a verdadeira fé pode começar.
Sim, há pessoas que no momento do silêncio de Deus se afastam da fé porque chegam à conclusão de que Deus «não existe». Seria mais honesto afirmar que a sua actual noção de Deus «não funciona». Sim, um Deus que «funciona» de acordo com a ideia do homem, na verdade não existe ou, pelo menos, não é Deus, é um ídolo, e é melhor libertar-se dele. Essas pessoas têm a sua parte de verdade, mas ficam a meio caminho. O objectivo de superar os ídolos é libertar espaço para um encontro com um Deus vivo. É esse o momento do «eclipse» que no caminho espiritual se pode tornar um encontro decisivo com um Deus vivo. Muitas vezes, só à distância podemos ver que foi o próprio Deus, e não qualquer obstáculo interior ou exterior, que «bloqueou» o nosso caminho espiritual interior. Escondeu-se no silêncio e na escuridão, reduzido a nada, mas é lá onde é preciso encontrarmo-nos com Ele. (...)
João da Cruz fala para as pessoas cujo «Deus morreu», cuja fé escureceu, que caminham na noite. Como um terapeuta espiritual experiente, ele reinterpreta essa situação. Não se aterrorizem com remorsos moralizantes! Deus não vos pune com esta escuridão pelos vossos pecados. Isto não significa que tenham negligenciado a fé. E isso de modo algum significa que o vosso caminho anterior tenha sido inútil. Neste momento sombrio, o toque do abandono de nosso Senhor na cruz é o momento de transformação e purificação, da tua morte e ressurreição.
No início, o mundo ficou em silêncio quando tu, apaixonado, voaste para o encontro amoroso com Deus, livre, como se corre com amor no coração pela noite de verão. O mundo, os sentidos, as coisas, tudo dormia, sem te incomodar e sem te distrair, tudo estava coberto pela escuridão. Mas agora é Deus que está em silêncio, a escuridão alcançou o santuário do teu espírito. Mas não tenhas medo, aguenta-te neste caminho escuro. Não será que esta escuridão possa ser um encadeamento causado pelo excesso da luz? Será que esse momento «sombrio» significa que estás a enfrentar o sol? (...) [João da Cruz] tenta mostrar-lhe que esta crise é uma oportunidade e uma visitação. Não moraliza nem oferece soluções baratas. Devemos aceitar essa situação porque é uma das formas através da qual Deus comunica com o homem. É até uma das maneiras mais profundas de contacto com o coração do homem. Chega às pessoas feridas e áridas. A quebra da devoção actual é, por sua vez, uma oportunidade para deixar morrer a forma infantil e ingénua da fé e experimentar a queda dos ídolos. Temos uma tendência constante para idealizar Deus através de conceitos e imagens. É apenas no momento da queda, do questionamento e do silêncio de todas essas imagens que podemos perceber que Deus está muito longe, por trás e acima disso, sendo maior que tudo o que possamos imaginar sobre Ele. (...) Há muito tempo, uma religiosa disse-me uma frase que na época não entendi: «Quanto mais velha sou, mais Deus me parece próximo e, ao mesmo tempo, distante de mim». Às vezes, só depois de muitos anos de vida espiritual e de pelo menos três fortes crises de fé, percebemos que esta não é uma «certeza» imutável e estática, mas, sim, um caminho pelo qual a luz e a escuridão se alternam. Se é que é possível avistar Deus, pelo menos um pouco, tal como Elias «viu» no monte Horeb, será então provavelmente no momento da sobreposição do dia e da noite.

Tomás Halík, Diante de Ti, os meus caminhos, Paulinas, 2018, pp.265-268.

A Rosa


"Rosa é uma Rosa é uma Rosa", a famosa citação de Gertrude Stein (1874-1946) (...) aparece pela primeira vez no poema Sacred Emily (1922), com a forma poética que traduz o reforço da identidade de alguma coisa apenas invocando o seu nome, mas é usada com variantes em muitas outras obras da autora, como seja, O mundo é Redondo, uma anticonvencional e simbólica narrativa de uma criança que procura saber quem é, em busca do seu lugar e realização num mundo sempre em mudança.

Helena Simões, Rosa é uma Rosa, JL, 7 a 20 de Novembro de 2018, p.20