quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O pontificado de Bento XVI - para uma síntese


Com Bento XVI, dá-se uma novidade na linguagem pontifícia. Pela primeira vez na história, um Papa escreve e fala publicamente não só a partir da sua cátedra, mas também como pessoa privada. É o caso dos livros sobre Jesus, que a propósito levam a assinatura não só de «Bento XVI» mas também de «Joseph Ratzinger». Sobre estes seus escritos, o Papa pede liberdade de opinião, incluindo crítica aberta. Observa-se que é um catedrático aberto à confrontação e sem temor às opiniões diferentes. Trata-se de uma nova forma de comunicar, tanto com católicos como com os diversos crentes e não crentes. Na renovação da comunicação pontifícia é de assinalar também a entrevista publicada em 2010 de Peter Seewald (trata-se da primeira entrevista «directa e pessoal» de um Papa), que se insere na modalidade comunicativa dos seus predecessores (que, sem embargo, adoptou a técnica da pergunta e resposta escrita) e também a herança dos diálogos de Paulo VI com Jean Guiton (que, certamente, não são entrevistas e na intenção do Papa não deviam ser públicas). (...)
O Papa no conjunto do seu discurso de Magistério propõe um «cristianismo essencial, puro, não sobrecarregado de super-estruturas. Uma fé íntima vivida concreta e publicamente». Quer fazer superar a percepção pública de um catolicismo reduzido a normas e a proibições, e para isso quer apresentar o seu coração no conceito de Deus-amor: Deus Caritas Est, que será o título da sua primeira encíclica (25 de Dezembro de 2005). O Papa recorda que na origem da fé está precisamente um acto de amor, o encontro com Cristo, como de facto escreve no primeiro parágrafo da encíclica: «Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas sim pelo encontro com um Acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ele, uma orientação decisiva». Apresenta uma imagem fascinante e pacífica do cristianismo. Apresenta um cristão [como aquele] que elege a via da caridade com um compromisso prático em uma comunidade de amor, que é a Igreja. O crente ama quando não se busca a si mesmo, mas quando cuida do outro, sabendo ademais sacrificar-seSó em Itália, em apenas dez dias, a encíclica vende um milhão de cópias
A segunda encíclica, Spe Salvi (30 de Novembro de 2007), toca um tema fundamental da fé cristã:a esperança. Da reflexão teórica passa-se a um exercício concreto. Trata-se de um texto que toca a escatologia, quer dizer, a grande esperança cristã da vida eterna. O Pontífice vai contra a secularização da esperança, para revalorizar nela o seu significado cristão profundo
Na mesma linha, publica-se, a 29 de Junho de 2009, a encíclica social Caritas in Veritate, que busca redefinir as relações económicas, produtivas e financeiras segundo o bem comum universal, ancorado na ética da responsabilidade e na justiça social, seguindo-se a solidariedade e a subsidariedade. No texto, o Papa afirma estar a propor uma visão «de que há uma normatividade do amor ao próximo que se orienta pela vontade de Deus e não apenas pelos nossos desejos». À encíclica são dirigidas algumas críticas a partir do ambiente chamado «teo-con» norte-americano, em relação a passagens [do texto] nas quais o Papa fala do mercado (com reflexões sobre «o dano que as transferências de capitais ao estrangeiro com ganância exclusivamente pessoal pode produzir à própria nação», n.40) e da globalização (com a crítica «às reduções das redes de segurança social», n.25). O problema está no facto de que, se em Centessimus Annus [encíclica de João Paulo II] o capitalismo era integrado na visão católica, agora «o novo texto Pontifício mostra-se mais cauto e inclusivamente aventa algumas críticas» [citação que remete para o livro de Paolo Rodari e Andrea Tornielli, Attaco a Ratzinger...] 
Algumas críticas à proposta da encíclica (particularmente a segunda parte) vêem também da «esquerda» (Paolo Prodi). Mas, de facto, as adesões [à encíclica] são muito mais transversais e de amplo leque.
Nesta apresentação do rosto belo da Igreja entra o projecto pessoal do Papa de apresentar o único rosto da Igreja, que é o de Cristo, e por isso escreverá e publicará três volumes sobre Jesus de Nazaré. O desafio para a Igreja, hoje, é fazer redescobrir Deus e por isso também a nível pessoal [o Papa] se sente implicado, e assim se dedica ao melhor que sabe fazer: escreve, escreve como Papa e Professor. (...) Sobre isto, sente uma responsabilidade pessoal, como confessará a Peter Seewald: o Papa é «o responsável pela manutenção da fé que mantém os homens unidos, [para] que siga viva e permaneça intacta na sua identidade». A grande tarefa do Papa, como da Igreja, é «colocar novamente Deus em primeiro lugar». Para o Pontífice, os crentes necessitam de «ilhas, em certo sentido, nas quais a fé em Deus e a simplicidade interior do cristianismo estejam vivas e irradiem; oásis, arcas de Noé nas quais o homem possa refugiar-se sempre de novo». (...) E o Pontificado de Ratzinger conjugará o tema da fé numa visão harmonizada com a razão; a relação entre as duas converte-se, em tantos e numerosos textos, na preocupação fundamental do pontificado.

Roberto Regoli, El Pontificado de Bento XVI. Mas allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro, 2018, pp.105-106 e 112-114.


P.S.: neste livro, escreve-se também que os quadros da Cúria e adjacências, até João Paulo II, advinham, quase sempre, de diferentes regiões de Itália (eram "quadros regionais"); com a eleição do Papa polaco, passaram a emergir quadros que se alinhavam pela nacionalidade do novo Pontífice ("quadros nacionais"); por sua vez, com Bento XVI, a recomposição da Cúria, dos Dicastérios teve por base uma rede de ex-alunos, colaboradores e amigos de Ratzinger (p.62).
Talvez alguns não tenham notado, mais Bento XVI foi o primeiro Papa a pedir (aos fiéis) que rezassem por ele, após a sua eleição (p.53).
O livro confirma uma auto-crítica que Bento XVI realizou no último livro de entrevistas com P.Seewald: "se Bento XVI segue minuciosamente os dossiers, tem mais dificuldades para seguir as pessoas" (p.73). Não gostava de ser o centro das atenções (p.116).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Identidades"


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Outros tópicos a partir de Identidades, de Francis Fukuyama:

*Neste seu mais recente ensaio corrobora a ideia tradicional - ainda que por vezes impugnada, como surgiu, de resto, a propósito da candidatura de Bernie Sanders ou de diversos candidatos democratas, com propostas mais à esquerda do que o habitual, nas mais recentes eleições - de que os americanos, sejam de direita ou de esquerda, desconfiam do Estado (grande) - vide, p.198; 

*O politólogo refere-se ao vazio deixado pelo declínio do "horizonte comum partilhado" - em função do peso e ancoragem social da religião, que caiu, largamente, nas últimas décadas -, sustentando duas coisas: que ao religioso sucedeu o psicoterapeuta; mais: não raro do religioso, ele mesmo, esperou-se/espera-se um serviço terapêutico. Na vez das "verdades eternas" (p.124);

*Em matéria de requisitos de cidadania, a indicação de um exemplo muito curioso e ilustrativo do que hoje, em boa parte, está em jogo na europa. O Land alemão de Baden-Wurttemberg apesar da "sua própria herança conservadora católica" tornou a aceitação do casamento homossexual uma condição de cidadania. O que diz muito sobre o entorno cultural, e o olhar sobre este, que (se espera que) demanda a Alemanha, por parte de quem constrói tais requisitos e testes nos quais é preciso passar para se ser cidadão;

*Fukuyama segue o posicionamento de Samuel Huntington no que diz respeito à interpretação da identidade norte-americana. De acordo com Huntington, subscrito por Fukuyama, os EUA assentam na ética de trabalho protestante. A definição da identidade norte-americana, atente-se, não se faz, no entender destes académicos em termos étnicos ou religiosos; o que sucede é que para ser americano um cidadão nascido no Quénia, na Coreia do Sul, em Itália, na Austrália, no México ou no Iémen irão adoptar uma postura face ao trabalho que radicou em alicerces protestantes. Cada um destes cidadãos poderá ter a sua própria religião, no entanto, bem compreendido; o que eles serão é algo como "protestantes culturais" - pelo menos, face ao trabalho

*Creio que é bastante pertinente nesta hora democrática em que nos encontramos, sublinhar o Tocqueville que Fukuyama traz à liça, subscrevendo-o também: "Tocqueville (...) avisou contra a tentação das pessoas nas sociedades democráticas para se virarem para si próprias e se preocuparem exclusivamente com o bem-estar próprio e o das suas famílias. A democracia bem-sucedida, segundo ele, requer cidadãos que sejam patriotas, informados, activos, com espírito público e dispostos a participar nos assuntos políticos. Nesta era de polarização, poderíamos acrescentar que devem ser de espírito aberto, tolerantes de outros pontos de vista e prontos a compromissos em nome do consenso democrático" (pp.182-183);

*Francis Fukuyama equaciona os problemas da existência de vínculos a mais do que uma nacionalidade (dupla nacionalidade), tantas vezes ignorados/esquecidos/negligenciados: desde logo, a possibilidade de os dois países de que o cidadão é nacional entrarem em guerra entre si. Outros problemas, com exemplos pelo meio: em 2017, Erdogan, exortou os cidadãos com nacionalidade turca e alemã a votarem em políticos que favorecessem os interesses turcos. A que lealdade se entregam os cidadãos alemães de origem turca (beneficiando da cobertura e dos benefícios dos dois Estados, sendo que um dos quais não irá merecer a sua lealdade)? - vide, p.190; 

*Quando não há uma forte identidade nacional, uma narrativa conjunta - nomeadamente, passada pelo sistema educativo -, dificilmente os estados se aguentam, em particular enquanto democracias: as votações replicam/incidem sobre famílias, tribos, etnias, grupos religiosos;

*Para o investigador, é claro que "a identidade da Europa é hoje confusa, para falar caridosamente. Os proponentes da União Europeia não conseguiram criar um sentido forte de identidade pan-europeia que suplantasse as identidades dos seus estados membros. Essas identidades nacionais são tenazes e variam tremendamente entre si, indo de umas que são relativamente abertas e poderiam acomodar populações diversificadas, como a de França, a outras que criam barreiras deliberadas à assimilação de imigrantes, como as que adoptou a Hungria. A região não é tanto ameaçada por imigrantes como pela reacção política que os imigrantes e a diversidade cultural criam. Os demónios anti-imigrantes e anti-União Europeia que foram invocados são muitas vezes profundamente iliberais e ameaçam a ordem política aberta em que tem assentado a prosperidade da região" (p.176).

Leituras


Comecei a ler um livro dedicado ao (balanço do) Pontificado de Bento XVI, de um autor italiano, Roberto Regoli, Professor de História Contemporânea na Pontifícia Universidade Gregoriana, instituição na qual dirige o Departamento de História da Igreja, bem como a revista "Archivum Historiae Pontificiae", sendo especialista na História do Papado, da Cúria e Diplomacia Pontifícia nos sécs.XIX-XXI. O livro intitula-se (ainda que não se encontre editado em português): "O Pontificado de Bento XVI. Para lá da crise da Igreja".
Das primeiras dezenas de páginas de leitura, ficam duas curiosidades (que anotei): a de que D.José Policarpo fazia parte de um grupo chamado St Gallen, por se reunir naquela cidade suiça, no qual pontificavam figuras como Carlo Maria Martini ou Walter Kasper - o qual olhava, no período pré-sucessão de João Paulo II, para a figura de J.Ratzinger como "promotor de forças católicas centralistas e restauradoras" (mesmo sem o verem, necessariamente, como a figura que seria o sucessor, olhavam-no como aglutinando tais sectores); um cardeal, à época do conclave para a sucessão de J.Paulo II, disse de Ratzinger uma definição curiosa: "inteligente como uma dezena de professores [juntos] e devoto como uma criança que recebe a primeira comunhão". 
A questão das prioridades e da resposta face à secularização, de relacionamento com o mundo - entre as várias demandas e agendas que se colocavam ao conclave de 2005 - como adquirindo certa centralidade na resposta a encontrar quanto a quem seria o novo Papa. A escolha, é aqui enfatizado, recaiu em que se considerava que melhor conhecia a história, o pensamento, a filosofia do Ocidente e era capaz de dialogar com ele, numa época de forte crise de fé
Também não menos curioso verificar que os vaticanistas, segundo Regoli, são 42% italianos, 28% outros europeus, 19% norte-americanos e 1% provenientes do resto do mundo. Portanto, em termos de relato jornalístico sobre temas do Vaticano estamos confinados a um relato ocidental e, acrescenta o professor, sempre centrado numa lógica política (de interpretação dos acontecimentos), segundo uma grelha política esquerda/direita (uma dicotomia "já superada", diz o ensaísta) ou conservadores/progressistas, sem se atentar devidamente na dimensão religiosa/espiritual.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Um manifesto europeu


O conjunto de subscritores - entre os quais os portugueses Álvaro de Vasconcelos e Pedro Bacelar de Vasconcelos - do Manifesto para salvar a Europa, hoje publicado pelo The Guardian, encabeçado por Thomas Piketty afirmam que actualmente, na Europa, parece haver apenas dois grupos ou movimentos políticos: aqueles que andam à caça de refugiados/imigrantes e aqueles que pensam que o liberalismo e a competição são os dois princípios que chegam para que as coisas andem bem: "Eles não reconhecem que essa falta de ambição social é o que leva a sentimentos de abandono".  O documento propõe uma contribuição adicional dos "vencedores da globalização" por via fiscal, plasmando-se nele que, em nossos dias, a progressividade fiscal está em causa. 
O financiamento de um orçamento europeu robusto (4% do PIB) far-se-ia com recurso à taxação europeia dos lucros das "grandes empresas", dos grandes rendimentos (200 mil euros anuais), e às emissões de carbono (30 euros por tonelada)Tal orçamento seria dedicado a ID nas Universidades, transformação do modelo económico, financiamento da recepção e integração dos imigrantes
Os subscritores pretendem ainda a formação de uma Assembleia Europeia a partir das Assembleias Nacionais (em 80% dos membros; os restantes 20% adviriam do actual PE), sem mudar Tratados


O manifesto, na íntegraaqui.

Política


Em Identidades, Fukuyama é muito tributário da teorização de Mark Lilla (citado expressamente a propósito na pág.141, alvo de agradecimento, no entanto, pelos contributos para a obra logo no Prefácio da mesma, p.18) quanto a uma esquerda que deixa de se dirigir à universalidade (dos trabalhadores e dos cidadãos) para se centrar em vários grupos particulares (negros, mulheres, hispânicos, homossexuais, asiáticos, etc.). Uma esquerda que abandona o terreno económico e migra para o cultural/identitário. Que abandona a classe trabalhadora ("o princípio do reconhecimento universal e igual se transformou no especial reconhecimento de certos grupos", p.114). Tal como outros autores, assinala que isso sucede, nomeadamente, porque é muito mais fácil, custa muito menos, conseguir ganhos em matéria cultural (ex: criação de quotas) do que melhorar a vida (económica, material) de vastos sectores da população. Com esta posição, contudo, a esquerda esqueceu que a soma das partes (múltiplas identidades) será inferior ao todo (anterior). Muitos operários que ainda sobejam do processo de desindustrialização acabam por cair no regaço de forças de extrema-direita em inúmeros países. Seja porque estes partidos apelam a políticas proteccionistas antes alvitradas à esquerda (hoje, nem tanto na esquerda mainstream, ainda que também sugeridas por uma esquerda minoritária), seja porque a direita, em estratégia espelhar, elegeu também os seus grupos particulares esquecidos pela política identitária de esquerda; a direita passa também a agir com base nesta primazia cultural/identitária - mas dirige-se a outras identidades (brancos, nacionalistas, do campo/província, vinculados a grupos religiosos ditos cristãos, defensores da família e de valores tradicionais).
Desde os anos 1990, os partidos de esquerda, na Europa, derivando para o centro, parecem-se cada vez mais com os partidos de direita, observa Fukuyama (p.99). A crise (petrolífera) dos finais dos anos 70 colocou em crise o modelo de ilimitado crescimento de direitos, em âmbito económico, dos cidadãos e crescimento do Estado Social. No que me parece uma certa contradição de Fukuyama, contudo, é quando junta a este diagnóstico (responsabilizando/culpando a esquerda pela política de soma de pequenas identidades e o não dirigir-se a um grande grupo de "explorados"(sic)) a ideia de que as políticas de redistribuição tradicionais da esquerda estavam a colocar em causa incentivos para o trabalho, para o empreendedorismo ou a poupança (p.136). Pelo menos, em um primeiro olhar, poderá surgir contraditória (além de bastante controvertido o mérito da observação) esta última crítica - no sentido em que a política redistributiva visava a agora reclamada universalidade de trabalhadores, e não pequenos sectores; na medida em que aqui se dava primazia ao económico e não ao identitário -, ainda que a compatibilização possa ser alcançada em se dizendo que a esquerda devia dirigir-se ao todo, aos desfavorecidos, tentar melhorar a situação de vastos grupos, mas com políticas diversas daquelas apontadas como não mobilizadoras do "empreendedorismo e da poupança". Fukuyama, todavia, não aponta soluções, congregando, aqui, assim, as críticas da esquerda à esquerda (Lilla, a questão dos vários subgrupos) com uma tradicional crítica de direita às prestações sociais. A única excepção é a indicação de uma política social ambiciosa (elogiada neste livro) do mandato de Obama: o Affordable Care Act ("Obamacare").
De resto, é com base na importância do thymos em cada pessoa, da necessidade de reconhecimento da dignidade que cada um possui que Fukuyama rejeita um rendimento mínimo incondicional, ou seja, não seria bom/satisfatório/suficiente para as pessoas disporem de um rendimento incondicional, porque sempre continuariam a necessitar de um reconhecimento social (que adviria de um contributo que delas se esperaria/que elas quereriam dar).

Do que falamos quando falamos em «política identitária»?


Os termos identidade e política identitária são de uma proveniência relativamente recente, tendo o primeiro sido popularizado pelo psicólogo Erik Erikson durante os anos 1950 e o último aparecido só na política cultural dos anos 1980 e 1990. Identidade tem um vasto número de significados hoje em dia, nalguns casos referindo-se simplesmente a informação básica sobre nós próprios (como em «a minha identidade foi roubada»). Neste sentido, as identidades sempre existiram.
Neste livro, usarei identidade num sentido específico que nos ajuda a compreender por que é tão importante na política contemporânea. A identidade nasce, em primeiro lugar, da distinção entre o nosso eu interior e um mundo exterior de regras e normas sociais que não reconhecem adequadamente o valor ou dignidade do nosso eu interior. (...) O eu interior é a base da dignidade humana, mas a natureza dessa dignidade tem mudado ao longo do tempo. Em muitas culturas primitivas, a dignidade é atribuída apenas a umas quantas pessoas, muitas vezes guerreiros que estão dispostos a arriscar as suas vidas em combate. Noutras sociedades, a dignidade é atributo de todos os seres humanos, baseada no valor intrínseco de pessoas com entidade. E noutros casos, a dignidade é devida à pertença a um grupo maior de memória e experiência partilhadas. (...)
No Ocidente, a ideia de identidade nasceu, em certo sentido, durante a Reforma protestante e foi-lhe dada expressão inicial pelo frade agostinho Martim Lutero (...) Compreendeu que a Igreja agia apenas sobre a pessoa exterior - através da confissão, da penitência, das esmolas, da veneração dos santos - pelo que nada podia fazer diferença porque a Graça só era outorgada como ato livre de amor de Deus. Lutero foi um dos primeiros pensadores ocidentais a articular e valorizar o eu interior acima do ser social externo (...) O conceito moderno de identidade reúne três fenómenos diferentes. O primeiro é o thymos, um aspecto universal da personalidade humana que anseia reconhecimento. O segundo é a distinção entre a pessoa interior e a exterior. Isto só surgiu no início da Europa moderna. O terceiro é uma evolução do sentimento de dignidade, em que o reconhecimento é devido não apenas a uma restrita classe de pessoas, mas a toda a gente.

Francis Fukuyama, Identidades, D.Quixote, 2018, pp.27-28, 46 e 57-58.

Politização da religião (II)


Ao mesmo tempo, a religião tem estado num crescendo como fenómeno político. Isto é mais obviamente verdadeiro no Médio Oriente árabe, onde a Primavera Árabe de 2011 foi feita descarrilar por grupos islamistas como a Irmandade Muçulmana e organizações terroristas mais radicais como o Estado Islâmico. Embora este último esteja quase derrotado na Síria e no Iraque, os movimentos islamistas continuam a alastrar em países como o Bangladesh, a Tailândia e as Filipinas. Na Indonésia, o popular governador cristão de Djacarta, Basuki Tjahaja Purnama (Ahok), foi atacado por alegada blasfémia por grupos islamistas crescentemente auto-confiantes e acabou por ser preso depois de perder por pouco a sua reeleição. Mas o Islão não é, todavia, a única forma de religião politizada. O partido do presidente Nodi, o Partido do Povo Indiano (BJP), é explicitamente baseado num entendimento hindu da identidade nacional indiana. Uma forma militante de budismo político tem estado a espalhar-se em países do Sul e Sudoeste da Ásia como o Sri Lanka e Myanmar, onde tem havido choques com grupos muçulmanos e hindus. Grupos religiosos fazem parte de coligações conservadoras em democracias como o Japão, a Polónia e os Estados Unidos. Em Israel, uma ordem política que tinha sido dominada, por mais de uma geração desde a independência, por dois partidos ideológicos de estilo europeu, o Trabalhista e o Likud, tem visto uma proporção cada vez maior dos votos ir para partidos religiosos como o Shas ou o Agudath Israel

Francis Fukuyama, Identidades, D.Quixote, 2018, p.98.