Com Bento XVI, dá-se uma novidade na linguagem pontifícia. Pela primeira vez na história, um Papa escreve e fala publicamente não só a partir da sua cátedra, mas também como pessoa privada. É o caso dos livros sobre Jesus, que a propósito levam a assinatura não só de «Bento XVI» mas também de «Joseph Ratzinger». Sobre estes seus escritos, o Papa pede liberdade de opinião, incluindo crítica aberta. Observa-se que é um catedrático aberto à confrontação e sem temor às opiniões diferentes. Trata-se de uma nova forma de comunicar, tanto com católicos como com os diversos crentes e não crentes. Na renovação da comunicação pontifícia é de assinalar também a entrevista publicada em 2010 de Peter Seewald (trata-se da primeira entrevista «directa e pessoal» de um Papa), que se insere na modalidade comunicativa dos seus predecessores (que, sem embargo, adoptou a técnica da pergunta e resposta escrita) e também a herança dos diálogos de Paulo VI com Jean Guiton (que, certamente, não são entrevistas e na intenção do Papa não deviam ser públicas). (...)
O Papa no conjunto do seu discurso de Magistério propõe um «cristianismo essencial, puro, não sobrecarregado de super-estruturas. Uma fé íntima vivida concreta e publicamente». Quer fazer superar a percepção pública de um catolicismo reduzido a normas e a proibições, e para isso quer apresentar o seu coração no conceito de Deus-amor: Deus Caritas Est, que será o título da sua primeira encíclica (25 de Dezembro de 2005). O Papa recorda que na origem da fé está precisamente um acto de amor, o encontro com Cristo, como de facto escreve no primeiro parágrafo da encíclica: «Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas sim pelo encontro com um Acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ele, uma orientação decisiva». Apresenta uma imagem fascinante e pacífica do cristianismo. Apresenta um cristão [como aquele] que elege a via da caridade com um compromisso prático em uma comunidade de amor, que é a Igreja. O crente ama quando não se busca a si mesmo, mas quando cuida do outro, sabendo ademais sacrificar-se. Só em Itália, em apenas dez dias, a encíclica vende um milhão de cópias.
A segunda encíclica, Spe Salvi (30 de Novembro de 2007), toca um tema fundamental da fé cristã:a esperança. Da reflexão teórica passa-se a um exercício concreto. Trata-se de um texto que toca a escatologia, quer dizer, a grande esperança cristã da vida eterna. O Pontífice vai contra a secularização da esperança, para revalorizar nela o seu significado cristão profundo.
Na mesma linha, publica-se, a 29 de Junho de 2009, a encíclica social Caritas in Veritate, que busca redefinir as relações económicas, produtivas e financeiras segundo o bem comum universal, ancorado na ética da responsabilidade e na justiça social, seguindo-se a solidariedade e a subsidariedade. No texto, o Papa afirma estar a propor uma visão «de que há uma normatividade do amor ao próximo que se orienta pela vontade de Deus e não apenas pelos nossos desejos». À encíclica são dirigidas algumas críticas a partir do ambiente chamado «teo-con» norte-americano, em relação a passagens [do texto] nas quais o Papa fala do mercado (com reflexões sobre «o dano que as transferências de capitais ao estrangeiro com ganância exclusivamente pessoal pode produzir à própria nação», n.40) e da globalização (com a crítica «às reduções das redes de segurança social», n.25). O problema está no facto de que, se em Centessimus Annus [encíclica de João Paulo II] o capitalismo era integrado na visão católica, agora «o novo texto Pontifício mostra-se mais cauto e inclusivamente aventa algumas críticas» [citação que remete para o livro de Paolo Rodari e Andrea Tornielli, Attaco a Ratzinger...]
Algumas críticas à proposta da encíclica (particularmente a segunda parte) vêem também da «esquerda» (Paolo Prodi). Mas, de facto, as adesões [à encíclica] são muito mais transversais e de amplo leque.
Nesta apresentação do rosto belo da Igreja entra o projecto pessoal do Papa de apresentar o único rosto da Igreja, que é o de Cristo, e por isso escreverá e publicará três volumes sobre Jesus de Nazaré. O desafio para a Igreja, hoje, é fazer redescobrir Deus e por isso também a nível pessoal [o Papa] se sente implicado, e assim se dedica ao melhor que sabe fazer: escreve, escreve como Papa e Professor. (...) Sobre isto, sente uma responsabilidade pessoal, como confessará a Peter Seewald: o Papa é «o responsável pela manutenção da fé que mantém os homens unidos, [para] que siga viva e permaneça intacta na sua identidade». A grande tarefa do Papa, como da Igreja, é «colocar novamente Deus em primeiro lugar». Para o Pontífice, os crentes necessitam de «ilhas, em certo sentido, nas quais a fé em Deus e a simplicidade interior do cristianismo estejam vivas e irradiem; oásis, arcas de Noé nas quais o homem possa refugiar-se sempre de novo». (...) E o Pontificado de Ratzinger conjugará o tema da fé numa visão harmonizada com a razão; a relação entre as duas converte-se, em tantos e numerosos textos, na preocupação fundamental do pontificado.
Roberto Regoli, El Pontificado de Bento XVI. Mas allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro, 2018, pp.105-106 e 112-114.
P.S.: neste livro, escreve-se também que os quadros da Cúria e adjacências, até João Paulo II, advinham, quase sempre, de diferentes regiões de Itália (eram "quadros regionais"); com a eleição do Papa polaco, passaram a emergir quadros que se alinhavam pela nacionalidade do novo Pontífice ("quadros nacionais"); por sua vez, com Bento XVI, a recomposição da Cúria, dos Dicastérios teve por base uma rede de ex-alunos, colaboradores e amigos de Ratzinger (p.62).
Talvez alguns não tenham notado, mais Bento XVI foi o primeiro Papa a pedir (aos fiéis) que rezassem por ele, após a sua eleição (p.53).
O livro confirma uma auto-crítica que Bento XVI realizou no último livro de entrevistas com P.Seewald: "se Bento XVI segue minuciosamente os dossiers, tem mais dificuldades para seguir as pessoas" (p.73). Não gostava de ser o centro das atenções (p.116).
