sábado, 5 de janeiro de 2019

Eça antecipa Pessoa


(...)
É de salientar que Fradique Mendes não existe nas páginas de um romance: existe proto-heteronimicamente

Ou seja, Eça antecede Pessoa na heteronímia? 
Os pessoanos não gostam de o ouvir, mas sim. Fradique é uma figura que escreve cartas a várias pessoas e até ao próprio Eça. 


Porque não é ele já um heterónimo?
Não foi desenvolvido no plano do estilo. Nesse aspecto, o Fradique ficou o Bernardo Soares, isto é, ficou-se pela prosa, que é igual à do Eça. Às vezes, o Fernando Pessoa é tratado em Portugal como uma espécie de prodígio de circo. Não, ele é um escritor genial, mas que ampliou até às suas últimas consequências tendências que vinham do século XIX...

...e estudou tudo.
Por isso é que o Pessoa quis silenciar o Eça. Porque sabia muito bem que certas coisas vinham de trás e que outros já as tinham feito ou começado. Tenho a absoluta certeza de que ele, a quem não escapava nada, sabia muito bem que o Eça tinha criado uma figura chamada Fradique Mendes. O Pessoa escreveu a Mensagem. Tinha o projecto de ser o supra-Camões. Sabe um nome que nunca aparece na Mensagem? Camões. Os escritores têm esta tendência para silenciarem as suas referências ou para tentarem desconstruí-las ou menorizá-las, porque querem ter eles a prerrogativa do original.

Têm de matar o pai, é lógico.
Sim, sim. Mas acontece que, às vezes, há coincidências terríveis. O Eça escreve várias cartas ao Oliveira Martins em que explica que vai retomar o Fradique (que, não esqueçamos, vinha de 1869) e o Oliveira Martins não o percebe, porque ele explica aquilo como se estivesse de facto a acontecer: «Olha, o Fradique, não sei se te lembras dele, morreu. Tinha umas cartas, agora vou publicá-las». Até que o Eça escreve uma terceira de três cartas, em que explica ao Oliveira Martins que o Fradique Mendes não existiu e que ele, Eça, está apenas a inventar uma figura e a escrever cartas em nome dela; portanto, trata-se de cartas que nunca foram escritas por um sujeito que nunca existiu. Aí fica tudo claro. Qual é a data desta carta? É de 12 de Junho de 1888. Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888. Ou seja, o Eça inventou o Fradique num dia e o Pessoa nasceu no dia seguinte.

Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono de 2018, p.60. 

Eça e a política


O Eça interessava-se por política?

Pouco. Considero-o um liberal, uma pessoa de «esquerda», embora não fosse um republicano, de todo. Teve sempre uma atitude a favor dos desprotegidos, dos oprimidos. Mas não assistiu ao progresso, ao salto enorme que o País deu durante o fontismo, na década de 1870-1880, porque vinha cá pouco. Não se apercebeu de que a riqueza estava a aumentar nos campos ou de que as cidades estavam mais civilizadas. E nem sequer se interessou pelos então designados «melhoramentos materiais»: por exemplo, o caminho de ferro ou o telégrafo.

Maria Filomena Mónica, entrevistada por Filipa Melo, para a Ler, nº151, Outono 2018, p.28.

"Os Maias" e o "positivismo"


Temos de pôr isso [esquema clássico da tragédia presente em "Os Maias"] num contexto já de desgaste da crença positivista e naturalista. (...) Depois, enquanto o Sr.Guimarães corre acima a buscar os papéis, o Ega fica solitário a pensar que, num século onde tudo é tão organizado, não podia ser que duas crianças se desencontrassem na vida e depois se reencontrassem...[«Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser!]. E este «não podia ser» é, de facto, o que há de mais trágico nesta história. É a posição de um Eça cada vez mais convencido de que a ciência não chega e de que há forças superiores e algo em que eu, pessoalmente, cada vez mais acredito: a intervenção do acaso nas nossas vidas. Carlos é sobretudo um herói que tinha tudo para ser uma figura excepcional, mas a quem o destino mostra que ninguém está ao abrigo do trágico. Como se sabe desde a Antiguidade, os deuses têm inveja de quem é feliz ou superior, entendem isso como uma espécie de ousadia que é preciso reprimir

Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, «São obras difíceis? Paciência. Ninguém disse que aprender era fácil ou que é uma festa», Ler, nº151, Outono 2018, pp.55-56.

Sumário semanal


*De acordo com as contas de Nuno Garoupa, no Público, o PS precisa de obter 1,5 milhões de votos nas europeias de Maio, para chegar aos 40% nas legislativas de Outubro. Sem o milhão e meio de eleitores, então a maioria absoluta nem sequer se considerará como possível. Já Paulo Sande, da Aliança, para ser eleito, deverá conseguir alcançar 120 mil votos.

*Um dos mais reputados especialistas em Direito do Trabalho, em Portugal, o Prof. Fausto Leite, ainda no Público, qualificou a greve dos enfermeiros, nos termos em que tem sido levada a cabo, como "escandaloso abuso do direito à greve".

*A Ler, apresentando Identidades, de Francis Fukuyama: "Fukuyama no seu melhor momento, com um tema fundamental". 

*Bruno Vieira Amaral, também na Ler, recordando recente notícia de The Guardian que dava conta do fecho de 130 Bibliotecas, no Reino Unido, no último ano: "quando é preciso cortar nos custos a tesoura das autoridades tem uma atracção especial por bibliotecas. Os custos destes cortes para toda a sociedade só serão visíveis dentro de alguns anos. Acabarão por afectar hábitos de leitura, sim, e acabarão por contribuir para o esquecimento de obras e de autores que, hoje, já só sobrevivem nas estantes das bibliotecas públicas. Mesmo que as editoras possam recuperar alguns nomes do passado (...) é sempre muito maior o número daqueles que não encontram espaço no mercado editorial e, como tal, vão desaparecendo lentamente da memória colectiva" (p.15). 

*"Também há várias correspondências que parecem ser dignas de nota, da perspectiva da Arquipatologia de Montalto, na poesia portuguesa quinhentista. Por exemplo, a "insânia dos amantes" é uma designação compatível com a caracterização que Camões faz n'Os Lusíadas, na voz da ninfa Galateia, do comportamento do vento Bóreas: 'Se já não pões a tanta ânsia freio/ não esperes de mi daqui em diante,/que possa mais amar-te, mas temer-te,/ que amor, contigo, em medo se converte'. Ou quando Sá de Miranda conclui um poema que começa com o verso 'Não vejo o rosto a ninguém' com a asserção 'na meta do meio dia/andais entre lobo e cão'. O poeta talvez não esteja simplesmente a referir-se às constelações, como tem sido interpretado, mas a comportamentos designados por Montalto como "a insânia lupina ou canina"(Hélder Macedo, Arquipatologia, JL, nº1258, 19 de Dezembro a 1 de Janeiro de 2018, p.35)

*João Pereira Coutinho, na Sábado (03-01-2019, p.130), repetindo os clássicos: "O ócio é a base da civilização. Sem esse tempo de repouso, de escuta e de imaginação, tudo o que uma sociedade produz são seres estéreis e esgotados, incapazes de pensar, conversar ou criar. Animais, em suma, que vivem entre a charrua e o curral, até ao dia do matadouro"

*Hannah "Arendt estudou com bastante profundidade a física contemporânea e encontrou-lhe o centro nevrálgico: orgulhosa da sua objectividade, da sua capacidade de aparente neutralidade analítica, da sua linguagem pura e simplesmente quantitativa, fazendo uma economia absoluta de emoções, a física actual) que é uma metonímia da Ciência no seu conjunto) tornava-se cúmplice da devastação da Terra, tornada visível como força avassaladora e aparentemente sem mecanismo interno capaz de a refrear, através do industrialismo e do consumismo. A ciência contemporânea cometia dois erros muito graves. Em primeiro lugar, reduzia a condição humana à capacidade cerebral, ou melhor ainda, à capacidade cálculo. A criação de indicadores como o quociente de inteligência (QI) dava expressão operacional a essa extrema redução, que só poderia constituir um factor de humilhação para a humanidade já que as máquinas são capazes de efectuar esses cálculos muito mais rigorosa e celeremente do que os seres humanos. Tudo o que sucedeu depois da morte de Arendt (1975), apenas acentua a sua exactidão. Os supercomputadores, a inteligência artificial, a robótica, as nanotecnologias, as imensas possibilidades da eugenia através da bioengenharia, apenas reforçam a sagacidade de Arendt. O segundo erro por ela detectado no "pensar" da ciência contemporânea, reside na perda total da linguagem natural em favor de uma linguagem formal, partilhada por homens e suas máquinas em prol da objectividade e da eficiência de desempenhos operacionais. Com isso, caímos no perigo da perda do "senso comum" (sensus comunis). A ciência contemporânea tende - por isso e sem disso ter uma clara consciência - a cortar as raízes da humanidade com a Terra, como única morada da humanidade no Universo, desprezando as consequências profundas que tal estado de coisas acarreta para a nossa existência e a nossa condição de criaturas mortais. Não admira, portanto, que a ciência contemporânea, ao degradar a relevância, singular e insubstituível, da Terra e a estatura do homem como ser mortal, tenha contemporizado com a máquina de destruição do planeta, que se encontra concentrada numa redução da esfera social à esfera da economia, e desta à esfera das transacções, culminando esta no puro conceito de um caital que apenas se quer a si próprio" (Viriato Soromenho Marques, Hannah Arendt, a pensadora da Terra, JL, nº1258, 19 de Dezembro a 3 de Janeiro de 2019, p.33).

*Bolsonaro afirmou na primeira entrevista após a sua tomada de posse que há "demasiados direitos trabalhistas" - portanto, demasiados direitos dos trabalhadores nas leis laboras brasileiras - e que a sua equipa está a estudar acabar com os tribunais de trabalho. Paulo Rangel sublinhou, bem, que um dos traços dos populistas dos nossos dias tem sido procurar cumprir todas as promessas de campanha. O que em poucos dias foi dito pela nova Administração brasileira sobre porte de arma, terras para a agro-indústria, acicatar da repressão policial, despedimentos da função pública em função de uma vinculação ideológica (?) ao socialismo ou comunismo, culminando na questão do direito laboral só confirma essa tendência. E como as promessas foram sinistras...

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O Pontificado de Bento XVI - para uma síntese (III)


Bento XVI tinha afrontado a questão [da pedofilia na Igreja] já como cardeal perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, distinguindo-se por uma linha rigorosa. Talvez não demasiado partilhada pela Cúria. A ele, deve-se a centralização dos processos destes delitos em Roma, para superar as incapacidades e os incumprimentos dos episcopados locais. Exactamente, a 18 de Maio de 2011, através da carta De delictis gravioribus, que aplica  o já mencionado motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela, a Congregação para a Doutrina da Fé assumia para si «o delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de dezoito anos de idade», incluindo-o entre os delicta graviora. Até esse momento, a competência era dos bispos diocesanos, e desde então já não. Roma queria vê-lo claro e fazer justiça. Ademais, para não frustrar as denúncias, estabelece-se que o termo da prescrição começa a ser efectivo a partir da maioridade da vítima. Quando é conhecido o texto da carta, por parte de alguns sectores da opinião pública aparecem críticas pelo facto de que sobre estas causas impender o segredo pontifício, como que se entendendo que se procurava ocultá-las. Em realidade, nos procedimentos canónicos, o segredo deve-se ao facto de [procurar] garantir a boa fama de todas as pessoas implicadas até ao juízo definitivo. 
Como Pontífice, Ratzinger não foi minimalista em decisões e intervenções ante aquilo que havia considerado uma «ferida aberta»; inclusivamente, segundo o parecer dos peritos, pode ser considerado «a pessoa mais determinada» neste âmbito [cita-se a entrevista de Hans Zollner a John Allen Jr.]. De imediato, faz cumprir duas condenações da «sua» Congregação para a Doutrina da Fé sobre dois conhecidos sacerdotes, considerados até então como protegidos por alguns altos prelados do Vaticano e de um clima reticente geral dentro da Igreja: Luigi (Gino) Burresi, fundador dos Servos do Coração Imaculado de Maria, ao qual se impede o exercício do ministério, obrigando-o ao retiro da vida pública (27 de Maio de 2005) e Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo (obrigado, em Maio de 2006, então octogenário, a «uma vida reservada de oração e penitência, renunciando a qualquer ministério público») (...) Ratzinger não queria perder tempo diante das «imundícies» da Igreja, como havia escrito por ocasião da Sexta-Feira Santa de 2005. Tais decisões não expressam apenas um impulso reformador do começo do seu pontificado, já que são os primeiros movimentos de uma perspectiva que atravessará efectivamente todos os seus anos de Governo. De facto, há que atribuir ao próprio Papa os retoques de transparência da Cúria e da Igreja em tal âmbito, superando as preocupações «pelo bom nome da Igreja e para evitar escândalos» (...) Em 2010, tenta individuar as raízes socioculturais dos abusos, que são reconhecidas na secularização: afastamento dos sacramentos, debilitamento da vida de oração e a tentação de adequar-se ao pensamento da sociedade moderna por parte dos sacerdotes e consagrados.

Roberto Regoli, El Pontificado de Benedicto XVI. Mas allá de la crisis de la Iglesia, Encuentro, 2018, pp.164-165. [tradução minha]

P.S.: neste livro, as declarações do Papa no avião que o transportou a Lisboa em 2010 são sublinhadas, nomeadamente a ideia de que os principais inimigos não estão no exterior da Igreja, mas procedem do pecado da mesma (do seu interior) e que o perdão não substitui a justiça. 
Nesta obra, dá-se também conta daquele que terá sido o momento talvez mais infeliz durante o Pontificado de Bento XVI - como aliás o próprio reconhecerá em entrevista a Peter Seewald. Roberto Regoli descreve assim esse momento: "Nos mesmos dias da remissão da excomunhão [dos lefevbrianos], outro evento catalisa, monopoliza e tergiversa o sentido da discussão. A televisão sueca, precisamente a 21 de Janeiro de 2009, difunde uma entrevista (realizada previamente em Novembro) de mons. Richard Williamson, um dos quatro bispos da Fraternidade (que havia entrado nela procedente directamente do anglicanismo), com conteúdos negacionistas sobre as câmaras de gás e sobre uma notável diminuição di número de judeus mortos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial". À tentativa de unidade na Igreja, sucedia, naturalmente, um clamor pela reunião de uma Fraternidade que tinha gente desta, com o Papa a não ser informado, e a sentir-se alvo deliberado, daquela entrevista prévia e de semelhantes conteúdos.

Para se compreender Gorbatchev


Deviam ser os mais experientes a fazer a monotorização da reabilitação das vítimas inocentes estalinismo, entenderam os dirigentes, pelo que a inicial colocação profissional de Gorbatchev cessa rapidamente (p.100). A segunda tentativa, enviado para o gabinete do Procurador, também não corresponde às expectativas do jovem formado na Universidade de Moscovo.
Gorbatchev pede a mudança para a Konsomol, uma estrutura com milhões de membros entre os 14 e os 27 anos de idade - os líderes eram mais velhos -, cuja tarefa era mobilizar a juventude soviética de modo a cumprir tarefas impostas pelo partido comunista (p.104).
Mikhail Gorbatchev irá paulatinamente construindo uma carreira sólida no interior das estruturas soviéticas, sendo que o espírito reformista/liberal, a adesão a esta ala - como se verificará, até indo mais longe do que se suporia, e sobretudo avançando mais do que julgariam mesmo os seus apoiantes...alguns dos quais, se soubessem dos seus futuros avanços não o teriam apoiado/suportado; mas isto será muito mais tarde - e a sua ascensão estão intimamente ligadas ao surpreendente espírito, face ao estalinismo, assumido por Khrushchev: "Para se compreender a ascensão de Gorbatchev em Stavropol é preciso entender a era de Khruschev, cujo espírito reformista incorporou, e os primeiros anos de Breznhev, onde ele também conseguiu encontrar um lugar (...) Enquanto os herdeiros de Estaline debatiam o que dizer acerca do seu antigo mestre, atrás da cortina do Kremlin, Khruschev preparava-se para o condenar, um gesto que se arriscava a minar o regime que haviam herdado. Khruschev deu esse passo fatídico tanto para deter os rivais no Kremlin que haviam sido mais próximos de Estaline do que ele, como enquanto gesto de contrição pela sua cumplicidade nos crimes de Estaline. O discurso de Khruschev, reflectindo a sua ambivalência em relação ao homem que fora, a um tempo, seu mentor e seu atormentador, não foi longe de mais - condenando Estaline, mas não o sistema soviético -, mas chegou para provocar um terramoto político. Milhares de delegados no Kremlin escutaram-no num silêncio chocado. O mesmo sentimento acometeu milhões de pessoas pelo país, à medida que, nas semanas que se seguiram ao congresso, o relatório lhes foi lido ou resumido. Khruschev não prendia que o seu «discurso secreto» permanecesse secreto; queria que se espalhasse a palavra, mas não esperava a reacção provocada entre a elite intelectual. Os jovens exigiam saber como a geração mais velha fora capaz de permitir o terror estalinista. Os estudantes da MGU expulsaram os seus líderes da Komsomol e substituíram-nos por novos. Alguns estudantes, entre eles vários que mais tarde se tornariam defensores da glasnost de Gorbatchev, começaram a pôr abertamente em causa o plano de estudos: «Marx e Lenine são banais», «Lenine está ultrapassado». O Comité Central do partido não é um ícone».  (...) Muitos aspirantes a reformistas seguiram a deixa de Khruschev, apelando a um regresso ao Leninismo que Estaline supostamente traíra. Só em finais da década de 1980, sob a liderança de Gorbatchev, é que o próprio Lenine se veria sob um ataque generalizado devido à criação de um sistema repressivo que Estaline aperfeiçoou. (...) Entre 1957 e a sua destituição em 1964, a campanha de desestalinização de Khruschev seguiu um rumo contraditório. Ao deparar-se com resistência por parte de conservadores comunistas, ele alternava entre o encorajar de autores e artistas pensadores livres e a sua censura, entre a abertura do país a novos ventos vindos do Ocidente e o seu encerramento. Não obstante, manteve-se um estado de espírito de um modo geral optimista - sustentado pela sensação de que as coisas estavam a melhorar, mercê dos êxitos científicos e tecnológicos soviéticos, como por exemplo o lançamento do Sputnik, mas assente na ideologia comunista propriamente dita. Muitos dos elementos da geração de Gorbatchev, «pessoas dos sessentas», como mais tarde seriam chamados, continuavam a acreditar que a sociedade humana podia ser aperfeiçoada com a disseminação de educação e de cultura, que a ciência e a tecnologia podiam transformar a natureza. (...) Neste ambiente encontravam-se comunistas orientados para as reformas até no aparelho do partido. «Marxistas genuínos» ou «leninistas genuínos», e contando com o próprio Gorbatchev, autodenominavam-se «filhos do Vigésimo Congresso»" (pp.116-117, William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018).

Feliz 2019


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Kierkegaard, em Ou/Ou, ridiculariza o «homem ocupado» para quem a ocupação é uma forma de evitar uma introspecção honesta. Podemos acordar a meio da noite e perceber que estamos sós no nosso casamento, ou que precisamos de pensar no que o nosso nível de consumo está a fazer ao planeta, mas no dia seguinte temos um milhão de pequenas coisas para fazer, e no dia a seguir a esse temos mais um milhão de coisas. Se as pequenas coisas não tiverem fim, não precisamos de parar para confrontar as questões maiores. Escrever ou ler um ensaio não é a única maneira de pararmos e perguntarmos a nós mesmos quem realmente somos e qual pode ser o sentido da nossa vida, mas é uma boa maneira. 

Jonathan Franzen, O ensaio em tempos negros, in O fim do fim da terra, D.Quixote, 2018, p.17.