sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Papa, a política, a economia


Dominique Wolton: A Igreja é muitas vezes acusada de condenar com maior firmeza a violência do que as desigualdades, de ter dois pesos e duas medidas. 

Papa Francisco: Pode acontecer dessa forma, mas, no que me diz respeito, falo clara e veementemente de uma e de outra


Dominique Wolton: Mas, na sua história, a Igreja foi mais sensível aos governos conservadores e inquietou-se mais com os governos de esquerda. Ou progressistas...

Papa Francisco: Ambos fizeram boas coisas, e ambos erraram. Mas, no Evangelho, é muito claro: somos filhos de Deus, e aquele que se acreditava ser o menos justo torna-se o mais justo. Jesus eleva o maior dos pecadores. Restabelece a igualdade desde o início.
E a violência...Pensemos nos grandes ditadores do século passado. Na Alemanha, houve cristãos que não viram Hitler com maus olhos, mas houve outros que perceberam o que ele era. Foi como aqui em Itália. São incontáveis as violências das ditaduras...Mas eu tenho mais receio da violência de luvas brancas do que da violência directa. A violência de todos os dias, como a que é inflingida aos trabalhadores domésticos, por exemplo!


Dominique Wolton: Como evitar que a mundialização seja sinónimo de desigualdades, de aumento de riqueza para alguns?

Papa Francisco: No mundo de hoje, 62 privilegiados são detentores da mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres. No mundo de hoje 871 milhões de pessoas passam fome. Há 250 milhões de migrantes que não têm nada, nem para onde ir. 
O tráfico de droga ascende hoje a, sensivelmente, 300 mil milhões de dólares. Nos paraísos fiscais, estima-se que 2400 mil milhões de dólares circulem por aí, de um lado para o outro


Dominique Wolton: Há muito que a Igreja condena o capitalismo selvagem - os textos e declarações são prova disso..Por que será que esta mensagem não se faz ouvir no mundo com mais intensidade? Será que as pessoas não o sabem, ou não querem ouvir e compreender? O que poderia ser feito para condenar esta expansão do capitalismo selvagem, exacerbado pela mundialização?

Papa Francisco: Pense nos movimentos de trabalhadores que hoje existem. Por todo o mundo há movimentos populares. Por vezes, essas pessoas são excluídas pelos próprios sindicalistas, porque os sindicatos podem vir das classes dominantes, as classes médias-altas, no mínimo. É um movimento forte que reclama os seus direitos. Mas existe também uma repressão brutal em certos países, em que essa expressão tem um limite, sob pena de pôr a vida em risco. Na América Central, uma das dirigentes de um movimento popular, que participou no primeiro movimento popular expresso no Vaticano, foi assassinada...
É difícil, e é por isso que, quando os pobres se unem, têm em conjunto uma grande força. E também uma força religiosa

[a partir de Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.62-64]

"Fundamentalistas cristãos"


É curioso, esses fundamentalistas europeus que ostentam o estandarte do cristianismo, da Igreja. É um fundamentalismo que tem a necessidade de utilizar a Igreja, mas vai contra ela, desnatura-a. (...) Sem referir países, podemos falar desse princípio geral: a Igreja é por vezes utilizada para justificar uma postura fundamentalista

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.106-107.

[p.s.: apesar de o Papa Francisco não ter querido citar os exemplos de Hungria e Polónia, é evidente que é aquilo que aqui está em causa]

"Síndrome de Stendhal"


Resultado de imagem para stendhal

A beleza pode encantar-nos, pode capacitar-nos, pode enriquecer-nos, mas também pode obcecar-nos, possuir-nos e até destruir-nos. Há um lado negro na Beleza. Fazemos coisas terríveis aos outros, e até a nós mesmos, em seu nome. A Beleza pode ser encontrada em todo o tipo de lugares estranhos e inesperados, dando origem a uma ideia de beleza alternativa. 
Já experimentou pulsação rápida, tonturas, confusão, desmaios, alucinações a ver arte? Algumas pessoas já. Parece que a Beleza nos pode fazer sofrer, particularmente quando se apresenta sob a forma de arte florentina. 
Stendhal, escritor francês do séc.XIX, descreveu como se sentiu subjugado, em 1817, quando viu os frescos de Giotto, em Florença, pela primeira vez. Esta condição viria a ser conhecida como "síndrome de Stendhal". "Absorvido na contemplação da Beleza sublime, entendi em primeira mão a sua própria essência; consegui, por assim dizer, senti-la na ponta dos meus dedos. Tinha atingido esse grau supremo de sensibilidade, onde as intenções divinas da arte se fundem com a sensibilidade apaixonada da emoção. Quando saí da Basílica de Santa Cruz, o meu coração foi tomado por uma forte palpitação. A fonte da vida secou dentro de mim e caminhei com o medo constante de cair"(Stendhal). "Uma situação paradoxal ocorre, com efeito, quando um excesso de Beleza, não só não ajuda como pode causar danos. O chamado "Síndrome de Stendhal" é identificado com a hiperexcitação das estruturas neuronais que produz uma percepção e uma fruição que, por assim dizer, é enviada para o nosso cérebro e que cria uma condição de desenvolvimento e alteração neuro-vegetativa que até pode levar à perda do conhecimento" (Vittorio Sironi). O termo "Síndrome de Stendhal" foi criado em 1979, pela Dra. Graziella Magherini. Ela observou mais de 100 turistas que foram hospitalizados em Florença depois de olharem para obras de arte e até escreveu um livro sobre o tema. Os sintomas incluíam ansiedade, ataques de pânico, alucinações, episódios psicóticos, tudo depois de observarem obras de arte reconhecidas. Magherini argumentou que havia mais vítimas em Florença do que em qualquer outro lugar, porque é onde há mais arte renascentista que, embora superficialmente bela, frequentemente contém detalhes obscuros e perturbadores, o que pode provocar sentimentos subconscientes e memórias indesejadas em observadores sensíveis
O síndrome de Stendhal surge, pois, quando ficamos de tal modo extasiados na presença de algo sublime que não controlamos o que sentimos, ao ponto de nos sentirmos doentes.

[a partir de "O sentido da Beleza", episódio 4, Rai 5, de Massimo Brega, apresentação de Dominic Frisby]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A invenção da "raça"


O conceito de raça está intimamente ligado/foi uma construção do esclavagismo. Antes, não existia "o branco", muito menos a dicotomia entre "amo"(branco) e "escravo"(negro). Sendo certo que a escravatura envolvendo negros é relativamente recente na história. Durante séculos, também o islão perpetrou a escravatura, sendo que a proibia entre muçulmanos. Os povos "capturados", as pessoas individualmente consideradas, em assim sendo, acabavam por converter-se para procurar fugir ao infortúnio, sendo que isso obrigava a novas conquistas, fora do mundo islâmico. Entre a procura da conversão e a perda de "utilidade económica" da mesma - dada a impossibilidade de manter uma relação senhor-escravo entre muçulmanos - eis o dilema no interior do mundo muçulmano. O tempo médio de vida numa plantação - e como o açúcar foi determinante na grande expansão e comércio escravo, tal como a existência de um forte sistema financeiro que dava crédito para a compra de escravos - variava entre os 8 e os 10 anos (a partir de "Rota de escravos", que a RTP está a passar nesta altura).

O regime

"Não-reconciliado"


Houellebecq é um sismógrafo de alta precisão (...) Mas e se a maior provocação fosse mesmo a felicidade? Houellebecq diz, por interposta personagem, que já não há "condições históricas" para a felicidade, projecto antigo agora condenado à obsolescência (...) É assim que argumenta que entre o ocaso das sociedades tribais e a solidão generalizada das grandes cidades se inventou o modelo do casal, corpo intermédio, alternativa sã, esperança em aberto. Acontece que, à imagem da agricultura, o casal deixou de ser viável. A vida moderna, "líquida" como diria Bauman, conspira contra o casal. (...) Houellebecq tem sido muitas vezes classificado como o melhor romancista francês da actualidade. É uma asserção duvidosa, sobretudo para os fãs de Emmanuel Carrère. (...) "Serotonina" pode sugerir a ideia de um homem reconciliado, mas é preciso ter em conta que ele se reconcilia com hipóteses que considera extintas, da identidade nacional ao "amor incondicional". Por isso, é mais seguro dizer que Houellebecq continua, agora e sempre, "não-reconciliado" (...) Pós-apocalíptico, mesmo quando teológico, macambúzio, patético, o seu engenheiro agrónomo acredita no amor, mas no amor enquanto possibilidade que fracassou

Pedro Mexia, Uma questão de química, Expresso, Revista do Expresso, 26-01-2019, p.69.

Ideal


O filósofo Roger Scruton, em livro já publicado entre nós (As vantagens do pessimismo) tem um capítulo primoroso sobre a "falácia da utopia" que devia ser lido pelos cândidos. Explica ele que o facto de uma utopia ser inatingível não a desqualifica aos olhos dos crentes. Pelo contrário: o apelo da utopia está precisamente no facto de ela ser inatingível e de exigir um compromisso e uma luta permanentes. Além disso, se a utopia é inatingível, isso torna-a logicamente irrefutável. E se ela é irrefutável, isso convida a novos esforços para a atingir - ad eternum. Para usar as palavras de Scruton, não é possível refutar o ideal porque esse ideal está para lá da refutação pela sua própria impossibilidade. 

João Pereira Coutinho, Perdidos na tradução, in Cuidados Intensivos, Sábado, 31-01-2019, p.130.